EDUCAÇÃO, CULTURA – O BRASIL QUE NECESSITA SER CONSTRUÍDO

EDUCAÇÃO, CULTURA – O BRASIL QUE NECESSITA SER CONSTRUÍDO

Uma pesquisa recente do Instituto Ipsos Mori, de Londres, coloca o Brasil, entre 33 países mais avançados, em terceiro lugar no status de falta de conhecimento de seus cidadãos a respeito de seu próprio país, após México e Índia. As perguntas realizadas, estilo “qual a idade média aproximada da população brasileira?”, nada tinham de especializadas ou complexas. Essa avaliação, por sua vez, nada mais faz do que referendar aquilo que, de um modo ou outro, deveria com extrema urgência se constituir na prioridade das prioridades para qualquer país que almeje algo mais que uma posição de coadjuvante no mundo contemporâneo: a educação básica, a dimensão informativa elementar de conhecimento, sobre a qual devem vir a assentar todos as novas dimensões educacionais, culturais e sociais ao longo do desenvolvimento dos cidadãos.

Ora, sabemos que a educação básica tem sido secular e sistematicamente afastada do campo das prioridades nacionais. O resultado disso é facilmente observável hoje: observa-se, de um lado, uma imensa multidão dos chamados “analfabetos funcionais básicos”, ou seja, pessoas que, capazes de ler um determinado texto, são porém incapazes de decodificar mais do que palavras esparsas, fugindo-lhes o sentido do todo. Por outro lado, cresce a quantidade do que se pode chamar “analfabetos funcionais especializados”, os quais, com curso médio ou faculdade completa (nível “médio” ou “superior”), são incapazes de decodificar mensagens elaboradas a partir de lógicas de construção textual diferentes ou alternativas à sua formação – ou treinamento – profissional. A partir de uma configuração positivística do conhecimento, entendido como mero acúmulo de dados e capacidade de processamento mínima daquilo que se lhe apresenta, tais pessoas são incapazes de compreender círculos mais amplos de significados do que aqueles de que já dispõem por sua formação precípua. Confundindo constantemente níveis de realidade e universos de referência, constituem a imensa maioria dos profissionais que, embora de hábito considerados como membros da camada mais educada da sociedade pelo imaginário social, mostram-se na verdade como integrantes da massa de pessoas em cargos gerencialistas, ou liberais, especialistas no sentido da palavra alemã “Fachidiot” (idiota em sua especialidade, “idiota” correspondendo aqui à origem grega “idiotés”: fechado em si mesmo”); no âmbito social, é o que se conhece por “analfabetos sociais” ou “analfabetos políticos”, incapazes, por falta de informações históricas, econômicas e sociais mínimas – ou por falta de capacidade de articular essas diversas dimensões – de discernir, por exemplo, conjunturas particulares de estruturas mais gerais. 

A conclusão é óbvia e dolorosa: a indigência cultural brasileira é devastadoramente transversal em sua manifestação. As exceções confirmam eloquentemente essa regra de máxima periculosidade para o futuro das pessoas e do país.

Temos agora de indagar: e onde está proposta a questão cultural – ou melhor, as propostas das infinidades de questões culturais – do Brasil em meio a esse cenário inóspito? Pois – interessantemente – não corresponde à indigência educacional constatada uma exuberância de expressões culturais ao longo da nação que não escapam à mínima observação? As dimensões continentais do Brasil parecem ter atuado aqui de um modo apenas aparentemente paradoxal; se, por um lado, afastaram os distantes de uma miscigenação rápida e indiferenciante, por outro permitiram uma crescente aproximação e mútuo conhecimento, lento mas pertinaz, das singularidades históricas, geográficas, linguísticas, artísticas e tantas outras. Esse processo apenas se acelera recentemente, com a revolução comunicacional. E o país descobre tesouros e mais tesouros na medida em que novas dimensões e expressões culturais vêm à tona. Tal protagonismo de especificidades culturais assume – ainda em boa parte potencialmente, mas já em muitos sentidos faticamente – um locus específico que favorecerá necessariamente, para além da educação formal, a educação profunda, aquela que abrange do letramento a uma capacidade de ler o mundo para além dos monopólios de subordinação aos quais a população brasileira em seu todo está imersa literalmente há séculos.

Assim, fomentar a cultura é fomentar a educação. Ali onde o Estado ainda não se fez presente incisivamente como promotor educacional – por escolha ou impossibilidade – a cultura em suas manifestações singulares e intersubjetivamente constituinte de uma compreensão mais refinada de uma pessoa, uma comunidade, uma sociedade, assume o protagonismo de um facilitador extraordinário ao verdadeiro conhecimento, aquele que faz a diferença e não transforma gente em robôs. 

Nesse sentido, toda e qualquer promoção da cultura – agora Cultura, por abranger a totalidade das produções culturais, históricas e virtualmente antevistas, de uma nação, seu autoconhecimento e sua visão de passado e futuro – é absolutamente fundamental. Governos e povos que ignoram isso estão destinados a naufragar. Todos os mecanismos que puderem ser utilizados legitimamente para tal são indispensáveis. Não se tratam, aqui, de leis grandiosas e de fomentos formais ao estabelecido, mas de modos a permitir, em todos os âmbitos, que o país “mostre a sua cara”. Por isso, a inteligência dos gestores culturais deve ser posta à prova – para além de renúncias fiscais meramente, ou de mecenato às antigas, o que o Brasil necessita é de pessoas, gestores e visionários que percebam que fomentar a Cultura é dar voz ao país que os abriga e às próximas gerações. Pois a história costuma reservar um especial lugar a quem luta pelas identidades culturais já que é disso que ela, história, é finalmente constituída.

(Originalmente no jornal CORREIO DO POVO, 18-19/6/2006).

Postagens mais visitadas