CAIXA DE PANDORA - VERSÃO 2015

[Versão 2015] Manifestações de junho de 2013 e a Caixa de Pandora


Muito se esperou, em termos de conseqüências progressistas, das manifestações de junho de 2013 no Brasil. Algumas foram logo abortadas, havendo sido desde o início capturadas por forças regressivas. Outras deram alguns frutos concretos e outras ainda permaneceram em stand-by, aguardando, quiçá, o momento ótimo de sua realização.
O que talvez não se pudesse esperar, especialmente entre aqueles que subestimaram a capacidade de mobilização profunda de tais movimentos, foi o que agora, tantos meses depois, se manifesta de modo absolutamente claro.
As manifestações de junho de 2013, juntamente com alguns outros fatores que não é possível analisar aqui, abriram uma Caixa de Pandora muito especial: a dos recalques sociais e pessoais. Houve inicialmente, no âmbito pretenso do "tudo pode", um arreganhar de dentes do racismo e do preconceito em geral. Naquele momento, no epicentro do tumulto, tais manifestações foram levianamente entendidas como "aceitáveis" no contexto. Isso as fortaleceu. Aos poucos, foram criando coragem. Poucas reações realmente incisivas às suas carantonhas emergindo do abismo da Caixa onde se refugiaram sabe-se lá desde quando retroalimentaram o circuito perverso. Empoderando-se, o esgoto da ignomínia enrolou-se em seu cachecol marrom e agora reivindica direito não só à existência desimpedida, como, muito mais, à hegemonia absoluta – como é, obviamente, de sua natureza. Ao encontrar a idolatria do dinheiro encarnada como religião oficial de sua representação, reconhece-se ali imediatamente, e o espetáculo está montado. Os donos do poder e do dinheiro têm à disposição a massa de manobra de sempre.
Por isso, Bolsonaros, Heinzes, Felicianos, pastorinhos, bispos e  pastorecos, padres católicos que "esqueceram" o carisma, ensaboados senadores e deputados cara-de-pau, sumo-sacerdotes da religião monetária, Halbkultur, ignorância, indigência cultural mais absoluta, primitivismo, ausência completa de educação e de equilíbrio, preconceituosos e medrosos de todas as aflições, manipulação midiático-ridícula, [digo, lavagem cerebral], de medos e temores do "homem médio" e da "mulher honesta", pieguice, saudosos da ditadura, hipócritas de todos os tipos e teores, ressentidos, vingativos, sentimentos manipulados, 400 kg de drogas, histórias mal contadas, panfletos marrons que fariam corar os editores do Völkischer Beobachter, CIAs à espreita, abutres de pelagem vária, artimanhas levadas ao limite pelo fascismo de todas as épocas, ladrões vendendo ainda mais a alma por alguns trocado$, negociatas e negociantes do alheio, os que tem pavor de pobres, negros, feios, gays, índios, refugiados, os que tem medo terrível da vida e do tempo, os que têm medo da própria sombra – tudo isso se junta em torno a uma espécie de massa de manobra, que promete a beatitude a quem não pensar. Ninguém nunca viu um diretor da IG Farben ou da Krupp num momento de agitação nazista, principalmente fazendo o trabalho sujo; ninguém vê quem manobra a horda de marionetes descerebrados (pque pensam que agem em causa própria (!)) de hoje. "O tempora, o mores".
Um grande clássico retorna hoje, mais vivo do que nunca.

Brecht sobre o potencial retorno do fascismo (1955): 

"Der Schoss ist fruchtbar noch,
aus dem das kroch."

“Ainda está fecundo,

O ventre do qual isso rastejou”.

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