PENSAMENTO E (SUTIL) LEVEZA

PENSAMENTO E A (SUTIL) LEVEZA

Ricardo Timm de Souza[1]

A crise dos tempos presentes, no amplo universo da contemporaneidade e em todos os sentidos desse termo, significa a chance do reencontro com a etimologia dessa palavra (crise) tão maltratada: julgamento e ruptura do estatuído, do já dado, da tautologia a morder a própria cauda. A presente crise de sentido e de paradigmas, num mundo que insiste em nos oferecer a indecente face da injustiça, que tenta a todo o custo que suportemos o in-suportável, não nasce por geração espontânea: lateja, ao contrário, em cada segundo da história narrada e não-narrada de nosso passado. O latejar da crise indica o pulsar do desacordo da realidade com sua mera figuração. Há que trazer o passado à consciência, fazer emergir o recalcado desde suas manobras ardilosas para permanecer onde está. Não realizar essa tarefa é apostar na ocorrência de todo tipo de patologias que advêm quando o real é envolto por camadas astutas de mecanismos psicológicos e sociais que simulam a plausibilidade de um “esquecimento” sem consequências. Tal como o coração pulsa no organismo e impede que esse mergulhe no universo estático da inércia e do inorgânico, assim também as crises explícitas ou latentes, vistas ou ainda permanecidas invisíveis, constantes da história do pensamento organizado em racionalidade, impedem a petrificação do total expresso no dado momento, impedem a suspensão do respirar. A crise é o reencontro com a temporalidade, ou seja, com a possibilidade de seu auto-ultrapassamento – de sua positivação – através da sua transformação em crítica do real. E crítica radical (que vai às raízes) do estabelecido, para compreender como se estatui e pretensamente se justifica a massa de acontecimentos que nos traz, de modo completamente legítimo, o sentimento de mal-estar e desamparo contemporâneos.
            Como, agora, contrapor à realidade maciça das imagens fulgurantes que nos invadem continuamente, do frenetismo cotidiano que constitui o mundo contemporâneo, o qual, em seu veio principal e por exigência do tardo-técnico-capitalismo, é de facto uma imensa e infernal máquina, ou maquinismo, de transformação contínua de qualidades, singularidades, em quantidades, generalidades, ou seja, de transformação do diferente em indiferenciado? Tudo poderia aparecer desde já como uma guerra inútil. Porém, felizmente, a racionalidade ético-crítica não é tão limitada que não ache caminhos viáveis em meio às agruras do estabelecido, nem tão obtusa que se desencoraje com palavras de ordem de “fim da história”. A racionalidade crítica – a racionalidade ética – dispõe da capacidade rara da fineza (Pascal), da leveza em meio ao maciço imenso do constituído, do sutil que significa o fato de que o tempo ainda não acabou. Essas são suas armas agudas, com as quais é capaz de desconstruir a racionalidade hipócrita da apologia do estabelecido e seu cortejo de razões subservientes.
Enfim, contra as obscenas ou bem encenadas ofertas de conciliação ou reconciliação, de indecente amortecimento da dor impossível, promessas que lidam com a gravidade da justiça como se manuseassem peças de um quebra-cabeça infantil, instilando-se nos cérebros suficientemente ingênuos ou capciosos para tragarem suas ofertas, contra isso tudo se insurge o pensamento que só sabe de si e encontra o mundo, o verdadeiro pensamento crítico. O pensamento crítico, alimentado pela potência que só a leveza e a sutileza em meio ao bruto permitem, conduz, no tempo, à possibilidade de uma metamorfose da razão. E essa é exatamente a metamorfose ora em curso: a capacidade da razão de compreender-se a si mesma como serviço de seu Outro, a realidade, o mundo. Serviço ao outro é vontade inaudita de justiça, justiça posta em seus termos próprios, negação das promessas da fatuidade; e não há outro caminho senão o da reconstrução árdua da esperança, e esperança é a tarefa por excelência da reconstrução do real, pois “o caminho em direção ao passado é um caminho que não pode ser trilhado” (F. Rosenzweig). Tudo passa pela “loucura pela justiça” (J. Derrida), eis a esperança possível no por vir, porque o tempo ainda não acabou – procura pela justiça que é a ética potente e sutil leveza como expressão da práxis de cada instante que ainda nos resta. E cada instante é um instante de decisão.




[1] Professor Titular da FFCH/PUCRS.

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