MANIFESTAÇÕES DE JUNHO DE 2013 E A CAIXA DE PANDORA

Manifestações de junho de 2013 e a Caixa de Pandora


Muito se esperou, em termos de conseqüências progressistas, das manifestações de junho de 2013 no Brasil. Algumas foram logo abortadas, havendo sido desde o início capturadas por forças regressivas. Outras deram alguns frutos concretos e outras ainda permaneceram em stand-by, aguardando, quiçá, o momento ótimo de sua realização.

O que talvez não se pudesse esperar, especialmente entre aqueles que subestimaram a capacidade de mobilização profunda de tais movimentos, foi o que agora, cerca de dezesseis meses depois, se manifesta de modo absolutamente claro.

As manifestações de junho, juntamente com alguns outros fatores que não é possível analisar aqui, abriram uma Caixa de Pandora muito especial: a dos recalques sociais e pessoais. Houve inicialmente, no âmbito pretenso do "tudo pode", um arreganhar de dentes do racismo e do preconceito em geral. Naquele momento, no epicentro do tumulto, tais manifestações foram levianamente entendidas como "aceitáveis" no contexto. Isso as fortaleceu. Aos poucos, foram criando coragem. Poucas reações realmente incisivas às suas carantonhas emergindo do abismo da Caixa onde se refugiaram sabe-se lá desde quando retroalimentaram o circuito perverso. Empoderando-se, o esgoto da ignomínia enrolou-se em seu cachecol marrom e agora reivindica direito não só à existência desimpedida, como, muito mais, à hegemonia absoluta - como é, obviamente, de sua natureza. Ao encontrar a idolatria do dinheiro encarnada como religião oficial de sua representação, reconhece-se ali imediatamente, e o espetáculo está montado.

Por isso, Bolsonaro, Heinze, Feliciano, Fidelix, pastorinhos, bispos e  pastorecos, padres católicos que "esqueceram" o carisma, ensaboados senadores cara-de-pau, sumo-sacerdotes da religião monetária, Halbkultur, ignorância, indigência cultural, preconceituosos e medrosos de todas as plumagens, Tiririca, manipulação ridícula de medos e temores do "homem médio" e da "mulher honesta", candidatos que desejam esquecer o passado (o que só faz quem tem algo a esconder lá), pieguice, Clube Militar, hipócritas de todos os tipos e teores, ressentidos, vingativos, sentimentos manipulados, 400 kg de drogas, histórias mal contadas, panfletos marrons que fariam corar os editores do Völkischer Beobachter, artimanhas levadas ao limite pelo fascismo de todas as épocas, ladrões vendendo ainda mais a alma por alguns trocado$, negociatas e negociantes do alheio, os que tem pavor de pobres, negros, feios, gays, índios, refugiados, os que tem medo terrível da vida e do tempo, os que têm medo da própria sombra - tudo isso se junta em torno a uma espécie de Collor redivivo e bem lustrado por fora, o verdadeiro marionete dos tempos que correm, que promete a beatitude a quem não pensar. "O tempora, o mores".

Um grande clássico retorna hoje, mais vivo do que nunca.

Brecht sobre o potencial retorno do fascismo (1955): 

"Der Schoss ist fruchtbar noch,
aus dem das kroch."

(Der aufhaltsame Aufstieg des Arturo Ui).


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