PARA ALÉM DO CAPITALISMO COMO RELIGIÃO

PARA ALÉM DO CAPITALISMO COMO RELIGIÃO

Ricardo Timm de Souza

Ad essentiam alicuius rei id pertinere dico,
quo dato res necessario ponitur et quo sublevato necessario tollitur;
vel id, sine quo res, et vice versa quod sine re nec est nec concipi potest.

SPINOZA, B. Ethica, pars secunda, praefatio [definitiones].



“Ética” é a essentia da realidade, ou seja, do tempo, aquilo sem o qual nem a realidade nem o tempo – sua expressão fenomenal fundamental – são fundamentalmente concebíveis, mas apenas acessoriamente. Ética não define apenas o humano essencialmente, como condição e exposição de sua existência, mas também a forma como a realidade pode ser percebida temporalmente, pois é também dela a essentia. A isso se pode chamar ethos, a estrutura da realidade que cria seu tempo pois é ele e se dá de infinitas formas, élan vital bergsoniano (cf. H. BERGSON, L’évolution créatrice) que se desdobra como natureza-cultura e se apresenta na forma da irmã gêmea da ética, ou, o que dá no mesmo, da ética expressa de outro modo: a estética (cf. ADORNO, T. Minima moralia), em todas as suas ramificações possíveis, ainda as mais remotas, pois todas se nutrem da mesma fons vitae. Ética é a raiz e a medula de toda realidade e do que dela se mostra.
A crítica do capitalismo como estrutura social totalizante se encontra em suas linhas gerais encaminhada desde Marx e os pioneiros da crítica da economia política; a crítica do capitalismo como desdobramento ritual e sacrificialista de uma determinada cosmovisão psicanaliticamente internalizada nos indivíduos foi encaminhada em seus termos gerais por Benjamin (cf. BENJAMIN, W. “Kapitalismus als Religion”) e outros e retomada recentemente por Agamben e outros. A crítica que ora se exige é aquela que se pensa equivocadamente ter sido realizada há muito: a crítica ético-essencial do capitalismo.
A razão disso é que não se tinha até recentemente a configuração de uma concepção de ética suficientemente madura e robusta para abordar a própria essentia do capitalismo como uma ética específica; desse modo, as críticas éticas ao capitalismo permaneciam externas e restou sempre intocada sua medula.
Como a ética é a condição vital de permanência de toda a realidade e de seu desdobramento percebido como tempo, advém que a ética do capitalismo, sua essentia, é o lucro, dado o fato insofismável e elementar de que, sem o lucro, não há possibilidade de reinvestimento, o que causaria a morte do sistema. O lucro é, assim, a vida do capitalismo; não há nele outra ética nem pode haver, não por vontade consciente, mas por elementar necessidade lógica.
Todavia, a ética do capitalismo não é fundamental porém derivada, expressão histórica da dimensão totalizante da figuração da totalidade (cf. SOUZA, R. T., Totalidade & Desagregação). O seu tempo – sua essentia – mostra-se contraditória em relação à sua própria possibilidade de sobrevivência; o capitalismo funciona em um mundo finito como se esse fosse infinito, na contradição que explicita a razão pela qual, condicionado historicamente, assume a posição de possibilidade de cultura-natureza tout court.
A história humana, que é a história de infinidades de conflitos, encontra-se portanto sintetizada, na contemporaneidade, nesse que é o conflito maior: a ética do lucro versus a ética da vida. Todo o demais é derivado, pois todo o futuro no mínimo humano depende da crítica desse conflito.



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