SOBRE O MEDO INTELECTUAL


SOBRE O MEDO INTELECTUAL

Ricardo Timm de Souza*

 

A contemporaneidade como era civilizatória encontra-se na esteira de ao menos três expressões de uma crise que se desenvolve e se robustece claramente desde meados do século XIX e crescentemente se visibiliza[1]: a) a falência de representações, que faz periclitar o intelecto acostumado a abstrair do tempo para viver de conceitos; b) a falência de substratos de referência consubstanciados em dimensões de insularidade cognitiva com o consequente medo ao Outro, corroídos tais substratos pelas revoluções tecnológicas, geopolíticas e informacionais; e c) a falência de promessas de felicidade herdeiras daquele momento eufórico que se constituiu a partir do início da modernidade, especialmente com as expressões menos críticas – ou seja, “positivistas” – do Iluminismo. O resultado é um crescente vazio de sentido – já que a generalidade das pessoas não consegue perceber que estamos “entre as vozes de ontem que agonizam e as vozes de amanhã que balbuciam” (Levinas) –, que se expressa em maior ou menor escala como medo do presente e do futuro.

Embora tal estado de coisas seja observável em todos os quadrantes do globo nessa era de globalização intempestiva, tal não acontece de modo uniforme, mas de acordo com a geração geopolítica de uma nacionalidade ou comunidade. Nesse sentido, interessa-nos aqui focar na realidade brasileira em seu atual momento de inquietação social.

Ora, é fato sabido que o Brasil não se gesta como construção de uma nacionalidade específica, e sim através da força imposta de uma determinada matriz de subordinação colonial que subsiste após a independência formal do país e se mantém em plena vigência até hoje, não obstante as inúmeras transformações sociais e culturais desde então ocorridas[2]. Essa matriz tem como expressão de realidade plenamente palpável o viés autoritário que se expressa socialmente, mais ainda do que em termos de uma divisão de “classes”, como uma divisão de castas intocáveis. As expressões de racismo explícitas ou veladas são apenas um dos inúmeros exemplos evidentes dessa situação que perdura. A sociedade brasileira não é conjunturalmente, mas estruturalmente excludente no sentido social mais amplo do termo, e todas as configurações sociais (as exceções confirmam a regra), das habitações aos espaços públicos, das escolas e universidades aos serviços básicos de saúde, das aldeias minúsculas às megalópoles, confirmam tal fato constantemente. “Casa grande” e “senzala” convivem há tanto tempo que é como se houvesse se naturalizado tal tipo de relações violentas, a ponto de não permitir questionamentos de nenhuma espécie (lembremos Dom Hélder Câmara: “quando pratico a caridade me chamam de santo, quando explico aos pobres porque são pobres me chamam de comunista”).

A questão que se propõe é, então: o que acontece quando o medo derivado da crise de sentido tardo-moderna se encontra com a pretensamente “natural” estrutura arcaica-autoritária de funcionamento da sociedade brasileira, e isso exatamente em momentos, como os atuais, nos quais uma certa mobilidade social – mínima porém real – passa a ser aspirada e realizada por camadas desfavorecidas da população, simbolizando a trepidação do universo de castas e privilégios da sociedade?

A resposta insinua-se com bastante clareza. Há um enrijecer desesperado das camadas médias que, vulneráveis nesse momento de tardo-capitalismo com todas as suas contradições, apostam sua existência na manutenção do status quo para que sua fragilidade social não se evidencie. Tal tem como consequência direta a aposta franca da pequena burguesia naquilo que percebe como mais rígido – e, portanto, mais fiel às origens do país – como se constituindo no esteio que a manterá acima da linha d’água das mudanças e convulsões que julga mortais para sua existência. Quem não atinge o status de nouveau riche tão almejado tem que introjetar seus dramas, e tal se dará através de escolhas “intelectuais”; é o momento em que nada mais importa senão a certeza. Os argumentos são derribados, para que o grito autoritário assuma seu lugar; quem se presta a bradar contra qualquer mudança real, por mais trivial que seja, vira logo guru e constitui ao natural uma legião de adeptos. Esse jogo de vários interessados (dos grandes bancos ao lojista da esquina, dos espertalhões de plantão a quem se deixa enganar para poder dormir à noite, desses que pensam que seus interesses são os mesmos daqueles) também se expressa em muitos níveis. Da idolatria do dinheiro que transversalmente atravessa a multiplicidade dos fatos sociais, confundindo a indústria cultural com o “capitalismo como religião”, às revistas de “celebridades” e panfletos ideológicos travestidos de revistas de informação, dos mantras dirigidos à massa inculta às extravagâncias de “pensadores-fantoches” que se fazem vender bem caro ao seu objeto de culto, de religiões de “prosperidade” ao lugar-comum transformado pela repetição em “verdade eterna”, há todo um menu variado para consumo de medrosos em meio à crise contemporânea. Reina o medo intelectual, que desde sempre assombra o pensamento: a crítica é proibida. E “negar a crítica, isso é o positivismo” (Habermas), o positivismo mais rasteiro e desesperado, tornado abjeto no seu esforço de substituir a infinitude de matizes da realidade por um preto-e-branco inacreditavelmente pueril.

Assim, o trombetear do medo que encontra sua catarse apavorada no objeto projetado - o Outro transformado em objeto -, a imbecilidade da flacidez cerebral que logo engole as “verdades” absolutas e redonda-obtusamente óbvias dos arautos do verniz que tenta obnubilar a limpidez da exploração e da violência pura e simples, a repetição oligofrênica de ditos absolutos, a camarilha dos espasmódicos-espumantes, de "jornalistas", "filósofos", "analistas", bufões histéricos do estabelecido e outras aberrações marionéticas, tudo isso envia, para além da abjeção que significa, a momentos precisos da história; Goebbels disse: "quando ouço falar em cultura, levo a mão ao coldre de meu revólver"; hoje dizem: "quando ouço falar em crítica real ao status quo, mobilizo a teia marrom." Nihil sub sole novum? Estranha semelhança Alemanha nazista 1941 e Brasil 2014... Retorna o velho Adorno, com mais razão do que nunca: "Temos de empreender o negativo; o positivo já nos foi dado". É dado a cada dia que a vida é torturada e morta em nome da ardilosíssima razão da irracionalidade furiosa dos cérebros bem-lavados pelo capitalismo tardo-moderno e suas infinitas artimanhas, que se realiza como religião, como bem notaram Benjamin e Agamben, entre outros. Eis o cerne bem-cultivado (no mínimo 500 anos) do habitat dos lobisomens da história que vagam - fantasmas medrosos - entre nós. Tempos difíceis para a esperança? Crise que necessita ser transformada em crítica. "Cada um com suas armas; a nossa é essa: esclarecer o pensamento e pôr ordem nas idéias", já disse nosso grande Antônio Candido. E, para sustentar essa tarefa, a única completamente legítima do intelectual (no sentido que suporta e funda todas as outras), a desconstrução da razão ardilosa é fundamental.

 








* Professor Titular da FFCH/PUCRS.


[1] Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. Totalidade & Desagregação, Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.


[2] Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. O Brasil filosófico, São Paulo: Editora Perspectiva, 1999.

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