ONZE TEMAS SOBRE O MEDO

Onze temas sobre o medo


(De meu livro “Ainda além do medo –
Filosofia e antropologia do preconceito”.)

I – Não o bom-senso, nem a razão, mas o medo é de todos o bem mais bem-distribuído. Sua quota é eqüitativa sem os aborrecimentos das contas protelatórias. Ele habita já o verbo nascer.

II - O medo de se ver subitamente só consigo mesmo - com seu medo - ajuda a espessar a velhice de tudo o que corre ao longo do tempo dos relógios e se pauta apenas por seus falsos ritmos, que nada mais são do que espelhamentos infinitos do fragmento de uma realidade perfeitamente fechada. Pois o medo tem outro nome: solidão. E a solidão também pode ser entendida como a mais imperiosa necessidade de imunidade em relação ao outro. Mas o receio do descontrole castra a vida em suas várias dimensões. O medo não se encontra realmente nunca consigo mesmo; o medo nunca é flagrado totalmente por seus temores - e isto é o que de mais aterrorizante se pode conceber.

III - A vida humana consiste em boa parte em driblar pateticamente os medos, entre os quais se encontra, sem dúvida, o da própria sombra. Este é hors-concours.

IV - A estupidez, massivamente irracional ou racionalizada, procura reduzir o medo às suas dimensões mais geométricas. A medianidade bruta do agressivo com seu corolário de paixões mal-explicadas é sedutora para a falta de sutileza.

V - O medo corcoveia por cima de fragmentos de humanidade, de receios estúpidos; navega no mar da mediocridade, bandeira desfraldada a se anunciar receosa. A vida não vive[1].

VI - O medo é o sumo que escorre dos estertores vitais, a seiva que se petrifica na memória do passado sempre tenebroso, onde apenas as ameaças efetivadas e não-efetivadas contam. Não deixou de viver depois de sua hora, depois de já passado: é medíocre demais para isto.

VII - Onde o medo fincou sua estaca, o amor não surge: é trespassado pela estaca, ainda que tente nascer depois de a estaca já esta bem fixada no solo petrificado da rigidez da tautologia.

VIII - O medo é o momento brutalizado, petrificado, mesmificado. É a mais sutil defesa contra a novidade verdadeira.

IX - Todos os medos se refugiam no Medo. É como o pai acolhedor que perdoa os filhos de sua insensatez, condescendência absoluta que os devora e sublima no Espírito do Medo.

X - Todo medo é medo de não ter medo de si mesmo nem do outro. Todo medo é medo do Outro.

XI - O medo é a Tautologia[2].



[1]Ferdnand Kürnberger, citado por Adorno em Minima moralia, Primeira Parte (1944).
[2] Cf. nosso livro O tempo e a Máquina do Tempo, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1998. 

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