A TEIA MARROM

A TEIA MARROM

Ricardo Timm de Souza

O trombetear do medo que encontra sua catarse apavorada no objeto projetado - o Outro transformado em objeto -, a imbecilidade da flacidez cerebral que logo engole as verdades absolutas e redonda-obtusamente óbvias dos arautos do verniz que tenta obnubilar a limpidez da exploração e da violência pura e simples, a repetição oligofrênica de ditos absolutos, a camarilha dos espasmódicos-espumantes, de "jornalistas", "filósofos", "analistas", bufões histéricos do estabelecido e outras aberrações marionéticas, tudo isso envia, para além da abjeção que significa, a momentos precisos da história; Goebbels disse: "quando ouço falar em cultura, levo a mão ao coldre de meu revólver"; hoje dizem: "quando ouço falar em crítica real ao status quo, mobilizo a teia marrom." Nihil sub sole novum? Estranha semelhança Alemanha nazista 1941 e Brasil 2014... Retorna o velho Adorno, com mais razão do que nunca: "Temos de empreender o negativo; o positivo já nos foi dado". É dado a cada dia que a vida é torturada e morta em nome da ardilosíssima razão da irracionalidade furiosa dos cérebros bem-lavados pelo capitalismo tardíssimo-moderno e suas infinitas artimanhas, que se realiza como religião, como bem notaram Benjamin e Agamben, entre outros. Eis o cerne bem-cultivado (no mínimo 500 anos) do habitat dos lobisomens da história que vagam - fantasmas medrosos - entre nós. Tempos difíceis para a esperança? Crise que necessita ser transformada em crítica. "Cada um com suas armas; a nossa é essa: esclarecer o pensamento e pôr ordem nas idéias", já disse nosso grande Antônio Candido. E, para sustentar essa tarefa, a única completamente legítima do intelectual (no sentido que suporta e funda todas as outras), a desconstrução da razão ardilosa é fundamental.


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