SURREALISMO E ESPÍRITO DO TEMPO



Surrealismo e espírito do tempo

Ricardo Timm de Souza

Confie no caráter inesgotável do murmúrio
A. BRETON, Manifesto do Surrealismo, p. 45[1]



I – Como introdução: O Surrealismo, o Espírito do Tempo e o caráter inesgotável do espírito

         Não deveria soar excessivamente estranha a asserção que sugere que, normalmente, a inteligência humana se propõe, frente ao que compreende que seja a realidade, dois caminhos bastante diferentes. De um lado, a submissão à tentação de ordenamento do “des-ordenado”, do novo, do real, do estranho, do insuportável, do outro, enfim, nas molduras do comedimento razoável; temos então a possibilidade da vida em seu sentido pragmático, a respiração dos dias em seu suceder, as inércias que igualmente se sucedem e se justificam nessa sucessão. É a vida comum. Estamos imersos nela quase todo o tempo, com exceção, talvez, dos loucos, das crianças e dos que confiam plenamente em seus sonhos e delírios. A vida comum é que nos sustenta sobre nossas pernas; é o que impede, à Kant, que todos os fatos se dêem simultaneamente e, à Borges, que todas as lembranças ocupem todos os espaços da vida e da realidade, como era o infeliz caso de Funes, el memorioso. É também o que impede que, por trás dos horizontes de razoabilidade das dicotomias, soerga-se a espessura excessiva do real para além das meras idéias de realidade e de irrealidade – soerguimento dolorosamente experimentado pelo abnegado Médico Rural de Kafka, ao fim do texto de mesmo nome. A esse estilo de organização da vida pertencem as partículas de ar de que necessitamos para não morrermos no próximo momento, os pedregulhos sobre os quais pisamos nos pequenos passos necessários para que um instante insignificante fisgue seu irmão gêmeo que o antecedeu e ambos invistam, moderadamente, sem estardalhaços e com o mínimo estranhamento possível, num “futuro” que nada mais é do que o reencontro deles com eles mesmos – um futuro antecipado, sem novidades, semi-vivente, com tão pouca vitalidade, ou com uma vitalidade tão artificial, como o Odradek (personagem-coisinha cujo “riso se assemelhava a um farfalhar de folhas secas, que só poderia provir de alguém sem pulmões”) do mesmo Kafka.
         De outro lado, porém, o tigre está sempre à espreita; é a crise de sentido que se insinua abruptamente – cheio de contradições – na sucessão anódina dos instantes inerciais, ou seja, na lógica do mesmo. Da morte ao nascimento – talvez nesta ordem – sucedem-se oportunidades de acordar – ou de sonhar – que subvertem a tautologia e o ordenamento razoável dos fatos, tautologia e ordenamento que não servem senão à sua perpetuação ou legitimação inercial (não hesitamos em utilizar novamente esta palavra). Os murmúrios dizem algo, continuamente, ou gritam: não há ordenamento que os venha exaurir. O espírito não se extingue por detrás de suas ex-plicações – que são, na verdade, tentativas de sua inofensibilização, de desqualificação de sua potência: eis o que não entende quem pensa que o mundo gira somente em torno a si mesmo, ou que a realidade se reduza a alguma fórmula ou conceito, em um construto do qual a temporalidade não se constitua em seu núcleo. Vistos mais de perto, pela microscopia traumática da lucidez que o rugido do tigre evoca, os momentos da realidade se chocam uns com os outros, crepitam e estalam, não se ajustam, vertem-se para fora de si mesmos, têm vida própria; é isso que dá consistência à vida em sua dimensão particular, que nada mais é, ao final de contas, do que- exatamente, o real – “o que é admirável no fantástico é que não há mais fantástico: só há o real” (A. Breton).
         O “sonho” da razão moderada é extirpar do sonho seu caráter de realidade – não é senão isso que a cultura e todos os seus produtos empreendem, quando, abdicando de si mesmos e de seus desencontros, totalizam-se em um determinado modelo de realidade, em uma univocidade violenta, mãe de todas as violências, “vida” exaurida e anti-utópica (quer dizer: sem respiração), cuja expressão mais próxima é a auto-destruição, e a expressão mais distante o delírio – sonho petrificado em um tempo patológico – e a paranóia paralisada por seus próprios medos e inseguranças[2]. Essa é a origem de todo o tipo de reacionarismo: evitar a qualquer custo que o novo irrompa e, com isso, estale a carapaça do medo, pois o novo não significa senão que o tempo se reencontrou consigo mesmo e há vida depois das representações e das promulgações da violência e de suas legitimações[3]. O sonho da Totalidade não é, assim, senão a detenção da vida propriamente dita em sua decorrência conflituosa, estranha, inesperada e crepitante de sentidos novos.
         Segundo essa leitura, não há, portanto, produto verdadeiro do espírito que não seja a negação da inércia pragmática dos dias medíocres e medrosos. Se é verdade que não há uma única obra da cultura humana que tenha sido erigida sem paixão, mas que, pelo contrário, é a paixão feita instante impostergável de decisão que movimenta a energia telúrica da existência e oferece a chance da construção do sentido[4], também é verdade que não há uma única obra do espírito humano, digna de ser chamada tal, que não tenha resultado de uma luta contra a inércia e a mediocridade, ou, em outras palavras, que não seja o resultado de uma árdua construção que teve de transformar a aspereza do real em uma configuração especial que tem como característica mais específica, ao menos no contexto que estamos destacando (mas não apenas neste), exatamente o fato de se constituir em uma peremptória e definitiva negação da tautologia e da mediocridade da inércia ou, o que dá no mesmo, da violência totalizante.   
         Essas alternativas, aqui propositalmente enfatizadas em termos bipolares, não constituem situações raras da existência, mas antes o ritmo mais próprio da vida propriamente humana, se a entendermos como algo mais do que um feixe de funções instintivas pré-classificadas, ou seja, se a entendermos como cultura que reflete a vida do espírito na dialética das vivências e sobrevivências. Não se trata de incidências, o que aqui destacamos; trata-se do coração do organismo em que toda e qualquer produção cultural parece se constituir e – se este termo nos parecer excessivamente vago ou indiferenciado – do organismo em que toda e qualquer produção espiritual da cultura se constitui, como normalmente a entendemos em termos de universo constituído pela tensão sócio-cultural que nos constitui.
         O que acontece, porém, é que a história é bem mais complexa do que um continuum de impulsos e respostas, de causalidades e fases interconectadas e auto-explicativas como grandiosos capítulos de uma enciclopédia universal. Momentos há em que em que a rigidez dos tempos exige a sua própria implosão, o rompimento das estruturas formais que pretendem preservar o que se dilui na detenção do tempo, ou seja, o rompimento traumático das lógicas da violência. O século XX foi uma destas épocas por excelência. O que temos no século XX é a luta extrema entre estes dois impulsos: de um lado, tentativas desesperadas de transformar a violência na racionalidade absoluta (existem inúmeros exemplos históricos que aqui caberiam, mas nos basta, por agora, lembrar dois momentos de uma mesma lógica: os construtos da ideologia nazista e fascista em todas as suas ramificações, em práxis como em teoria, e a legitimação racional de estruturas de opressão e exploração econômica e política dos povos e da natureza), em nome da cristalização do medo como ordem de vida; de outro lado, a multiplicação crítica de negações desta oferta espúria, em âmbitos os mais variados possíveis da cultura[5]. Quem lutou deste segundo lado sabe que estava lutando de um lado muito preciso: o da vida. E são, felizmente, inúmeras as expressões desta tomada de posição.
         Entre as mais criativas destas opções de vida encontramos o movimento conhecido como Surrealismo[6]. Paralelo a outras tempestades culturais, o Surrealismo levou ao extremo a potência negativa das forças que se opunham à morte – se quisermos, à petrificação da cultura em acorde com estruturas sócio-psíquicas de totalização que pretendiam resistir à indeclinável crise de fundamentos da contemporaneidade com o reforço artificial de legitimações violentas de todos os tipos e em espectros os mais variados, num arco sócio-político, assim como cultural e artístico, que abrangia desde as lógicas mais reacionárias de retorno ao passado e subjugação do espírito, ao entusiasmo ingênuo pela era das máquinas e o realismo socialista.
         Não temos evidentemente como objetivo, neste ensaio, enfocar, seja a história do movimento, seja uma visão suficientemente ampla do mesmo, no intuito da informação ou mesmo da análise histórico-filosófica de seus sentidos. Nossa preocupação é aqui pontual: queremos perseguir alguns momentos preciosos de articulação entre o Surrealismo e o espírito do(s) tempo(s), através da investigação da potência de três momentos privilegiados – em excertos de Octavio Paz, André Breton e Louis Aragon – nos quais, segundo nosso ver, a energia presente no movimento surrealista atinge níveis de eloqüência ímpar em seu vigor, rasgando o tecido literário na evocação do caráter inesgotável do espírito, irrompe na ordem do mundo e questiona em profundidade o seu como o nosso tempo – assim como o tempo de todos os tempos.


II – “A maçã de fogo na árvore da sintaxe”

Hoje em dia é um fato consabido que o surrealismo,
enquanto movimento organizado, nasceu numa
operação de grande envergadura que tinha por objeto
a linguagem. ... Tratava-se de que, então?
de nada menos que redescobrir o segredo de uma
linguagem cujos elementos deixassem de se comportar
como restos de naufrágio à flor das águas de um mar morto.
André BRETON (1953)[7]


         Octavio Paz nos legou um precioso mergulho nas intimidades do sentido surrealista, uma combinação extraordinária de sutileza de linguagem com espírito penetrante, de um vigor sem par. Eis aqui um excerto desta riqueza:

O surrealismo tem sido a maçã de fogo na árvore da sintaxe... O surrealismo tem sido o prego ardente na testa do geômetra e o vento forte que à meia-noite levanta os lençóis das virgens... O surrealismo tem sido o discurso da criança enterrada em cada homem e a aspersão de sílabas de leite de leoas recém-nascidas sobre a ossada calcinada de Giordano Bruno... O surrealismo tem sido a bota de sete léguas com as quais escapam os prisioneiros da razão dialética e o machado do Pequeno Polegar que corta os nós da trepadeira venenosa que cobre os muros das revoluções petrificadas do século 20...[8]


         O surrealismo tem sido a maçã de fogo na árvore da sintaxe. Abaixo as moderações sintáticas: as lógicas de ordenação têm uma contrapartida esterilizante, mui perigosa; mas da profundidade da linguagem brota o fogo que incendeia as moderações. O Surrealismo é capaz de cultivá-lo como quem cultiva uma flor preciosa, pois sabe que seu nome é: vida. A alma da linguagem não é o que sobra quando ela, analisada, foi depurada de seu vigor; mas aquilo que sobrevive à análise e à ordenação. A maçã de fogo, fruto especialmente proibido, incandesce de forma especialmente forte aquilo que, na linguagem, propriamente a habita, a constitui e a lança para além dela mesma.
         O surrealismo tem sido o prego ardente na testa do geômetra e o vento forte que à meia-noite levanta os lençóis das virgens. Para-doxo. 1. O geômetra mede a terra; acaba por pensar que tudo é mensurável, ou que a realidade se define por sua mensurabilidade. O prego ardente penetra na certeza; rompe a blindagem lógica do espírito e dói insuportavelmente na sua absurda incisividade irredutível. 2. Vento da meia-noite, hora das mais mágicas, insinua-se por entre a virgindade das virgens, levanta lençóis que são véus, des-vela, des-cobre, des-arruma. Sem hipocrisia nem intenções pudicas, o caminho segue seu curso. Ardência e vigor dão-se as mãos: eis o Surrealismo.  
         O surrealismo tem sido o discurso da criança enterrada em cada homem e a aspersão de sílabas de leite de leoas recém-nascidas sobre a ossada calcinada de Giordano Bruno. A vida de Giordano Bruno vive nas cinzas da sua morte; é, porém, necessário, ir ao seu encalço, já que ela não se presta a seduções baratas. É destilada silabicamente pelo improvável vigor do que recém desponta. Com ela nasce a criança que, no homem, nunca deveria ter morrido.
         O surrealismo tem sido a bota de sete léguas com as quais escapam os prisioneiros da razão dialética e o machado do Pequeno Polegar que corta os nós da trepadeira venenosa que cobre os muros das revoluções petrificadas do século 20. A vida verdadeira vive-se em passos largos, e não na subserviência das lógicas pequenas. A razão dialética é poderosa, mas seu poder – como bem suspeitaram e demonstraram Kierkegaard, Nietzsche, Rosenzweig, Adorno e tantos outros – é rígido: não se presta às sinuosidades da existência e não tem coragem suficiente para saltar por sobre os abismos do inesperado. Há portanto que escapar de suas seduções. E escapar, como a vida, na vida, a passos largos. Por outro lado, muita paixão e heroísmo ético se vitrificou em cristais venenosos, e sua biologia é a insinuante pertinácia de trepadeiras venenosas que, a pretexto de adornar e embelezar, sufocam o que de vigoroso um dia movimentou as consciências. E a desformalização é dolorosa, tem de ser levada a cabo a machadadas que atinjam os nódulos nervosos do monstro: seus nós, suas coagulações perversas, o pretexto de sua tessitura e de suas justificações. O Surrealismo suporta a evasão estratégica da sedução mortal e faz da destruição do câncer da tautologia a sua profissão de existência. E por isso existe, não obstante o desejo dos que gostariam de vê-lo trancafiado nos calabouços da história.


III – “A máquina de revirar o espírito”

Quando teremos lógicos e filósofos dormentes?
A. BRETON, Manifesto do Surrealismo, p. 25


         O polêmico Louis Aragon nos legou uma obra-prima da literatura do século XX: O camponês de Paris. Há um momento no livro onde o Surrealismo – “filho do frenesi e da sombra” – é apresentado de modo muito particular. Neste momento nos deteremos a seguir.

Hoje lhes trago um estupefaciente vindo dos limites da consciência, das fronteiras do abismo. O que vocês têm procurado até agora nas drogas a não ser um sentimento de poder, uma megalomania mentirosa e o livre exercício de suas faculdades no vazio? O produto que tenho a honra de lhes apresentar proporciona tudo isso, proporciona também imensas vantagens inesperadas, ultrapassa seus desejos, suscita-os, faz com que tenham acesso a desejos novos, insensatos. Não duvidem, são os inimigos da ordem que põem em circulação esse filtro do absoluto. Eles o passam secretamente sob os olhos dos guardiães, sob a forma de livros, de poemas. O pretexto anódino da literatura permite-lhes oferecer, por um preço que desafia qualquer concorrência, esse fermento mortal, cujo uso já é bem tempo de generalizar. É o gênio da garrafa, a poesia em barra. Comprem, comprem a danação de suas almas, vocês irão enfim se perder, eis aqui a máquina de revirar o espírito. Anuncio ao mundo esse acontecimento de primeira grandeza: um novo vício acaba de nascer, uma vertigem a mais é dada ao homem: o Surrealismo, filho do frenesi e da sombra. Entrem, entrem, é aqui que começam os reinos do instantâneo[9]


         Hoje lhes trago um estupefaciente vindo dos limites da consciência, das fronteiras do abismo. A consciência não é concebida como uma redoma de percepções e correlações, mas como – exatamente – o limiar do abismo. Para que se chegue plenamente à consciência, com a incisividade decidida da criança disposta a descobrir mundos realmente novos, em uma retomada decisiva da infância (“embora trucidada pelo zelo de seus domesticadores”[10]), é necessário que se perceba essa implicação fronteiriça. Não há como chegar á consciência sem chegar a seus limites; e o Surrealismo é o estupefaciente que transforma esta maravilhosa possibilidade remota e odiada pelos medrosos (“De momento, minha intenção era denunciar o ódio ao maravilhoso que grassa no espírito de certos indivíduos e o ridículo que querem cobri-lo. Digamo-lo claramente e de uma vez por todas: o maravilhoso é sempre belo, qualquer tipo de maravilhoso é belo, somente o maravilhoso é belo”[11]) em algo possível, porque provém dessas fronteiras perigosas.
         O que vocês têm procurado até agora nas drogas a não ser um sentimento de poder, uma megalomania mentirosa e o livre exercício de suas faculdades no vazio? O produto que tenho a honra de lhes apresentar proporciona tudo isso, proporciona também imensas vantagens inesperadas, ultrapassa seus desejos, suscita-os, faz com que tenham acesso a desejos novos, insensatos. Se vivemos de desejos, e se é verdade que não há forma de dominar o ser humano a não ser esterilizando seus desejos – vide a sociedade de consumo na qual vivemos – então é no desejo que se encrava a âncora da realidade. Mas não em um desejo artificial, fabricado, planejado em escritórios de vendas e marketing, mas de um desejo que espreita por detrás das lógicas de repleção e moderação das – usando aqui livremente este termo de Deleuze e Guattari – máquinas desejantes. Desarticular o contrato espúrio entre estes dois inconciliáveis: máquinas e desejos – através do vigor do desejo não-manipulável: eis uma tarefa à altura do surreal.
         Não duvidem, são os inimigos da ordem que põem em circulação esse filtro do absoluto. Eles o passam secretamente sob os olhos dos guardiães, sob a forma de livros, de poemas. O pretexto anódino da literatura permite-lhes oferecer, por um preço que desafia qualquer concorrência, esse fermento mortal, cujo uso já é bem tempo de generalizar. É o gênio da garrafa, a poesia em barra. Para acreditar no possível, é necessário desacreditar do meramente razoável, dos arranjos da “ordem” e de seus acólitos. Para assomar à superfície do patológico oceano da violência exercida con sordina, dos marulhos moderados, da placidez opaca do mar da tautologia, é necessária uma dose muito especial de energia, um “gênio na garrafa”, um conteúdo completamente desproporcional com relação à forma – ainda que esta forma seja tão sedutora como o campo consagrado das letras arranjadas sob o modo de literatura.
         Comprem, comprem a danação de suas almas, vocês irão enfim se perder, eis aqui a máquina de revirar o espírito. Anuncio ao mundo esse acontecimento de primeira grandeza: um novo vício acaba de nascer, uma vertigem a mais é dada ao homem: o Surrealismo, filho do frenesi e da sombra. Entrem, entrem, é aqui que começam os reinos do instantâneo. A máquina, finalmente, se volta contra ela mesma: revira o espírito, expondo suas entranhas. O que esperar da cópula entre o frenesi e a sombra, a não ser uma vertigem muito especial? Camadas de consciência, visões e relações, universos de sentido manipulam-se mutuamente, se rearranjam em seu contato novo, inusitado. A crise é exposta. Há mais coisas entre as diversas melífluas camadas de realidade destiladas pela sutileza bem-pensante do que esta sutileza é capaz de suspeitar.


IV – “Vida a perder de fôlego”

O amor, eis o único sentimento de grandeza suficiente
para que o emprestemos aos infinitamente pequenos.
L. ARAGON, O Camponês de Paris, p. 61


         Uma das mais sofisticadas obras do Surrealismo é Nadja, de André Breton. Livro perene e por definição inclassificável, eleva seus leitores às flutuações do indefinível, em uma poesia espantosamente lúcida, onde até as emoções mais simples têm lugar. Essa última asserção deve dar o que pensar. Ela só tem sentido se compreendemos que este livro, vindo à luz em 1928, emerge num tempo que havia de certo modo conseguido obliterar in toto a própria idéia de emoção enquanto domínio humano comum (não confundamos paixões enlouquecidas, ódios viscerais, tédios mortais, patologização dos sentimentos, tumulto infernal de idéias, com a emoção simples; por exemplo, o amor pequeno, aquele que é “o único sentimento de grandeza suficiente para que o emprestemos aos infinitamente pequenos”, no lapidar dito de Aragon)[12]. Nadja, sem ser escapista, está muito além de seu tempo – um além que poderíamos classificar de escatológico. Uma escatologia especial, porém, que toca a infância dos sentimentos.
         Desta obra monumental, um pequeno excerto merecerá agora nossa atenção. Mas se trata de um excerto medular; onde se fala, no mesmo tom, de sofismas e de realidade. No mesmo tom: não se está aqui estabelecendo a tão comum violência de linguagem filosoficamente ajaezada, tantas vezes denunciada por Derrida, e que não pretende senão estabelecer ou fundamentar ou justificar “uma hierarquia e a ordem de uma subordinação”. Está-se, simplesmente, a falar – a narrar, se quisermos. A linguagem vale por si, porque os sentimentos que traz e de onde provém – e para onde aponta – navegam vigorosamente incólumes na devastação de um tempo perdido. A linguagem não precisa senão de si mesma para existir, mas existe, por isso exatamente, de forma eminente, definitiva. Louca ousadia infantil, que não é senão a maturidade máxima.

As cartas de Nadja, que eu lia de relance com os mesmos olhos com que leio toda espécie de textos poéticos, não poderiam igualmente apresentar para mim nada de alarmante. Não acrescentarei, em minha defesa, senão algumas palavras. A ausência bem-conhecida de fronteira entre a não-loucura e a loucura não me dispõe a conceder um valor diferente às percepções e idéias que são o fato de uma e de outra. Há sofismas infinitamente mais significativos e mais pesados de porte, densos de alcance, que as verdades menos contestáveis: revogá-los como sofismas é ao mesmo tempo desprovido de grandeza e de interesse. Se eram sofismas, pelo menos devo a eles haver podido soltar a mim mesmo, àquele que do mais longe vem ao encontro de mim, o grito, sempre patético, de “Quem vem lá?” És tu, Nadja? É verdade que o além, todo o além, esteja nesta vida? Não te ouço. Quem vem lá? Serei apenas eu? Serei eu mesmo? ... Invejo (é maneira de dizer) todo aquele que tem tempo de preparar algo assim como um livro, e, depois de concluí-lo, ainda consegue interessar-se pela sorte dessa coisa ou pela sorte que afinal de contas essa coisa lhe confere. Não me venha dizer que durante a sua elaboração não se tenha apresentado pelo menos uma oportunidade de renunciar a ele! Conseguiu ultrapassá-la e bem poderíamos esperar que nos fizesse a honra de dizer por quê. Ainda que eu possa ser tentado a empreender algo de longo fôlego, estou demasiadamente seguro de desmerecer a vida tal como a amo e ela se me apresenta: vida a perder de fôlego[13]


         Há sofismas infinitamente mais significativos e mais pesados de porte, densos de alcance, que as verdades menos contestáveis: revogá-los como sofismas é ao mesmo tempo desprovido de grandeza e de interesse. Se eram sofismas, pelo menos devo a eles haver podido soltar a mim mesmo, àquele que do mais longe vem ao encontro de mim, o grito, sempre patético, de “Quem vem lá?” És tu, Nadja? É verdade que o além, todo o além, esteja nesta vida? Não te ouço. Quem vem lá? Serei apenas eu? Serei eu mesmo? O espírito tacanho, que viceja de forma exuberante em tempos onde as razoabilidades campeiam (ou seja, quando o medíocre é a regra e o telos,  índice de decência, a lei e a ordem) tem horror ao sofisma, assim como a violência tem horror do que a denuncia, e os construtos que se substituem ao real, têm horror ao que os desconstrói. A vida é contradição, e a contradição é que permite que se use até mesmo uma pequena frase como esta, com o verbo “ser” no presente do indicativo, porque a realidade da frase não está nela mesma, mas no tempo que a carrega para além dela e que já passou, quando se tenta fixá-la. E a contradição é a pulsação do real, a temporalidade que sucede no mundo onde apenas o tacanho se pode dar ao luxo de pensar tacanhamente: todo o resto é imediatamente soterrado pelo tédio (bem o sabem as crianças, fugidias coagulações vivas de tempo inquieto). Que o peso dos sofismas, das contradições, dos atritos entre realidades que se encontram umas com as outras possam fazer valer seu próprio peso: eis o que deseja o Surrealismo. E para tal não necessita, ou pelo menos não necessita apenas, de terremotos dadaístas: uma emoção pequena recoloca o trem nos trilhos que conduzem ao além dele mesmo, além até mesmo dos próprios trilhos.
         Ainda que eu possa ser tentado a empreender algo de longo fôlego, estou demasiadamente seguro de desmerecer a vida tal como a amo e ela se me apresenta: vida a perder de fôlego. Vida a perder de fôlego: o tempo de surgimento do Surrealismo é tempo onde vicejam criaturas sem fôlego, estilo Odradek kafkiano, aquela criatura sem memória nem futuro, destroços mal-ajambrados, “coisinhas”[14], semi-vidas ambulantes, sem pulmões, aparições dispensáveis, massa indiferenciada, abortos semoventes, vida mortiça, até mesmo vida morta. Viviam-se tempos doentes, que não aconteciam, mas giravam em torno a si mesmos e faziam de sua desorientação e desespero a sua retórica tresloucada e violenta. Assim, tudo o que o Surrealismo pretende nada mais é do que – vida. Porque vida – e vida a “perder de fôlego” – é a única alternativa à não-vida de uma Totalidade heterofágica (cujo único sentido que percebe é a anulação do outro enquanto outro) em processo de desagregação e cujo delírio é obliterar a compreensão de seu próprio processo de extinção infinitamente dolorosa, porque infinitamente violenta: tornada autofágica. Auto-devoração de que a loucura sã do sonho (o Surrealismo) foge com botas de sete léguas, pois sabe o perigo mortal que significa.



V – Como conclusão: água ácida para tempos sedentos: o Surrealismo e o Tempo do Espírito

O surrealismo desapareceu? É que ele não está
aqui ou ali: ele está em toda parte. É um fantasma,
uma brilhante obsessão. Por sua vez, metamorfose
merecida, tornou-se surreal.
Maurice BLANCHOT[15]

         Por haver compreendido a sua época, a sua cultura, o seu Espírito do Tempo – o seu Zeitgeist privado – de forma extremamente lúcida, o Surrealismo emprestou ao seu tempo – e a todos os tempos, especialmente os nossos – a consciência de um particular Tempo do Espírito: aquele no qual, em meio à multidão de Odradeks, na era da indústria cultural e das massas anônimas, o Espírito flagra a si mesmo, por exemplo, no intervalo entre dois instantes, ou na esquina de uma emoção. O Surrealismo, retorno temerário à maturidade extrema da infância que ousa encontrar o mundo, é, parafraseando Hegel em um salto quase mortal, o tempo elevado à consciência da perigosa proximidade de seu suicídio.
         Falando do Surrealismo, diz Breton: “Ao longo das diversas tentativas de redução, a que me dediquei, daquilo que, por abuso de confiança, costuma-se chamar gênio, nada descobri que, em fim de contas, pudesse ser atribuído a algum outro processo (que não ao Surrealismo, R.T.S.)”[16]. Esta frase é facilmente compreensível, se tivermos a grandeza de despir a palavra “gênio” de seus imaginários correntes; “gênio” é o “gênio da garrafa” que, desproporcional ao medo e ao mundo, ousa ainda pensar quando o pensamento, mergulhado nas formulações de suas formalidades, moderações e mediocridades, nega-se a pensar a si mesmo; gênio é como a criança que não sabe que é absurdo pensar o absurdo e, por isso, o pensa.
         Ali onde o tempo ainda não acabou, ali em cada nascimento, no encontro com o improvável, é o espírito encontrável; aqui e agora, em nossos tempos tresloucados, exige-se a loucura de reencontrar a realidade na sua espessura total, à Kafka, seja em sonhos noturnos (Freud) como em diurnos (Bloch), seja em iluminações profanas (Benjamin) ou na indispensável dialética minúscula (Adorno), seja no sismo que bota abaixo a falsidade e suas justificações hipócritas (Derrida) ou no espanto do encontro com a alteridade mesma (Levinas) que não é senão tempo propriamente dito (Rosenzweig), seja em todas as obras de arte e de cultura dignas deste nome. Ali o espírito, com o machado do Pequeno Polegar, arromba as portas do tempo “bem-comportado”, e faz-se, simplesmente, vida.


Porto Alegre, janeiro de 2004.-

Referências


1.   ARAGON, Louis. O camponês de Paris, Rio de Janeiro: Imago, 1996
2.   BENJAMIN, Walter. “O Surrealismo” – O último instantâneo da inteligência européia”, in: BENJAMIN, W., Obras Escolhidas, São Paulo: Brasiliense, 1987
3.   BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo, Rio de Janeiro: Rocco, 1997
4.   BRADLEY, Fiona. Surrealismo, São Paulo: Cosac & Naify, 1999
5.   BRETON, André. Manifestos do Surrealismo, Rio de Janeiro: Nau Editora, 2001
6.   ---, Nadja, Rio de Janeiro: Imago, 1999
7.   CHÉNIEUX-GENDRON, Jacqueline. O surrealismo, São Paulo: Martins Fontes, 1992
8.   COELHO, Plínio Augusto (Org.), Surrealismo e Anarquismo, São Paulo: Editora Imaginário, 2001
9.   DUROZOI, G. – LECHERBONNIER, B. El Surrealismo, Madrid: Guadarrama, 1974
10.               FARIAS, José Niraldo de. O Surrealismo na poesia de Jorge de Lima, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003
11.               FER, Briony et alii, Realismo, Racionalismo, Surrealismo – a arte no entre-guerras, São Paulo:Cosac & Naify 1998
12.               NADEAU, Maurice. História do Surrealismo, São Paulo: Perspectiva, 1985
13.               PONGE, Roberto. (Org.), Surrealismo e Novo Mundo, Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1999
14.               RICHTER, Hans. Dadá: arte e antiarte, São Paulo: Martins Fontes, 1993
15.               SOUZA, Ricardo Timm de. Totalidade & Desagregação – sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1996
16.               ---, O tempo e a Máquina do Tempo – estudos de filosofia e pós-modernidade, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1998;
17.               ---, Metamorfose e Extinção – sobre Kafka e a patologia do tempo, Caxias do Sul, EDUCS, 2000;
18.               ---, Ainda além do medo – filosofia e antropologia do preconceito, Porto Alegre: DaCasa-Palmarinca, 2002;
19.               ---, Sobre a construção do sentido – o pensar e o agir entre a vida e a filosofia, São Paulo, Perspectiva, 2003;
20.               SPECTOR, Jack J. Surrealist Art and Writing, 1919-1939: the Gold of Time, New York, Cambridge University Press, 1997

Obs.: Originalmente in: GUINSBURG, J. - LEIRNER, S. (Orgs.), O Surrealismo, São Paulo: Perspectiva, 2008.

[1] In: BRETON, André. Manifestos do Surrealismo, p. 13-64.
[2] Cf. nosso Totalidade & Desagregação – sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, especialmente o texto “O século XX e a desagregação da Totalidade”, p. 15-29.
[3] Cf. nosso Ainda além do medo – filosofia e antropologia do preconceito.
[4] Cf. nosso Sobre a construção do sentido – o pensar e o agir entre a vida e a filosofia.
[5] Cf. nosso texto citado “O século XX e a desagregação da Totalidade”.
[6] No espírito de seus fundadores e primeiros porta-vozes, entendemos o Surrealismo não como um movimento literário ou artístico, nem mesmo como um abrangente fenômeno cultural (embora não descuremos estes seus aspectos); para nós, o Surrealismo é a expressão de uma opção de vida; e a abundância de atritos e dissensões no interior do próprio movimento nada mais evidencia do que a sua própria vitalidade e que seus membros eram tudo, menos robôs pré-programados.
[7] “Do Surrealismo em suas obras vivas”, in: BRETON, A., Manifestos do Surrealismo, p. 355.
[8] Octavio Paz, in: PONGE, Roberto. (Org.), Surrealismo e Novo Mundo, Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1999, p. 37-38.

[9] L. ARAGON, O Camponês de Paris, p. 92. Cf., nesta edição, o excelente Posfácio – “Uma topografia espiritual” – de Jeanne-Marie Gagnebin.
[10] BRETON, A. Manifesto do Surrealismo, p. 15.
[11] A. BRETON, Manifesto do Surrealismo, p. 28.
[12] Valeria a pena apreciar, por exemplo, o contraste entre Nadja e o extraordinário Berlin Alexanderplatz, de A. Döblin, de 1929; a eloqüência desse contraste falaria, certamente, por si mesma.
[13] A. BRETON, Nadja, p. 138-140.
[14] Cf. nosso estudo da etimologia da palavra “Odradek”, nas trilhas de Kafka, em nosso Metamorfose e Extinção – sobre Kafka e a patologia do tempo, p. 28-29, nota 28.
[15] A parte do fogo, p. 88.
[16] Manifesto do Surrealismo, p. 41, grifo do autor.

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