OBSERVAÇÕES SOBRE A MELANCOLIA PATOLÓGICA



OBSERVAÇÕES SOBRE A MELANCOLIA PATOLÓGICA


Ricardo Timm de Souza*

“Mas a lucidez não consiste em entrever
a possibilidade permanente da guerra?”
Emmanuel LEVINAS



I) Introdução - Uma categoria de princípio

            Em um pequeno artigo escrito em 1991 e publicado em 1993, intitulado “Leste europeu e enfrentamento de Totalidades”[1], desenvolvemos a seguinte linha de raciocínio:
a) Na massa de fatos contemporâneos, da qual se destacava especialmente, naquele momento, o ruir do Leste europeu comunista-burocrático, necessário se fazia distinguir com clareza elementos compreensivos para além da obviedade do visível;
b) O recurso a uma categoria interpretativa provisória, “Totalidade”, poderia nos servir a uma aproximação decisiva do que estaria realmente em jogo. Por Totalidade entendíamos então (e mantemos a convicção na solidez desta noção) um modelo de trofismo auto-referente e violento, dialeticamente afirmativo, que se fecha em suas próprias razões e em sua própria racionalidade auto-justificante e que se alimenta de tudo o que é diferente, ou seja, que efetiva o sonho dos séculos: neutralizar toda e qualquer diferença que esteja ao alcance de sua lógica. À Totalidade pertence, porém, o intrínseco paradoxo: tem de se promulgar triunfantemente “infinita”, para manter fidelidade às suas razões, ao mesmo tempo em que tem de compreender-se como “finita”, para que possa, exatamente, se auto-compreender[2].
c) A ruína do comunismo burocrático do Leste europeu correspondeu à ruína de um modelo de Totalidade;
d) Mas esta ruína não se deu por si só, por deficiências internas a um sistema (como muitos pareciam então querer acreditar), mas devido ao embate, velado, sutil, ou aberto, com outro modelo de Totalidade mais poderosa. “...a Totalidade do leste ruiu por não ter sabido ou podido ser suficientemente violenta. Não soube crescer com a velocidade e solidez necessárias. Deixou-se minar por um modelo de Totalidade mais dinâmico e abrangente, bem como mais sutilmente violento. Entregou os pontos a uma macro-estrutura tão ampla como flexível, tão complexa em seus componentes como unitária em seu telos de acumulação de dinheiro e força... com a pax americana à testa”[3]. Heráclito bem vivo: na luta deu-se o ser.
e) Chegávamos então à conclusão de que “a falência dos modelos do leste europeu não significa mais do que a substituição de um modelo de Totalidade por outro mais efetivo e complexo... os elementos realmente determinantes - delineadores - destes dois modelos são incomodamente congruentes: um só espírito os anima...”[4].


II) A Força

            Oito anós após, temos acesso a um artigo de Arnaldo Jabor intitulado “O Brasil já perdeu a guerra das estrelas”, publicado na Folha de São Paulo em 29 de junho de 1999[5]. Alguns trechos: “’Guerra nas Estrelas’ foi feito para ser um show de força de uma cultura celebrando seu triunfo insofismável sobre o mundo atual... O que me espanta é a energia que está por trás daquilo tudo, não só a energia financeira de faturar bilhões no mundo, mas a massa de trabalho e da ‘fé americana’ que o produziu. O que me assusta é que a tecnologia que faz os Tomahawks é a mesma que faz o entretenimento de Hollywood... é um manifesto político. A Força é os estados Unidos da América. E nós somos aqueles bichos da floresta que fogem, somos os Jar Jar Binks adesistas e otários, tolerados na galáxia americana... essa radical imposição de uma nova vida está a exigir pensadores novos... além de Virilios e Bourdieus (sic), está a exigir discursos mais profundos que melancolias românticas ou depressões acadêmicas... Precisamos pensar a partir de uma derrota cultural... estamos diante de fatos grávidos, novíssimos, viróticos, infecciosos, que não são comandados por ninguém, mas por um grande monstro mercantil ‘coisificado’. No Brasil vemos algumas atitudes típicas: a atitude regressiva... o entreguismo deslumbrado... o rancor paralisado das academias... o discurso meio-tucano de adesão crítica... uma posição antropofágica indolente... uma melancólica e doce torre de marfim... o ‘dane-se’ puro e simples...”[6].
            Este artigo nos precipita em uma série de espantos filosóficos sucessivos, que não nos permitem deixar de enumerá-los:
1.  Que seja necessário um tal filme para que fique explícita a ordem real dos acontecimentos em nosso mundo contemporâneo, quando ela é visível em cada esquina de cada rua de cada cidade do país e do mundo, talvez mesmo nas esquinas de nossos cérebros;
2.  Que seja através de uma tal obra de arte que se chegue finalmente à conclusão adiada pelos séculos, ou seja, de que o Não-ser (ou Não-seres) existe(m), e (não)são, por exemplo, “bichos da floresta que fogem” e “Jar Jar Binks adesistas e otários” (e agora estamos a lembrar Parmênides);
3.  Que se chegue, por essa via, à conclusão de que são necessários “pensadores novos” (como se estes não existissem!) além de “Virilios e Bourdieus”;
4.  Que a conclusão de que estamos às voltas com fatos “grávidos, novíssimos, infecciosos, viróticos” finalmente assome às cabeças pensantes, quando, a uma leitura medianamente aprofundada, é absolutamente claro que, pelo menos desde meados do século XIX, a crise radical já corrói os alicerces óbvios do sentido, transformando-o em restauracionismo e melancolia patológica, quando não em insanidade[7];
5.  Que não se diga claramente que “atitudes regressivas, entreguismos, rancores paralisados, melancólicas e doces torres de marfim”, etc., nada mais são do que roupagens de uma mesma realidade, a qual se articula exatamente como uma espécie de nostalgia da perda, o luto traumatizante da desidentificação com o modelo, dando cada uma destas atitudes sua contribuição clara e inequívoca ao triunfo do Mesmo, ou seja, da Totalidade;
6.  Que não se torne explícito o essencial: que por trás de tudo estão o medo e a solidão, a obsessão pela verdade violenta; o mais virótico de todos os fatos; que não seja ao menos citado o fato de que a mesma sociedade que delira com seu narcisismo reduplicado também gesta suas explosões em Oklahoma e seus adolescentes delirantes e assassinos - nada mais do que coágulos visíveis na grande rede circulatória da energia totalizante e auto-desagregadora.
Somos assim obrigados a tirar uma conclusão clara: na teia do pensamento deste e de muitos outros autores, o que está presente é um sentimento misto de impotência e de angústia que decorre de incapacidade de suficiente aprofundamento no empírico.
Em suma, o que está em jogo é, apesar das aparências frenéticas e coloridas, uma imensa angústia que corresponde à sutil penetração, na consciência de uma época, da percepção da desagregação de uma totalidade de sentido - de um modelo de Totalidade que se embate contra seus limites.
            E o que está por trás de tudo é o grande medo entre as espécies[8].


III) Um fato bruto

            Mas as idéias atrás arroladas necessitam de alguns desdobramentos.
            Não estaríamos reproduzindo exatamente uma das atitudes mais comuns do desencanto contemporâneo, fazendo filosofia sobre coisas que estão muito “além” ou “antes” dela?
            Ora, nossa ingenuidade não chega a tanto. O que subjaz ao que aqui colocamos não são idéias destiladas por um cérebro fixado em sua pretensa potência analítica.
            A questão é: a própria sobrevivência do que da Totalidade pode vir a sobreviver após sua desagregação em curso depende definitivamente de que certos parâmetros da vida sejam reequacionados.
            Que parâmetros são estes? Deixemos de lado, por ora, teorias sofisticadas e estruturas bem-pensantes. Apenas um fato bruto é já suficientemente ilustrativo para esclarecer toda a estrutura da questão. E o fato é:
            Cada ser humano da face da terra produz, por dia, entre 200g e 4kg de lixo[9]. Uma conta simples se impõe: considerada uma média de 2kg/hab, a cada ano a terra está cerca de 4 bilhões de toneladas de lixo mais cheia, e esse enchimento se encontra em processo de aceleração, ou melhor, de saturação.
            Um número, apenas. O que fazer com ele? Mandá-lo ao espaço? Já está cheio. Ao fundo do mar? Suicídio. Aos desertos? Idem. Reciclá-lo? Exportá-lo?[10] Fingir que não existe? Um pouco difícil. O que fazer com ele? Nesta questão, a realidade reencontra a filosofia em alto estilo. Não é uma questão de discurso, de argumentos, nem mesmo do Delírio ou da Força: é uma questão de realidade crassa e de sobrevivência - só não vê quem não quer - ou quem ainda está embasbacado pela idéia de haver seqüestrado para si o infinito, como certos ideólogos da hegemonia[11].

IV) A melancolia patológica e a Totalidade

Pois o caminho em direção ao passado é
um caminho que nunca pode ser trilhado...”
Franz ROSENZWEIG[12]

            A consciência de um fato assim tão simples e penetrante oportuniza várias “tentações” ou estratégias escapistas, nostalgias e restauracionismos, em um arco que vai de decadências do Ocidente (Spengler) a eras de vazio (Lipovetsky) - tudo é vago quando o pensamento é “débil” (Vattimo). Podemos embarcar no frenetismo enlouquecido, como podemos recair na melancolia patológica[13] - mecanismos de defesa precários, mas possíveis a uma existência acossada, a uma totalidade de sentido ameaçada. A melancolia patológica pertence essencialmente à órbita da totalidade fechada de sentido.
            O diferente da melancolia patológica é, nesse contexto, a vibração utópica da humanidade, aqui entendida como necessidade permanente de ética e da justiça.
Neste sentido, se a melancolia patológica é o reverso dos arroubos maníacos da Totalidade, seu anverso necessário, a confrontação com seus próprios limites impossíveis, a utopia é a saudade do humano, o sem-lugar no ser hegemônico, o outro que simplesmente ser, a anti-neutralidade, o ainda-não, a verdade que não pode ser pensada sem ser pelo prisma da esperança (Adorno).
            O que é menos facilmente compreensível, porém, é que o conteúdo utópico da ação humana (compreendido aqui como aquilo que circunscreve precisamente o mais humano da humanidade) - que, pelo menos desde Bloch, deve ser compreendido como essencialmente não-nostálgico - recaia nas teias da melancolia patológica. E é fato que isso se tem dado de forma recorrente, como já ressaltava explicitamente Benjamin pelo menos desde 1932.
Mas, se assim é, como pode ser a utopia contaminada de melancolia patológica, se a utopia deveria ser, exatamente, a reserva ética com relação à violência da Totalidade, da qual a melancolia patológica é um componente?
A não ser que se tenha identificado as utopias, exatamente, como nostalgias de Totalidade. Ou seja, se na estrutura original das concepções utópicas se façam presentes os mesmo elementos que pretendem dar à Totalidade a sua solidez[14].
Talvez isto ajude a explicar o fato aparentemente misterioso de que revoluções feitas em nome e sob a bandeira da justiça degenerem, muitas vezes, muito cedo, em seu contrário - em campos de exercício de injustiças - dando, a quem tem alergia pelo mais essencial do humano - a ética e a justiça enquanto tais -, tanta matéria-prima para elucubrações de princípio que, de tanto serem repetidas, acabam assumindo o honroso posto de verdades inquestionáveis. 


V) Conclusões - Reescrevendo a Utopia - a Ética como fundamento do real


“O instante somente se pode salvar
 do eterno poder de envelhecimento do passado
e de sua lei na medida em que nasce em cada novo instante”
Franz ROSENZWEIG[15]

            A questão se põe por si mesma, portanto. Há que re-equacionar o modelo de apreensão do real. A filosofia é a transformação constante e árdua da crise na crítica (ambas as palavras sendo usadas, aqui, no sentido etimológico original). Isto significa para nós, concretamente, no aqui e agora: assumir a responsabilidade intelectual aguda de elaborar o inventário do século, desta momentânea “culminância” dos séculos, ou seja, inverter a lógica hegeliana, julgando a história. É necessário nos despirmos dos adereços das essências e mergulharmos no efetivamente essencial. Esta não é uma questão de diletantismo, mas de justiça e de sobrevivência. E o essencial aqui significa: subverter a ordem segundo a qual o agir humano é compreendido - conduzi-lo, de mero apêndice da ontologia, à posição de prima philosophia. Propomos aqui um novo sentido para o termo “utopia”, para o “ouk-topos”: utopia é a ética em processo de efetivação, é a recepção do Outro no aqui e agora.
É muitíssimo provável que a sobrevivência da humanidade dependa disso: da instauração da ética como filosofia primeira, no sentido do pensamento de Emmanuel Levinas. Ética não se entende aqui como conjunto bem-acabado de preceitos utilitaristas ou de prescrições universais mais ou menos inócuas, mas fundamento último e primigênio do real. Compreender o mundo, neste sentido, não significa embriagar-se com a potência do logos em seu desdobramento, mas, sim, significa construir humanamente o próprio sentido do mundo.
Resta tempo para tal. Mas o tempo é uma arma de dois gumes: oportunidade de realização e sublinha a sua urgência. Que a oportunidade que temos para tal construção ética - a nossa vida e o chamamento à responsabilidade pelo futuro - não seja em vão.


Porto Alegre, julho de 1999.-



* Professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCRS, Porto Alegre.
[1] Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. “Leste europeu e enfrentamento de Totalidades”, in: Libertação-Liberación - Revista de Filosofia, Ano III, n.1, 1993, Campo Grande - México, pp. 7-11.
[2] “...Totalidade é... o exercício efetivo da dinâmica da imanência em seu desdobrar-se - conquista mesma da imanência em si, por si e para si. É a síntese realizativa de todas as energias integradoras do diferente de si: incorporação de tudo na coesão concêntrica que a tudo integra desde um fulcro energético absolutamente preponderante e tautológico em sua origem, finalidade e destino... Os grandes impérios mundiais nunca fizeram mais, a rigor, do que incorporarem a si o que em princípio a si não se reduz e não se poderia reduzir... Os mais fortes e vencedores preponderam e se reservam o sagrado direito de definir efetivamente a sua Verdade, sua Justiça, seu Bem - dos quais sua Lei e sua Ordem (e as de seus lacaios) constituem o posto avançado. Crescem e se impõem, com violência aberta ou disfarçada, sobre tudo o que, em lhes sendo diferente, não lhes é indiferente. Esta é sua lógica real, sua Verdade; e sua Verdade é sua Totalidade. Totalidade não é, portanto, algum conceito abstruso incubado em alguma torre de marfim... é, isto sim, o resultado do acoplar-se ao decorrer do Tempo da vontade de poder em realização - a lógica efetiva de desenvolvimento de todo o crescimento ocidental e de tudo o que o toma como modelo ideal em suas infinitamente multiplicadas dinâmicas. Está, enquanto processo em curso e idéia “reguladora”, nos fundamentos, seja da acumulação tresloucada de dinheiro e poder, seja na depredação da natureza, seja na sofisticação crescente das armas da morte... justifica tudo, mas, acima de tudo, justifica a si mesma e a si mesma se afirma como boa: vive.” (Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. Op. cit., p. 8-9).
[3] Continuávamos então: “Pois não é este o modelo mais perfeito de Totalidade? Qualquer que analise pode perceber a violência inaudita de seu trofismo, sua capacidade de de alimentar com o sangue a miséria absoluta de milhões o fabrico de armas e futilidades, sua refinada habilidade em espraiar seus tentáculos por toda a orbe e sua democracia que só vale para os poderosos. Este é o modelo vencedor, em que o Mesmo se alimenta contínua e crescentemente do que lhe é diferente , e que, como foi dito, apenas de si pretende necessitar para se legitimar. Sob a aparência das luzes renovadas, a mais perfeita das tautologias” (Op. cit., pp. 9-10).
[4] Op. cit., p. 10.
[5] Agradeço a Ernildo Stein a gentileza de me haver repassado este interessante material.
[6] Artigo cit., p. 8.
[7] Cf. nosso “O século XX e a desagregação da Totalidade” in: SOUZA, R. T., Totalidade & Desagregação, op. cit., pp. 15-29.
[8] Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. “A máquina do tempo e o pulsar de tempos inquietos - H. G. Wells revisitado, cem anos depois” in: SOUZA, R. T. O tempo e a Máquina do Tempo..., Op. cit., pp. 19-48.
[9] Dados fornecidos pela ONG Sociedade dos Amigos da Terra do Brasil, secção Porto Alegre.
[10] Veja-se a famosa questão dos pneus velhos exportados da Europa para o Brasil, Indonésia e Filipinas.
[11] Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. “O fim da história, a totalidade rediviva e a metafísica do consumo infinito” in: Idem, Totalidade & Desagregação..., Op. cit., pp. 101-113.
[12] Der Stern der Erlösung, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1996, p.300.
[13] Sem que tal se pretenda a alguma espécie de tipologia, diferenciamos a melancolia normal - espécie de “respiração” na espessura do real - da melancolia “patológica” - aquela que se retroalimenta com suas próprias destilação e que goza com sua impotência (para uma Bibliografia sobre a melancolia, cf. STEIN, E., Órfãos da Utopia - a Melancolia da esquerda, Porto Alegre, Editora da UFRGS, 1993, pp. 106-107).
[14] É sintomático o fato de que um escritor tão criativo quanto Karel Kosik, na última página de seu famoso livro Dialética do concreto, refira-se apologeticamente a uma idéia de totalidade que, se bem não coincida com a nossa, desta se aproxima ao menos semanticamente.
[15] Das Büchlein des gesunden und des kranken Menschenverstandes, Frankfurt am Main, Jüdischer Verlag, 1992, p. 89.

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