VISÃO DE CRIANÇA - LISPECTOR E GUIMARÃES ROSA

 [VERSÃO APENAS PARA LEITURA NO BLOG. SOLICITA-SE NÃO REPRODUZIR O PRESENTE TEXTO]

VISÃO DE CRIANÇA
Lispector e Guimarães Rosa


Ricardo Timm de Souza 

Onde a reflexão deveria atuar, imperava um impertinente coaxar de sapos.
E. Canetti[1]

I

            O mundo pode, de certa forma muito profícua, ser primariamente compreendido como uma infinita extensão opaca, a qual a literatura tem por dever de ofício perfurar a carapaça e corroer as razões que justificam a violência muda que sob ela se multiplica. Isso diferencia a literatura do diletantismo literário, o qual se contenta com as faíscas que despontam em qualquer contato com o real. E, por “literatura”, não se está a falar aqui de nenhum estilo de engajamento ou alguma verve de militância por palavras, ou instrumentalização do que, por definição, não se deixa instrumentalizar; é a substância literária mesma, por si só, que, ao aflorar na linguagem e dar à luz seus sentidos, aprofunda a percepção da realidade num movimento divergente que, porém, envia a uma motivação, a um motivo comum. “A origem é a meta”: eis a Obra[2]. A tal convicção só se chega pela retorção qualitativa da espessura da realidade a ser metabolizada pelo fazer literário e nesse fazer mesmo. O real é sensível; está, todavia, envolto em suas infinitas dimensões pelos paramentos do indiferente; de outro modo que a música, que recolhe do real o seu substrato mais profundo e precioso para dar-lhe forma e repassar ao compositor e ao intérprete a infinita responsabilidade de sua recriação, ou das artes figurativas – para não mencionar outras formas de arte –, que fazem de formas e cores e tons a linha de frente da expressão do objetivo, a literatura não mergulha – qual a música – no indizível – nem, qual as artes figurativas – o indiciam; mas o testemunham. A narrativa orgânica, que difere da descrição como a temporalidade real difere de uma crono-logia arbitrada, entremeia-se à tessitura da realidade sem que nada se perca. O metabolismo dos dados do real é, literariamente, infinitamente minucioso; o transbordamento de fatos e expressões lhe é sempre, de algum modo, estranho; a precisão narrativa não é obsessiva, apenas é o que, desse metabolismo, em cada momento se oferece.


II

            O Menino de “Miopia progressiva”[3], de C. Lispector, inicia sua vida ativa envolto pelas contingências do banal – “se era inteligente, não sabia”[4]. A vida como jogo, como floreio das percepções, é a primeira e mais persistente das tentações. Nosso protagonista, no envoltório de seu pequeno mundo e de suas sociabilidades privadas, está aí quase voluptuosamente imerso, e dessa imersão sucede possivelmente a lógica derivada de uma fusão; mais tarde, de fato, “substituiu a instabilidade dos outros pela própria, entrou por um estado de instabilidade consciente”[5]. Todas as chances de uma deriva na mediocridade estão dadas; o mundo é o que esperam de mim, e eu não sou senão o que de mim esperam. A interrogação não é real, é apenas procedimental, um cacoete, uma mania inofensiva, um franzir de testa, um ajeitar os óculos, uma marca registrada da superfluidade. Aqui cessa o aprender: aprende-se a desaprender a perguntar, a estranhar o mundo, a estranhar a si mesmo. Tudo isso é por demais cansativo e inconseqüente; a vida real não tem tempo para isso, somente para caricaturas e reflexos fátuos. A tal ponto que, sabendo que passaria o dia com sua prima que adorava crianças, ele tenta planejar todos os detalhes de suas ações ao longo desse dia, em função da expectativa que supõe que a prima teria a respeito dele e da expectativa da impressão que gostaria que a prima dele tivesse. Um excesso de condicionais, que não escondem a ansiedade frente ao ainda inescrutável.
Porém, fato central: essa ansiedade não é símbolo de fraqueza, mas de estranha atenção e signo de uma resiliência que sua aparência não deixaria entrever – “Pois prematuramente – tratava-se de criança precoce – era superior à instabilidade alheia e á própria instabilidade. De algum modo pairava acima de sua própria miopia e da dos outros”[6]. O menino ainda não está cristalizado em sua silhueta de óculos. Por mais que se disponha a fazer sua parte no teatro dos irrelevantes encontros e impressões, não se transformou em Odradek ou morreu. Pois mantinha vivo o que nos mantém vivos: “...era um menino com capacidade de estática: sempre fora capaz de manter a perplexidade como perplexidade, sem que ela se transformasse em outro sentimento”[7]. No seu processo de crescimento – quer dizer, de inofensibilização ao estatuído –, manteve para si essa incômoda capacidade – perceber que nem tudo se exaure na sua própria aparência ou pode ser contado antes de acontecer.
            Enfim, eis o que o salva. Cansado de seu papel de marionete de si mesmo, que sabe não ser si mesmo, o menino abandonou as expectativas vãs, exatamente por vãs, e voltou a ser si mesmo, tão somente “vivendo em serena curiosidade”[8]. Suas indagações estão em suspenso. “No entanto, negligenciara um detalhe: a prima tinha um dente de ouro, do lado esquerdo”[9]. O factum desse rebrilho inesperado, que transtorna toda a razão supérflua – ou seja, aquela capaz apenas de antever o que pode suportar – o leva a se reencontrar consigo mesmo. Pairando acima de sua miopia, paira acima da mediocridade que significaria desabar ante fato tão inusitado e alvo excelente de perplexidade, perplexidade essa cuja capacidade de sentir-se – por não ser um mero reflexo – cultivava.
            Aí está aberta a porta do futuro, do desejo, ou seja: do tempo real. “Pela primeira vez, ele, que era um ser votado à moderação, pela primeira vez sentiu-se atraído pelo imoderado: atração pelo extremo impossível. Numa palavra, pelo impossível. E pela primeira vez teve então amor pela paixão”[10].
            Agora o menino está imunizado contra o empedramento; sua medula voltada para o mundo, que percebeu o que nele se passa apesar dele, apesar de tudo, o salvará do coaxar de sapos. É agora uma espécie de personagem de Kafka ao revés; pela percepção da “estabilidade do desejo irrealizável”, está condenado a perceber que o tempo não se transformou em sua mera aparência, e que vida e morte revolvem-se no mar profundo. Está condenado a viver.

III

E com aquele calor a gente necessitava beber água toda hora, a água da lata era quente, quente, não matava direito a sede. Sol a sol – de tardinha voltavam, o corpo de Miguilim doía, todo moído, torrado. Vinha com uma coisa fechada na mão. – “Que é isso, menino, que você está escondendo?” – “É a joaninha, Pai.” – “Que joaninha?” Era o besourinho bonito, pingadinho de vermelho. “ – Já se viu? Tu há de ficar toda-a-vida bobo, ô panasco?!” – o Pai arreliou. E no mais ralhava sempre, porque Miguilim não enxergava onde pisasse, vivia escorregando e tropeçando, esbarrando, quase caindo nos buracos: - “Pitosga...”[11]

            Em “Campo geral”, Miguilim também está condenado a viver, porém não consegue. Cerca-o a aspereza de Mutúm; essa aspereza se reflete em sua gente, e sua sensibilidade – dele, deste “um certo Miguilim”[12] – que resta errante, mendigando migalhas de atenção para além dos amores untuosamente religiosos de Vovó Izidra (mais preocupada em guardar no oratório “os umbiguinhos secos de todos os meninos, os dos irmãozinhos, das irmãs, de Miguilim também”[13]), da pedagogia sempre áspera e da ternura desajeitada da Mãe, das esquisitices de Mãitina, a “feiticeira pagã que ia para o inferno”[14], apesar de tudo tão amável, dos arroubos pedagógicos-físicos do Pai, das trocas de idéias infantis com as irmãs e o querido irmão Dito, destinado a morrer tão cedo. Tudo é desajeitado. Miguilim, que “tremia receando os desatinos das pessoas grandes”[15], ama com uma intensidade que ninguém compreende, que não cabe naquele sertão imenso; seu amor se dispersa e cola-se às criaturas vivas, animais, plantas, e mesmo a sutilezas da paisagem e a asperezas do caminho, e a até a seus inimigos infantis. Miguilim está só no mundo. Mesmo o gato Sossõe, que parece suportar de boa vontade seu fluxo amoroso e de certo modo o retribui, abstém-se de uma resposta clara. Os elementos da natureza, a ventania dos temporais, os desencontros de afetos furtivos, a incerteza de cada dia, a incapacidade do Pai de perceber a sutileza do mundo – tudo parece se ter concertado para transformar a vida de Miguilim num grande susto, ou em algo ainda pior, sem nome, que se estende a cada dia e em todos os dias num grande tempo, no qual a única certeza é culminar numa espécie de pequena tragédia ou, o que dá no mesmo, numa réstia de felicidade fugidia que melhor fora, talvez, não houvesse acontecido. Miguilim está só no mundo. Há dispersão, gente que se afasta, gente que é afastada, gente que até morre, animais que morrem. “A gente – essas tristezas[16]”. Miguilim não enxerga bem – é “pitosga” – mas já viu muito. Penetrou e saiu de sonhos, não desiste da sensibilidade, a violência voluntária e involuntária, o campo geral da violência moderada que, por vezes, explode num espasmo de horror e sofrimento e logo se encolhe, novamente, em letargia – tudo isso faz de Miguilim uma espécie de sobrevivente de tudo o que o ameaça, até do que ainda não aconteceu. A catástrofe final pode chegar com os relâmpagos e trovões da tempestade no sertão.
            Provado pela vida e pela morte, pelo atrito das pedras de todos os caminhos, Miguilim é encontrado pelo Doutor, que lhe empresta os óculos para que veja o mundo distintamente; a brutalidade do indiferenciado é, então, vencida pela possibilidade de um tempo novo, para além da tacanhez bela de mutum, e lá se vai Miguilim para a cidade com o Doutor, após haver sofrido e amado tanto, viver a vida à qual, por sua peculiar sensibilidade, está – desde sempre e como que inscrito em cada grão de pó de Mutúm – condenado a viver.


IV

É muito provável que o ver real consista em ver o quanto a sensibilidade do mundo é devastada pelas razões de ser do opaco no qual a vida do mundo está submersa. Por isso não deverá ser de se estranhar se, ao fim de uma carreira ao longo da qual as lacerações se multiplicam, os adereços vão restando pelo caminho e qualquer laivo de vaidade finalmente se evapora, o escritor se veja obrigado a, embora adulto, como a criança míope fitar o mundo e “sua luz que não é a da beleza porque é a da verdade”[17] com uma “fixidez reverberada de cego”. Terá então, porventura, nascido, como o Wilde de Camus[18], um grande artista.


EXCURSO: Um contraponto infantil ao Menino e a Miguilim.

UM SEGREDO[19]
                Pedrinho estava feliz. Há muito tempo não se sentia assim, tão leve, ágil, como as manchas suaves que passavam, rápidas, lá bem alto no céu, aquelas manchas que ele sabia que eram as nuvens. Era uma tarde quente, no meio do verão, ainda algumas semanas de férias pela frente... atrás já haviam ficado muito longe – como só podem ficar longe as coisas quando se tem seis anos – a escola, o Natal, o ano novo, a visita dos primos e tios, as viagens. Agora era o centro do mundo, no meio daquela tarde quente. Pedrinho deitou-se na grama, tirou os óculos e fechou os olhos. Primeiro estendeu-se ao comprido, bem reto, como um graveto. Depois foi estirando devagarinho os braços, as pernas, mais e mais, como se fossem as pás de um moinho. Esticava mais e mais os membros, até sentir a dorzinha aguda do exagero. Agora eram dois gravetos cruzados; respirou bem fundo. Ao longe, conseguia ouvir os latidos de Laica. Laica latia seguidamente, até sem motivo, cachorra bobinha. Quando se sentiu completamente tranqüilo, ouvindo barulhinhos que nunca havia percebido antes, abriu os olhos. Um jorro de luz o penetrou. Lá estava o céu, azul vago e suave; aquelas manchas rápidas, as nuvens. Virou a cabeça: lá estava aquela mancha escura, a casa, e aquelas figuras irregulares se mexendo, as árvores. Bem ao seu lado, o ramo de uma erva delicada; na sua extremidade, pelinhos muito, muito pequenos. Pedrinho aproximou-a levemente com a mão: ela ainda não havia revelado todos os seus mistérios. Era cheia de manchas castanhas que, de longe, permaneciam camufladas pelo verde. E ainda mais: animaizinhos também verdes, larvas minúsculas, movimentavam-se pelo caule; provavelmente estavam se alimentando do açúcar daquela erva. Pedrinho não conseguia imaginar um outro gosto para aquele caule senão um adocicado suave, para combinar com o verde suave que um vento que nem se conseguia sentir de vez em quando ondulava.
                E isso não era tudo: como se fosse algo planejado, uma linda joaninha, daquelas vermelhas salpicadas de preto, achou de aterrissar exatamente naquele pequeno ramo do vasto gramado. Pedrinho não pôde deixar de rir, tanta coisa acontecendo num lugar tão pequeno. Lá em cima, as manchas continuavam sua viagem.
                Havia muito tempo que Pedrinho não se sentia assim tão calmo. Piscou várias vezes, como que para confirmar que os olhos ainda eram os seus. Tudo começara lá por abril ou maio do ano passado, não se lembrava mais exatamente quando, mas fora no início da escola. Recebera um bilhete fechado para entregar em casa, sem falta. Mamãe estava sozinha quando ele o entregou a ela, foi a primeira coisa que fez ao chegar em casa naquele dia. Mamãe lera, passara a mão em sua cabeça e o beijara. Isso não era novidade alguma, ela sempre o beijava. Mas algo mudara naquele dia. Mamãe ficara nervosa, podia sentir porque ela passara a agir de forma ainda mais delicada do que normalmente. Fizera “psiu” para Laica e parecia sem vontade de conversar. Só Laica parecia alegre como sempre. Logo, como todas as tardes, chegou Vera, vizinha e amiga de mamãe. Laica corria excitada e pulava em Vera. “Calma, querida, vais sujar meu vestido”. Atrás de Vera, Clarinha e suas revistas. Clarinha tinha oito anos e não largava suas revistas. “Oi tia Marta, oi Pedrinho, oi Laica, oi Jasmim” – Laica foi a única a responder de forma explícita, com um leve gemido de prazer. Jasmim, o gatinho, apenas levantou a cauda. “Vera, estou muito preocupada. Olha isso” – e mamãe lhe passara o bilhete da escola. Pedrinho teve um sobressalto, entre surpreso e ofendido – não pensava que sua mãe fosse fazer aquilo, por mais amiga que Vera fosse: mostrar seus segredos da escola. Vera, como sempre, sem meios-termos, foi lendo alto: “Prezada senhora, recomendamos que leve seu filho Pedro com urgência ao oftalmologista, pois ele parece ter um grave defeito de visão”. Pedrinho não se impressionou com o termo “oftalmologista”, pois palavras longas não o assustavam, antes atiçavam sua curiosidade, mas não pôde deixar de ter um sobressalto. A última vez que ouvira a palavra “grave” fora sobre o estado de saúde do vovozinho, que agora dormia sob a terra. E “defeito”? O seu Ernesto, da padaria, tinha um defeito: possuía uma só perna e andava de muletas. Mas o seu defeito era de visão e não nas pernas. Pedrinho levou a mão ao rosto, discretamente, apenas para confirmar a certeza absoluta que tinha de que seus dois olhos continuavam bem ali. Clarinha chegou perto dele e o abraçou, como sempre fazia: era muito carinhosa. “Vamos ler as revistas?” “Agora não”, e passou a mão em Jasmim. “Vou marcar amanhã mesmo, espero que o Antônio não se assuste, nem sei se telefono para ele avisando”. Telefonar? Então a situação era mesmo grave, pior do que pensara, pois mamãe nunca telefonava a papai quando este estava viajando, para não preocupá-lo: seu marido era um homem muito nervoso e já tivera até mesmo uma ameaça de enfarte. “Amanhã mesmo”. “Deixa de bobagem, Marta, ele precisa de óculos, só isso, aliás é o que eu já achava também, e só não havia te dito porque não queria me intrometer em assunto de vocês, embora o Pedrinho seja praticamente um filho meu também, tu sabes bem disso”. “Vera querida, tu és um anjo”. “Vamos ler as revistas ou não, Pedrinho?”, perguntou Clarinha com uma graciosa inquietação na voz, aproximando o rosto da face de Pedrinho daquele jeito engraçado que só ela sabia fazer. Pedrinho riu. “Então vamos para o meu quarto”. “Amanhã mesmo”, sussurrou Marta para Vera, com o semblante um pouco sombrio.
                Fora até divertido, no oftalmologista. Perguntas, conversas, gotas nos olhos, luzes, cores e finalmente aquela coisa no nariz, uma lente entrava, outra saía, que letra é essa? E essa? Ficou melhor agora? E mais uma lente, e outra ainda. “Bem, dona Marta, está feito. Aqui está a receita. Crianças dessa idade não sabem que enxergam mal, e por isso não se queixam. Mas a miopia de Pedrinho é muito forte, é um perigo para ele até mesmo andar na rua sem os óculos, pode ser atropelado. Mas, com óculos, verá tudo perfeitamente”. À palavra “perigo”, Pedrinho esticou a orelha. Como ser atropelado só por estar sem óculos? “E o senhor, senhor Pedro, espero que não quebre os óculos logo na primeira semana – acontece muitas vezes, dona Marta, não se preocupe” – disse o oftalmologista, rindo pela primeira vez em toda a consulta, e numa hora muito estranha. Que oftalmologista era aquele, desde quando eu vivo quebrando coisas a torto e a direito, pensou Pedrinho. Para um oftalmologista tão bobo, um riso como aquele combinava perfeitamente, um riso que parecia um murmúrio ou um miado baixo do Jasmim. “Quero vê-lo novamente em seis meses. Até logo”, despediu-se o oftalmologista, apertando sua mão de forma algo exagerada.
                Então ali estavam os óculos. A moça sorridente da ótica o olhava extasiada, como se houvesse acontecido alguma maravilha. “Ficou lindo, muito elegante”. Ele olhou para mamãe. “Sim, ficou bem” – mamãe também sorria. Pedrinho se olhou no espelho. Por um momento, seu coração quase parou. “O que fizeram com meus olhos”, pensou, vendo aquelas bolinhas pretas lá no fundo das lentes. Aí tirou os óculos e olhou no espelhinho do balcão. Lá estavam seus olhos como sempre, grandes e escuros, olhando no fundo de si mesmos. “Agora poderás ver tudo perfeitamente”, disse a balconista, despedindo-se.
                Sim, ver tudo perfeitamente. Era tudo o que Pedrinho via. “Então tem fiozinhos entre os postes, fininhos como os bigodes do Jasmim. Incrível”. O céu estrelado o deslumbrava, e a redondeza da lua cheia. E as letras no quadro da escola. Quando Clarinha o viu de óculos pela primeira vez, botou a mão na boca. Por um instante dolorido, Pedrinho ficou em suspense. “Ficou legal!”, disse Clarinha então, rindo ainda mais que o normal, ela que era sempre alegre. Laica latiu em resposta. “Sim, ficou muito bem”, disse Vera, e Pedrinho se assustou com suas rugas. Mas logo viu que Vera não escondia nada por detrás de seus olhos.
                Agora a professora o tratava como a um bibelô. “Não queres sentar mais perto do quadro, Pedro?”. Não, não queria. Quando queria, e precisava, ela não deixava. “Deixa eu experimentar”, disse Cláudio, sempre agitado. “Credo, fiquei tonto”. “Não vai quebrar, Cláudio, ou o oftalmologista vai pensar que fui eu. Dá isso aqui”. Papai também gostou. “Parece o compositor Shostakovitch, meu Pedro” – ele sempre o chamava de meu Pedro – “espero que te ajude a compor muitas sinfonias”. Papai estava sempre às voltas com suas sinfonias e seus compositores. Pedrinho o olhou do fundo de suas lentes, com uma ternura que papai não percebeu, não só porque as lentes separavam um pouco a ternura dos olhos de Pedrinho do resto do mundo, como também porque papai já o abraçava com aquele seu abraço forte de urso e o atirava para cima. “Cuidado com os meus óculos, se quebrarem o oftalmologista pensará que fui eu”. “Oftalmologista”, riu papai com gosto. “Meu Pedro, tu saíste melhor que a encomenda”. Finalmente, papai o colocou novamente no chão e foi ouvir uma sinfonia no quarto, cansado da viagem.
                Sim, ver tudo perfeitamente. Tinha suas vantagens. As brincadeiras ficavam mais fáceis. Reconhecer as pessoas de longe, também. E quando as pessoas chegavam perto, podia observá-las melhor. Via claramente que quase sempre não eram o que pareciam. Via claramente, como as letras escritas no quadro-negro, o que antes só via com o sentimento. E essa nova visão confirmava a antiga. Por trás da alegria de papai estava uma pequena sombra, que Pedrinho não entendia, mas percebia. Por trás da agitação de Cláudio, um tremor estranho, que quase não dava para ver com os olhos. Por trás da maquiagem da professora, um rosto quase de madeira, um frêmito de irritação constante, com o compasso marcado por seus passos rápidos. Até mamãe, por trás de sua calma, tinha umas lágrimas trancadas nos olhos, que combinavam bem com o cansaço por trás das rugas de Vera, um cansaço leve, que ela não mostrava, e um calor forte, que ele via mais em sua voz que em sua face. Clarinha estava sempre sorrindo, e por trás de seu sorriso havia um coração batendo ansioso, dava para ver suas batidas antes mesmo que ela o abraçasse. Sangue latejava por todos os lados. Por trás de tudo havia sempre mais coisas do que parecia. E muito lixo no chão, nunca imaginara que houvesse tantos lixinhos na rua, folhas mortas, coisas perdidas que ninguém mais via, porque não conseguiam ver tudo perfeitamente. Aquilo que parecia ser um pedacinho de papel amarrotado era na verdade um besouro esmagado. Aquelas pequenas manchas na calçada eram gotas de sangue do cãozinho que fora atropelado, mas ninguém mais via as manchinhas ou se lembrava do cão. Havia rachaduras nas paredes da casa; havia rachaduras em quase tudo, até na face das pessoas, como a do seu Ernesto da padaria, que sorria para os fregueses e às vezes secava uma gota de suor que corria na sua face e não era suor, porque sua esposa estava bem doente. E havia coisas que não se podia nem descrever o que era, como aquele acidente com a motocicleta e o ônibus.
                A joaninha já levantara vôo. Pedrinho estirou-se bem reto, inundado pelo verde e azul daquele dia. Novamente um graveto no chão suave. Depois relaxou o corpo e ficou pensando. Seu coração teve um pequeno aperto, ao sentir as carícias da grama e as batidas do coração do mundo, dos corações da joaninha e das pessoas, dos animais e das plantas, ao perceber as lágrimas que escorriam entre os acontecimentos e ninguém ficava sabendo. Pegou os óculos, examinou-o, colocou e tirou várias vezes, observando a mudança das coisas. Sim, ele confirmou sua teoria: bem no fundo das coisas, os óculos não faziam diferença nenhuma, pois ele via tudo perfeitamente, com ou sem eles. Mas ninguém, nem mamãe ou papai, nem Vera ou Clarinha, nem mesmo Laica ou Jasmim, muito menos o oftalmologista, sabiam disso. Era um segredo só seu. E assim permaneceria para sempre.




Referências

CAMUS, Albert. “O artista na prisão”, in: CAMUS, Albert. A inteligência e o cadafalso, Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 69-78.
CANETTI, Elias, O jogo dos olhos, São Paulo, Companhia das Letras, 2010.
LISPECTOR, Clarice. “Miopia progressiva”, in: LISPECTOR, C. Felicidade Clandestina Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
GUIMARÃES ROSA, João. “Campo geral”, in: GUIMARÃES ROSA, J. Corpo de baile I, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p. 13-156.




* PUCRS.
[1] CANETTI, Elias, O jogo dos olhos, p. 153.
[2] “...quando o escritor que se preservou por meio de sua suscetibilidade e concluiu sua obra estiver morto, quando sua reputação – horrível e inchada como um peixe malcheiroso – estiver exposta em todos os mercados, que venham os escarafunchadores malcheirosos ditar regras apropriadas de comportamento e denunciar publicamente aquela suscetibilidade como excesso de vaidade. A obra estará presente, não poderão mais aniquilá-la: eles e sua insolência se dissolverão nela e desaparecerão sem deixar traços.” – CANETTI, Elias, O jogo dos olhos, p. 178 (a respeito de Musil).
[3] LISPECTOR, C., “Miopia progressiva”, in: LISPECTOR, C. Felicidade Clandestina Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 17-24.
[4] Op. cit., p. 17.
[5] Op. cit., p. 18.
[6] Op. cit., p. 20.
[7] Op. cit., p. 18.
[8] Op. cit., p. 19.
[9] Op. cit., p. 22.
[10] Op. cit., p. 23.
[11] GUIMARÃES ROSA, João. “Campo geral”, in: GUIMARÃES ROSA, J. Corpo de baile I, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p. 128.
[12] Op. cit., p. 13.
[13] Op. cit., p. 37.
[14] Op. cit., p. 39.
[15] Op. cit., p. 29.
[16] Op. cit., p. 50.
[17] CAMUS, Albert. “O artista na prisão”, p. 75.
[18] (Sobre Oscar Wilde libertado da prisão, em desgraça e arruinado, a quem Gide não pode ajudar): “Naquele momento, Wilde, miserável, solitário, doravante estéril (...) deve ter pensado que perdera tudo, até mesmo a verdade que lhe aparecera em um pátio da cadeia. Estava errado, contudo. Deixava-nos uma herança real, De Profundis e A balada da prisão de Reading. Morreu bem perto de nós, em uma dessas ruas do rive gauche onde a arte e o trabalho confraternizam-se nas mesmas dificuldades. Mas o fato de que seu pobre enterro tenha sido acompanhado pelo povo da rua Beaux-Arts, no lugar de seus brilhantes amigos de outrora, dava justamente o testemunho de sua nobreza recente e anunciava aos iniciados que um grande artista, nascido há pouco, acabava de morrer.” – “O artista na prisão”, p. 78.
[19] Originalmente in: BOMBASSARO, L. C. et alii (Orgs.), Pensar Sensível, Caxias do Sul: EDUCS, 2011, p. 583-587.

Postagens mais visitadas