PÁSSARO NO METRÔ



Pássaro no metrô

 

Ricardo Timm de Souza




            O metrô lotado corria velozmente. Deixara já há tempos a estação central; mas a cidade era de tais dimensões, que muito ainda faltava para a estação final. A cada parada, a cada arranco, ruídos estranhos, alternância de luzes e sombras, seguia seu itinerário. Já era tarde; embora não fosse ainda uma das horas mais agitadas do dia, já se avolumava a massa daqueles que retornavam a suas casas distantes. Em cada parada, entravam grupos de passageiros apressados, enquanto outros pareciam felizes de abandonar aquele abafado complexo de metal. Somente alguns viajantes não se movimentavam muito – eram aqueles cujos destinos eram os mais distantes. A maioria destes havia se acomodado nos poucos bancos disponíveis, e suportavam a alternância de ruídos e luzes com ar de resignação. Falava-se pouco; além de ser difícil de ouvir, certamente não tinham muito a dizer uns aos outros. Alguns poucos liam, a Bíblia, o jornal ou o livro de auto-ajuda; outros olhavam seus companheiros de viagem, e outros ainda desviavam de olhares. Mas a maioria dormitava no embalo dos trancos, se não dormia francamente.

            Não havia como não se perguntar sobre seus destinos, mesmo sendo seus destinos, exatamente, o fim da linha do metrô. A longa serpente de metal, com seus arrulhos e trepidações, era senhora do destino de toda aquela gente, por pelo menos mais algumas paradas. Acomodadas em seu interior, aquelas criaturas pareciam circunscrever seus sonhos exatamente ao espaço que ocupavam, e nem um milímetro a mais. Oscilavam nas ondulações da viagem como se estivessem executando uma pequena dança cósmica, sempre em um pequeno desencontro com os rangidos e acelerações. Flutuavam agarradas a lisas barras de aço, a apoios, sentadas em bancos precários, as sacolas e pacotes cuidadosamente contidos entre o equilíbrio e o desequilíbrio. Seguiam seu destino.

            Sacolas e pacotes, aliás, viam-se de todas as cores, formas e tipos. Grandes e pequenos, identificáveis ou completamente misteriosos, alguns acompanhando seus donos em oscilações, outros bem acomodados em cantos da arquitetura dos bancos. Até malas se via; latas velhas; um aquário sem peixes, bonecas agarradas a criancinhas, uma moldura sem quadro, roupas indefiníveis amarradas umas às outras, pequenos brinquedos que espiavam através da sacola quase transparente que os continha.

            No banco maior, entre vários adultos, o menininho aninhara-se espremido. Não se agarrava a nenhum apoio; em lugar disso, suas mãos em concha estavam cuidadosamente ocupadas com algo. Mas o que poderia ser aquilo? Certamente algum brinquedo, eis o que parecia; olhando, porém com mais cuidado, ver-se-ia algo que surgia do ninho escuro e arredondado que as pequenas mãos formavam: uma minúscula cabeça de passaro espiava o mundo. Pequenos e vivos olhos negros, bico curto, penas desgrenhadas, sem se mover – apenas observando o mundo -, o pássaro seguia sua viagem, acomodado no cuidado de seu protetor. Faltavam ainda muitas paradas; seria certamente já noite quando o pássaro e seu amigo chegassem ao seu destino.

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