OS TRILHOS



OS TRILHOS


Ricardo Timm de Souza


            As razões pelas quais Estevão iniciara aquela caminhada estranha e desagradável ao longo dos trilhos, delas ele não se lembrava mais, pelo menos não exatamente, no sentido de um nexo causal preciso. Não fora, certamente, o “não” de Estela, aquele “não” firme, porém terno, dirigido à sua aproximação, que o deprimira a ponto de impeli-lo àquela jornada temerária. Não, não fora a negativa de Estela, que ainda completara a curta frase com uma explicação: “É melhor para nós dois”. Ele não ficara arrasado com este “não”: era uma possibilidade com a qual sempre contara e levara muito a sério. A figura de Estela, pronunciando sua negativa ao mesmo tempo em que tomava sua mão e a segurava firmemente, como uma cena de filme antigo, não saía de sua memória, mas, mesmo que de certa forma até o desejasse, não lhe permanecia como uma dor aguda, porém como algo terrivelmente remoto, do qual a própria dor havia fugido. Estranhou novamente o quanto aqueles momentos da véspera remetiam a um passado imenso, separado do presente por um muro definitivo, como, ao contemplarmos alguém que jaz em seu caixão durante os serviços fúnebres, logo antes de baixar à sepultura, nos sentimos inábeis em perceber realmente sua presença horas ou dias antes, quando vivia e era palpável. Lá estava Estela em sua lembrança, emoldurada por horas remotas e já irreais que ainda nem haviam decorrido, exatamente como se pertencesse a um outro nível do universo, a uma outra dimensão do existir. Se é verdade que há coisas que somente pela limpidez de uma lembrança remota podem ser realmente vividas sem serem violentadas, como certos tipos de saudade, este não era o caso; os momentos do passado se haviam desfeito num pó indefinível, como aquele que as rodas de ferro dos trens afastava ao passar, deixando os trilhos com seu brilho quase agressivo.
            O dia estava quente, quase de verão. O sol do início da manhã refletia fortemente naquele longo trecho de trilhos completamente retos, exceto logo adiante, onde uma curva se anunciava. Por um momento, uma conjunção de luzes iluminou os detalhes do mundo: formiguinhas andando sobre os dormentes, pedregulhos faiscando, florzinhas coloridas com cores desproporcionais ao seu tamanho, como se suas cores não se houvessem podido conter no recato de seus caules minúsculos. Mas tudo isso não passava de uma miragem da inclinação. A curva, de raio largo dado o desimpedimento do terreno, ficara já bem para trás, e a pequena paisagem se desfizera escorrendo para o interior da aridez. Ao perceber isso, Estevão virou-se. Lá, bem longe, podia ver ainda a cidade de onde saíra, uma massa enevoada, um fantasma inofensivo do passado. Alguns prédios maiores, as torres da catedral, um subúrbio distante que nem sabia existir, tudo era ainda divisável através da distância. O mais visível, naturalmente, os morros que cercavam a cidade e lhe emprestavam o nome. Eram realmente altos, irregulares, caprichosos em seus volteios maciços, e por isso pareciam ainda grandes. Mas já faziam duas horas. Duas horas que Estevão deixara a antiga estação ferroviária, hoje quase sem uso, e iniciara sua jornada sem destino. Pois ninguém, nem ele mesmo, poderia considerar como destino a próxima estação, em uma vila a sessenta quilômetros, ou a próxima cidade grande, a mais de trezentos. Tudo isso seria insensatez – mas mesmo assim ele o fizera. Saíra a caminhar pelos trilhos.
            No início, alguns armazéns e oficinas, desvios, restos de trilhos velhos, vagões abandonados, sucata com aquela tonalidade ímpar do ferro antigo, uma pilha de dormentes deixados de lado como promessas falhadas, a madeira desgastada pelos anos; após, algum galpão, raras casinhas ao longe com roupas dançando nos varais, muitos arbustos secos. A cidade se despedia. Tudo tinha agora uma cor opaca, até a grama, tudo era oliváceo, como lembranças que se desvanecem. Exceto os trilhos. Paralelos, só de ida, brilhavam ao sol com um ardor peculiar, ofuscante, destacavam-se da paisagem com seu fulgor impecável, mostrando que, se os trens não eram freqüentes, pelo menos eram regulares. Um calor morno subia da terra, os dormentes se sucedendo em um ritmo compassado e exasperante. “Que esforço”, pensou Estevão, “para assentar essas coisas com uma tal regularidade”. Quanto tempo não teria tomado aquela tarefa, quantos trabalhadores e máquinas. E agora ali jaziam, como os dias de um calendário inútil.
            Mas agora tudo isso estava igualmente no passado, naquele passado irrecuperável que separa os vivos dos mortos. À sua frente, bem longe, uma suave elevação que agora se aproximava, e ainda mais e mais horizonte à vista, desta vez sem alterações, apenas retidão.
            Agora já era muito mais que duas horas de caminhada, o sol alto; Estevão, passos automáticos seguindo a cadência obtusa dos dormentes, aproxima-se da elevação, um suave morro. Mas não apenas: os trilhos, subindo suavemente, anunciavam uma surpresa – uma ponte ferroviária. Muitos metros abaixo, um humilde riacho. A ponte, elegante, em arco, longa, apenas sustentando os trilhos, parecia ainda mais delgada de longe do que realmente era.
Estevão continuava sua caminhada, em direção àquele manto escuro – a noite profunda que desce sobre os homens para que estes, por algum tempo ao menos, enxerguem a si mesmos, a noite que já se prometia no ritmo morto daquela caminhada insensata. Mas não seria um escurecer como outro qualquer; a noite também se anunciava embaçada, de existência precária. Os sentimentos haviam ficado no passado remotíssimo, naquele “não” de Estela, e Estevão se sentia incapaz de recriar em si mesmo o que pudesse haver sobrado de então. O que não daria, naquele momento, para sentir uma paixão – pois as paixões dilacerantes pelo menos existem, e ele se sentia mergulhar paulatinamente no limbo mortiço da irrealidade. “Quando as crianças cansarão de nascer?”, perguntou-se, ao fitar os trilhos mais metálicos do que nunca, prometendo o inalcançável, dirigindo-se para lá com seu brilho persuasivo, paralelas se encontrando apenas no infinito do tédio, aquele estrabismo do destino. Estevão sabia que estava sendo cínico consigo mesmo, e sabia que o cinismo é uma espécie de ironia que perdeu as esperanças, ou que nunca as encontrara. Mas não podia deixar de pensar o que pensava. A ponte se aproximava, agora já estava sobre ela, arco delgado sobre o riacho tão lá embaixo, disfarçado entre as plantas, imperceptível. Já não havia mais terra firme, só a ponte.
            A ponte: fazendo um rápido levantamento do ocorrido, Estevão percebeu o quão absurda era sua situação. A altura seria tentadora, se ele ainda fosse capaz de sentir uma tentação. Mas as tentações estavam todas sepultadas no mais remoto dos passados. Pois o tempo passara definitivamente, nada o traria de volta: não valia a pena acionar a memória, ela só coletava os dormentes obtusos dos dias e das horas, dos anos e dos segundos, e nem os minutos alcançava, inspiração, expiração sem causa, a inércia dos trilhos no solo infindo, serpente fina e morta. E se é verdade de que coisas há que existem apesar de sua impossibilidade, esse não era o caso da esperança para Estevão: nenhum trem se aproximava. Nenhum trem o desejava, nenhum trem o encontraria no meio da ponte delgada, quebrando a monotonia dos trilhos. Trinta, cinqüenta metros o separavam do solo, lá onde corria o riacho cujo som era inaudível, mas nenhum trem o arremessaria daquelas alturas ao abismo amplo que dava vertigens. Nem mesmo o abismo o queria.

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