O VELÓRIO DA SENHORA M.



O velório da senhora M.

Ricardo Timm de Souza


            Também o velório da Sra. M. estava sendo desencontrado, como desencontrada correra toda sua longa vida. Apenas uma vizinha, além da irmã idosa e miúda e dos três outros parentes, estava no local. A tarde, filtrada pelas árvores próximas da entrada da capela, já iniciara uma dança de cores mortiças, a dança da noite. O ar estava perfeitamente parado; tudo na sala era inicialmente retilíneo, da silhueta da falecida à chama das velas. Mas, com o decorrer das horas, mesmo as silhuetas ficavam vagas. Agora já não se distinguia muita coisa, com exceção de algum murmúrio ou frêmito tácito que percorria os outros parentes – já que nem a vizinha nem a irmã eram adeptas de palavras ou sentimentos expostos.
            A tarde fluía. As flores das coroas se alternavam em recender seus respectivos aromas, enquanto as velas executavam uma contradança milimétrica. Pela porta se insinuavam cores indefinidas; iam, por sua vez, dando lugar a sombras igualmente indefinidas. As figuras na capela, alinhadas como as peças de um jogo de xadrez abandonado em um lance intermediário, mantinham uma ordem perfeita e irreconhecível. As cadeiras vazias e negras, bem alinhadas como os bemóis de um piano, sugeriam uma melodia inaudível.
            Agora a noite já estava no limiar da porta, e as lâmpadas fracas em nada a atenuavam. As silhuetas se confundiam. Até mesmo os parentes, cansados da inércia, haviam mergulhado em uma espécie de letargo. A irmã e a vizinha, afundadas em si mesmas, já faziam parte da pequena paisagem. Apenas um pequeno arrepio, muito modesto, percorria ainda o lugar; era o coveiro que, extenuado, deixara-se derribar em uma das cadeiras negras e, inclinando a cabeça sobre o peito, vertera uma lágrima única, que se evaporara antes de lhe chegar à face.

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