O HOTEL



O hotel


 Ricardo Timm de Souza


Já era quase noite quando eles chegaram ao hotel. A imponente construção à beira de portentoso vale; naquela hora do dia, não era mais possível dizer com clareza onde acabava o concreto escuro da construção e onde começava o amontoado de rochas e o pequeno bosque em que a construção estava encravada: tudo se confundia nas cores crepusculares de um dia sem sol.
A construção era realmente enorme. Uma espécie de maciço arquitetônico indefinível; a cor, uniforme em dia claro, parecia ainda mais indiferenciada àquela hora. No lado leste, centenas de pequenas janelas, como portinhas de um pombal, abriam-se cada uma à sua minúscula sacada; anexa ao grande edifício, uma enorme construção, um bloco atarracado, ronronava ruídos indefiníveis, os únicos que ali se ouvia, afora leves murmúrios do vento.
Foram recebidos por uma figura singular; um homem pequeno, jovem, com um escuro uniforme desproporcional a seu tamanho, era todo gentilezas; sua cortesia era tanta que chegava a atrapalhar seus gestos mais simples. Conduziu-os à recepção; lá os esperava, risonho, alguém a quem, de longe, se poderia atribuir a condição de irmão gêmeo do porteiro que os recebera. Não era, porém; mais falante, sentia-se obviamente mais à vontade em seu traje cinzento, formal, igualmente desproporcional. Seus gestos eram medidos e exatos, sua cortesia expressava-se em precisão mecânica de palavras e atitudes. Logo um terceiro funcionário já os esperava, surgido como do nada, com uniforme semelhante ao do porteiro e disponibilidade igualmente desajeitada. Era o mensageiro e conduziria as bagagens dos hóspedes aos seus aposentos, como se apressou a informar o funcionário no balcão.
Em passos miúdos, mecânicos, rápidos, uma mala em cada braço, pôs-se a caminho, seguido pelos hóspedes. O caminho era complicado. Após o amplo saguão, desviando-se de uma profusão de suntuosos objetos decorativos, entrava-se em um largo corredor, ladeado por infindáveis salinhas e lojas, àquela hora fechadas; das vitrines das lojas, todo tipo de objeto observava os recém-chegados. Ao fim deste corredor abriam-se vários outros, mas o funcionário, sem hesitar, tomou o mais à esquerda. Este era ainda mais logo que o primeiro e, embora amplo, extremamente abafado. Um lago artificial, de proporções perfeitamente geométricas, abrigava algumas formas de vida: peixes vermelhos, quase imperceptíveis na penumbra, jaziam imóveis, como a fazer parte da decoração, num arranjo estranho e numa ordem rígida, que parecia haver sido estabelecida por uma mão invisível.
Ainda absortos por aquela estranha ordem dos peixes, os hóspedes foram trazidos de volta à realidade pelo simples fato de que, ao fim do corredor, o mensageiro desaparecera. Não seguira a ordem natural do corredor, que agora, após pequeno saguão, se estreitava e virava à direita, mergulhando nas sombras; sabiam disso porque, neste caso, seus passos seriam ainda audíveis. Após um momento de hesitação, só restou aos hóspedes examinar as portas do saguão, em busca de alguma pista. E, de fato: numa dela lia-se – “elevador de serviço”. Fora ali que o mensageiro penetrara. Um toque no botão da porta imediatamente contígua, onde se lia “elevador”, e esta se abriu célere. Como que programada para a ordem exata dos acontecimentos, esperou que os hóspedes entrassem e, num tranco, iniciou sua curta viagem às alturas. Abriu-se a um novo corredor, em todo semelhante ao do térreo, mas que tinha, de ambos os lados, uma incontável sucessão de portinhas. Uma luz mortiça iluminava este corredor. Quase ao fim dele, uma silhueta se destacava: era o mensageiro, aguardando os hóspedes. As bagagens já estavam acomodadas e, com um movimento de cabeça, perfeitamente cortês e mecânico, o mensageiro despediu-se e iniciou, com seus passos miúdos, logo engolidos pela distância, seu longo caminho de volta.
A noite agora era completa. As luzes acesas não iluminavam a escuridão, mas rasgavam nela um pequeno véu amarelado. Fora, além das bordas da pequena sacada, sombras enormes moviam-se numa espécie de dança vaga e sinuosa – eram as árvores, perturbadas, em sua imobilidade, pelo vento. Mas, afora o rumor do vento, o silêncio era absoluto.

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