DE COMO LEVIANIZAR O GRAVE, OU: DO PERIGO DA SUPERFLUIDADE ASSERTÓRICA EM "FILOSOFIA"

"O pensamento ético de J. Derrida não precisa deter-nos por muito tempo. Em sua maior parte, ele é uma extensa nota de rodapé às meditações de Levinas, com as quais Derrida - de modo bastante estranho, à luz de suas diversas críticas ao filósofo mais velho - certa vez se declarou inteiramente de acordo. Derrida escreveu com empolgação que Levinas teria revolucionado todo o significado da ética, mas isso desconsidera o modo como a obra levinasiana ainda agradece a uma concepção tradicional (e profundamente suspeita [sic]) da ética como sendo sobretudo uma obrigação, o que também faz Derrida, aliás" (p. 337-338).



"É verdade que Badiou continuou a ser ativista político, mas isso nos faz lembrar Derrida dos Espectros de Marx, com seu desejo de um marxismo sem doutrina, programa, partido, ortodoxia nem instituição, o que é muito parecido com o anglicano ultraliberal que busca uum cristianismo não estorvado por embaraços como Deus, Jesus, céu, inferno, pecado e arrependimento" (p. 356).


"Como Levinas e Derrida, Badiou encontra na ética o flagelo da moral cotidiana. Apesar de todo o seu feroz antagonismo ao pensamento deles (...) alguns aspectos de sua própria teoria seguem a mesma trilha dos depositários da Alteridade sobre os quais ele é tão reanimadoramente (sic) grosseiro." (p. 357).



"Há algo de opressivamente desumano no Outro de Levinas" (p. 319).




"Tal como Levinas, Derrida emprega o ético para denegrir o sociopolítico" (p. 338).



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Nunca tive simpatias por Eagleton, que esteve em moda no Brasil no tempo das modas da pós-modernidade - um tipo de marxismo americanóide sem, nem de longe, a profundidade do Jameson. Veja-se EAGLETON, Terry. O problema dos desconhecidos - um estudo da ética, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. É uma espécie de história escolhida da ética - ou de "éticas escolhidas" que vai principalmente dos ingleses tradicionais visto por algo como uma "visão lacaniana" a alguns contemporâneos, sem esquecer uma espécie de louvação deslumbrada a Spinoza - do qual, pelo discurso, tenho sérias dúvidas se entendeu o principal. O capítulo final tem o sugestivo nome de "a banalidade do bem". O capítulo que li mais atentamente, 9, ("Lévinas, Derrida, Badiou") do qual tirei as citações acima (sobre as quais, obviamente, qualquer pessoa que conheça minimamente os autores percebe imediatamente a mais completa impropriedade), é um desfile de superfluidade assertórica, na base provavelmente do "ouvir dizer" (o único analista consagrado de Levinas citado, por exemplo, é Simon Critchley - como se nada houvesse surgido desde então), que não faz senão repetir o lugar comum (a ética de Levinas é uma espécie de auto-tortura religiosa do sujeito, "ser sujeito é ser subjugado" (p. 311); Derrida, o "pós-moderno" (p. 359) é perdido no medo do anti-stalinismo e Badiou no fundo comunga a "vacuidade" com esses dois). É o tipo de livro  - deslumbrado em aspectos de Lacan (cum granu salis) e Zizek, e meio desesperado para defender a tradição anglo-saxônica do vírus que esses "franceses" significam - que merece uma atenta análise do discurso, em sua apologia ao que entende como uma ética "utilitarista" combinada com a atividade "marxista-revolucionária". Sobre Levinas, pelo menos acerta ao comentar que  "o Outro levinasiano, nos termos de Burke, é mais sublime do que belo" (p. 331). Aliás, o tema da morte não pertenceria à história universal da Filosofia que, como se sabe em todas as eras, é principalmente uma meditatio mortis - mas se tornou apenas "um indicador de profundidade filosófica do indivíduo desde os primeiros escritos de Heidegger" (p. 321). Acho que isso é suficiente. Panfleto que se passa por livro, porém: bem divulgado.

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