A VAQUINHA



A vaquinha

 

Ricardo Timm de Souza

            O professor ia viajar: todas as crianças sabiam. Exatamente para onde, por quanto tempo, com que finalidade – tudo isto, por seu lado, pertencia ao campo das especulações. Mas sabia-se que seria uma viagem longa, em todos os sentidos; e se sabia igualmente que era muito necessário, nesta oportunidade de despedida final – a última visita do professor à comunidade – externar-lhe todo afeto possível, através de uma lembrança cuidadosamente preparada para a ocasião. Naturalmente, não seriam lembranças caras e sofisticadas – as crianças eram muito pobres, e nada entendiam de objetos caros e sofisticações -, mas seriam certamente algo fora do comum, como fora do comum era aquela viagem que já plantara muitas saudades nos pequenos peitos.

            A tarde de verão avançava firmemente: havia sido longa, mas encaminhava-se para seu fim, não nas luzes claras que ainda invadiam tudo, mas no horário; logo, quase subitamente, o sol iniciaria seu mergulho final no horizonte, dando termo àquele dia tão cerimonioso e inquietante. Esta era a verdade: por mais que quisesse ainda compartilhar da companhia das crianças, de seus abraços e afetos, perguntas e silêncios, logo o professor teria de, definitivamente, enfrentar o decisivo e tão postergado doloroso momento da despedida final.

            O professor já colecionava uma grande quantidade de lembranças, presentes de despedida. Os mais variados objetos, ou fragmentos de objetos, ali se encontravam, em sua pasta: muitos desenhos cuidadosos, alguns inventados, outros copiados; colagens longamente planejadas, lápis de cor, móbiles delicados, pequenos animais de papel e mesmo de pano; cartas a serem abertas posteriormente, com pequenos corações colantes como lacres; bolinhas de gude de muitas cores e mesmo pequenos automóveis de ferro. Parecia não haver sobrado, no universo infantil, objeto algum que não estivesse ali representado – ou, pelo menos, fragmentos de objetos. Pois a argola de um chaveiro, ou parte de um enfeite do último natal, contavam-se igualmente entre os preciosos objetos que o professor recebera de presente.

            Era chegada a hora. O fato de que o tímido Fabinho não entregara nenhum presente doía ao professor; sabia que ele estava se sentindo, de algum modo, inferiorizado e triste; o professor até sugeriu que desenhassem juntos alguma coisa, mesmo improvisada, ou escrevessem algo, mas Fabinho negou-se; só não queria afastar-se de seu querido amigo que, na sua incerteza infantil, sabia que poderia não voltar a ver nunca mais. Metido em suas roupas puídas, os olhos negros coroando o corpinho magro, mantinha-se o mais próximo possível de seu amigo. Suas mãos, tentava escondê-las: as palmas estavam negras, provavelmente por haver brincado com carvão – e talvez por não saber, em sua timidez, onde colocá-las.

            As despedidas são intensas; após muitos beijos e abraços, e um longo retorno a sua casa, o professor, altas horas da noite, com coração cálido, pode fazer o inventário das preciosidades que recebera; e não foi sem surpresa que descobriu no fundo da pasta cheia de presentes uma vaquinha velha de plástico, cujo couro, originalmente cinzento, havia sido cuidadosamente embelezado por inúmeras manchas negras feitas com carvão.

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