A RUA



A rua

 Ricardo Timm de Souza



Às seis horas da tarde hibernal, as brumas difusas tornam os espaços mais impenetráveis, e o choque suave entre as luzes moribundas do dia e os focos nascentes das luzes da noite contribui para a criação de uma atmosfera indefinível, sem certezas prévias: um nascedouro. O farfalhar incessante das línguas dá lugar a uma cacofonia mais inteligível: o crescente ruído enfumaçado de veículos a motor. Na praça principal da cidade, a agitação é grande; os transeuntes se entrecruzam, na pressa do retorno, tecendo uma teia invisível que os une a todos e que os caracteriza como pertencentes a um mesmo espaço – o espaço humano – em franco processo de dilatação. Os ônibus lotados partem na direção desta dilatação, da reocupação das bordas deste centro pulsante, em bairros distantes, geralmente mais calmos, os quais redescobrem sua união com a centralidade geográfica por via de seus elos humanos.

No centro da praça, a torre de comunicações domina os espaços e seus entrecruzamentos: é a referência para os estrangeiros à cidade, os quais se guiam por ela. Ela determina a concentricidade da geografia: permanece em seu lugar, em sua verticalidade sólida, não oscila, não se move nem um milímetro, não dilata seu espaço, em contraponto com a flexibilização dos espaços humanos. As lojas, já invadidas pela penumbra, acendem suas luzes, criando por sua vez espaços de acolhimento aos clientes retardatários. Os vendedores ambulantes reúnem com rapidez suas mercadorias dispersas, concentrando-as em certos pontos bem escolhidos para passarem a noite em segurança. Nas fábricas e oficinas, a atividade é febril: fizeram-se coisas o dia inteiro, transmutaram-se substâncias, compuseram-se artefatos, o homo faber fez jus a seu nome; agora é hora dos balanços finais do dia, de mais um dia.

No hospital, a algumas quadras, aumenta o isolamento do mundo externo, em preparativos para a noite: os espaços se reduzem. As repartições públicas se tornam espaços adormecidos, sem vida; a Biblioteca pública, meio esquecida, ainda é, por alguns momentos mais, um espaço privilegiado, espécie de recôndito dos tempos - e dos espaços a eles ligados - do passado. A penumbra a penetra de forma mais intensa, invade com mais rapidez os volumes delimitados pelas grossas paredes antigas.

Às bordas da praça, a banca de revistas cria vida nova: suas luzes brilham, com efeito, com mais intensidade do que a iluminação pública. Cria também uma espécie de referência própria. Ponto de parada obrigatório para os transeuntes não excessivamente apressados - atraídos por ela como os vaga-lumes pela luz -, suas revistas dispostas externamente, como chamarizes, atraem grupos de curiosos. Também seus jornais, que falam de outros espaços, atraem ainda a atenção. As mães puxam seus filhos apressadamente pelas mãos, na ânsia de reencontrar o espaço afetivo e original de suas casas; as velhinhas carregadas de compras pretendem enriquecer seus espaços com elas.

            Os cães de rua agitam-se também: a fome os aproxima dos vendedores ambulantes de alimentos, na esperança improvável de um naco esquecido. Andam de um lado para outro, atravessam a rua e voltam ao ponto original, farejam as pernas do cavalheiro à espera do ônibus: como última esperança do dia, têm a de achar um dono. Algum gato, perdido em meio à profusão canina, olha com indiferença a confusão - seu espaço não é esse, não tem por que se apressar. Os mendigos reúnem suas energias e suas moedas e abandonam seu local de trabalho - circularão pelo centro da cidade, na auto-ilusão de terem um objetivo.

Os noctívagos de toda espécie principiam a acordar de sua letargia, reúnem-se em grupos, renovam sua cumplicidade, dirigem-se a bares recendendo a promessas e virtudes etílicas, onde encontrarão sua verdadeira interioridade - um mundo menos incômodo e ininteligível, um suave conforto onde, na penumbra, as coisas sejam menores e mais claras, mais próximas. Na barbearia, ainda se trabalha; o mundo de opiniões ali expressas, ao longo do longo dia, explodem todas como bolhas de sabão, preparando o ambiente para o dia seguinte. Nos restaurantes finos, os garçãos apressados preparam-se para sua longa jornada de trabalho: quem ali chegará terá de ter a impressão exata de estar no centro do mundo, no centro de todos os espaços.

No porto, atrás do mercado público tornado quase uma sombra, as barcas antigas e cansadas ainda aguardam seus passageiros para conduzi-los à cidade próxima: estabelecem uma linha geométrica entre dois espaços geográficos, entre duas dimensões do habitar, separadas pela massa aquosa cinzenta e fria, e unidas quase que só por um filamento de humanidade.

            Ao fim da larga rua que inicia na praça principal, pontilhada de portas coloridas e convidativas, o ritmo é outro. Carcaças de caminhões velhos, agora quase fantasmagóricas, quase redivivas, delimitam um espaço decadente, carcomido pelo tempo, pelo abandono e pelo desprezo das luzes: o mundo das sombras. Tomam formas indefiníveis; nenhuma de suas partes enferrujadas, remanescentes do passado, consegue desaparecer subitamente de seu lugar - destroços pesados, incômodos. Os caminhões mutilados ainda têm faróis; estes, porém, não iluminam mais nenhum caminho: apagaram-se para sempre, selaram o passado em si mesmo. Ali perto, riachos cheiram a lixo: são o lixo dos dias. Os velhos casarões retomam o peso de seus anos através de suas sombras reencontradas: são a sombra da história.

No outro lado da rua, as prostitutas, abandonando seus abrigos diurnos, preparam-se para a longa noite de horas lentas, acostumando novamente os olhos às luzes coloridas que iluminarão suas feições e formas de um modo irreal, como irreais são seus sonhos que não têm tempo de sonhar - seus sonhos que se desfizeram em uma miríade de fragmentos quase imperceptíveis, totalmente indecifráveis na nova lógica, fragmentos dispersos em um espaço esquecido. Preparam-se para dilatar seus espaços. A distância que medeia entre elas e seus atrativos, este intervalo difícil, faz parte também do abismo humano. Tudo cheira a velhice e umidade, ainda sua juventude carregada, uma recorrência, um cheiro antigo: uma ancestralidade de raízes ilocalizáveis mas presentes nas formas assumidas, ocupando espaço, reconstruindo-o em torno a si, em torno à sua antigüidade, em torno à sua improvável sobrevivência.

            No fundo dos casarões abandonados, com seus porões repletos de sonhos destroçados e pó dos séculos, em meio a circunscrições ignoradas e a espaços malditos, respira-se uma luz avermelhada, irreal, uma atmosfera de outro mundo, um mundo desprezado, sartreanamente demasiado, profundamente incômodo: os travestis preparam a alquimia que transformará o dia insosso e hostil em uma quente noite, ainda que fria - fazem reserva para o espaço de seus sonhos, em mútuos estímulos e consolos, fingindo-se de bem-vindos enquanto respiram uma atmosfera aguda de brilhos fugazes: tentarão criar um lugar extraterrestre, onde possam viver em agitada paz - pura esperança, prototípica da esperança humana em geral: definitivamente mutilada já de início. Tentarão ainda uma vez transformar o desprezo e a execração social em combustível de vida, doce ressentimento sempre renovado. Sua vida: paz adiada. Encurralados entre o corpo e a alma, este é seu espaço reduzido, opressivo intervalo; vivem a vida num instante. O tempo corre; apenas seus suaves crepúsculos lilases são eternos. Não se entregam a seus algozes - apenas recendam a humanidade.

            Por todos os lados, vindas de todas as dimensões, a gente noctívaga, as aves noturnas de toda espécie imaginável se agitam, enfeitam-se de penas novas, estabelecem-se como centro de um círculo de existência conquistado a duras penas, brilham: estão no ponto exato de intersecção entre a arte e a vida, na vida imitando a arte, festas e encontros entre a eternidade e o tempo, entre a realidade e a irrealidade - este é seu espaço, espaço noturno, virtualmente humano, tão dificilmente humano.

            Ainda mais além, perto dos últimos armazéns do porto, a favela opaca fica ainda mais densa, mais pesada, mais escura; reassume de forma ainda mais intensa, na escuridão da noite, fora de olhares indiscretos, a solidão única de sua miséria compartilhada, o espaço asfixiante onde vive. Seu ritmo é agora, não obstante o frenetismo dos dias, excessivamente lento. Respira com dificuldade. Seus contornos fantasmagóricos, divisáveis através das exalações da grande usina, tornam-se mais e mais. A favela é uma grande coleção de existências demasiadas, que ocupam espaço demais, que assomam onde não deveriam crescer - dão-se.

            No fundo do último dos barracos, a criancinha doente prepara-se para dar seu último suspiro: seu espaço está agora agudo como uma ponta de alfinete, e reduz-se cada vez mais.



* * *



No pequeno parque próximo ao centro da praça, o avô chama o neto para voltarem para casa: dois tempos bem diversos se entrecruzam em uma única palavra. Os animais bem cuidados do pequeno zoológico observam a espantosa celeridade da vida ao redor, o frenetismo descompassado da modernidade ou de suas sobras - seu tempo é outro, ficou em suas origens. Fora de suas jaulas, o tempo foge, acompanhado por mil e um relógios. Na praça, o tempo todo se acelerou: apenas o da altaneira torre de comunicações permanece ainda o mesmo, em sua materialidade estrita.

No hospital, o tempo do moribundo acelera-se ainda mais, contrai-se no presente, contrai com ele o tempo dos circunstantes; o tempo do noctívago, por outro lado, dilata-se a perder de vista. Sua obsessão pela noite é a procura de um tempo sem limites, de uma vida sem limites, da impossível infância eterna pelo adiar das horas.

Os amantes preparam-se para um tempo especial; este é tão grande quanto a proximidade deles, quanto seu sentido de eternidade. O relógio explode em uma miríade de fragmentos: representa o tempo em que não estavam próximos, e os fragmentos são as esperanças carinhosas que alimentam e das quais se servem em sua pulsação de eternidade, em seu tempo reservado, em sua duração particular, pontilhada de pequenos brilhos de íntima cumplicidade. Ondas de sentimento transformaram a vida em um filme interminável, onde são, indicados por unanimidade, os atores principais. Nenhuma tempestade é suficientemente forte para abalá-los e ao pináculo onde estão postados. Um céu povoado de arcos-íris flutua por sobre seu encontro e, no lento pulsar da perfeição, o tempo não tem tempo para passar: todo o espaço é seu.

            No interior das casas bem iluminadas (mas também com gentis pequenas zonas de mistério, de penumbra), revive-se o gosto dos tempos ternos da respiração cotidiana. São sucessivos e se interpenetram. É um acúmulo de tempos interessantes, bem vivos, bem organizados na ordem das afetividades. Os transeuntes apressados sonham quase todos com estes tempos, tempos quentes dos contatos, das aproximações, da recriação das interioridades. Sua casa os aguarda. Aproxima-se um tempo importante, auto-referente, repleto de simbolismos ricos, de duração vívida - bem diferente do pesado fluxo de horas que foram obrigados a suportar ao longo do dia. Um outro tempo.

            Em um outro espaço, não longe dali, alguém reluta em voltar para casa, em deixar-se esmagar, mais uma vez, pelas paredes asfixiantes de um espaço que não lhe pertence afetivamente. Aproxima-se um tempo tenso: terá de reentrar no profundo deserto do qual o oásis das horas diurnas o tinha livrado. As horas noturnas são um longo túnel de angústia quase sem fim. Mais uma vez, reconsiderará o valor intrínseco de sua vida, de suas horas a correr; mais uma vez, comporá uma delicada sinfonia de consolações, sentirá pena de si mesmo e superará precariamente, apenas momentaneamente, o desconsolo que habita suas veias; expor-se-á, talvez, a violências diversas, a horas violentas, habitadas por uma sucessão quase interminável de instantes insuportáveis. Um tempo pesado, exigente demais, uma tentativa desesperada de divisar o sentido dos dias, o sofrimento multiplicado, derramando-se pelas horas, os minutos e os segundos, durando demais - micróbio oprimido pelas passadas de tempos duros, impiedosamente solenes como a sucessão infinita dos séculos.

            No porto velho e sujo, a carcaça carcomida do barco antigo vegeta junto a outros dejetos do tempo: sua humanidade esvaiu-se, seu tempo apenas passa. É, agora, apenas uma transformação química, ignorada até pelos peixes heróicos que habitam as águas fétidas. Seu tempo é desinteressante; a ninguém interessa sua velocidade; devorando-se em si mesmos, seus resquícios escusam-se por ocupar instantes preciosos das grandes eras.

            Nas antigas casas em processo de desagregação, tem-se ainda um testemunho: trazem para o presente seu tempo sob a forma de um acolhimento possível, embora improvável como a segurança que oferecem seus alicerces carcomidos. Em eloqüência muda, traduzem o passado em uma linguagem que o presente poderia entender, se quisesse. Suas cores são geralmente pálidas: do futuro, nada esperam.

            No asilo de velhos, com sua pintura esverdeada simbolizando a vontade de ter esperanças, os tempos convergem e os segundos batem surdamente. Cada velho é uma metáfora do passado, uma metáfora existencial com a também improvável esperança de ser compreendida, investigada, de ser integrada à ordem da significação presente. Os amplos mundos humanos que os velhos trazem atrás de si, cargas pesadas, variadas, não se fazem presentes de forma colorida, sedutora: apenas existem, dão-se ao presente em gratuidade e penetram no âmbito do demasiado. Seu tempo é outro.

No cemitério toscamente pintado de branco, de muros insossos, meio reconstruídos, o tempo não parou: apenas diminuiu sua marcha, concentrou-se e se acumulou em forma de coagulação do passado, como no jardim de infância bem decorado se acumula sob a forma de concentração de futuro, imprevisibilidade. Em ambos os casos, está a humanidade às voltas com sua temporalidade mais própria e mais incômoda, seu intervalo propriamente dito, sua circunscrição desconfortável mas nem por isso menos real. Ali perto, os trilhos conduzem a quase nenhum lugar; seguindo na direção contrária, cruzarão os barracos da favela disseminada pelo mundo cinzento. Suas esperanças, seu tempo, escorre junto a seu esgoto a céu aberto: apenas resquícios da boa realidade, da realidade possível.

            Às voltas com suas obras, o velho professor compraz-se consigo mesmo e dá os últimos retoques em sua vida: aproxima-se da maturidade, e a antevisão de suas forças plenamente desabrochadas é doce como a primavera. Tem razão em seu sentimento de plenitude: o tempo não mais o engana. A plenitude não necessita de tempo; ela o domina completamente, ele é seu escravo humilde, ansioso por dobrar-se a seus caprichos, por reafirmar sua subserviência; o ritmo maquinal não mais seduz - revelou-se em sua essência como nada mais que uma tola formalidade, como o fútil traje de luxo das horas e dos instantes infinitos. O professor dispensa seus louros: evadiu-se completamente do tédio, e os elogios têm tanto sentido para ele como o tagarelar dos papagaios. Ele não se importa que não o compreendam; muito menos que finjam compreendê-lo. Não mais vive de brisas, mas apenas do reencontro constante com as realidades: aprendeu a dialogar com elas. Querem eternizá-lo em uma estátua de cera e ele não se importa: sabe que não estará lá - transferiu-se para além do horizonte, e que finjam poder segui-lo é a última coisa que o enfada. O tempo se recolhe, sem excessivas mesuras, para lhe ceder passagem.

            Cruzamentos: o cemitério e o jardim de infância se encontram e se entrecruzam na humanidade do tempo.

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