“TRANSPARÊNCIA COMUNICACIONAL”: O SURGIMENTO DE UM CONCEITO





“TRANSPARÊNCIA COMUNICACIONAL”: O SURGIMENTO DE UM CONCEITO



Ricardo Timm de Souza[1]



            É notório o fato de que a crescente abrangência e difusão da internet, e especificamente das redes sociais, se configura em fato digno de nota em diversos âmbitos da cultura e dos estudos contemporâneos. Porém, no que diz respeito especificamente à sua capacidade de mobilização de pessoas em torno a causas ligadas a temáticas humanitárias e ecológicas, as opiniões divergem; enquanto alguns destacam ser o efeito prático da mobilização social virtual muito reduzido ou inócuo, não se traduzindo, ou ao menos não se traduzindo necessariamente, em ações concretas e efetivas, outros relevam o fato de que a questão que permanece no universo em rede é a mesma que é encarada por segmentos, instituições, grupos e facções conservadores e reacionários, das mais diversas tinturas, como o “grande perigo” da internet, a saber: que é possível acontecer que, no universo das infinitas virtualidades, a pessoa certa diga a coisa certa da forma certa e no momento certo ao público certo – o que causaria uma reação em cadeia com conseqüências impossíveis de prever. Essa é a razão pela qual há toda uma enorme mobilização em muitos grupos de interesse, segmentos sociais e mesmo em países inteiros no sentido de tentar desesperadamente “controlar” a internet – e não, como muitas vezes se pensa e é alardeado, devido à necessidade de evitar e punir crimes virtuais ou que tenham a rede mundial de computadores como elemento facilitador.
            Ora, para além dos argumentos há os fatos indeclináveis. Um fato notável, impossível de não se perceber, é que, com o advento e popularização da rede, ultrapassando todas as fronteiras da tradição, disponibilizando uma massa de dados em volume inconcebível há poucos anos atrás a um incontável número de pessoas, a relação das próprias pessoas com os acontecimentos está em transformação. Não há mais mídias hegemônicas consolidadas (veja-se o crescente e inelutável declínio de circulação de jornais impressos, por exemplo, geralmente já completamente abandonados pelas novas gerações), e as ainda subsistentes enfrentam um crescente questionamento crítico por parte de idéias que se transmitem em velocidade extraordinária por vias alternativas, mas que nem por isso são menos incisivas e poderosas. A naturalidade da descrição unilateral de fatos ou acontecimentos atravessa seus últimos dias e, a bem da democracia e da consciência social, não deixará saudades. Observa-se o canto de cisne da tradicional figura dos “formadores de opinião”, a difundir interesses particulares aos quais servem como se fossem interesses públicos. A conseqüência prática que desta metamorfose já se pode inferir é que cada vez mais – e, naturalmente, as novas gerações se encarregam ainda de acelerar esse processo – o “argumento de autoridade” terá de ceder espaço à “autoridade do argumento”, pois, ínsito às novas formas comunicacionais, está a contínua crítica ao meramente “instituído”.
            É nesse sentido que se impõe a necessidade de novas categorias interpretativas desta complexa paisagem virtual ainda tão nova. O fato constatável empiricamente de que é cada vez mais improvável, pelo menos no âmbito público, que ações cometidas às escondidas permaneçam distantes da consciência social de uma organização ou mesmo de um país inteiro, esse fato exige respostas cognitivas à altura de sua gravidade e da oportunidade de humanização que significa: novos desafios se colocam a quem pensa a sociedade. Por enquanto, em meio a esse cenário multifacetado, é possível nos regozijarmos, pelo menos, que crescentemente ações ilícitas e/ou anti-éticas cometidas por indivíduos ou grupos na pretensão de invisibilidade vem sendo trazidas à luz pelas tecnologias de informação, oportunizando reações sociais à altura. Todavia, como resultado do que se observa de forma ainda muito fragmentada e descontínua, coloca-se à contemporaneidade a necessidade de categorias interpretativas à altura dos novos tempos. É possível, e mesmo muito provável, que “transparência comunicacional” seja uma delas. “Transparência comunicacional” significaria a necessidade inelutável de que pessoas, grupos, organizações e todas as formas de vida em sociedade se conscientizem de que a ação em sociedade não é uma questão privada, e sim uma questão que atinge a sociedade em geral e que, portanto, cada um é, cada vez mais, chamado a legitimar sua posição e seus atos na tessitura social. É igualmente muito provável que aqueles indivíduos ou grupos que tentarem ignorar tal estado de coisas estejam fadados à extinção – e extinção dolorosa.

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