ÉTICA, VIDA E CONHECIMENTO





ÉTICA, VIDA E CONHECIMENTO[1]

Ricardo Timm de Souza


     Muito boa tarde, obrigada pelo convite, às professoras que eu já conheço, aos colegas que estou conhecendo, colegas de outros momentos também e a gentileza de toda a tramitação para que a gente pudesse estar aqui. É um prazer estar aqui e encontrar vocês, sempre colegas, sempre amigos.
     Eu estive o tempo todo pensando: qual a melhor forma de abordar o tema “ética, vida e conhecimento”? Porque existem obviamente infinitas formas, e eu fui colocando algumas palavras, que pelo jeito tocam, digamos assim, na ideia geral do evento. E o meu problema é sempre o seguinte: tenho muito pouco tempo para dissertar sobre muitas coisas e não dá para transformar em confusão algumas intuições ou algumas questões que a gente já tem por dadas.
     Então eu peço sempre a paciência das pessoas que vão me ouvir, porque eu não vou argumentar a cada momento. Isso tudo é o somatório de anos e anos que a gente vem trabalhando, a gente que tem bastante experiência no que concerne a essa questão. Nós, que já acumulamos tanto, que às vezes nos é difícil até recuperar todos esses dados. Mas, podemos iniciar esta discussão de uma forma bem clara, bem objetiva, desde um ponto de vista da minha formação obviamente e a minha orientação, pois não posso falar senão por mim.
     Podemos começar, assim, trazendo algumas dimensões que podem, num primeiro momento, soar quase como prosaicas, mas, que podem talvez, numa revisão mais profunda e numa abordagem mais densa e mais pensada, permitir que se extraia delas algumas questões mais significativas.
Vamos começar pela questão do conhecimento. Vocês notaram que eu coloquei algumas coisas aqui, eu coloquei a ética, o conhecimento, a vida; a minha triangulação seria essa, simplesmente porque está colocada um pouco da proposta do evento.
     Vamos arbitrar um desses termos para iniciar. E eu vi que quando a colega trouxe essa garrafa que está sobre a mesa, era a deixa para iniciar os questionamentos, e eu vou explicar por que. Vejam bem, a gente tem uma ideia muito romântica, muito tradicional, muito vezes até ingênua do conhecimento.
     Eu sei que vocês aqui são um dos grupos privilegiados que costumam fazer uma reflexão, vamos dizer assim, meta-epistêmica. Cada vez refletem sobre o conhecimento que constroem até pelo próprio cabedal teórico que eu sei que vocês aqui, de um modo geral, trabalham. Conheço alguns dos trabalhos que aqui se desenvolvem. Então, por isso, seria um dos públicos menos ingênuos justamente para se trabalhar essa questão.
     Conhecimento é poder. Mas conhecimento não é poder porque Bacon disse que conhecer, saber e poder coincidem essencialmente. Conhecimento é poder porque é a nossa forma de chegada à diferença, que é a origem do conhecimento – ninguém conhece o que já conhece; o que já conhece, já é conhecido. Quando se fala em conhecer nós estamos falando em verbo, em verbalização, e não em substantivo, e não em uma iluminação fora do tempo, mas no tempo. Um processo de aproximação de uma determinada realidade. Isso é verbalização, isso é temporalidade, isso é temporalização.
     Não é desde aquela postulação ali no início da modernidade, vamos dizer assim, trazida por Bacon, de que saber e poder coincidem essencialmente porque é assim que está lá, mas sim, desde que a gente possa conceber um ato cognitivo, ou seja, desde sempre. Então vejam o porquê eu falei nas garrafas. Porque se eu olho essa garrafa com a ideia normal que as pessoas têm de conhecerem – quando eu digo normal, acho que ficou bem claro no discurso da colega, e como sempre existe a guarda levantada, e com muita razão, sobre a tendência positivista que bem ou mal nos engolfa e, não obstante, é assim que normalmente as pessoas concebem este tipo de realidade. Eu tenho este objeto, eu quero conhecê-lo, o que eu quero dele? Eu quero extrair dele a sua medula, as suas entranhas, eu quero tirar dele o seu sentido de realidade para mim. Eu quero saber... Isso aqui é um polímero. O que é isto aqui, está bem, é uma garrafa. Quando eu digo uma garrafa, e não importa se eu estou inferindo, ou se eu estou deduzindo, etc., o que eu estou, na verdade, é estabelecendo uma lógica de poder a respeito desse objeto; pela minha pronúncia eu destituí este objeto de potenciais outros seres e outras apreciações e expressões que talvez esta garrafa pudesse ter. Foi muito bom que a colega citou o Haroldo de Campos, e outros pensadores que estão na linha da estética, porque a estética impediria que isso fosse cabal. Agora, não vamos nos iludir, porque nós sabemos muito bem que a estética é uma prima pobre de todas as ciências e todos os saberes. Nós sabemos muito bem disso, desde sempre. Aliás, vocês sabem que se num curso de filosofia tem que cortar alguma coisa, em algum momento, geralmente se corta a estética. Tem cursos de filosofia que são autorizados a funcionar sem a estética. Interessante aquilo que se diz da sensibilidade, da aisthēsis; ele é, de alguma forma, colocado assim neste grupo.
     Quando eu chego a esta garrafa para conhecer, eu retiro da garrafa o sentido de garrafa que ela tem para mim e pronuncio a verdade sobre ela. Nada menos do que isso. Nós, formados no pensamento grego, bem ortodoxo, não queremos a dóxa, não queremos a aparência, não queremos a proximidade de uma ideia, nós queremos a coisa mesma. Ou tão próximo quanto possível da coisa mesma. Então, se nós temos um elemento, vamos dizer, um elemento linguístico, que pode definir este objeto como sendo uma garrafa, essa pronúncia “suga” para dentro de si mesma as potencialidades deste objeto enquanto uma estranheza diferente do meu intelecto antes de chegar até ele.
     Então, com isso eu afirmo o meu poder sobre esse objeto, eu digo: isto é uma garrafa! Eu digo, isto é um copo, isto é um relógio, isto é uma caixa. E de repente, eu digo, isto é uma pessoa. E aí vocês já notaram como a coisa começa a complicar um pouquinho. Por que eu quero tanto dizer desta garrafa? É o problema ancestral do pensamento que vai sempre se colocar. Se a gente for pelo lado de Aristóteles é de uma forma, do Platão é outra. Mas a questão é a seguinte: como é que eu posso usar o universal para simbolizar ou para significar singulares? Por isso que eu disse, o bom que esta garrafa é um pouquinho diferente dessas outras garrafas aqui na mesa, não concordam? Mas quem é que tem dúvida, uma vez sabendo que isso é garrafa, que isso outro também é garrafa? Então, olhem que artificio excelente que nós temos do ponto de vista cognitivo para podermos, vamos dizer assim, transbordar da nossa experiência e passarmos logo para a criação de uma espécie de micro-delírio derivado onde eu coloco todos os objetos que cabem sobre aquela designação específica, sobre um gênero próximo, para falar com Aristóteles, num mesmo saco. Então, isto é uma garrafa, porque isto outro é uma garrafa, e eu de algum modo soube pelos meus processamentos mentais, independentes se são por inferência ou por dedução, etc., chegar à conclusão que este objeto também é uma garrafa, e isso me dá um poder gigantesco.
     Observem agora como, digamos assim, essa questão quando se coloca desse modo, traz congenitamente um buraco ético lá na origem. Ético no sentido de relação. Porque observem o seguinte – e isso eu costumo dizer sempre que estou falando assim para grupos, em palestras, é um exemplo que sempre cabe – nós temos palavras para designar praticamente tudo. Nós somos muito denotativos, tentamos ser muito precisos na nossa promulgação de realidade, na medida em que a nossa experiência é metabolizada pelo nosso intelecto e exprime algo. Então eu aqui do alto do meu podium, falando ex cathedra, olho para vocês e digo: olha, existe uma palavra que une todo mundo aqui, uma palavra que nós glorificamos, gostamos e tudo mais, é uma palavra, ou uma expressão: ser humano.
     A minha pergunta, que eu sempre faço neste momento, é: alguém aqui se ofende de ser chamado de ser humano? As pessoas costumam não se ofender por serem chamadas de ser humano. Aonde é que eu quero chegar com isso? A Neuza se ofende de ser chamada de ser humano? Não. Mas agora vem a pergunta: a Neuza se contenta com ser chamada de ser humano? É evidente que não. Neste momento, eu estarei chamando-a de ser humano e não de Neuza. A denominação é uma remarcação de uma diferença irredutível a uma abstração universalizante. Porque nós gostamos de sermos chamados pelo nosso nome, e não de um nome geral? E nós podemos ver isso ai, por exemplo, num teste à contraprova muito facilmente. Peguemos uma criança pequena, de uns 3 anos, que já tem uma consciência de si, e chamemo-la pelo nome errado. Vamos chamar o Joãozinho de Paulinho, ele vai ficar brabo, ele não vai gostar. – Eu não sou o Paulinho! É interessante porque ele tem uma consciência de diferença que nós, pela nossa própria lógica de socialização, a partir de uma ideia de mônada, especialmente a partir da modernidade, vai se criando e vai permitindo a articulação daquilo que vai se chamar sociedade, que na verdade são circuitos de poder, nós bem sabemos. Nós atenuamos isso, e isso passa a ser meio que recalcado. E o pior, é que até o próprio nome passa a um segundo plano. No ponto de vista do estatuir geral de uma sociedade complexa, como é a nossa, por exemplo, o nosso nome pouco importa, vocês sabem bem disso. Basta vocês terem um homônimo que já foi tudo água abaixo. Por isso tem que ter o CPF. Nós somos mais um número do que o nosso próprio nome? Interessa do ponto de vista jurídico-social, o nosso número, o nosso CPF, o nosso RG, é isso que importa. O nosso nome é uma questão privada. Então é interessante, o que a gente está observando aqui é que a partir de uma lógica de conhecimento que vai se afirmando frente à realidade, e que vai, digamos assim, a partir de séculos e séculos, e a partir da modernidade fica muito robusta, e não por acaso, é que vai se criando aquelas grandes categorias interpretativas da sociedade – as que se pretende criar lá na Revolução Francesa.
     Não por acaso nesse momento, essas categorias que são abstratas oportunizam que a gente traga universais para tentar entender uma complexão de sociedade. E ao fazermos essa dimensão de complexão de sociedade, nós temos um problema: o que é totalmente eminente do ponto de vista abstrato, se torna totalmente inviável, do ponto de vista da sua compreensão. Nós estamos de volta à origem da própria questão. A saber, como é que um particular pode permanecer particular se ele pertence a uma universalidade. Nós somos seres humanos, que mais nós queremos? Isso é ótimo para que uma sociedade neutra se institua. E aí vocês entenderam aonde é que eu queria chegar, porque afinal de contas todo mundo é igual, todo mundo é ser humano. Mas interessante é que necessariamente nessa igualdade formal tem que haver uma desigualdade real. Desigualdade que às vezes é do ponto de vista do desequilíbrio, não da diferença, não da singularidade. Por isso que, numa sociedade de iguais, sempre tem alguns mais iguais que outros, necessariamente será assim. Por quê? Porque há uma aposta na universalização generalizante. Então, aí nós temos a questão justamente que vai se dar. Vejam o que eu fiz aqui nesse processo cognitivo primitivo, primigênio, onde eu não conhecia isto aqui, consegui chegar numa metáfora do pensamento, cheguei a uma ideia, e à explanação para mim mesmo de que isso aqui é uma garrafa, utilizando exatamente o verbo ser no presente do indicativo, com inicio, meio e fim e ponto final, porque isso é uma pronúncia. Quando eu faço isso, o que eu estou fazendo é utilizar a lógica ancestral de objetivação ou objetificação daquilo que é a realidade. É o sonho de Ulisses, é aquilo que está lá na ancestralidade do Ulisses, e que no século XX Adorno e Horkheimer quando escrevem um importantíssimo livro chamado Dialética do esclarecimento vão analisar e vão denunciar como uma falcatrua mental. Por quê? Porque aquilo que pretende ser o desencantamento daquele poder que essa garrafa poderia eventualmente ter para mim, na verdade se transforma por si mesma num encantamento. Essa é a tese da dialética do esclarecimento, ou seja, eu faço uma hierarquia, eu estabeleço uma hierarquia a partir da minha própria cognição, enquanto deixada assim mesmo, e essa hierarquia, de certo modo, se volta contra mim. E isso ai então nos causa um enorme problema: onde é que vai entrar a ética aí?
     Ética é uma segunda questão. Por isso que na filosofia a importância está no ser, nas coisas como elas são. Peguem um manual de filosofia qualquer, uma enciclopédia, ali vai estar a grande disciplina filosófica, a ontologia. O que é o ser enquanto ser? Enquanto os filósofos antigos (e muitos não tão antigos assim) não chegassem a resolver essa questão estavam angustiados. Porém, o problema de que aqui se trata é: a relação não é uma questão ontológica, mas de outra ordem.
     Vejam, podemos estabelecer uma possibilidade de pensar a ideia como sendo um conjunto de mônadas, que se relacionam umas com as outras, ou não se relacionam, mas cada uma fechada totalmente para si mesma e que não podem ser quebradas. Por isso a palavra indivíduo, diferente de sujeito. Individuo é aquele que não pode ser dividido, indiviso; o sujeito, ele é por si mesmo pertença ao outro, pois é pelo outro que ele se constitui em sujeito.
     Então vocês veem que interessante, a gente tem aí uma estrutura mental para pensar em cada um de nós como tendo algum sentido para cada outro de nós, do ponto de vista social enquanto mero indivíduo contratante, enquanto indivíduo que se relaciona numa particularidade contingencial. Mas, essencialmente, nós somos, nessa concepção, um irremediável egoísmo voltado para dentro de si mesmo. Não no sentido hobbesiano, porque no fundo, no fundo, tanto o sentido hobbesiano quanto o sentido rousseauniano vão dar na mesma: eu sou um individuo. Vocês lembram do Emílio? Não sei se lembram ou se aqui se trabalha, mas o Emílio é anarrativa educacional de um indivíduo que se compreende, que se respeita... isso é ótimo, para uma sociedade que está saindo do medievo. Agora, para nós, numa sociedade hipercomplexa, isso traz um lastro de passado muito complicado quando a questão se coloca no que diz respeito à ética.
     Aqui nós vamos ter que fazer um desvio. Queria fazer uma provocação, vocês vão entender que é, digamos assim, uma metáfora, pois eu venho originalmente da arte, então para mim essa prática é muito natural e eu acho que ajuda a exemplificar. Eu vou pedir licença para fazer isso e depois voltamos para a temática da ética.
     Então nós temos uma noção, um lugar comum do que seja verdade, é aquilo que não é o falso, é aquilo que não é a aparência e isso nós tomamos para dentro da nossa episteme, ainda que seja uma episteme aberta o suficiente para se auto-refletir. Pois bem, vamos partir dessa premissa. Agora vamos pegar essa verdade, e vamos fazer uma brincadeira com ela. Vamos imaginar o seguinte: nós somos todos aqui cientistas da área biomédica pesquisando uma epidemia. Somos cientistas da velha guarda, assim cada um está no seu laboratório pensando sozinho para resolver o problema da epidemia. Temos uma quantidade de biomassa para descobrir qual é o agente patogênico, que está causando esta doença. Todos nós temos a mesma competência e partimos do mesmo princípio e do mesmo material, é uma situação hipotética. Estamos seguindo a nossa tradição cognitiva, estamos investigando, etc. Mas a colega ao lado tem uma particularidade; ela tem um tipo de ousadia, de estranhamento, e ela diz: olha, todo mundo estava pensando, e eu também pensava e tudo estava me levando a considerar, que uma bactéria é o agente patogênico desta doença, esta epidemia sobre a qual estamos nos debruçando. Mas eu, pesquisando, formulei uma hipótese de que talvez seja um vírus.       Seguem as pesquisas, todo mundo pesquisando, a colega pesquisando, todos fazem todos os testes, replicam os testes, etc, etc. E chegam à conclusão de que é um vírus, ela – a colega ousada – diferentemente de todos nós outros, chegou a uma verdade. O que causa a gripe A é um vírus e não uma bactéria. Ninguém vai discutir isso. O que causa a AIDS é um vírus e não uma bactéria. Essa doença X o que causa é um vírus. Aí eu pergunto o seguinte: existe sentido em nós todos ali nos mobilizarmos, fazermos guerra contra a descoberta dela, dizendo que não é um virus e sim uma bactéria? Porque a verdade a partir do modelo que ela descobriu faz mais sentido do que qualquer linguagem que tente anulá-la. A verdade coloca-se por si mesma.
     Outra pergunta, e vocês vão entender porque eu estou fazendo estas perguntas que parecem tão bobas. Teria sentido se hoje eu fosse um virus e amanhã me transformasse em uma bactéria? Evidente que não, a ciência no sentido que nós a conhecemos, ela pressupõe uma permanência das condições para que as variáveis fossem levadas a chegar nas suas certezas, nas suas verdades, a tornar-se evidente; se não fosse assim, cada médico e cada psicólogo quando visse um paciente teria que reinventar a sua ciência ab initio. Tem que ter alguma coisa que permanece enquanto se mantiver a situação presente da descoberta.
     Agora vejam que interessante, a colega chegou à verdade e descobriu o agente patogênico desta doença, e essa verdade tem duas caracteristicas principais. Primeiro: ela é uma verdade solitária. E, se a colega descobriu o vírus, ela simplesmente fez uma descoberta, ela descobriu, ela tirou a coberta que cobria aquele não saber. E agora ele tornou-se saber. É uma verdade solitária, vocês concordam? Ela depois pode publicar na Science e aí todo mundo vai ficar sabendo, mas no momento da descoberta é uma verdade solitária.
     E em segundo lugar, e aí vem a razão daquela brincadeira que eu fiz, se hoje teria sentido a descoberta dela. Absolutamente não. É uma descoberta que tem que ser invariante em relação ao tempo, tem que ser independente, não temporal, quer dizer, não é porque hoje está quente que é um vírus, mas porque dadas aquelas condições será sempre um vírus. Portanto, fora do tempo, se daqui a cem anos houver a mesma doença, o agente causador será um vírus. Normalmente, e eu posso garantir pra vocês, quando na rua alguém fala em verdade, está pensando é nisso, não é? Porque, afinal de contas, a ciência é a grande instituição contemporânea à qual todos se curvam. Eu sempre brinco com meus alunos, se me surge uma manchinha na pele, eu não vou ali no bar da esquina perguntar o que uma pessoa acha, eu vou num dermatologista. Não adianta ser um médico, tem que ser um médico especializado. Agora, para falar sobre a tríade kantiana, Deus, mundo e ser humano, para isso, qualquer um numa mesa de bar pode falar e todas as falas são “válidas”, é interessante isso. Portanto, isso nos dá realmente a noção de que a ciência é a meta-instituição que engloba todas as instituições. Agora, vamos nos dar a liberdade de fazer algo desviante nisso. Acompanhem bem esta sugestão que estamos querendo trazer. Eu chego aqui, eu acho que é a primeira vez que eu estou vendo a colega aqui da mesa, eu acho que é a primeira vez que ela está me vendo, eu não me lembro pelo menos na minha memória. Eu acho que dá pra dizer isso, não é, Andréia? Ai eu chego para ela, com o testemunho de vocês, e digo: Andréia, sabe de uma coisa, eu sou teu amigo. Que coisa idiota, concordam? Qual é a base que eu tenho para dizer uma frase dessas? Soa a sarcasmo, soa até o ridículo. Tem um lado de ridículo. Nos já entendemos tudo ainda que não tenhamos chegado no fim do raciocínio.
     Vamos pensar numa outra situação: Nós nos conhecemos agora, e a Andréia conclui seu Doutorado e nós estamos viajando e nos encontramos em Paris, num Congresso. Voltamos para cá, eu faço alguma coisa e convido a Andréia para falar, ela lê o material que leu hoje, e a gente vai se aproximando. Aí a Andréia tem um filho, está precisando de um padrinho desesperadamente, e me pergunta, não quer ser o padrinho? Respondo que quero... E aí a gente vai se aproximando. Então, hoje dia 24 de agosto de 2012, eu conheci a Andréia e disse uma frase non sense, sem sentido. Não há nenhuma relação de humanidade intersubjetiva entre nós do ponto de vista do enunciado que eu coloquei. Agora, vamos imaginar isso tudo que eu contei, essa historinha com vocês. E que no dia 24 de agosto de 2032, daqui a 20 anos a gente se encontrasse, talvez nessa mesma sala, eu olhasse pra Andréia, a Andréia olhasse pra mim, e eu dissesse para a Andréia: sabe que eu sou teu amigo? E ela, hipoteticamente, respondesse: sim, Ricardo, sou tua amiga, e tu és meu amigo. Eu vou perguntar para vocês: é a mesma frase, não é? Assim como as garrafas são as mesmas. Agora eu pergunto: é a mesma frase? Não... É evidente que não! Vocês estão notando? Por que não é? Se for verdade que nós configuramos essa amizade ao longo do tempo, existe alguém que possa dizer que essa verdade não é verdadeira? Podem alegar que nós tenhamos um problema psíquico, isso é uma outra questão... Do ponto de vista daquilo que me diz respeito enquanto referência de realidade, sentido de realidade para mim, aquilo que eu estou dizendo e que ela concordou hipoteticamente, no ano de 2032, é verdade!
     Então, se isso é verdade, não há quem possa destituir de sentido de verdade dessa verdade. Assim como eu não posso destituir de sentido de verdade que é um vírus que causa aquela doença que a colega descobriu, porque ousou pensar de forma diferente. Agora eu pergunto para vocês: haveria essa verdade? Vamos fazer contraprova. Alguém de vocês ama alguém? Sim, provavelmente. Alguém de vocês tem amigos? Sim. Agora pensem se faz sentido o que eu estou dizendo. Se tu não tens, não tem como descobrir. Se tu tens entra dentro desse grupo que estou dizendo. Agora, pensem o seguinte: Essa frase, ela tem que ser tornada completamente referente dela mesma, porque o tempo passou.
     Se aqui, cientificamente, em meio à epidemia, eu tinha que ter uma verdade solitária, que não tem nada a ver com outra pessoa, tem a ver com o objeto de pesquisa e tinha que ser fora do tempo, ela não tinha que mudar. Agora, eu tenho uma verdade “conjunta”, por assim dizer, pois a gente pode aceitar que o amor que se sente por alguém é verdadeiro, mas a gente não sente que o amor é necessariamente uma relação entre “eu” e mais de um – outro ou outros. A gente sente amor por alguém, ou por algum correlato de sentido desse nosso amor. Portanto, essa verdade da amizade, do amor, da relação, já que é social, do socius, essa amizade aqui ela não pode ser solitária. Em nenhuma hipótese, senão é simplesmente um sinal de delírio ou doença mental. Uma criança pode ter os seus amigos imaginários, mas ela está num processo de treinamento da sua cognição, das suas dimensões afetivas, etc. Mas alguém pode dizer assim: um pai pode gostar de um filho, se dar bem com o filho e o filho achar que o pai não é assim, pode não gostar do pai. Mas isso aí não invalida nada, porque tem dois envolvidos. Tem mais que um.
     E, segunda questão: o que tornou profundamente ridícula a frase dita no inicio é que não denotava tempo. Pois essa é uma verdade que só o tempo constrói. Sem o tempo para rechear as vivências, para, digamos assim, alimentar o processo de criação dessa relação, não existe a possibilidade da promulgação de algo, remotamente numa relação que possa ter um sentido de verdade. Sem tempo ela – a verdade relacional – não existe. E agora vem a questão: Onde é que está escrito que aquela verdade – a científica, solitária, fora do tempo, vale mais que a outra? Quando é que nós tomamos esta opção civilizatória e, pior, a absolutizamos? Essa verdade interessa primordialmente a quem detém os meios de conhecê-la e de utilizá-la. Num sentido muito grande, obviamente. Saber é poder. Mas do ponto de vista daquilo que aqui se faz em termos de psicologia social: é por isso que eu estou falando sobre saber e poder. Ou da filosofia, ou da antropologia, das humanidades, nesse sentido. Isso porque algumas vezes nós nos sentimos instados a ter que adequar aquilo que nós descobrimos em relação a essa lógica que não é a nossa lógica. Por exemplo, que não é pior a lógica da relação humana em relação a qualquer outra lógica. Vejam bem, o que nós estamos aqui questionando é que quando surge um problema na nossa vida - e nós somos adestrados, desde a mais tenra infância, a pensar neste quadrante da verdade científica e solitária, a responder binariamente à solução entre o verdadeiro e o falso – os computadores funcionam binariamente, fazer um computador em rede ainda é muito difícil, a ideia de uma rede neural é de grande dificuldade; é tudo binário, nós somos binários. Nós somos treinados para sermos binários e onde existe a binariedade é aqui; lá, na verdade relacional, na ética, existe a multiplicidade.
     Então, o que realmente está acontecendo? Em termos de pesquisa, eu vejo horrores, exatamente trabalhando em ética em pesquisa. Não é um privilégio da minha universidade, não é um privilégio desta universidade, de todas as universidades, em todos os níveis. Eu vejo um reflexo nas universidades daquilo que acontece na sociedade, simples assim.
     Nós estamos aqui com uma situação que, ao ignorar que o modelo de poder, de exercício de poder, de objetificação que serve para que eu reafirme o meu poder sobre a realidade, é inservível para lidar com relações e tenta transpor para as relações esse modelo de poder da verdade solitária; o que nós fazemos, como conseqüência disso, é chegarmos numa crise ética sem precedentes talvez na história da humanidade ocidental. Existiam as fatrias, existiam as pertenças, existiam as guildas, existia tudo isso. A verdadeira realidade mais observável do ponto de vista de uma configuração de modernidade é o esfacelamento dessas pertenças, na promessa de recriação de uma meta-pertença que resolveria todas essas, num sentido algo hegeliano. De repente, todos os seres humanos, por serem seres humanos, estariam plenamente contemplados nas suas necessidades.
     Eu estava esses dias numa banca, numa determinada universidade, na área do direito, e lá, eu até levei um livro que era uma pessoa da área do direito que tinha escrito também e falava sobre os apátridas e os refugiados. E a pessoa que estava ali fazendo doutorado, defendendo, ela estava problematizando estas questões, e alguém da banca me saiu com essa: mas vocês notaram, isso não tem muito que ficar pensando, porque desde 1948 com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, não existe mais quem não esteja sob a salvaguarda da ideia de humanidade. Que lindo, que maravilha! Uma pessoa íntegra e ingênua, cheia de boas intenções, mas que fazia a penosa e mortal confusão entre o desejo e a realidade. É obvio que eu não disse, mas eu pensei na hora, então vamos avisar isso para aquelas pessoas que morreram hoje na fronteira tentando cruzar para outro país, para poder escapar do horror, são milhões de refugiados, nós sabemos disso. É um grande movimento que estamos tendo: refugiado do clima, refugiado político, refugiado econômico. A pessoa substitui o real por uma projeção delirante de um dever ser, que não tem nenhuma base empírica e replica isso como se fosse uma verdade constatada. E tem gente que acredita, e muita gente.
     Esse é o fundamento da crise ética que nós estamos vivendo. Como nós só sabemos tratar com objetos, quando nós encontramos o outro, ou quando o outro nos encontra, melhor, porque eu posso substituir aqui a colega pela ideia que eu tenho dela, é a melhor forma de lidar, aliás, pois é a que menos me incomoda. Eu substituo a garrafa pela ideia de garrafa, eu não preciso mais da garrafa. Isso desaparece. Eu posso dizer, eu objetifiquei a garrafa, e disse o que ela é. Eu esqueci que quando alguém bate na porta, geralmente se pergunta: quem é? A não ser quando a gente sabe que é alguém que está voltando, e a gente diz: o que é? Sabe por que já tem um pressuposto. Eu traio a minha própria linguagem que é mais sábia do que eu, e que estava dando a chance de eu encontrar alguém.
     E aí, por trás desta casca delirante, a minha colega some, e eu pronuncio um discurso sobre a minha colega e no fim ela diz: eu não sou nada disso. Ela nega o meu delírio; meu narcisismo é mortalmente atingido; como eu não sei lidar com isso, eu destruo essa colega para que o meu delírio continue. Eu sei que enquanto eu estou lidando com a garrafa, a garrafa não pode resistir, mas há o outro que pode resistir e coloca o meu narcisismo em cheque, e isso é extremamente doloroso numa sociedade doente como a nossa. Cheia de pessoas doentes. Porque são extremamente frágeis, inseguras e qualquer coisa que abale minimamente a frágil estrutura de manutenção, digamos assim, da sua estrutura psíquica é uma ameaça catastrófica. Ou seja, eu não sei lidar com sujeitos, eu só sei lidar com objetos, em ultima análise.
     Eu venho lutando há bastante tempo nesta questão de ética, bioética clínica, bioética médica, para trocar aquela expressão, “sujeito” de pesquisa. Isso é um eufemismo ridículo e ofensivo. Uma pessoa que está tomando medicamento que eu acho que pode fazer bem, e eu posso tanto ser uma pessoa sincera que realmente acha que vai fazer bem, como posso ser alguém que está sendo pago pela indústria de medicamentos para testar como é realmente o efeito daquele remédio, e ainda chama aquela pessoa de “sujeito” de pesquisa, é realmente uma afronta. O tal “sujeito” é na verdade um objeto, é tão objeto quanto a droga que ela está ingerindo.
     Vamos desmistificar isso. Nós sabemos lidar essencialmente com objetos e maltratar os objetos, olhem para a natureza. De onde vêm os problemas ecológicos? Nós não encontramos a natureza, nós nos confundimos, é uma grande confusão que criaram, uma fusão. Nós primeiro temos que nos chocar com a natureza. O Bacon dizia: nós temos que conhecer a natureza, para dominá-la. Ele quer que surja uma consequência desse saber, não quer ficar fazendo metafísica. Está aí a consequência.
     Então, vejam que o nosso problema ético é essencialmente esse: nós inflamos uma lógica de funcionamento da realidade, da nossa versão da realidade e da versão que nós temos da realidade de tal forma, que aqui houve uma invasão. E quando houve essa invasão a coisa começou a ficar feia. Quando alguém tem que escrever um livro chamado “inteligência emocional”, como se houvesse alguma inteligência que não fosse emocional, a coisa está muito louca, vocês hão de convir. Alguém já conseguiu alguma coisa na vida que não fosse carregada de emoção, nesse momento de conseguir? Emoção, emoção é indecente, cuidado. Não é isso? No fundo é isso. O Jenner quando injetou no filho dele a primeira vacina, imagina o que passou pela cabeça desse cara. O Koch mexendo com coisas que podiam contaminar, é interessante. Não há uma grande descoberta na humanidade, não há conquista na vida da gente que não seja cheia de emoção. Mas quando chega na hora do real parece que eu tenho que esfriar essa emoção para dar credibilidade objetiva e, portanto, positivisticamente chancelável à minha pretensa descoberta. Isso é uma doença, uma doença da civilização.
     Mas não há, por outro lado, como pensar em ética pela metade. Enquanto esse dilema não for resolvido, e as pessoas não entenderem o que aconteceu nessa hipertrofia da justificação do poder sobre a realidade, não entenderem as razões do seu próprio delírio e as razões dos seus próprios medos, a ética é flatus vocis.
     Ética é uma ancestral pertença relacional, e desde ela nós poderíamos lidar com a natureza. E existem escolas, existem grupos, existem tradições, existem culturas, existem civilizações que têm essa possibilidade e assim fazem, portanto, é real e sim possível quando a gente se relaciona com a natureza, conhece a natureza de uma forma tal, que a natureza é convidada a interlocucionar conosco e a nos mostrar algo que nós perguntamos a ela, e não aquilo que nós invadimos. O artista que pergunta, por exemplo um grande pintor, ele pergunta ao objeto o que o objeto pode permitir que ele coloque numa tela. Por isso que ele consegue pintar tão bem. Mas isso o cientista não pode fazer, ele tem que invadir o objeto para tirar, descarnar o objeto, deixar o esqueleto mental do objeto, porque isso é ciência. Isso pode ir numa revista cientifica.
     Se nós não aprendermos a lidar com a sensibilidade, acabou a ciência, porque essa coisa não é ciência, é uma doutrina de poder, num sentido mais estrito, o saber que não está contaminado pela relação não existe, e aí, por exemplo, dentro dessa estrutura ser sujeito é superar a era do indivíduo. O indivíduo são essa mônadas, todas elas iguais umas às outras, mas todas diferentes, todas contratantes ou não-contratantes. O sujeito é aquele que se constitui pelo encontro com o outro, então o outro me constitui pela responsabilidade que eu tenho pelo encontro que nós estabelecemos. Nessa tradição não existe sujeito que seja congenitamente intersubjetivo; então esse intersujeito que os artistas têm com os objetos, e que o cientistas geralmente não tem com a realidade, talvez fosse o elemento de balizamento para pensar, digamos, a constelação de questões, pelo que eu percebi, que estão preocupando a partir do texto que a colega leu. Aos vários grupos que trabalham aqui e que certamente têm a coragem de irem além do meramente aceitável, além do já dito, para poderem chegar às margens – a ideia de margem me é muito cara – digo: é nas margens que as coisas se dão. Para cá das margens já está tudo dominado, para lá das margens a gente tem que cuidar porque é o desconhecido, e pode, talvez, nos devorar, mas nas margens as coisas acontecem.





[1] Palestra proferida junto ao Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da UFRGS. Transcrição da gravação original: Carla Bottega.

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