EDUCAÇÃO NO SÉCULO XXI – condições de possibilidade



EDUCAÇÃO NO SÉCULO XXI – condições de possibilidade[1]



Ricardo Timm de Souza[2]

Introdução


            A atual situação de transmutação paradigmática (ou do questionamento da própria idéia de “paradigma”), esta profunda crise civilizatória em que todos nos encontramos, exige uma reconsideração muito profunda daqueles elementos que nos permitirão erigir uma concepção de educação e de ciência mais próxima das exigências gravíssimas do novo milênio. É neste sentido que caminha este texto, e, nesta medida, pretende ser um texto radical, ou seja, que tenta se dirigir incisivamente às raízes da presente realidade histórica, para tentar compreendê-la, objetivá-la e concentrar energias em torno da questão de como pensar a promoção do humano no desvario deste fim-de-século.
            Um primeiro dado salta já aos olhos e reafirma, ao espírito mais atento, sua incontornabilidade: trata-se da dimensão de absoluta necessidade do re-equacionamento da realidade presente. Em outros termos, não estamos tratando de um assunto de diletantes, nem o fazemos com o espírito de diletantes; muito antes, trata-se de uma questão de sobrevivência, de vida, esta questão à qual neste momento nos dirigimos. Esta preocupação não é postergável, e isto por vários motivos: não é postergável a resolução de o que fazer com as milhões de toneladas de lixo produzidas anualmente; não é postergável a postulação de uma alternativa à civilização do consumo infinito; não é postergável a detenção de um crescimento suicida, que levará consigo à extinção, caso não seja sustado, humanidade e natureza; não é postergável a exigência ética radical de dois terços da humanidade – e aqui se destacam, especialmente, as novas gerações - que estão sendo sacrificados ao delírio do consumo e da acumulação infinita; não é postergável a alternativa ao desespero suicida do terceiro terço da humanidade, que só costuma se sentir vivo se imerso no frenetismo de uma produção enlouquecida, mas que nem assim se livra de seus infinitos medos indizíveis; não é postergável a melhor reparação possível da dignidade ferida da menor das criaturas. Todos estes itens, e muitos outros, configuram uma questão – e o sabemos com cada vez mais clareza - que de certo modo coloca em cheque a mera possibilidade de sobrevivência da humanidade. A única forma digna de tratá-los – especialmente de nossa parte, intelectuais que procuram resistir à proliferação de neblinas ideológicas globalizadas e apologias do “neutro”, do infinitamente virtual, do indiferenciado, do fim da história, do fim de qualquer sonho – é com um espírito extremo de urgência. Temos que nos dirigir às extremidades de nossa cultura, escavar os extratos mais profundos de nossa contemporaneidade, para entendê-los e – muito mais importante – propor alternativas de sobrevivência.
            Propomos, a seguir, três breves “passos compreensivos” interpenetrantes e uma síntese final que, a nosso juízo, facilitarão a organização de nossos esforços no sentido de descobrir, muitas vezes no pequeno e no inusitado, no emaranhado inextricável da fragmentação contemporânea, alternativas extraordinárias a este problema extraordinário: o da sobrevivência da terra, considerado, exatamente, desde nosso ponto de vista particular de observadores muito bem situados histórica e geograficamente e que não admitem ser mergulhados no caldeirão mortal da desesperança, da flacidez ética e da orgia suicida dos vencedores.


Entender e assumir a obsolescência de esquemas esgotados de compreensão da realidade – o esgotamento, o medo e a crise


            Não deveria se constituir, para nós, em nenhum escândalo, o fato de que daqui a dez anos um filho ou neto nosso – nascido já no novo século e no novo milênio – nos chamar de ultrapassados e obsoletos; pois, certamente, somos gente do século passado, do milênio passado. Enquanto sobreviventes do século XX e seus herdeiros, quão imensa é a responsabilidade que nos cabe: assumir estes tempos difíceis e levá-los a bom termo, nas melhores condições possíveis, às próximas gerações!
            Pois tal se constituiria sim em motivo de indizível escândalo, se alguém da novíssima geração fosse levado a nos considerar obsoletos – e aí definitivamente – porque tenha vindo a perceber que nos furtamos à nossa responsabilidade histórica inalienável.
            Ora, para que isso não aconteça, é necessário que nos adiantemos à argúcia de nossos descendentes e não lhes demos motivos para duvidar que empenhamos o que estava ao nosso alcance para que o mundo se tornasse melhor. Para tal é necessário, todavia, segundo nosso entender, que certos parâmetros de insuficiência do mundo contemporâneo sejam caracterizados de maneira absolutamente clara. Estes parâmetros de insuficiência são, no âmbito deste trabalho: o esgotamento, o medo e a crise.


Esgotamento


            É possível partir, segundo nossa reflexão, de uma leitura civilizatória que caracterize de forma cabal a insuficiência de modelos epistemológicos atuais em dar conta da infinita variedade de novos aspectos que o esgotamento e a desagregação de uma totalidade de sentido trouxeram consigo[3]. O fato real é que, por sob uma camada hegemônica e colorida de frenetismo e desespero não suficientemente conscientizados, repousa uma infinita multiplicidade de fragmentos culturais, fragmentos que são sobras ou ruínas vítimas da violência e das promessas não cumpridas de um modelo civilizatório e, especialmente, de uma modernidade ingenuamente otimista e intrinsecamente violenta. Nunca como agora foi tão visível a incisiva verdade do famoso dito de Walter Benjamin: “nunca houve um monumento de cultura que não fosse também um monumento de barbárie”[4]. E a nossa grande civilização ocidental é este monumento dúbio: sabemos como fazer bilhões de contas por segundo ou como ir a Marte, mas “não sabemos” como livrar o mundo da fome ou respeitar a alteridade de culturas ou pessoas que não se enquadrem em um determinado sistema social, cultural ou econômico. Sabemos esgotar a terra e o mar de seus recursos, mas não sabemos como respeitá-los para que as próximas gerações também entrem em relação com eles. Vivemos na ambigüidade, na hipocrisia; e daí advém uma tensão insuportável em longo prazo, que levará a uma explosão ou implosão mortais. E este não é um dado de pensamento recolhido em si mesmo, mas da realidade do dia-a-dia; bem o sabem aqueles que, apavorados, se trancam em suas casas com suas coisas ou tentam se proteger da poluição ou dos raios solares mortais franqueados pela destruição irresponsável de certas camadas da atmosfera – tudo aspectos de uma mesma realidade, e esta realidade é: um modelo de desenvolvimento contraditório, desumano e anti-ecológico e, portanto, absolutamente obsoleto: definitivamente esgotado.


Medo


            Naturalmente, a percepção mais ou menos clara, mais ou menos consciente destes fatos conduz a uma terrível situação de medo difuso[5], medo que é uma expressão de desorientação e aparece nu em seu constitutivo mais primordial e importante: medo do Outro, do Diferente[6]. Este medo assume variadíssimos aspectos: medo da vida, do futuro, do tempo, dos outros, medo de ter coragem, medo de ser si mesmo(a), medo da felicidade e do amor, - medos infinitos – que acabam por amarrar definitivamente a pessoa à sua própria insegurança retroalimentada por sua incapacidade de saber ousar, incapacidade de ser diferente, incapacidade de aceitar o Diferente; o que a transforma no joguete ideal das promessas vazias e da falsidade. No fundo, a espantosa proliferação dos medos não é mais do que expressão de uma época terrivelmente solitária (não é difícil demonstrar de como o medo pode ser lido, também, como uma dimensão da solidão, esta doença moderna), uma época dominada pelas determinações da solidão e profundamente egoísta: uma época insustentável, anti-vida – pois o medo socialmente patologizado não é uma expressão natural e objetiva de proteção da vida, mas a anti-vida por excelência.


Crise


            De “crise” muito se fala; ela é o colapso – ou a ameaça de colapso – de algo; acostumamo-nos a pensá-la em termos catastróficos, negativamente destruidores – quando algo entra realmente em crise, estará certamente muito perto do fim.
            Detenhamo-nos, porém, em um aspecto particular e de fundamental importância na questão da “crise”. Este aspecto não se detém na lógica do senso comum, segundo a qual “crise” é sinônimo de negatividade. Trata-se, antes, de uma volta radical às origens deste termo, às suas raízes. O que vemos ali? Certamente não uma palavra que traga como carga semântica única a idéia de catástrofe. Crise provém do rico verbo grego “julgar”, “distinguir”, “avaliar”, “romper com”. E é aí, na origem, que repousa o melhor sentido desta palavra. Pois a crise é, antes de tudo, segundo esta leitura, uma oportunidade preciosa de detenção do automatismo da realidade, do frenetismo dos tempos enlouquecidos, abrindo espaço para um instante de hesitação na massa dos acontecimentos e, portanto, um instante de possível superação das condições negativas vigentes. A crise traz consigo uma carga potencial imensa de positivação do real e de valorização da Alteridade; é devido às crises de crescimento que as pessoas podem vir a se conhecer melhor, e é devido às crises culturais que as culturas podem vir a se entender melhor. Devido à nossa imensa crise civilizatória, nossa civilização pode recompor as forças que a constituem no sentido de aprender a aceitar o inelutável: o Novo que se anuncia pelos interstícios de um bloco maciço em processo acelerado de rompimento e fragmentação[7]. A crise abandonada em si mesma é a morte. A crise positivada pela responsabilidade e as energias de construção é a crítica, é a vida. E esta parece ser, exatamente, a nossa tarefa de intelectuais no aqui e agora: compreender o mundo e a crise, compreender a profundidade abissal que esta crise assume, e nos responsabilizarmos pelas extraordinárias potências que emergem desde esta difícil e complexa situação. Naturalmente, não podemos pretender uma visão totalizante; mas a apreciação conseqüente das parcialidades que nos são dadas, ou seja, o seu assumir de forma a honrar dignamente este desafio, é o ponto de partida que indubitavelmente nos cabe. Este é também, em nosso ver, a condição de possibilidade para pensar a Educação e a Ciência no século XXI; pois o único modo de pensá-las parte, segundo nosso ver, na trilha arduamente aberta pelo pensamento do filósofo Emmanuel Levinas, por um respeito radical à Alteridade do Outro.


Síntese: o sujeito ético como o novo sujeito da educação


            Só existe, em nosso entender, uma forma de honrar a responsabilidade que a história deste fim-de-século nos legou: trata-se de superar definitivamente os modelos “neutralistas’ de Educação, no sentido de descobrir e promover o seu potencial realmente dignificante: trata-se de enfrentar o medo e sua lógica, o obsoleto e seu uso ideológico e a dimensão negativa – falsificada – da crise. Este enfrentamento constitui-se em um só grande movimento de preservação dos espaços do Diferente, do Outro. Uma educação construída não como auto-preservação do já dado, mas que se entranhe no já dado para desnudar, ali, o não-dito, mesmo o “ideológico” – e, portanto, uma ciência com um só interesse: a vida humana e a vida da terra – pois todo o resto de que tais estão ausentes, inclusive as mais belas acrobacias intelectuais, nada mais são do que reverberações de uma totalidade violenta. Uma educação que tenha, como ponto de partida e chave de compreensão, a valorização irrestrita daquilo que, ao longo da história da humanidade e da filosofia, nunca, em nenhum momento se valorizou de forma realmente digna: o pequeno, o fraco, o indefeso, os restos da história, o Outro. Uma grande transformação crítica construtiva, eis nosso projeto de uma nova ciência que conduza a um novo mundo. Se na filosofia e ciência modernas se postulava que era preciso “ousar saber”, na ciência super-contemporânea os termos se invertem: mais do que nunca, é necessário “saber como ousar”. Um grande rompimento da solidão universal, onde o sujeito não se entenda enquanto tal senão enquanto responsável pelo Outro, pelo que não é ele, e não sobreviva nem um segundo respirando o ar que ele mesmo destila; onde os medos, medo da felicidade, medo do amor, medo de ser, medo de mudar, as crises “negativas” e o esgotado-obsoleto recolham-se aos seus devidos lugares, os subterrâneos da história que sempre tentaram assombrar e de onde nunca deveriam ter saído enquanto decadentes fantasmas que realmente são.
            Se o primeiro modelo se balizava por uma idéia pré-crítica de sujeito, o segundo só pode ser concebido desde a reconstrução ética da subjetividade.
            Uma tarefa difícil, sem dúvida, mas digna de nossos maiores e melhores esforços. Pois se outro motivo não houveste para empenharmos nesta tarefa todas as nossas energias, este motivo seria suficiente: a alternativa é o suicídio sócio-ecológico da raça humana. Uma alternativa sem dúvida indigna de nossas forças, de nossas esperanças e de todo futuro nosso e dos que ainda não nasceram.


[1] O presente texto atualiza o capítulo “Educação e ciência no novo milênio” de nosso livro Em torno à diferença – aventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea, Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2008.
[3] Cf. nosso livro Totalidade & Desagregação - sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1996, especialmente o primeiro Capítulo.
[4] Sétima Tese de “Sobre o conceito de história” in: BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas – magia e técnica, arte e política, São Paulo, Brasiliense, 1987, p. 225.
[5] Cf. nosso livro O tempo e a Máquina do Tempo – Estudos de Filosofia e Pós-modernidade, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1998.
[6] Cf. nosso livro Ainda além do medo – Filosofia e Antropologia do preconceito, Porto Alegre: DaCasa- Palmarinca, 2002.
[7] Cf. nosso livro Totalidade & Desagregação – Sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1996.

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