A INTELECTUALIDADE COLONIZADA



A intelectualidade colonizada
 
Ricardo Timm de Souza
 
“Não há dois cerros iguais, mas em qualquer
lugar da terra a planície é uma e a mesma.”
J. L. Borges
 
Tanto já se escreveu sobre esse assunto e, não obstante, a ele é necessário retornar com a cadência proporcional a seus espasmos de mediocridade.
A intelectualidade colonizada parte de um princípio intocável: uma torturante hipermetropia, que faz com que apenas o que de muito distante se divisa, de preferência com alguma auréola midiática, possa, em seu entender, fazer sentido e ter relevância. Colonizada que é, é habitada por um sentimento atávico de subserviência em todos os sentidos desse termo. O intelectual colonizado – um burocrata da mais empedernida cepa -, incapaz de ver o que realmente acontece, de tanto acreditar nos silogismos formais, acaba sempre, agora mesmo, de dar a última demão edulcorada na moda mais rasteira. Sem perceber ou querer perceber a que senhor serve, movimenta-se ao sabor dos ventos como a craca incrustrada num pedaço de madeira velha errante no mar. Seu pesadelo é sua insegurança congênita, e seu sonho aninhar-se no estabelecido; quisto na existência, como o preconceituoso de Sartre, “por menor que seja faz questão de abaixar-se ainda mais, para não se destacar da multidão de seus iguais, sem os quais não existe”. A mentalidade colonizada não é uma questão geográfica, mas uma atitude frente ao real; poroso em excesso, o cérebro do intelectual colonizado não processa senão o que se lhe apresenta já sem arestas ou dificuldades no novo. Odradek do status quo, zumbi das idéias, vive seu modesto delírio num gozo quase perverso – a perversão exigiria uma grandeza que ele não tem. Optou pelas formas em detrimento dos conteúdos, pois é tudo que sua inteligência lhe permite; tomou por exemplo os fungos e multiplica-se continuamente, pois é só o que sabe fazer. E pensa que vive.

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