A QUESTÃO HUMANA EM THEODOR W. ADORNO

Theodor W. Adorno
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Ricardo Timm de Souza

            O filósofo alemão Theodor Adorno (1903-1966) foi autor de vastíssima obra, que inclui os clássicos Minima Moralia, Teoria Estética, Dialética Negativa, Filosofia da nova música, Prismas, Palavras e sinais, Três estudos sobre Hegel, entre muitos outros escritos fundamentais. Seu trabalho mais conhecido – um dos textos centrais da filosofia não apenas do século XX, mas de toda a história do pensamento ocidental – é o famoso livro, escrito com seu colega e amigo de vida inteira, Max Horkheimer, intitulado Dialética do esclarecimento[1]. Em muitos momentos, e sob o ponto de vista da constituição da sociedade e da crítica da cultura de massas -, Adorno trata da questão humana, já que a motivação essencial do pensamento da chamada “Escola de Frankfurt”, a qual ele integra, é essencialmente ética[2].
            Encontra-se na obra de Adorno um texto muito famoso, originalmente uma conferência, no qual o autor se dedica, desde o ponto de vista de uma análise dirigida a uma questão central do século XX – os campos de extermínio nazistas, simbolizados pelo campo de Auschwitz – a um exame do sentido da educação na contemporaneidade: “Educação após Auschwitz”[3]. Em poucos lugares como nesse texto é tão perceptível a sua concepção de ser humano enquanto tal; não se trata de uma descrição idealizada do humano, mas do exame filosófico extremamente agudo de uma situação presente, que deveria conduzir o leitor a tomar consciência da gravidade das questões humanas que afligem a sociedade não só à época em que este texto foi concebido, mas, igualmente, nesses conturbados inícios do século XXI, no aqui e agora do momento em que pensamos. Examinemos, portanto, alguns dos momentos altos deste texto, com relação ao tema que aqui nos interessa.
            Adorno inicia com ma constatação dolorosa: não se pensou o suficiente no que pode ter significado a aniquilação organizada de milhões de seres humanos pelos senhores da guerra e do extermínio; e isso conduz ao perigo da reincidência do horror:

A exigência de que Auschwitz não se repita é primordial em educação. Ela precede tanto a qualquer outra, que acredito não deva nem precise justificá-la. Não consigo entender por que se tem tratado tão pouco disso até hoje. Justificá-la teria algo de monstruoso ante a monstruosidade do que ocorreu. Que se tenha, porém, tomado tão pouca consciência em relação a essa exigência, assim como dos interrogantes que ele suscita, mostra que as pessoas não compenetraram do monstruoso sintoma de que a possibilidade de repetição persiste no que concerne ao estado de consciência e inconsciência destas.
         
   O ser humano, atingido na profundidade de sua existência por este atentado à sua humanidade propriamente dita, à sua dignidade vital, está obrigado a se reeducar; nenhuma educação tem sentido, se não for realizada com o objetivo de impedir que a desumanização radical, aqui simbolizada pelos campos da morte, se repita. Mas o ser humano, capaz dos maiores horrores, é passível de educação. Estamos aqui muito longe da ideia de uma natureza “boa”; o que temos é a constatação de que apenas o desenvolvimento educativo, a reflexão profunda sobre os acontecimentos, a proposta de realização efetiva de um mundo onde tais acontecimentos não possam mais ter lugar, é que humaniza o humano.

Qualquer debate sobre ideias de educação é vão e indiferente em comparação a este: que Auschwitz não se repita. Aquilo foi a barbárie, à qual toda educação e opõe. Fala-se de eminente recaída na barbárie. Mas ela não é iminente, uma vez que Auschwitz foi a recaída; a barbárie subsistirá enquanto perdurarem, no essencial, as condições que produziram aquela recaída. Esse é que é todo o horror. A pressão social perdura, não obstante a invisibilidade do perigo hoje. Ela impele as pessoas ao inenarrável que, em escala histórico-universal, culminou em Auschwitz. Entre as intuições de Freud que realmente também alcançam o domínio de cultura e da sociologia, uma das mais profundas, a meu ver, é a de que a civilização engendra por si mesma o anticivilizatório e o reforça progressivamente. As suas obras O mal-estar na civilização e Psicologia de grupo e a análise do ego mereceriam a maior difusão, precisamente em relação a Auschwitz. Se a barbárie está no princípio da civilização, então a luta contra esta tem algo de desesperador.

Não estamos, portanto, onde o ser humano seja dignificado como tal, sujeito eventualmente a desvios de rota, mas sempre reconduzido à linha do progresso infinito; antes, estamos em uma situação civilizatória onde os contrastes entre a tendência à civilização e a tendência a barbárie – que, segundo Walter Benjamin e Freud, entre outros, são estritamente correlatas – assumiram uma dimensão extremamente forte e assustadora. À maior racionalidade operacional – entendida como capacidade científica de construir máquinas, de dominar a natureza e o mundo – segue-se a maior possibilidade de que o ser humano seja esmagado neste processo e a natureza destruída. Enquanto perdurarem estas condições – um mundo que não só permite que Auschwitz aconteça, como criou, em nome da racionalidade, justificativas para tal, ou que “ignora” tais fatos, como se eles não fossem absolutamente relevantes -, o ser humano não está livre da destruição total.

A reflexão sobre a maneira de impedir a repetição de Auschwitz é turvada pelo fato de que é preciso tomar consciência desse caráter desesperador, se não se quiser incorrer na fraseologia idealista. Apesar disso, é preciso tentá-lo, mesmo tendo em vista que a estrutura básica da sociedade, assim como seus membros, os protagonistas, são hoje os mesmos que há vinte e cinco anos. Milhões de inocentes – especificar os números ou regatear com eles já é indigno do homem – foram sistematicamente assassinados. Isso não deve ser tratado por ninguém como um fenômeno superficial, como aberração no curso da história, irrelevante em relação à grande tendência ao progresso, do esclarecimento da humanidade, presumidamente evoluída. Que tenha ocorrido é por si expressão de uma tendência social extraordinariamente poderosa.

De nada serve ao ser humano a racionalidade, se ela, ao fim e ao cabo, pode ser manipulada para justificar injustiças e o horror; tem de haver algo que a determine, que a sustente em seu desenvolvimento. A cultura contemporânea, imersa no mundo da cultura de massa, a “consciência coisificada”, precisa ser desnudada em suas características próprias; esse é o primeiro passo da educação para que Auschwitz não se repita. Trata-se de uma educação em pelo menos duas etapas, um processo de conscientização, que tem de ser dar nos níveis mais diversos, onde a racionalidade seja, ela mesma, confrontada com as razões que ela aduz para agir assim e não de outra forma:

Quando falo de educação após Auschwitz, refiro-me a duas esferas: em primeiro lugar, educação na infância, sobretudo na primeira; logo, o esclarecimento geral que estabeleça um clima espiritual, cultural e social que não admita a repetição daquilo; um clima, portanto, em que os motivos que conduziram ao horror tenham chegado, na medida do possível, a tornar-se conscientes. [...]. Visando reagir contra a repetição de Auschwitz, parece-me essencial por a claro, em primeiro lugar, como se forma o caráter manipulador, a fim de procurar logo, na medida do possível, impedir seu surgimento mediante a modificação das condições. Eu gostaria de fazer uma proposta concreta: que se estude os culpados de Auschwitz com todos os métodos de que dispõe a ciência, em especial, com a psicanálise prolongada durante anos, para descobrir, na medida do possível, como uma pessoa se torna assim. O que eles conseguiram de alguma maneira fazer de bem, caso eles mesmos – em contradição com a estrutura de seu próprio caráter – auxiliassem, seria no sentido de que aquilo não se repita. Com efeito, isso poderia conseguir-se se eles quisessem colaborar na investigação da sua gênese.

E, por outro lado, como correlato necessário desse processo de conscientização, a consciência coisificada tem de ser dissecada em seus reais constitutivos, para que se veja com clareza de que forma a sociedade se constitui, constituindo as pessoas – transformando-as em máquinas que só sabem amar outras máquinas. Em outros termos, é necessário mergulhar fundo no sentido da ciência e da técnica, ver onde assentam seus progressos, entender suas lógicas de poder, se quisermos ir além da consciência coisificada, da sociedade de produção, consumo e obsolescência, dos fetiches desumanizantes:

De mais a mais, no que tange à consciência coisificada dever-se-ia tratar também rigorosamente a relação com a técnica, e de modo nenhum só nos pequenos grupos. [...]. Um mundo como o de hoje, no qual a técnica ocupa uma posição-chave, produz pessoas tecnologizadas, afinadas com a técnica. Isso tem sua dose de racionalidade: dificilmente se deixam enganar a seu estreito campo, o que pode ter consequências em uma esfera mais ampla. Por outro lado, na relação atual com a técnica, há algo excessivo, irracional, patógeno. Esse algo está relacionado com o véu tecnológico. As pessoas tendem a tomar a técnica como a coisa mesma, a considerá-la um fim em si, uma força com vida própria, esquecendo, porém que ela é a mais alta representação dos meios para a autoconservação da espécie humana – são fetichizados porque os fins, uma vida digna, têm sido velados e expulsos da consciência das pessoas. [...]. O tipo propenso à fetichização da técnica está representado por pessoas que, dito de formas simples, são incapazes de amar. Esse afirmação não tem um sentido sentimental nem moralizante; apenas se limita a descrever a insuficiente relação libidinosa com outras pessoas. Trata-se de pessoas completamente frias, que devem negar mesmo em seu íntimo a possibilidade de amar e a rechaçam desde o princípio, ainda antes que se desenvolva seu amor pelas outras pessoas. E a capacidade de amar que, porventura, sobrevivia nelas volta-se, invariavelmente, para os meios. [...]. O que consterna em tudo isso – e consterna também porque parece tão inútil combatê-lo – é que essa tentativa está acoplada à tendência global da civilização. Combatê-lo equivale a opor-se ao espírito do mundo; mas, com isto, não faço mais que repetir algo que caracterize no começo como o aspecto mais sombrio de uma educação contra um novo Auschwitz.

Uma educação – melhor, um treinamento – que prepare pessoas para se tornarem excelentes robôs, autômatos incapazes de encontrar o humano na outra pessoa, massas deslumbradas com o hipnótico da cultura de massa que consomem ou sonham em consumir, não apenas extingue no ser humano seu potencial de humanidade, mas o conduz coletivamente a novas situações de estilo Auschwitz – extermínio do próprio homem e da natureza em um processo de automatismo inconsciente. É contra isso que a educação tem de se levantar, e é a resistência a tal estado de coisa que se pode chamar de humanização. A fragmentação dos elos sociais, a substituição da ética pelas convenções, das pessoas de carne e osso por indivíduos formais, a transformação do mundo numa máquina e das pessoas numa engrenagem dessa máquina, tudo isso é simultaneamente causa e consequência da incapacidade de amar, ou seja, de ver no outro mais que um competidor ou um concorrente. Quebrar este círculo vicioso monstruoso é a tarefa por excelência da educação; e podemos perceber claramente que, para Adorno, educação e humanização são termos diferentes para designar algo igual: um processo de resistência criativa à coisificação, seja ela sutil ou abertamente violenta, das pessoas.

Cada pessoa hoje, sem exceção alguma, sente-se demasiado pouco amada, porque cada uma só é capaz de amar demasiado pouco. A incapacidade de identificação foi, sem dúvida, a condição psicológica mais importante para que pudesse ocorrer algo assim como Auschwitz entre pessoas, em certa medida, civilizadas e inofensivas. O que costuma chamar-se Mitläufertum (conivência), foi inicialmente interesse comercial: defender o proveito próprio antes de todos os demais para não correr risco algum, para não se queimar. Essa é uma lei geral do ‘status quo’. O silêncio sob o terror foi somente sua consequência. A frieza das mônadas sociais, do competidor isolado, enquanto indiferença frente ao destino dos demais, foi precondição para que só uns poucos se movessem. Bem o sabem os torturadores; tantas vezes o comprovam! 

Não é, assim, difícil perceber o sentido da existência humana para Adorno: ser humano equivale, para o grande pensador frankfurtiano, a resistir às forças de morte estabelecendo a consciência da necessidade absoluta de vínculos propriamente humanos – éticos – entre pessoas, que sustentem as ações em todos os níveis, resistindo às tentações da coisificação, em um processo educativo urgente e interminável, coletivamente proposto a serviço da dignidade de todos e de cada um[4].

           


[1] Dialektik der Aufklärung, Frankfurt a. M., Fischer, 1971. (Tradução brasileira: Dialética do esclarecimento, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985).
[2] Cf. SOUZA, R. T. “Estética e restos da história – uma introdução ao sentido-contexto da Escola de Frankfurt. In: ________. Totalidade & desagregação – sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996, p. 31-64.
[3] ADORNO, Theodor Wiesengrund. “Educação após Auschwitz. In: _____________. Palavras e sinais – modelos críticos II. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 104-123.
[4] Cf. SOUZA, R. T. Razões plurais – itinerários da racionalidade ética no século XX: Adorno, Bérgson, Derrida, Levinas e Rosenzweig. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.

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