A QUESTÃO DO HUMANO EM MICHEL FOUCAULT

Michel Foucault
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Ricardo Timm de Souza

         Michel Foucault, nascido em 1926 em Poitiers e falecido em Paris, em 1984, é um dos intelectuais centrais da segunda metade do século XX, havendo influenciado os mais diferentes campos da cultura. Seu trabalho não pode ser desconhecido por quem se interesse, hoje, pelas grandes questões da modernidade e, por extensão, da história da filosofia e da cultura ocidental como um todo. Historiador e filósofo, ou, poder-se-ia dizer, grande filósofo com perspectiva histórica invulgar, Foucault nos legou obras definitivas que se caracterizam, igualmente, por iluminarem sobremaneira – de forma muitas vezes polêmica e provocativa, mas sempre frutífera – a contemporaneidade em suas tensões e crises socioculturais em termos de suas bases intelectuais profundas. Na sua vasta produção destacam-se, entre outros, os livros clássicos História da loucura na Idade Clássica, O nascimento da clínica, Arqueologia do saber, A ordem do discurso, Microfísica do poder e Vigiar e punirnascimento da prisão. É deste último trabalho que provêm os excertos que serão a seguir examinados[1]. 
            Entre as questões que a Foucault mais interessavam, destaca-se o tema da relação entre a instituição da(s) sociedade(s) e o poder, relação esta não estabelecida por ele de forma meramente especulativa, mas pela análise filosófica da constituição concreta, histórica, das instituições e dos saberes em sua lógica de surgimento e justificação. Em Foucault, as ideias filosóficas não estão isoladas em um todo intelectual autossuficiente, mas se alimentam de exaustivas garimpagens históricas que, mesmo por sua narratividade, expõem as teses e abrem vias de acesso ao próprio conteúdo do pensamento.
            Em Vigiar e punir – o nascimento da prisão, Foucault acompanha as metamorfoses das estruturas sociais punitivas ao longo do tempo, destacando as suas respectivas lógicas de legitimação. No capítulo que aqui destacamos – intitulado “Os recursos para o bom adestramento” – Foucault investiga o sentido da disciplina. O que significa “disciplinar?” Para Foucault, certamente não é apenas um mecanismo de ordenação, tal como pareceria a um observador ingênuo. Para ele, a “disciplina” – interiorizada nos indivíduos – simultaneamente os fabrica como tais, os prepara para que ocupem seus lugares nas estruturas formais de poder: Estamos no século XVIII, e Foucault examina cuidadosamente as sutilezas que, em paralelo à época das luzes, se estabelecem como guardiãs de uma nova ordem social – sutilezas que se dão nos mais diversos níveis, desde as dimensões do imaginário intelectual até a concretude das novas arquitetônicas.

Walhausen, bem no início do século XVII, falava da ‘correta disciplina’, como uma arte do ‘bom adestramento’. O poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior ‘adestrar’; ou, sem dúvida, adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. Ele não amarra as força para reduzi-las; procura ligá-las para multiplicá-las e utilizá-las num todo. Em vez de dobrar uniformemente e por massa tudo que lhe está submetido, separa, analisa, diferencia, leva seus processos de decomposição até as singularidades necessárias e suficientes. ‘Adestra’ as multidões confusas, móveis, inúteis de corpos e forças para uma multiplicidade de elementos individuais – pequenas células separadas, autonomias orgânicas, identidades e continuidades genéticas, segmentos combinatórios. A disciplina ‘fabrica’ indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício. Não é um poder triunfante que, a partir de seu próprio excesso, pode-se fiar em seu super-poderio; é um poder modesto, desconfiado, que funciona a modo de uma economia calculada, mas permanente. Humildes modalidades, procedimentos menores, se os compararmos aos rituais majestosos da soberania ou aos grandes aparelhos do Estado. E são eles justamente eles que vão, pouco a pouco, invadir essas formas maiores, modificar-lhes os mecanismos e impor-lhes seus processos. O aparelho judiciário não escapará a essa invasão, mal secreta. O sucesso do poder disciplinar se deve, sem dúvida, ao uso de instrumento simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhe é específico, o exame.       
        
    Foucault analisa a disciplina – entendida como instrumento de poder – desde seus constitutivos mais simples; o poder disciplinar extrai sua força das estruturas de visibilidade de um olhar que não é um olhar qualquer, admirativo, inquisitivo, perscrutador, mesmo neutro; é um olhar que organiza, que dispõe sobre a hierarquia e a estabelece, eventualmente a corrige; um olhar que traduz a norma em estruturas extremamente elementares, e por isso omniabrangentes e inescapáveis. Olhares diversos, que tudo penetram, que determinam e preparam o terreno para observações acuradas de toda ordem, inclusive no interior do poder judiciário. Trata-se do “lado invisível” da visível exuberância dos novos instrumentos de prospecção do mundo:

O exercício da disciplina supõe um dispositivo que obrigue pelo jogo do olhar; um aparelho onde as técnicas que permitem ver induzam a efeitos de poder, e onde, em troca, os meios de coerção tornem claramente visíveis aqueles sobre quem se aplicam. Lentamente no decorrer da época clássica são construídos esses ‘observatórios’ da multiplicidade humana para os quais a história das ciências guardou tão poucos elogios. Ao lado da grande tecnologia dos óculos, das lentes, dos feixes luminosos, unida à fundação da física e da cosmologia novas, houve as pequenas técnicas das vigilâncias múltiplas e entrecruzadas, dos olhares que devem ver sem serem vistos; uma arte obscura da luz e do visível preparou em surdina um saber novo sobre o homem, através de técnicas para sujeitá-lo e processos para utilizá-lo. 
           
 O poder, gestando mecanismos para sua geração e auto-manutenção, elabora então os espaços onde as ordens hierárquicas serão funcionalizadas, uma espécie de “panótico”, de onipresença visual, onde os arranjos servem à manutenção das estruturas de poder que se simbolizam a solidez da hierarquia. Os acampamentos militares seriam expressão plena dessa presença; todavia, eles não são mais do que uma forma específica de organização que historicamente se multiplicam em muitas outras esferas, incluindo naturalmente – e aqui entra o próprio da leitura foucaultiana – organizações e estruturas onde a lógica da hierarquização não é nem de longe tão visível – poderíamos dizer: necessária – como no caso de um acampamento militar. Neste grupo, se inclui desde hospitais e conjuntos residenciais até institutos educacionais; todos observam uma mesma ordem, são gerados por ela: a estruturação hierárquica organizada pela visibilidade máxima.

Esses ‘observatórios’ têm um modelo quase ideal: o acampamento militar. É a cidade apressada e artificial, que se constrói e remodela quase à vontade; é o ápice de um poder que deve ter ainda mais intensidade, mas também mais discrição, por se exercer sobre homens e armas. No acampamento perfeito, todo o poder seria exercido somente pelo jogo de uma vigilância exata; e cada olhar seria uma peça no funcionamento global do poder. O velho e tradicional plano quadro foi consideravelmente afinado de acordo com inúmeros esquemas. Defini-se exatamente a geometria das aléias, o número e a distribuição das tendas, a orientação de suas entradas, a disposição das filas e das colunas; desenham-se a rede dos olhares que se controlam uns aos outros: ‘na praça d’armas, tinham-se cinco linhas, a primeira a dezesseis pés da segunda; as outras ficam a oito pés uma da outra; e a última fica a oito pés dos tabardos. Os tabardos ficam a dez pés das tendas dos oficiais inferiores, precisamente em frente ao primeiro bastão. Uma rua de companhia tem cinquenta e um pés de largura... Todas as tendas ficam a dois pés umas das outras. As tendas dos subalternos ficam em frente às ruelas de suas companhias. O bastão de trás fica a oito pés da última tenda dos soldados e a porta olha para a tenda dos capitães... As tendas dos capitães ficam levantadas em frente às ruas de suas companhias. A porta olha para as próprias companhias’. [...] O acampamento é o diagrama de um poder que age pelo efeito de uma visibilidade geral. Durante muito tempo encontraremos no urbanismo, na construção das cidades operárias, dos hospitais, dos asilos, das prisões, das casas de educação, esse modelo do acampamento ou pelo menos o princípio que o sustenta: o encaixamento espacial das vigilâncias hierarquizadas. Princípio do ‘encastramento’. O acampamento foi para a ciência pouco confessável das vigilâncias o que a câmara escura foi para a grande ciência da ótica.      
   
         O momento histórico da estruturação da visibilidade controladora deixa entrever sua geração: trata-se da passagem da época da masmorra, da muralha, das portas que ou abrem, ou fecham, para época das sutilezas arquitetônicas que permitem a multiplicação da visibilidade sem perder o controle. Foucault destaca, como exemplo privilegiado, a estruturação dos hospitais modernos, que substituem as hospedarias neutras de doentes e moribundos; mas, mais ainda é o caso da ‘escola-edifício’, a escola que deve preparar os alunos para o futuro exercício da disciplina:         

Toda uma problemática se desenvolve então: a de uma arquitetura que não é mais feita simplesmente para ser vista (fausto dos palácios), ou para vigiar o espaço exterior (geometria das fortalezas), mas para permitir um controle interior, articulado e detalhado – para tornar visíveis os que nela se encontram; mais geralmente, a de uma arquitetura que seria um operador para a transformação dos indivíduos: agir sobre aquele que abriga, dar domínio sobre seu comportamento, reconduzir até eles os efeitos do poder, oferecê-los a um conhecimento, modificá-los. As pedras podem tornar dócil e conhecível. O velho esquema simples do encarceramento e do fechamento – do muro espesso, da porta sólida que impedem de entrar ou de sair – começa a ser substituído pelo cálculo das aberturas, dos cheios e dos vazios, das passagens e das transparências. Assim é que o hospital-edifício se organiza pouco a pouco como instrumento de ação médica: deve permitir que se possa observar bem os doentes, portanto, coordenar melhor os cuidados; a forma dos edifícios, pela cuidadosa separação dos doentes, deve impedir os contágios; a ventilação que se faz circular em torno de cada leito deve enfim evitar que os vapores deletérios se estagnem em volta do paciente, decompondo seus humores e multiplicando a doença por seus efeitos imediatos. O hospital [...] não é mais simplesmente o teto onde se abrigavam a miséria e a morte próxima; é, em sua própria materialidade, um operador terapêutico. [...] Como a escola-edifício deve ser um operador de adestramento. Fora uma máquina pedagógica que Pâris-Duverney concebera na escola militar e até os mínimos detalhes que ele impusera a Gabriel. Adestrar corpos vigorosos, imperativo de saúde; obter oficiais competentes, imperativo de qualificação; formar militares obedientes, imperativo político; prevenir a devassidão e a homossexualidade, imperativo de moralidade. Quádrupla razão para estabelecer separações estanques entre os indivíduos, mas também aberturas para observação contínua. O próprio edifício da Escola devia ser um aparelho de vigiar; os quartos eram repartidos ao longo de um corredor como uma série de pequenas celas; a intervalos regulares, encontrava-se um alojamento de oficial, de maneira que ‘cada dezena de alunos tivesse um oficial, à direita e à esquerda; [os alunos aí ficavam trancados durante toda a noite; a Paris insistira para que fosse envidraçada] a parede de cada quarto ao lado do corredor desde a altura de apoio até um ou dois pés do teto. Além disso, a vista dessas vidraças só pode ser agradável, ousamos dizer que é útil sob vários pontos de vista, sem falar das razões de disciplina que podem determinar essa disposição’. Nas salas de refeições, fora preparado ‘um estrado um pouco alto para colocar as mesas dos inspetores dos estudos, para que eles possam ver todas as mesas dos alunos de suas divisões, durante as refeições’. Haviam sido instaladas latrinas com meias-portas, para que o vigia para lá designado pudesse ver a cabeça e as pernas dos alunos, mas com separações laterais suficientemente elevadas ‘para que os que lá estão não se possam ver’.
         
   O detalhismo tem pleno sentido; trata-se da preparação para a organização disciplinar – organização que pressupõe o controle das liberdades individuais. Através da sofisticação crescente das estruturas de controle, o ser humano de liberdade é conduzido – de forma mais ou menos sutil, acorde com a instituição na qual tal condução se processa – a acomodar-se no esquadro de um indivíduo como os outros, definido por sua posição estrutura de poder e controlado pelos mecanismos disciplinares. Foucault usa termos eloquentes, como “quadriculamento” dos comportamentos e “microscópio do comportamento”; essas expressões têm um sentido: ajudam a convergência para a percepção da dialética entre detalhamento e violência, entre “esclarecimento” e “iluminação”.

Escrúpulos infinitos de vigilância que a arquitetura transmite por mil dispositivos sem honra. Só os acharemos irrisórios se esquecermos o papel dessa instrumentação, menor mas sem falha, na objetivação progressiva e no quadriculamento cada vez mais detalhado dos comportamentos individuais. As instituições disciplinares produziram uma maquinaria de controle que funcionou como um microscópio do comportamento; as divisões tênues e analíticas por elas realizadas formaram, em torno dos homens, um aparelho de observação, de registro e de treinamento. Nessas máquinas de observar, como subdividir os olhares, como estabelecer entre eles escalas, comunicações? Como fazer para que, de sua multiplicidade calculada, resulte um poder homogêneo e contínuo? [...] O aparelho disciplinar perfeito capacitaria um único olhar tudo ver permanentemente. Um ponto central seria ao mesmo tempo fonte de luz que iluminasse todas as coisas, e lugar de convergência para tudo o que deve ser sabido: olho perfeito a que nada escapa e centro em direção ao qual todos os olhares convergem. Foi o que imaginara Ledoux ao construir Arc-et-Senans: no centro dos edifícios dispostos em círculo e que se abriam todos para o interior, uma alta construção devia acumular as funções administrativas de direção, policiais de vigilância, econômicas de controle e de verificação, religiosas de encorajamento à obediência e ao trabalho; de lá viriam todas as ordens, lá seriam registradas todas as atividades percebidas e julgadas todas as faltas; e isso imediatamente, sem quase nenhum suporte a não ser uma geometria exata. Entre todas as razões do prestígio que foi dado, na segunda metade do século XVIII, às arquiteturas circulares, é preciso sem dúvida contar esta: elas exprimiam uma certa utopia política. 
           
 A arquitetura como cúmplice da organização de poder: mais do que um dado incidental, uma sugestão de que o acaso não existe nas construções sociais. Nada, na edificação das estruturas sociais, restringe-se à suma mera aparência, ou às aparentes intenções de seu autor; tudo vai além, evidenciando, a uma leitura arguta, sentidos aparentemente inexistentes para as coisas serem como são. As estruturas materiais, por exemplo, da arquitetura, não são apenas construções de aço e concreto, elas são antes símbolos, significações que não se dão a um primeiro olhar, mas que contêm uma ordem interna muito sofisticada e com finalidades muito bem determinadas: 

Mas o olhar disciplinar teve, de fato, necessidade de escala. Melhor que o círculo, a pirâmide podia atender a duas exigências: ser bastante completa para formar uma rede sem lacuna – possibilidade em consequência de multiplicar seus degraus, e de espalhá-los sobre toda a superfície a controlar: e entretanto ser bastante discreta para não pesar como uma massa inerte sobre a atividade a disciplinar e não ser para ela um freio ou um obstáculo; integrar-se ao dispositivo disciplinar como uma função que lhe aumenta os efeitos possíveis. É preciso decompor suas instâncias, mas para aumentar sua função produtora. Especificar a vigilância e torná-la funcional. É o problema das grandes oficinas e das fábricas, onde se organiza um novo tipo de vigilância. É diferente do que se realizava nos regimes das manufaturas do exterior pelos inspetores, encarregados de fazer aplicar os regulamentos; trata-se agora de um controle intenso, contínuo; corre ao longo de todo o processo de trabalho; não se efetua – ou não só – sobre a produção (natureza, quantidade de matérias-primas, tipos de instrumentos utilizados, dimensões e qualidades dos produtos), mas leva em conta a atividade dos homens, seu conhecimento técnica, a maneira de fazê-lo, sua rapidez, seu zelo, seu comportamento. Mas é também diferente do controle doméstico do mestre, presente ao lado dos operários e aprendizes; pois é realizado por prepostos, fiscais, controladores e contramestres. À medida que o aparelho de produção se torna mais importante e mais complexo, à medida que aumentam o número de operários e a divisão do trabalho, as tarefas de controle se fazem mais necessárias e mais difíceis. Vigiar torna-se então uma função definida, mas deve fazer parte integrante do processo de produção; deve duplicá-lo em todo o seu cumprimento. Um pessoal especializado torna-se indispensável, constantemente presente, e distinto dos operários: ‘na grande manufatura, tudo é feito ao toque da campainha, os operários são forçados e reprimidos. Os chefes, acostumados a ter com eles um ar de superioridade e de comando, que realmente é necessário com a multidão, tratam-nos duramente ou com desprezo; acontece daí que esses operários ou são mais caros ou apenas passam pela manufatura.
          
  Tudo, portanto, é parte de uma lógica, de uma estrutura de pensamento que se objetiva em estruturas formais e materiais. Estruturas que acabam por, por assim dizer, criar vida própria, tornar-se autônomas, na expressão exata das intenções para as quais foram criadas. São as estruturas simbólicas que, ao sustentarem um determinado modo de utilização de mão-de-obra, por exemplo, convertem-se em parte indispensável das finalidades de tal estrutura; não se tratam mais de símbolos, mas de componentes do constructo ou do sistema como tais. São tão indispensáveis a esses quanto o são os aspectos visíveis do todo:

Mas se os operários preferem o enquadramento de tipo corporativo a esse novo regime de vigilância, os patrões, quanto a eles, reconhecem nisso um elemento indissociável do sistema da produção industrial, da propriedade privada e do lucro. Em nível de fábrica, de grande forja ou de mina, ‘os objetos de despesa são tão multiplicados, que a menor infidelidade sobre cada objeto daria no total uma fraude imensa, que não somente absorveria os lucros, mas levaria a fonte dos capitais...; a mínima imperícia desapercebida e por isso repetida cada dia pode se tornar funesta à empresa ao ponto de anulá-la em muito pouco tempo; [donde o fato que só agentes, diretamente dependentes do proprietário, e designados só para esta tarefa poderão zelar] para que não haja um tostão de despesa inútil, para que não haja um momento perdido no dia; seu papel será o de vigiar os operários, visitar todas as obras, instruir o comitê sobre todos os acontecimentos’. A vigilância torna-se um operador econômico decisivo, na medida em que é ao mesmo tempo uma peça interna no aparelho de produção e uma engrenagem específica do poder disciplinar.
           
 O que importa notar é que não se trata de um modelo específico de um determinado âmbito social; trata-se de um modelo que se multiplica e pervade – ou, talvez fosse melhor dizer – co-institui o essencial de tais estruturas. Neste sentido, uma escola não é diferente de uma prisão; a manutenção hierárquica é tão importante para as instituições de ensino como para as fábricas e as prisões. As estruturas hierárquicas, os mecanismos de controle “invisíveis”, são, na verdade, tão sólidos como as paredes das instituições:

Mesmo movimento na reorganização do ensino elementar: especificação da vigilância e integração à relação pedagógica. O desenvolvimento das escolas paroquiais, o aumento de seu número de alunos, a inexistência de métodos que permitissem regulamentar simultaneamente a atividade de toda uma turma, a desordem e a confusão que daí provinham, tornavam necessária a organização dos controles. Para ajudar o mestre, Batencour escolhe, entre os melhores alunos, observadores, monitores, repetidores, recitadores de orações, oficiais de escrita, recebedores de tinta, capelães e visitadores. Os papeis assim definidos são de duas ordens: uns correspondem a tarefas materiais (distribuir a tinta e o papel, dar as sobra aos pobres, ler textos espirituais nos dias de festa, etc.); outros são ordens de fiscalização: ‘Os observadores’ devem anotar quem sai do banco, quem conversa, quem não tem o terço ou livro de orações, quem se comporta mal na missa, quem comete alguma imodéstia, conversa ou grita na rua; os ‘admonitores’ estão encarregados de ‘tomar conta dos que falam ou fazem zunzum ao estudar as lições, dos que não escrevem ou brincam’: os ‘visitadores’ vão se informar, nas famílias, sobre os alunos que estiveram ausentes ou cometeram faltas graves. Quanto aos ‘intendentes’, fiscalizam todos os outros oficiais. Só os repetidores têm um papel pedagógico: têm que fazer os alunos ler dois a dois, em voz baixa’. Ora, algumas dezenas de anos mais tarde, Demia volta a uma hierarquia do mesmo tipo, mas as funções de fiscalização agora são quase todas duplicadas por um papel pedagógico: um submestre ensina a segurar a pena, guia a mão, corrige os erros e ao mesmo tempo ‘marca as faltas quando se discute’; outro submestre tem as mesmas tarefas na classe de leitura; o intendente que controla os outros oficiais e zela pelo comportamento geral é também encarregado de ‘adequar os recém-chegados aos exercícios da escola’; os decuriões fazem recitar as lições e ‘marcam’ os que não as sabem. Temos aí o esboço de uma instituição tipo escola mútua em que estão integrados no interior de um dispositivo único três procedimentos: o ensino propriamente dito, a aquisição dos acontecimentos pelo próprio exercício da atividade pedagógica, enfim uma observação recíproca e hierarquizada. Uma relação de fiscalização, definida e regulada, está inserida na essência da prática do ensino: não como uma peça trazida ou adjacente, mas como um mecanismo que lhe é inerente, e multiplica sua eficiência.       
           
 A contra-face da iluminação do iluminismo: uma iluminação que não procura a autonomia do espírito, como Kant teria pensado ao escrever “Resposta à questão: o que é iluminismo?”, mas, sim consolidação da dependência do indivíduo a ordens de poder cuja face visível se dá na vigilância “hierarquizada, contínua e funcional”. Autonomia de sistemas anti-humanos, de automatismos: um verdadeiro “maquinismo” que reduz o humano a uma peça de produção a ser “objetivada” por algo maior que ele – um poder “múltiplo, automático e anônimo”. O mundo que Kafka denuncia, nos inícios do século XX, tem em Foucault um intérprete filosófico privilegiado, um intérprete que leva a história a sério, que a perfura com o poder da racionalidade e, com isso, abre campos interpretativos para as estruturas sociais contemporâneas, em sua gênese e efetividade corrente.

A vigilância hierarquizada, contínua e funcional não é, sem dúvida, uma das grandes ‘invenções’ técnicas do século XVIII, mas sua insidiosa extensão deve sua importância às novas mecânicas de poder, que traz consigo. O poder disciplinar, graças a ela, torna-se um sistema ‘integrado’, ligado do interior à economia e aos fins do dispositivo onde é exercido. Organiza-se, assim, como um poder múltiplo, automático e anônimo; pois, se é verdade que a vigilância repousa sobre indivíduos, seu funcionamento é de uma rede de relações de alto a baixo, mas também até um certo ponto de baixo para cima e lateralmente; essa rede ‘sustenta’ o conjunto e o perpassa de efeitos de poder que se apóiam uns sobre os outros: fiscais perpetuamente fiscalizados. O poder na vigilância hierarquizada das disciplinas não se detém como uma coisa, não se transfere como uma propriedade; funciona como uma máquina. E se é verdade que sua organização piramidal lhe dá um ‘chefe’, é o aparelho inteiro que produz ‘poder’ e distribui os indivíduos nesse campo permanente e contínuo. O que permite ao poder disciplinar ser absolutamente indiscreto, pois está em toda parte e sempre alerta, pois em princípio não deixa nenhuma parte às escuras e controla continuamente os mesmos que estão encarregados de controlar; e absolutamente ‘discreto’, pois funciona permanentemente e em grande parte em silêncio. A disciplina faz ‘funcionar’ um poder relacional que se autossustenta por seus próprios mecanismos e substitui o brilho das manifestações pelo jogo ininterrupto dos olhares calculados. Graças às técnicas de vigilância, a ‘física’ do poder, o domínio sobre o corpo se efetuam segundo as leis da ótica e da mecânica, segundo um jogo de espaços, de linhas, de telas, de feixes, de graus, e sem recurso, pelo menos em princípio, ao excesso, à força, à violência. Poder que é em aparência menos ‘corporal’ por ser mais sabiamente ‘físico’.            
           
 O humano para Foucault: um ser capaz de criar redes anônimas de poder, de gerar estruturas de desumanização, de “maquinizar-se” social e historicamente, de hipotecar sua dignidade e humanidade a “mecanismos” impessoais. E, pelo anverso dessa leitura, um ser capaz de perceber tais processos, desnudá-los em si mesmos, ir adiante de suas seduções e se reencontrar com dimensões capazes de se oporem a tais seduções. Um ser que, antes do que ser construído pela história das instituições, tem de construí-la em proveito de um mundo menos violento e mais digno de ser vivido.


[1] FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir – o nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1977, p. 153-159.

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