A QUESTÃO DO HUMANO EM MARTIN BUBER

Martin Buber
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Ricardo Timm de Souza

           
Martin Buber, nascido em Viena em 1878 e falecido em Jerusalém em 1965, é um dos maiores representantes da chamada “Filosofia do Diálogo”. Por filosofia do diálogo se entende o modelo de pensar filosófico cujo fundamento e consequências não se dão, e nem podem se dar, na solidão de uma pessoa reflexionante, mas sim, na interação ética entre as pessoas, interação esta que é condição para que as grandes questões filosóficas surjam como tais. As filosofias do diálogo surgem a partir da falência dos modelos de filosofia da consciência, na virada do século passado; trata-se de uma das alternativas possíveis – uma das melhores entre elas – de empreender o pensamento filosófico em uma atmosfera cultural onde os velhos paradigmas da essência e da consciência são feridos de morte pela compreensão da existência enquanto condicionante último do pensar, seja pela via da fenomenologia, seja por outra via filosófica. Igualmente no campo da cultura, a estrutura de configuração do diálogo assume crescente importância em relação à tradição solitária. É através do encontro dialogal, por exemplo, e só através dele, que uma situação psicanalítica pode ser efetivada; o mesmo se dá com relação a várias áreas da arte e da literatura, que sobrevivem em meio à profunda crise do “paradigma da consciência”. A existência é pensada, nas filosofias do diálogo, não enquanto categoria filosófica abstrata em oposição à essência, mas, fundamentalmente, como relação entre o ser humano com o outro e com o mundo. Não se trata de aprofundar conceitos abstratos, mas de entender as determinações do próprio pensamento desde a experiência existencial viva, que se dá sempre entre realidades, eu-outro, eu-mundo, etc.
            Buber foi um dos filósofos que se preocupou em abordar explicitamente a situação dialogal enquanto uma situação estritamente filosófica. Autor de muitos livros, como O problema do homem, O socialismo utópico, Caminho da utopia, sua obra mais marcante e que o consagrou foi Eu e tu, de cuja primeira parte extraímos os excertos a seguir analisados[1].
            Para Buber, existem muitas formas de o ser humano se relacionar com o mundo; para que tal relação possa se dar, porém, é necessário que se constitua previamente a subjetividade. E esta subjetividade não é uma questão racional de um indivíduo, mas apenas pode ter lugar na interação entre dois humanos. Para Buber, a subjetividade não pode ser concebida sem o consenso de “mais de um”; ela deriva deste encontro, porque o que a caracteriza é justamente o pensar que surge desde o encontro, definitivamente marcado Por ele:

O homem se torna EU na relação com o TU. O face-a-face aparece e se desvanece, os eventos de relação se condensam e se dissimulam e é nesta alternância que a consciência do parceiro, que permanece o mesmo, que a consciência do EU se esclarece e aumente cada vez mais. De fato, ainda ela aparece somente envolta na trama das relações, na relação com o TU, como consciência gradativa daquilo que tende para o TU sem ainda o TU. Mas, essa consciência do EU emerge com força crescente, até que, um dado momento, a ligação se desfaz e o próprio EU se encontra, por um instante diante de si, separado, como se fosse um TU, para tão logo retomar a pose de si, e daí em diante, no seu estado de ser consciente entrar em relações. 
       
     Pensar um EU desde a solidão introspectiva é absurdo; o EU está sempre, desde sempre, marcado pela relação onde ele se encontra, consigo mesmo, como um EU em relação a um TU. Não existe a consciência de si sem a consciência da relação com um outro. O Eu é a expressão de sucesso desse encontro; o Tu, ao qual ele se refere, é o índice de realidade da própria subjetividade. A relação, expressa pelo termo composto EU-TU, é o que Buber chama, com outros termos, de “palavra-princípio”: origem do pensamento pela irrupção da existência no próprio pensamento. À relação com o mundo, Buber chamará de EU-ISSO.

Somente, então, pode a outra palavra-princípio constituir-se. Sem dúvida, o TU da relação desvaneceu-se muitas vezes sem, com isso, ter-se tornado o Isso de um Eu, um objeto de um percepção ou experiência sem ligação como será doravante, mas ele se tornou, de algum modo, um isso em si, por hora inobservável aguardando o ressurgimento de um evento de relação. Sem dúvida, o corpo que se transforma em corpo humano se distingue em seu ambiente na medida em que se sente portador de suas impressões e como executor de seus impulsos, mas somente ao nível de uma radical separação entre o EU e o objeto. Então, o EU desligado se encontra transformado. Reduzido da plenitude substancial à realidade funcional e unidimensional de um sujeito de experiência e utilização, aborda todo ‘Isso em si’, apodera-se dele e se associa a ele para formar outra palavra-princípio. O homem transformado em Eu que pronuncia o ‘EU-ISSO’ coloca-se diante das coisas em vez de confrontar-se com elas no fluxo da ação recíproca. Curvado sobre cada uma delas, com uma lupa objetivante que olha de perto, ou ordenando-as num panorama através de um telescópio objetivante de um olhar distante, ela as isola ao considerá-las, sem sentimento algum de exclusividade, ou ele as agrupa sem sentimento algum de universalidade. No primeiro caso, ele só poderia encontrá-lo na relação, no segundo, só a partir dela. Somente agora, ele experiencia as coisas como soma de qualidades. Sem dúvida, qualidades referentes ao TU de cada evento de relação foram acumuladas em sua memória mas, somente agora, as coisas se compõem de suas qualidades; ele só pode atingir o núcleo poderoso, revelando a ele no TU, englobando todas as qualidades, isto é, a substância, na medida em que procura na lembrança da relação conservada em estado de sonho, de imagem ou de pensamento segundo a característica própria deste homem.
        
    A subjetividade enceta um processo de criação e recriação de relações com a realidade, com o mundo; melhor dizendo, o mundo, relacionante, assume infinitas dimensões de sentido que se oferecem à subjetividade que, sabendo-se diferente do mundo, estabelece com essas relações. Os fatos se revestem de lógicas próprias, na medida em que a “lógica” do Eu não é meramente transponível a outros níveis de realidade, senão à anterioridade de si mesmo. A memória se qualifica na sua atualização que não conserva, com relação ao Eu, a finitude do simplesmente perecível; possui, como as coisas em geral, sua própria qualidade.

De fato, somente agora ele ordena as coisas em uma conexão espacio-temporal-causal; somente agora, ele determina a cada uma o seu lugar, a sua evolução, a sua mensurabilidade, a sua condição. O Tu se revela, no espaço, mas precisamente, no face-a-face exclusivo no qual tudo o mais aparece como cenário, a partir do qual ele emerge mas que não pode ser nem seu limite nem sua medida. Ele se revela, no tempo, mas no sentido de um evento plenamente realizado, que não é uma simples parte de uma série fixa e bem organizada, mas sim o tempo que se vive em um ‘instante’, cuja dimensão puramente intensiva não se define senão por ele mesmo. O Tu se manifesta com aquele que simultaneamente exerce e recebe a ação, sem estar no entanto, inserido numa cadeia de causalidades, pois, na sua ação recíproca com o Eu, ele é o princípio e o fim do evento da relação. Eis uma verdade fundamental do mundo humano: somente o isso pode ser ordenado. As coisas não são classificáveis senão na medida em que, deixando de ser nosso Tu, se transformam em nosso Isso. O Tu não conhece nenhum sistema de coordenadas.
      
      A manifestação do Tu é o instante realizado me si mesmo no universo dos encontros; é o instante que não paira, débil, como uma cadeia a mais na ordem dos eventos, mas que se condensa em torno ao seu sentido que extrapola a possibilidade de ordenação – do logos – do sujeito. As coisas, vivas em suas infinitas dimensões, “nosso Isso”, sujeitam-se até mesmo a uma operação classificatória; o Tu, por outro lado, evade-se de toda e qualquer classificação, porque a própria ideia de classificação é estranha ao momento que se inaugura na relação Eu-Tu.

Porém, tendo chegado até aqui, se faz necessário afirmar também outro aspecto sem o qual, a primeira parte da verdade – fundamental, não seria senão um fragmento inútil: o mundo ordenado não significa a ordem do mundo. Há momentos em que, sem motivo aparente, a ordem do mundo se apresenta como presente. Percebe-se, então, o tom do qual o mundo ordenado é nota indecifrável. Tais momentos são imortais, mas são também os mais fugazes. Deles não se pode conservar nenhum conteúdo, mas, em contrapartida a sua força integra a criação e o conhecimento do homem, as irradiações de sua força penetram no mundo ordenado, fundindo-o incessantemente. Tal é a história do indivíduo, tal a história da espécie. [...] O mundo é duplo para o homem, pois sua atitude é dupla. [...] Ele percebe o ser em torno de si, as coisas simplesmente e os entes como coisas; ele percebe o acontecimento em seu redor, os fatos simplesmente e as ações enquanto fatos, coisas compostas de qualidades, fatos compostos de momentos, coisas inseridas numa rede espacial, e fatos numa rede temporal, coisas e fatos limitados por outras coisas e fatos, mensuráveis e comparáveis entre si, um mundo bem ordenado e um mundo separado. Este mundo inspira confiança, até certo ponto; ele apresenta densidade e duração, numa estrutura que pode ser abrangida pela vista, ele pode ser sempre retomado, repetido com olhos fechados e experienciado com olhos abertos; ele está aí, junto à tua pele, se o tu o consertes, encolhido em tua alma, se tu assim o preferes. Ele é teu objeto, permanecendo assim segundo tua vontade, e no entanto, ele permanece totalmente alheio seja fora de ti ou dentro de ti. Tu o percebes, fazes dele tua ‘verdade’, ele deixa tomar, mas não se entrega a ti. Ele é o único objeto a respeito do qual tu te podes ‘entender’ com o outro. Mesmo que ele se apresenta de um modo diferente a cada um, ele está pronto a ser para ambos um objeto comum, mas nele tu não podes te encontrar com o outro. Sem ele tu não podes subsistir, tu te conservas graças à sua segurança, mas se te reabsorveres nele, serás sepultado no nada.
          
  “O mundo ordenado não significa a ordem do mundo”. Não se deveria confundir a capacidade de ordenação das coisas com a realidade intrínseca das coisas. A existência dá-se à análise; sua análise, porém, não a despe de suas características próprias, externas a quem analisa. O mundo, em sua infinita variedade, oferece infinitos caminhos; analisá-lo é apenas um deles. No mundo somente não se encontra senão o mundo. Ocorre uma separação externa entre o Eu e o Mundo: a ordem do mundo que o Eu percebe não é senão a ordem do mundo que ele é capaz de perceber: o mundo ordenado. A ordem do mundo pertence ao mundo para além da ordenação do sujeito. Quem pretende se absorver no mundo para se autorredimir não conquista o mundo, mas sua própria perdição: ao procurar o todo, “será sepultado no nada”.

Por outro lado, o homem encontra o Ser e o devir como aquilo que o confronta, mas sempre como uma presença e cada coisa ele a encontra somente enquanto presença; aquilo que está presente se descobre a ele no acontecimento e o que acontece, se apresenta a ele como Ser. Nada mais lhe está presente a não ser isso, mas isso enquanto mundano. Medida e comparação desaparecem. Depende de ti que parte do incomensurável se tornará atualidade para ti. Os encontros não se ordenam de modo a formar um mundo, mas cada um dos encontros é para ti um símbolo indicador da ordem do mundo. Os encontros não são interrelacionados entre si, mas cada um te garante o vínculo com o mundo. O mundo que assim te aparece não inspira confiança, pois ele se revela cada vez de um modo e, por isso, não podes lembrar-te dele. Ele não é denso, pois nele, tudo penetra tudo; ele não tem duração, pois, vem sem ser chamado e desaparece quando se tem retê-lo. Ele é confuso, se tu quiseres esclarecê-lo, ele escapa. Ele vem a ti para buscar-te; porém se ele não te alcança, se ele não te encontra, se dissipa; ele virá novamente, sem dúvida, mas transformado. Ele não está fora de ti. Ele repousa no âmago de teu ser, de tal modo que se te referes a ele como ‘alma de minha alma’, não dizes nada de excessivo. Guarda-te, no entanto, da tentativa de transferi-lo para a tua alma. Tu o aniquilarias. Ele é teu presente, e somente na medida em que tiveres como tal é que terá a presença; podes fazer dele teu objeto, experienciá-lo e utilizá-lo, aliás, deves proceder assim continuamente, mas, então, não terás mais presença alguma. Entre ele e ti existe a reciprocidade da doação; tu lhe dizes Tu, e te entregas a ele; ele te diz Tu e se entrega a ti. Não podes entender-te com ninguém a respeito dele, és solitário no face-a-face com ele, mas ele te ensina a encontrar o outro e a manter o seu encontro. E, através da benevolência de sua chegada e da melancolia de sua partida, ele te conduz até o TU no qual se encontram as linhas, apesar de paralelas, de todas as relações. Ele não te ajuda a conservar-se em vida; ele dá porém o pressentimento da eternidade.
           
 O mundo não se nega à relação; oferece seus momentos. Mas apenas na ordem da alteridade; nunca na ordem da absorção ou do esvaziamento analítico. O mundo, que te pertence, não te pertence enquanto propriedade, mas enquanto convite; na sua indefinição, na sua alteridade que só pode ser percebida como conjunto infinitos de traços que se negam à apreensão quando aparecem frente ao Eu, o mundo convida ao abandono das experiências objetivantes enquanto experiências propriamente filosóficas. E, ao mesmo tempo, ele reabre o caminho em direção a uma outra concepção de experiência, a experiência de perceber o Tu emergindo da estrutura do imponderável na relação que inaugura o instante onde o Eu se percebe como tal; percepção que se dá como consciência de encontro com o Tu:

No interior desta crônica forte e salutar, os momentos de encontro com o TU se manifestam como episódios singulares, lírico-dramáticos, sem dúvida, de encanto sedutor, mas que, no entanto, nos induzem perigosamente a extremos que debilitam a solidez já provada, e deixam atrás deles mais questões que satisfações, abalando nossa segurança. Eles são não só inquietantes, mas indispensáveis. Já que devemos, após estes momentos, voltar ao ‘mundo’, por que não permanecer nele? Por que não chamar à ordem o que está diante de nós, no face-a-face, e não remetê-lo ao mundo dos objetos? Já que não se pode deixar de dizer TU, alguma vez, ao pai, à esposa, ou ao companheiro, por que não dizer TU pensando ISSO? Produzir o som TU através dos órgãos vocais, não significa de modo algum proferir a palavra-princípio tão pouco tranquilizadora; sussurrar do fundo da alma um TU amoroso é inofensivo enquanto não se tem em mente outra coisa senão experienciar e utilizar. [...] Não se pode viver unicamente no presente; ele poderia consumir alguém se não tivesse previsto que ele seria rápido e radicalmente superado. Pode-se, no entanto, viver unicamente no passado, é somente nele que uma existência pode ser realizada. Basta consagrar cada instante à experiência e à utilização que ele não se consumirá mais. [...] E com toda a seriedade da verdade, ouça: o homem não pode viver sem ISSO, mas aquele que vive somente com o ISSO não é homem.
           
 O Tu se apresenta ao Eu: encontro propriamente dito, “episódio lírico e singular” e, ao mesmo tempo, extremamente perigoso: sedução do indiferenciado que a diferença indica, do mundo para além do tu. Sedução da intemporalidade das essências, do conceito, da ordem, do ressecamento da realidade, da segurança morta. Contrapartida a isso: o humano, para Buber – a experiência do encontro para além do logos, o instante vivificado para além da porosidade da memória, a existência propriamente dita na forma do humano se encontra consigo mesmo quando encontra o outro.


[1] BUBER, Martin. Eu e tu. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979, p. 32-39.

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