A QUESTÃO DO HUMANO EM KARL MARX

Karl Marx
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Ricardo Timm de Souza

       
    Não é necessário destacar o fato de que Karl Marx é um dos maiores pensadores da história; não obstante todas as evoluções que tivemos desde sua morte, em termos de análise filosófica e social das sociedades modernas, sua análise da estrutura de funcionamento do capitalismo enquanto sistema de alienação de desumanização do ser humano permanece inigualada. Apesar do fato de todas as críticas a que tal análise tem estado sujeita pelo desenvolvimento da própria acurácia interpretativa de novos pensadores, críticas que acabam por invalidar aspectos diversos de seu edifício de ideias, o essencial de seu edifício permanece e permanecerá enquanto o capitalismo – a substituição de seres humanos por produtos e coisas na hierarquia da dignidade – permanecer como sistema hegemônico mundial.
            Karl Marx, nascido em Trier em 1818, falecido em Londres em 1883, descendia, tanto por parte de pai como de mãe, de família de rabinos. Nele, ao menos três vertentes culturais – a judaica de origem familiar, a protestante de adoção e a iluminista francesa – convergem e configuram um todo extremamente complexo, mas que tem uma expressão precoce na sua famosa dissertação de juventude, quando escreve que feliz é aquele que faz os outros felizes e que, portanto, a melhor profissão para um jovem é aquela que lhe permite trabalhar pela felicidade do maior número possível de pessoas.
            Sua obra foi a tradução, à sua maneira, desse princípio. Expresso em inúmeros livros, opúsculos e textos isolados (Para a crítica da filosofia do direito de Hegel, A questão judaica, Teses sobre Feuerbach, O 18 Brumário de Napoleão Bonaparte, etc.), que convergem para sua obra magna – O capital – crítica da economia política – seu trabalho intelectual consistiu em, como o ferramental filosófico haurido especialmente da tradição do Idealismo Alemão e do pensamento francês seu contemporâneo, em investigar os mecanismos de constituição e legitimação do sistema capitalista.
            É nesse contexto que se entende os conhecidos Manuscritos econômico-filosóficos. É do Primeiro manuscrito, da seção intitulada “O trabalho alienado”, que extraímos os excertos analisados a seguir[1].
            Marx inicia por um levantamento de suas conclusões e a partir das análises anteriores do texto:

[...] demos início aos pressupostos da economia política. Acolhemos a sua terminologia e as suas leis. Analisamos a propriedade privada, a separação entre o trabalho, o capital e a terra, assim como também os salários, o lucro do capital e a renda, e ainda observamos a divisão do trabalho, a concorrência, o conceito de valor de troca, etc. A partir da própria economia política, em suas próprias palavras, expusemos que o trabalhador desce até ao nível de mercadoria, e de miserabilíssima mercadoria; que a penúria do trabalhador aumenta com o poder e o volume da sua produção; que o resultado necessário da concorrência é a acumulação do capital em poucas mãos e, consequentemente, um terrível estabelecimento do monopólio; e finalmente, que a diferenciação entre capitalista e proprietário agrário, bem como entre trabalhador rural e trabalhador industrial, deixa de existir, e toda a sociedade se deve dividir em duas classes, os possuidores de propriedade e os trabalhadores sem propriedade.
          
  Após haver analisado, na crítica da economia política, o fato que o trabalhador é relegado à posição de “miserabilíssima mercadoria”, Marx inicia o processo de investigação da lógica interna do processo de produção:

A economia política tem início do fator da propriedade privada. Não o esclarece. Concebe o processo material da propriedade privada, como ele ocorre na realidade, em fórmulas gerais abstratas, que em seguida lhe servem de leis. Não compreende tais leis, ou seja, não explana como elas decorrem da essência da propriedade privada. A economia política não fornece qualquer explicação sobre o fundamento da divisão do trabalho, do capital e da terra. Por exemplo, ao definir a relação do salário com o lucro do capital, aparece-lhe como último fundamento o interesse dos capitalistas; em outras palavras, conjetura o que deveria explicar-se. O mesmo ocorre em muitos casos com a concorrência. Ela é em termos de condições exteriores. A economia política não nos diz até onde estas condições exteriores, aparentemente acidentais, são apenas a expressão de um desenvolvimento imperativo. Já vimos como a permuta parece um fato acidental. Os únicos motivos que colocam em movimento a economia política são a avareza e a guerra entre os avarentos, a competição. [...] Exatamente porque a economia política não compreende a interface deste movimento, foi possível, por exemplo, contrapor a doutrina da concorrência à do monopólio, a doutrina da liberdade agrária à grande propriedade, uma vez que a concorrência, a liberdade das profissões, a divisão da propriedade agrária se desenvolveram e compreenderam só como consequências acidentais, voluntárias, violentas, e não como consequências necessárias, inevitáveis, naturais do monopólio, do sistema guilda e do sistema feudal. [...] Temos agora de entender a conexão fundamental entre todo este sistema de alienação – propriedade privada, espírito de aquisição, a separação do trabalho, capital e propriedade agrária, troca e concorrência, valor e desvalorização do homem, monopólio e concorrência, etc. – e o sistema do dinheiro. [...] Não daremos início à explicação, como procede o economista, a partir de um estado original mitológico, que nada elucida; este estado apenas arrasta o tema para uma distância opaca e nebulosa. Implica sob a forma de fato, de acontecimento, o que deveria aduzir, a saber, a relação necessária entre duas coisas, por exemplo, entre a divisão do trabalho e a troca. É assim que a teologia explica a origem do mal pela queda do homem; ou seja, pressupõe como fato histórico o que se deveria explicar. [...] Nós partiremos de um fato econômico contemporânea.
     
       Marx analisará agora, desde uma situação concreta, sua realidade contemporânea, a raiz dos fatos empiricamente verificáveis da desvalorização do trabalhador, sua transformação em mercadoria. Para ele, aqui que se constitui simultaneamente em raiz e razão de tal transformação não é o acaso, mas um processo de alienação:

O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador torna-se uma mercadoria tanto mais barata, quanto maior número de bens produz. Com a valorização do mundo das coisas, aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz apenas mercadorias; produz-se também a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e justamente na mesma proporção com que produz bens. [...] Tal fato implica apenas que o objeto produzido pelo trabalho, o seu produto, opõe-se a ele como ser estranho, como um poder independente do produtor. O produto do trabalho é o trabalho que se fixou num objeto, que se transformou em coisa física, é a objetivação do trabalho. A realização do trabalho constitui simultaneamente a sua objetivação. [...] A realização do trabalho aparece na esfera da economia política como desrealização do trabalho, a objetivação como perda e servidão do objeto, a apropriação como alienação.
           
O trabalho, que deveria ser condição de dignificação e realização do ser humano, transforma-se, nesse processo, na condenação do humano, em sua degradação ao nível de objeto. Trata-se da alienação que a tudo abrange, transformando tudo – inclusive o trabalho – em “objeto” de troca:

A realização do trabalho surge de tal modo como desrealização que o trabalhador se invalida até à morte pela fome. A objetivação revela-se de tal maneira como perda do objeto que o trabalhador fica privado dos objetos mais necessários, não só à vida, mas também ao trabalho. Sim, o trabalho transforma-se em objeto, que ele só consegue adquirir com o máximo esforço e com interrupções imprevisíveis. A apropriação do objeto manifesta-se a tal ponto como alienação que quanto mais objetos o trabalhador produzir, tanto menos ele pode possuir e mais se submete ao domínio do seu produto, do capital. [...] Todas estas consequências derivam do fato de que o trabalhador se relaciona com o produto do seu trabalho como a um objeto estranho. Com base neste pressuposto, é claro que quanto mais o trabalho se esgota a si mesmo, mais poderoso se torna o mundo dos objetos, que ele cria diante de si, mais pobre ele fica na sua vida interior, menos pertence a si próprio. O mesmo se passa na religião. Quanto mais o homem atribui a Deus, menos guarda para si mesmo. O trabalhador põe a sua vida no objeto; porém agora ela já não lhe pertence, mas sim ao objeto. Quanto maior a sua atividade, mais o trabalhador se encontra no objeto. O que se incorporou no objeto do seu trabalho já não é seu. Assim, quanto maior é o produto, mais ele fica diminuído. A alienação do trabalhador no seu produto significa não só que o trabalho se transforma em objeto, assume uma existência externa, mas que existe independentemente, fora dele e a ele estranho, e se torna um poder autônomo em oposição a ele; que a vida que deu ao objeto se torna uma força hostil e antagônica.
           
 A vida humana é assim, pela alienação do trabalho, relegada à condição de objeto entre outros. Ela é projetada na produção e não retorna ao produtor, que se esvai no próprio processo de produção. A forma como o trabalhador se relaciona com os produtos, com os objetos que produz, a alienação que decorre dessa estrutura, denuncia que é preciso investigar mais fundo, para que se perceba qual a lógica subjacente a essa estrutura desumanizante:

[...] Observemos agora mais de perto o fenômeno da objetivação, a produção do trabalhador e a alienação nele implicada, a perda do objeto, do seu produto. O trabalhador nada pode criar sem a natureza, sem o mundo externo sensível. Este é o material onde se realiza o trabalho, onde ele é ativo, a partir do qual e por meio do qual produz coisas. [...] Mas assim como a natureza fornece os meios de existência do trabalho, no sentido de que o trabalho não pode viver sem objetos, nos quais se exercita, da mesma forma ela proporciona os meios de existência em sentido mais restrito, a saber, os meios de existência física do próprio trabalhador. [...] Por consequência, quanto mais o trabalhador se apodera pelo trabalho do mundo exterior, da característica sensível, mais se priva dos meios de existência, sob dois aspectos: primeiramente, o mundo exterior sensível torna-se cada vez menos um objeto que pertence ao seu trabalho ou um meio de existência no sentido imediato, meio para a subsistência física do trabalhador. Assim, em ambos os sentidos, o trabalhador torna-se escravo do objeto; em primeiro lugar, pelo fato de receber um objeto de trabalho, ou seja, de receber trabalho; depois pelo fato de receber meios de subsistência. Deste modo, o objeto habilita-o para existir, inicialmente como trabalhador, em seguida, como sujeito físico. O ponto culminante de tal servidão é que ele só pode manter-se como sujeito físico na condição de trabalhador e só é trabalhador na condição de sujeito físico. [...] (A alienação do trabalhador no objeto revela-se assim nas leis da economia política: quanto mais o trabalhador produz, menos tem que consumir; quanto mais valores cria, mais sem valor e mais desprezível se torna; quanto mais refinado o seu produto, mais desfigurado o trabalhador; quanto mais civilizado o produto, mais desumano o trabalhador; quanto mais poderoso o trabalho, mais impotente se torna o trabalhador; quanto mais magnífico e pleno de inteligência o trabalho, mais o trabalhador diminui em inteligência e se torna escravo da natureza). 
           
 O automatismo produtivo, porém, não é suficiente para que se chegue à raiz dessa lógica; é necessário investigar não apenas a relação dos trabalhadores com os produtos de seu trabalho, mas com o próprio processo produtivo:

A economia política oculta a alienação na característica do trabalho enquanto não analisa a imediata relação entre o trabalhador (trabalho) e a produção. É evidente, o trabalho produz coisas boas para os ricos, mas produz a escassez para o trabalhador. Produz palácios, mas choupanas para o trabalhador. Produz beleza, mas deformidade para o trabalhador. Substitui o trabalho por máquinas, mas encaminha uma parte dos trabalhadores para um trabalho cruel e transforma os outros em máquinas. Produz inteligência, mas também produz estupidez e a cretinice para os trabalhadores. [...] A relação imediata do trabalho aos seus produtos é a relação do trabalhador aos objetos da sua produção. A relação dos possuidores de propriedade aos objetos de produção e á própria produção é uma simples consequência da primeira relação. E também a ratifica. Ponderaremos mais tarde este segundo aspecto. [...] Desta forma, ao perguntarmos pela relação fundamental do trabalho, chegaremos à relação do trabalhador com a produção. [...] Até aqui, analisamos a alienação do trabalhador somente a partir de um aspecto, a de sua relação com os produtos do trabalho. Entretanto, a alienação não se expõe apenas no resultado, mas também no processo da produção, no seio da própria atividade produtiva. Como o trabalhador poderia estar numa relação alienada com o produto da sua atividade, se não se alienasse a si mesmo no próprio ato da produção? O produto constitui apenas resumo da atividade, da produção. Em consequência disso, se o produto do trabalho é alienação, a produção em si tem de ser a alienação ativa – alienação da atividade e a atividade, da alienação. Na alienação do objeto do trabalho, resume-se apenas a alienação na própria atividade do trabalho.
           
A constatação de Marx é que a relação do trabalhador com os produtos, com os objetos, embora possa ser elucidativa do ponto de vista da percepção de um estado de coisas, é insuficiente para a compreensão da história desse estado de coisas, ou seja, como ele se constitui. Isso só pode ser percebido pela compreensão da lógica processual de constituição desse estado de coisas, ou seja, da relação do trabalhador com o processo de produção de objetos:

[...] Mas em que consiste a alienação do trabalho? Em primeiro lugar, o trabalho é exterior ao trabalhador, ou seja, não pertence à sua característica: portanto, ele não se afirma no trabalho, mas nega-se a si mesmo, não se sente bem, mas, infeliz, não desenvolve livremente as energias físicas e mentais, mas esgota-se fisicamente e arruína o espírito. Por conseguinte, o trabalhador só sente em si fora do trabalho, enquanto no trabalho se sente fora de si. Assim, o seu trabalho não é voluntário, mas imposto, é trabalho forçado. Não constitui a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer outras necessidades. O trabalho externo, o trabalho em que o homem se aliena, é um trabalho de sacrifício de si mesmo, de martírio. Seu caráter estanho resulta visivelmente do fato de se fugir do trabalho, como da peste, logo que não existe nenhuma compulsão física ou de qualquer outro tipo. Finalmente, a exterioridade do trabalho para o trabalhador transparece no fato de que ele não é o se u trabalho, mas o de outro, no fato de que não lhe pertence, de que no trabalho ele não pertence a si mesmo, mas a outro. Assim como na religião a atividade espontânea da fantasia humana, do cérebro e do coração humanos, reage independentemente como atividade estranha, divina ou diabólica, sobre o indivíduo, da mesma maneira a atividade do trabalhador não é a sua atividade espontânea. Pertence a outro e é a perda de si mesmo. Assim, chega-se à conclusão de que o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo nas suas funções animais – comer, beber e procriar, quando muito, na habitação, no adorno, e etc. – enquanto nas funções humanas se vê reduzido a animal. O elemento animal torna-se humano e o humano, animal. [...] Comer, beber e procriar, etc., são também certamente autênticas funções humanas. Mas, de forma abstrata levadas em consideração, o que as separa da outra esfera da atividade humana e as transforma em finalidades últimas e exclusivas é o componente animal.
           
Está assim exposto o paradoxo que habita o processo de alienação do trabalho: o trabalho, que deveria se constituir em processo de humanização do ser humano, pela alienação se constitui em processo de animalização do homem.
        
    Marx empreende agora uma síntese do até aqui examinado:

Analisamos o ato de alienação da atividade prática humana, o trabalho, segundo dois aspectos: 1) a relação do trabalhador com o produto do trabalho como a um objeto estranho que o domina. Tal relação é ao mesmo tempo a relação com o mundo externo sensível, com os objetos naturais, assim, como com o mundo estranho e hostil; 2) a relação do trabalho com o ato da produção dentro do trabalho. Tal relação é a relação do trabalhador com a própria atividade, assim como com alguma coisa estranha, que não lhe pertence, a atividade como sofrimento (passividade), a força como impotência, a criação como emasculação, a própria energia física e mental do trabalhador, a sua vida pessoal – e o que será a vida senão atividade? – como uma atividade dirigida contra ele, independente dele, que não lhe pertence. Esta é a autoalienação, em contraposição com a acima mencionada alienação da coisa.
        
    Existem porém ainda outras estruturas de alienação nesse processo. Segundo Marx, a alienação do trabalho não apenas aliena o ser humano de si mesmo e de sua própria individualidade, mas igualmente, o aliena da própria base genérica de sua existência, ou seja, de sua própria natureza enquanto tal:

[...] Devemos ainda compreender uma terceira determinação do trabalho alienado, a partir das duas que já analisamos. [...] O homem é uma criatura genérica, não só na acepção de que faz objeto seu, prática e teoricamente, a espécie (tanto a sua própria quanto a das outras coisas), mas também – e agora trata-se apenas de outra expressão para a mesma coisa – no sentido de que ele se comporta diante de si mesmo como a espécie presente, viva, como ser universal, e portanto livre. [...] Assim como para o homem como para o animal, a vida genérica possui a sua base física no fato de que o homem (como o animal) vive da natureza inorgânica, e uma vez que o homem é mais universal do que o animal, também mais universal é a esfera da natureza inorgânica de que ele vive. Como as plantas, os animais, os minerais, o ar, a luz, etc., constituem, do ponto de vista da teoria, uma parte da consciência humana, na condição de objetos da ciência natural e da arte – são a natureza inorgânica espiritual do homem, os seus meios de vida intelectuais, que ele deve primeiro preocupar-se para a posse e efemeridade -, da mesma forma, do ponto de vista prático, formam uma parte da vida e da atividade humanas. [...] No plano físico, o homem vive apenas dos produtos naturais, na forma de alimento, calor, vestuário ou habitação, etc. A universalidade do homem aparece praticamente na universalidade que faz de toda natureza o seu corpo inorgânico: 1) como imediato meio de vida; e igualmente 2) como objeto material e instrumento da sua atividade vital. A natureza é o corpo inorgânico do homem, ou seja, a natureza na medida em que não é o próprio corpo humano. O homem vive da natureza, ou também, a natureza é o seu corpo, com o qual tem de se manter em permanente intercâmbio para não morrer. Afirmar que a vida física e espiritual do homem e a natureza são interdependentes significa apenas que a natureza se interrelaciona consigo mesma, já que o homem é uma parte da natureza. [...] Já que o trabalho alienado aliena a natureza do homem, aliena o homem de si mesmo, o seu papel ativo, a sua atividade fundamental, aliena do mesmo modo o homem a respeito da espécie; transforma a vida genérica em meio da vida individual. Primeiramente, aliena a vida genérica e a vida individual; depois, muda esta última na sua abstração em objetivo da primeira, portanto, na sua forma abstrata e alienada.
           
 E, por alienação da vida, entende-se a transformação dessa em mero “meio da vida”; a vida não existe mais em si mesma, apenas enquanto sobrevivência de si mesmo, automanutenção cega:

Certamente, o trabalho, a atividade vital, a vida produtiva, aparece agora para o homem como o único meio que satisfaz uma necessidade, a de manter a existência física. A vida produtiva, entretanto, é a vida genérica. É a vida criando vida. No tipo de atividade vital está todo caráter de uma espécie, o seu caráter genérico; e a atividade livre, consciente, constitui o caráter genérico do homem. A vida revela-se simplesmente como meio de vida. [...] O animal identifica-se prontamente com a sua atividade vital, não se diferencia dela. É a sua própria atividade. Mas o homem faz da atividade vital o objeto da vontade e a da consciência. Possui uma atividade vital lúcida. Ela não é uma deliberação com a qual ele imediatamente coincide. A atividade vital lúcida diferencia o homem da atividade vital dos animais. Só por este motivo é que ele é um ser genérico. Ou então, só é um ser lúcido, ou melhor, a sua vida é para ele um objeto, porque é um ser genérico. Exclusivamente por este motivo é que a sua atividade surge como atividade livre. O trabalho alienado inverte a relação, uma vez que o homem, enquanto ser lúcido, transforma a sua atividade vital, o seu ser, em simples meio da sua existência. [...] Do mesmo modo que o trabalho alienado degenera em meio à atividade autônoma, a atividade livre, transforma a vida genérica do homem em meio à existência física. [...] A consciência que o homem tem da própria espécie altera-se por meio da alienação, de modo que a vida genérica se transforma para ele em meio.
           
 E o aspecto central de toda esta análise torna-se agora explícito: o que está em jogo não são leis da natureza ou fatalidades do destino, mas lógicas de exploração e legitimação dessa exploração dos seres humanos uns pelos outros. O que, em um primeiro momento, aparece como uma estrutura de complexidade infinita, sem a possibilidade de percepção de uma lógica interna suficiente, acaba por se evidenciar como um processo como uma estrutura lógica extremamente clara, dos quais os vários aspectos analisados acabam por configurar um todo de sentido: o ser humano que, usando os seus poderes racionais, em vez de utilizá-los para constituir uma sociedade propriamente humana, que contraste claramente com o mundo natural e objetivo pela manutenção da dignidade humana propriamente dita, transforma, pelos processos de alienação, essa dignidade em mero objeto. Em lugar de crescer em qualidade propriamente humana, o ser humano degrada-se em coisa:

[...] Uma implicação imediata da alienação do homem a respeito do produto do seu trabalho, da sua vida genérica, é a alienação do homem em relação ao homem. Quando o homem se contrapõe a si mesmo, entra do mesmo modo em oposição com os outros homens. O que se constata na relação do homem com o seu trabalho, com o produto do seu trabalho e com si mesmo, constata-se também com a relação do homem com os outros homens, bem como com o trabalho e com o objeto do trabalho dos outros homens. De forma geral, a afirmação de que o homem se encontra alienado da sua vida genérica significa que um homem está alienado dos outros, e que cada um dos outros se encontra do mesmo modo alienado da vida humana. [...] A alienação do homem e, além de tudo, a relação em que o homem se encontra consigo mesmo, realiza-se e traduz-se inicialmente na relação do homem com os outros homens. Portanto, na relação do trabalho alienado, cada homem olha os outros homens segundo o padrão e a relação em que ele próprio, como trabalhador, se depara. [...] Iniciamos de um fato econômico, a alienação do trabalhador e da sua produção. Traduzimos este fato, em termos conceituais, como trabalho alienado. Ao avaliarmos este conceito, abordamos apenas o fato econômico. [...] Observemos ainda como o conceito de trabalho alienado se deve expressar e revelar na realidade. [...] Se o produto do trabalho me é bizarro e se contrapõe a mim, como poder estranho, a quem pertencerá? Se a minha própria atividade não me diz respeito, se é uma atividade alheia, coagida, a quem pertencerá, então? [...] A outro ser diferente de mim. [...] Quem será este ser? [...] O ser estranho, a quem pertence o trabalho e o produto do trabalho, a cujo serviço está o trabalho e a cuja posse se destina o produto do trabalho, só pode ser o próprio homem. [...] Se o produto do trabalho não pertence ao trabalhador, se a ele se contrapõe como poder estranho, isto só é possível porque o produto do trabalho pertence a outro homem distinto do trabalhador. Se a sua atividade constitui para ele um martírio, tem de ser fonte de deleite e de prazer para outro. Só o homem, e não os deuses ou a natureza é que pode ser este poder estanho sobre os homens. [...] Observemos ainda a afirmativa anterior de que a relação do homem com ele mesmo só é real, objetiva, por meio da sua relação com os outros homens. Se ele se relaciona com o produto do trabalho, com o seu trabalho objetivado, como com um objeto estranho, hostil, poderoso, independente, relaciona-se com ele de tal forma que outro homem estranho, inimigo, mais poderoso e independente, seja o senhor deste objeto. Se ele se relaciona com a própria atividade como com uma atividade não-livre, então se relaciona assim como a atividade com o serviço, sob o domínio, a repressão e o mando de outro homem. 
           
Não é difícil, então, do exposto, inferir alguns dados importantes sobre a concepção de humano em Marx. Humano, para Marx, é o ser vocacionado à preservação de sua dignidade – especialmente pela utilização de sua racionalidade em termos de trabalho dignificante que – porém – tem tanto a possibilidade de executar esta vocação como, pela alienação imposta a si e aos outros, de negá-la, decaindo à condição de mero objeto, coisa entre as coisas, e criando estruturas racionais, de percepção difícil, que sustentem uma tal degradação. A preservação do humano, ou sua recondução a uma situação de dignidade plena, passa pela revitalização dessa dignidade, através da crítica emancipatória dos processos de sua coisificação.
           


[1] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: 2002, p. 110-119.

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