A QUESTÃO DO HUMANO EM JEAN-FRANÇOIS LYOTARD

Jean-François Lyotard
_______________________
Ricardo Timm de Souza


         Jean-François Lyotard, nascido em Paris em 1924 e falecido em 1988 na mesma cidade, foi um dos intelectuais franceses a partir da década de 1950, e sua influência não cessa de crescer, especialmente devido à profundidade e fecundidade de seus estudos sobre o fenômeno pós-moderno. Todavia, suas obras abrangem uma vasta quantidade de assuntos, sempre em um diapasão criativo muito alentado. Colega de Cornelius Castoriadis e Claude Lefort no grupo “Socialismo ou barbárie”, desenvolveu uma vastíssima carreira docente. Conta-se entre seus muitos livros Deriva a partir de Marx e Freud, O diferendo, Economia libidinal, Discurso/figura, Instruções pagãs, Os dispositivos pulsionais, O muro do pacífico, Lições sobre a analítica do sublime, O inumano, O pós-moderno explicado às crianças, Heidegger e “os judeus”, Peregrinaçõeslei, forma, acontecimento. É porém de seu livro clássico O pós-moderno que extrairmos os excertos a seguir comentados. Tratam-se de dois capítulos da obra: “A natureza do vínculo social: a perspectiva moderna” e “A natureza do vínculo social: a perspectiva pós-moderna”[1].   
            Lyotard, após haver advertido, já no início da obra, que tratará das sociedades assim chamadas “pós-industriais”, inicia a análise do modelo moderno de concepção das sociedades contemporâneas mais desenvolvidas. Esta análise pressupõe a compreensão de dois modelos:

Se se quer tratar do saber na sociedade contemporânea mais desenvolvida, deve-se primeiramente decidir qual a representação metódica que dela se faz. Simplificando ao extremo, pode-se dizer que durante o último meio século, pelo menos, esta representação dividiu-se, em princípio, entre dois modelos: a) a sociedade forma um todo funcional; b) a sociedade divide-se em d partes. Pode-se ilustrar o primeiro com o nome de Talcott Parsons (pelo menos, o pós-guerra) e sua escola; o segundo pela corrente marxista (todas as escolas que o compõem, por mais diferentes que sejam, admitem o princípio da luta de classes e a dialética como dualidade trabalhando a unidade social). [...] Esta clivagem metodológica que determina duas grandes espécies de discursos sobre a sociedade provém do século XIX. A ideia de que a sociedade forma um todo orgânico, sem o que deixa de ser uma sociedade (e a sociologia não tem mais objeto), dominava o espírito dos fundadores da escola francesa; torna-se mais precisa com o funcionalismo; assume uma outra modalidade quando Parsons nos anos cinquenta, compara a sociedade a um sistema autorregulável. O modelo teórico e mesmo material não é mais o organismo vivo; ele é fornecido pela cibernética que lhe multiplica as aplicações durante e ao final da Segunda Guerra Mundial.
           
 O funcionalismo clássico, herdeiro de certo modo da ideia de equilíbrio racional provindo das Luzes, corresponde aos últimos arroubos de otimismo social, antes que se perceba a que ponto são falaciosos seus dispositivos de autolegitimação:

Com Parsons, o princípio do sistema é, se se pode dizer, ainda otimista: corresponde à estabilização das economias em crescimento e das sociedades de abundância sob a égide de um welfare state temperado. Para os teóricos alemães de hoje, a Systemtheorie é tecnocrática, e mesmo cínica, para não dizer desesperada: a harmonia entre necessidades e esperança dos indivíduos e dos grupos com as funções que asseguram o sistema não é mais do que uma componente anexa do seu funcionamento; a verdadeira finalidade do sistema, aquilo que o faz programar-se a si mesmo como uma máquina inteligente, é a otimização da relação global entre os seus imput e output, ou seja, o seu desempenho. Mesmo quando suas regras mudam e inovações se produzem, mesmo quando suas disfunções, como as graves, as crises, o desemprego ou as revoluções políticas podem fazer acreditar numa alternativa e levantar esperanças, não se trata senão de rearranjos internos e seu resultado só pode ser a melhoria da ‘vida’ do sistema, sendo a entropia a única alternativa a este aperfeiçoamento das performances, isto é, o declínio. [...] Para além do interno deslocamento que conduz do pensamento de um Comte a de um Luhmann vislumbra-se uma mesma ideia do social: a sociedade é uma totalidade unida, uma ‘unicidade’. Parsons a formula claramente: ‘A condição mais decisiva para que uma análise dinâmica seja boa, é de que seja contínua e sistematicamente referido ao estado do sistema considerado como um todo [...]. Um processo ou um conjunto de condições ou bem ‘contribui’ para a manutenção (ou para o desenvolvimento) do sistema, ou bem é ‘disfuncional’ prejudicando assim a integridade e a eficácia do sistema’. Ora, esta ideia é também a dos ‘tecnocratas’. Daí sua credibilidade: possuindo os meios de se tornar realidade, possui os de administrar suas provas. É o que Horkheimer chamava de ‘paranoia’ da razão.
          
  A questão, porém, é complexa; a percepção da falácia da estrutura de autorregulação não corresponde necessariamente às condições de criticá-la pertinentemente, pois se pressuporia uma capacidade “externa” de atribuição de significados ao todo, o que não é o caso, segundo Lyotard:

Mas, não se pode julgar como paranóicos o realismo da autorregulação sistemática e o círculo perfeitamente fechado de fatos e interpretações, a não ser sob condição de se dispor ou de se pretender dispor de um observatório que por princípio escape à sua atração. Tal é a função do princípio da luta de classe na teoria da sociedade a partir de Marx. [...] Se a teoria ‘tradicional’ está sempre ameaçada de ser incorporada à programação do todo social como simples instrumento de otimização das performances deste último, é que seu desejo de uma verdade unitária e totalizante presta-se à prática unitária e totalizante dos gerentes do sistema. A teoria ‘crítica’, por se apoiar sobre um dualismo de um princípio e desconfiar das sínteses e reconciliações, deve estar em condições de escapar a este destino. [...]  
         
   É neste sentido que o marxismo, com o seu potencial poder crítico, é de certo modo introjetado na planificação do sistema, apesar de seus impulsos iniciais:

É pois um outro modelo da sociedade (e uma outra ideia da função do saber que nela se pode produzir e dela se adquirir) que guia o marxismo. Este modelo origina-se nas lutas que acompanham o cerco das sociedades civis tradicionais pelo capitalismo. Não se trata aqui de seguir os périplos que são a matéria da história social, política e ideológica de mais um século. Basta lembrar o balanço que dele se pode fazer hoje, pois seu destino é conhecido: nos países de gestão liberal ou liberal avançada, a transformação dessas lutas e dos seus órgãos em reguladores do sistema: nos países comunistas, o retorno, em nome do próprio marxismo, do modelo totalizante e dos efeitos totalitários, tendo-se das lutas em questão simplesmente privadas do direito à existência. E em toda a parte, em nome de um ou outro, a Crítica da economia política (era este o subtítulo do Capital de Marx) e a crítica da sociedade alienada que lhe era correlata são utilizadas à guisa de elementos na programação do sistema. [...] Seguramente, o modelo crítico manteve-se e apurou-se em face deste processo em minorias como a Escola de Frankfurt ou o grupo Socialismo ou barbárie. Mas não se pode esconder que o pilar social do princípio da divisão, a luta de classes, tendo-se diluído a ponto de perder toda radicalidade, encontrou-se finalmente exposto ao perigo de perder sua base teórica e de se reduzir a uma ‘utopia’, a uma ‘esperança’, a um protesto pela honra feito em nome do homem, ou da razão, ou da criatividade, ou ainda de determinada categoria social reduzida ‘in extremis’ às funções de agora em diante improváveis de sujeito crítico, como o terceiro o mundo ou a juventude estudantil. 
           
 É da percepção deste status quo contemporâneo que depende a efetivação de uma crítica pertinente da estrutura de funcionamento das sociedades avançadas:

Esta retrospectiva esquemática (ou esquelética) não teve outra função se não a de esclarecer a problemática na qual pretendemos situar a questão do saber nas sociedades industriais avançadas. Pois não se pode entender o estado atual do saber, isto é, que problemas seu desenvolvimento e difusão encontram hoje, se não se conhece nada da sociedade na qual ele se insere. E, hoje, mais do que nunca, conhecer qualquer coisa daquela é primeiro escolher a maneira pela qual ela pode fornecer respostas. Não se pode concluir que o papel principal do saber é o de ser um elemento indispensável do funcionamento da sociedade e agir em consequência para com ela a não ser que se conclua que esta é uma grande máquina. [...] Inversamente, não se pode contar com sua função crítica e sonhar em orientar-lhe o desenvolvimento e a difusão neste sentido, a não ser que se tenha concluído que ela não perfaz um todo integrado e que continua a ser perturbada por um princípio de contestação. [...] A alternativa parece clara – homogeneidade ou dualidade intrínsecas do social, funcionalismo ou criticismo do saber – mas a decisão parece difícil de tomar. Ou arbitrária. [...] Tentou-se dela escapar distinguido duas espécies de saber: uma positivista, que encontra facilmente sua aplicação nas técnicas relativas aos homens e aos materiais e que se presta a tornar-se uma força produtiva indispensável ao sistema, e uma espécie crítica ou reflexiva ou hermenêutica que, interrogando-se direta ou indiretamente sobre os valores ou fins, opõe um obstáculo a qualquer ‘recuperação’.
        
    Estamos, portanto, frente a um difícil dilema. No âmbito da modernidade, críticos que somos da autorregulação do capitalismo tardio, não dispomos de mecanismo capazes de penetrar na sua estrutura de legitimação, pois as alternativas que se propõem acabam por se reduzir à contraposição, à posição do status quo; estamos ainda, na modernidade, preso às lógicas de decisão binárias, insuficientes para o trato da complexidade que a questão assumiu.
            Acontece que irrompe, no corpo da “funcionalidade”, não uma “contra-funcionalidade” crítica, mas uma disfunção desreguladora, que expõe a própria insuficiência da lógica dual. Lyotard propõe então, em termos “pós-modernos”, uma outra estrutura de tratamento da questão:

Não conseguimos uma solução de divisão como esta. Postulamos que a alternativa que ela busca resolver, mas não faz senão reproduzir, deixou de ser pertinente em relação às sociedades que nos interessam, e que ela mesma pertence a um pensamento por oposições que não corresponde às manifestações mais eloquentes do saber pós-moderno. O ‘redesdobramento’ econômico na fase atual do capitalismo auxiliado pela mutação das técnicas e das tecnologias segue em paralelo, já se disse, com uma mudança de função dos Estados: a partir desta síndrome forma-se uma imagem da sociedade que obriga a revisar seriamente os enfoques apresentados como alternativa. Digamos sumariamente que as funções de regulagem e, portanto, de reprodução, são e serão cada vez mais retiradas dos administradores e confiadas a autômatos. A grande questão vem a ser e será a de dispor das informações que estes deverão ter na memória a fim de que boas decisões sejam tomadas. O acesso às informações é e será da alçada dos experts de todos os tipos. A classe dirigente é e será a dos decisores. Ela já não é mais constituída pela classe política tradicional, mas por uma camada formada por dirigentes de empresas, altos funcionários, dirigentes de grandes órgãos profissionais, sindicais, políticos, confessionais. [...] A novidade é que, neste contexto, os antigos polos de atração formados pelos Estados-nações, os partidos, os profissionais, as instituições e as tradições históricas perdem seu atrativo. E elas não parecem dever ser substituído, pelo menos na escala que lhes é própria. A comissão tricontinental não é um pólo de atração popular. As ‘identificações’ com os grandes nomes, com os heróis da história atual, se tornam mais difíceis. Não é entusiasmante consagrar-se a ‘alcançar a Alemanha’, como o presidente francês parece oferecer como finalidade de vida a seus compatriotas. Pois não se trata verdadeiramente de uma finalidade de vida. Esta é deixada à diligência de cada cidadão. Cada qual é entregue a si mesmo. E cada qual sabe que este si mesmo é muito pouco.  
          
  Está a ocorrer, portanto, nas sociedades consideradas, uma espécie de “dissolução” de vínculos sociais e formais de toda a espécie: é a famosa “falência das grandes narrativas”. Em oposição explícita a Baudrillard, porém, nosso autor não recai na pura aleatoriedade que, pretensamente, tal situação causaria; ele vê, nesta complexidade, o índice de novidade que pode mesmo renovar a capacidade de percepção da realidade pelos próprios indivíduos, em rearranjos não previsíveis (ainda que de uma previsibilidade tão rarefeita como a comparação com “movimentos brownianos”):  

Desta decomposição dos grandes Relatos, que analisaremos mais adiante, segue-se o que alguns analisam como a dissolução do vínculo social e a passagem das coletividades sociais ao estado de uma massa composta de átomos individuais lançados num absurdo movimento browniano. Isto não é relevante, é um caminho que nos parece obscurecido pela representação paradisíaca de uma sociedade ‘orgânica’ perdida. [...] O si mesmo é pouco, mas não está isolado; é tomado numa textura de relações mais complexa e mais móvel do que nunca. Está sempre, seja jovem ou velho, homem ou mulher, rico ou pobre, colocado sobre o ‘nós’ dos circuitos de comunicação, por ínfimos que sejam. É preferível dizer: colocado nas posições pelas quais passam mensagens da natureza diversa. E ele não está nunca, mesmo o mais desfavorecido, privado de poder sobre estas mensagens que o atravessam posicionando, seja na posição de remetente, destinatário ou referente. Pois eu deslocamento em relação a estes efeitos de jogos de linguagem (compreende-se que é deles que se trata) é tolerável pelo menos dentro de certos limites (e mesmo estes são instáveis) e ainda suscitado pelas regulagens, sobretudo pelos reajustamentos através dos quais o sistema é afetado a fim de melhorar suas performances. Convém mesmo dizer que o sistema pode e deve encorajar estes deslocamentos, na medida em que luta contra sua própria entropia e que uma novidade correspondente a um ‘lance’ não esperado e ao deslocamento correlato de tal parceiro ou de tal grupo de parceiros que nele se encontra implicado, pode fornecer ao sistema este suplemento de desempenho que ele não cessa de requisitar e de consumir.   
        
    Estamos imersos em um universo de jogos de linguagem; micro-universos que se constituem e se reorganizam, micro-histórias que se estabelecem desde bases muito diferentes das da tradição. O humano é reconduzido a si mesmo por vias improváveis: pela história que se depõe sobre, via linguagem, em cada ser que nasce, reencontramos, requalifica cada “átomo humano” em relação à sua possibilidade de autointeligibilidade.

Compreende-se atualmente em que perspectivas forma propostas acima os jogos de linguagem como método geral de enfoque. Não pretendemos que toda relação social seja desta ordem; isto permanecerá aqui uma questão pendente; mas que os jogos de linguagem sejam, por um lado, o mínimo de relação exigido para que haja sociedade, não é necessário que se recorra a uma robinsonada para que se faça admiti-lo; desde antes do seu nascimento, haja vista o nome que lhe é dado, a criança humana já é colocada como referente da história contada por aqueles que a cercam e em relação a qual ela terá mais tarde de se deslocar. Ou mais simplesmente ainda: a questão do vínculo social, enquanto questão é um jogo de linguagem, o da interrogação, que se posiciona imediatamente aquele que a apresenta, aquele a quem ela se dirige, e o referente que ela interroga: esta questão já é assim o vínculo social. [...] Por outro lado, numa sociedade em que a componente comunicacional torna-se cada dia mais evidente, simultaneamente como realidade e como problema, é certo que os aspecto de linguagem (langagier) adquire uma nova importância, que seria superficial reduzir à alternativa tradicional da palavra manipuladora ou da transmissão unilateral de mensagem, por um lado, ou da livre expressão ou do diálogo, por outro lado. [...] Uma palavra sobre este último ponto. Expondo-se este problema em ermos simples de teoria da comunicação, se estaria esquecendo de duas coisas: as mensagens são dotadas de formas e de efeitos bastantes diferentes, conforme forem, por exemplo, denotativas, prescritivas, avaliativas, performativas, e etc. É certo que eles não operam apenas na medida em que comunicam informação. Reduzi-las a esta função e a uma perspectiva que privilegia indevidamente o ponto de vista do sistema o seu único interesse. Pois é máquina cibernética que funciona pela informação, mas, por exemplo, os fins que lhes são dados quando de sua programação provêm de enunciados prescritivos e avaliativos que ela não corrigira no curso do funcionamento, por exemplo, a maximização de suas performances. Mas como garantir que a maximização das performances constitui sempre o melhor fim para o sistema social? Os ‘átomos’ que formam a sua matéria são, em todo caso, competentes em relação a estes enunciados, e notadamente a esta questão.
           
 E a questão, ainda aqui, não se resume a algum tipo de aleatoriedade ou de planejamento ilocalizável; as encruzilhadas de cada questão de sentido, as contraposições dos átomos em si mesmos e entre si mesmos, a dimensão agonística da configuração dessa complexidade, é fundamental para que se perceba o que realmente a constitui:

E, por outro lado, a teoria da informação em sua versão cibernética trivial deixa de lado um aspecto decisivo, já evidenciado, o aspecto agonístico. Os átomos são colocados em encruzilhadas de relações pragmáticas, mas eles são também deslocados pelas mensagens que os atravessa, no movimento perpétuo. Cada parceiro de linguagem sofre por ocasião dos ‘golpes’ que lhe dizem respeito um ‘deslocamento’, uma alteração, seja qual for o seu gênero, e isto não somente na qualidade de destinatário e de referente, mas também como remetente. Estes ‘golpes’ não podem deixar de suscitar ‘contragolpes’; ora, todo mundo sabe pela experiência que estes últimos não são ‘bons’ se forem apenas reacionais. Pois, então, eles não são senão efeitos programados na estratégia do adversário; eles a realizam e vão assim a reboque de uma modificação da relação das respectivas forças. Daí a importância que existe em gravar o deslocamento e mesmo em desorientá-lo, de modo a conduzir um ‘golpe’ (um novo enunciado) que não seja esperado. [...] O que é preciso para compreender desta maneira as relações sociais, em qualquer escala que as consideremos, não é somente uma teoria da comunicação, mas uma teoria dos jogos, que inclua a agonística em seus pressupostos. E já se advinha que, neste contexto, a novidade requerida não é a simples ‘inovação’. Encontrar-se-á junto a muitos sociólogos da geração contemporânea matéria com que se possa apoiar este enfoque, sem falar de linguísticas ou filósofos da linguagem. 
           
 Temos aqui algo que distingue fundamentalmente o modelo moderno de compreensão do mundo do modelo pós-moderno; pois esse último depende de micro-tensões que não podem ser nunca subsumidos em uma narrativa maior que as resolva para si mesmas.

Esta ‘atomização’ do social em flexíveis redes de jogos de linguagem pode parecer bem afastada de uma realidade moderna que se representa antes bloqueada pela artrose burocrática. Invocar-se-á pelo menos o peso das instituições que impõem limites aos jogos de linguagem e assim restringem a inventividade dos parceiros em matéria de lances. Isto não nos parece constituir uma dificuldade particular. [...] No uso ordinário do discurso, numa discussão entre dois amigos, por exemplo, os interlocutores lançam mão de todos os meios, mudam de jogo entre um enunciado e outro: a interrogação, a súplica, a asserção, o relato são lançados confusamente na batalha. Esta não é desprovida de regra, mas sua regra autoriza e encoraja maior flexibilidade dos enunciados. [...] Ora, deste ponto de vista, uma instituição difere sempre de uma discussão no que ela requer de pressões suplementares para que os enunciados sejam declarados admissíveis em seu seio. Estas pressões operam como filtros sobre os poderes de discursos, eles interrompem conexões possíveis sobre as redes de comunicações: há coisas que não devem ser ditas. E elas privilegiam certos tipos de enunciados, por vezes um único, cuja predominância caracteriza o discurso da instituição: há coisas que devem ser ditas. E elas privilegiam certos tipos de enunciados, por vezes um único, cuja predominância caracteriza o discurso da instituição: há coisas que devem ser ditas e maneiras de dizê-las. Assim: os enunciados de comando nas forças armadas, de prece nas igrejas, de denotação nas escolas, de narração nas famílias, de interrogação nas filosofias, de desempenho nas empresas... A burocratização é o limite extremo desta tendência. 
           
E, não obstante, a própria ideia de instituição, constituída através de formalizações historicamente consagradas segundo um modelo de racionalidade formalista, não foi capaz de contemplar as dinâmicas reais que têm lugar em seu interior. É a compreensão desses pequenos ‘desencontros’ intrainstitucionais (e, por extensão plena, intrassociais), que nos leva a perceber a vitalidade da dinâmica humana por debaixo da rigidez das estruturas funcionais – burocráticas:

Contudo, esta hipótese sobre a instituição é ainda muito ‘pesada’, e ela parte de uma visão ‘coisista’ do instituído. Hoje, sabemos que o limite que a instituição opõe ao potencial da linguagem em ‘lances’ nunca estabelecido (mesmo quando ele o é formalmente). Ele mesmo é, antes, o resultado provisório e a disputa de estratégias de linguagem travadas dentro e fora da instituição. Exemplos: o jogo de experimentação sobre a linguagem (a poética) terá seu lugar numa universidade? Pode-se contar história no conselho dos ministros? Reivindicar numa caserna? As respostas são claras: sim, se a universidade abrir seus ateliers de criação; sim, se os superiores aceitarem deliberar com os soldados. Dito de outro modo: sim, se os limites da antiga instituição forem ultrapassados. Reciprocamente, dir-se-á que eles não se estabilizam a não ser que deixem de ser um desafio. [...] Acreditamos que é neste espírito que convém abordar as instituições contemporâneas do saber.  
           
O humano na era da pós-modernidade, segundo Lyotard: sobrevivência em meio aos despojos do passado, às grandiosas estruturas obsoletas. Tensões ínfimas que um encontro é capaz de gerar no interior de um todo bem ordenado, que são, simultaneamente, tensões máximas na decomposição de formalidades não mais subsistentes no decorrer da história; o humano feito novas linguagens.


[1] LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988, p. 20-32.

Postagens mais visitadas