A QUESTÃO DO HUMANO EM JACQUES DERRIDA

Jacques Derrida
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Ricardo Timm de Souza

            Jacques Derrida, nascido em 1930 em El Biar, perto de Argel, Argélia, e falecido em Paris em 2004, se constitui, sem nenhuma dúvida, em um dos filósofos centrais da contemporaneidade. Sua influência nos mais diversos campos da cultura é crescente; seus mais de setenta livros já publicados vêm sendo traduzido para as mais diferentes línguas.
            Derrida tem como impulso central de seu pensamento o tema da justiça abordado desde o famoso conceito de “diferença”; ao processamento filosófico deste núcleo básico, consagrou-se denominar “desconstrução”[1]. Assim, é muito difícil privilegiar um momento específico da sua obra onde a questão do humano seja especialmente privilegiada – ela perpassa todas as suas obras maiores, de forma direta ou indireta. A questão humana é sua questão filosófica por excelência.
            O pensador argelino pronunciou na Universidade de Califórnia, em 1993, uma conferência, posteriormente ampliada, publicada e traduzida no Brasil com o título Espectros de Marx. É do “Exórdio” deste livro, que guarda um tom de oralidade fiel à origem do texto, que provêm os excertos que serão a seguir analisados[2].
            O texto inicia, ao estilo de Derrida, convidando o leitor – ou ouvinte – a sintonizar com um determinado estilo de linguagem, que combina um monumental poder de evocação e síntese com a recorrência de ideias perscrutantes, que vão, aos poucos, configurando um discurso de extrema incisividade na sua clareza sem concessões. Inicialmente, temos um proposição aparentemente inusitada, onde se “expressa um desejo”:

Alguém, vocês ou eu, se adianta e diz: eu queria aprender a viver enfim. Mas, por que enfim? Aprender a viver. Estranha palavra de ordem: quem pode dar lição? Que isto sirva de lição, mas a quem? Servirá, alguma vez? Saber-se-á alguma vez viver, e, primeiramente, o que quer dizer ‘aprender a viver’? E por que ‘enfim’?
Isoladamente, fora do contexto – mas, um contexto sempre permanece aberto, portanto, falível e insuficiente -, esta palavra de ordem sem frase forma um sintagma quase ininteligível. Até que ponto, aliás, essa locução idiomática se deixa traduzir?
Locução magistral, contudo – ou por isso mesmo. Pois, na boca de um mestre, este fragmento de palavra de ordem sempre dirá alguma coisa sobre a violência. Vibra como uma flecha, na destreza de uma aptidão irreversível e dissimétrica, a que passa, o mais das vezes, de pai a filho, do mestre ao discípulo ou do senhor ao escravo (‘vou te dar uma boa lição, eu mesmo’). Tal aptidão vacila, então: entre a aptidão como experiência (aprender a viver não é precisamente a experiência?), a aptidão como treinamento.
           
 Um fragmento de texto, deslocado de um contexto que lhe emprestasse previamente inteligibilidade, uma intensidade expressa, inicialmente de forma por assim dizer “excessivamente ampla”, indivisível, sem uma figuração onde tudo viesse a se encaixar; mas uma locução – um exórdio – que diz de si mesma: de sua impossibilidade lógica, que dá à luz a uma espécie de “mundo de sombras”:

Mas aprender a viver, aprender por si mesmo, sozinho, ensinar a si mesmo a viver (‘eu queria aprender a viver enfim’) não é, para quem vive, o impossível? Não vem a ser isso mesmo que a lógica não permite? Viver, por definição, isto não se aprende. Não por si mesmo da vida pela vida. Somente do outro e pela morte. Em todo caso, do outro no limite da vida. Tanto no limite interno quanto no (limite) externo, trata-se de uma heterodidática entre vida e morte.
       
     Estranha heterodidática, mas necessária – como viver sem aprender assim? Subrrepticiamente, insinua-se algo de muito importante: um processo, um acontecer dessa didática do outro, do estranho, que, na penumbra, no limite da vida, não pode ser confundida com a claridade do delírio autossuficiente das ideias claras e distintas. Um aprendizado diferente, o da vida: teoria nenhuma é capaz de lhe fazer justiça; apenas a vida mesma. E vida que se desdobra para fora de sua autolimitação pelo limite da morte; “já vivo, mas, enfim, gostaria de aprender a viver” – não se trata de uma lógica de ideias, mas de uma ideia de lógica que está sendo subvertida, de uma ética que supera a pretensa inconsistência lógica de tal enunciado pelo processamento de seu sentido. Entre a vida e a morte, entre o que estas identificam e o que estas traem, vive-se não fazendo outra coisa que aprendendo a viver: aprendendo a conviver com a vida dos outros.

Nada mais necessário, no entanto, do que esta sabedoria. Trata-se da ética mesma: aprender a viver – por si só, por si mesmo. A vida não sabe viver de outro modo. E faz-se outra coisa, em tempo algum, senão aprender a viver? Estranho compromisso para quem está vivo, supostamente vivo, uma vez que tal compromisso é, ao mesmo tempo, impossível e necessário: ‘Gostaria de aprender a viver’. Não tem sentido e não pode ser justo se não se explicar com a morte. Com a minha e com a do outro. Entre vida e morte, portanto, eis, na realidade, o lugar de uma injunção sentenciosa que sempre finge falar com o justo.
        
    Mas a vida – porque se não a tem – é desconhecida. Trata-se de uma aventura no desconhecido. E o desconhecido, reino dos limites, nas fronteiras do tolerável, é a condição da vida. Vida que se propõe para além da lógica ontológica, pois, em sua aventura, lida até mesmo com o impossível, com o não-presente, com o espectral: com tudo o que não existe para a representação da vida da qual a vida mesma, enquanto processo, se distingue definitivamente.

O que se segue (o presente ensaio, R. T. S.) avança como um ensaio na noite – no desconhecido do que deve ficar por vir -, uma simples tentativa, pois, para analisar com alguma consequência tal exórdio: ‘Eu queria aprender a viver. Enfim, ora. [...] Isto só pode acontecer, se isto se há-de-fazer, aprender a viver, entre vida e morte. Nem na vida nem na morte apenas. O que se passa entre dois, e entre todos os ‘dois’ que se queiram, como entre vida e morte, só há-de-valer de algum fantasma. Seria preciso, então, dar lição aos espíritos. Mesmo e antes de tudo se isto, o espectral, não existe. Mesmo e antes de tudo se isto, sem substância nem essência nem existência, não está jamais enquanto tal. O tempo do ‘aprender a viver’, um tempo sem presente tutor, consistiria nisto, o exórdio nos encaminha para isto: aprender a viver com os fantasmas, no encontro, na companhia ou no corporativismo, no comércio sem comércio dos fantasmas. A viver de outro modo, e melhor. Não melhor, mais justamente. Mas com eles. Não há estar-com o outro, não há socius sem este com que, para nós, torna o estar-com em geral mais enigmático do que nunca. E este estar-com os espectros seria também, não somente, mas também um política da memória, da herança e das gerações.
         
   Aventura estranha, desconfortável: arriscada. Onde está a referência? Certamente não na ideia do que se passará – pois não a temos; nem na do que se passou, pois a memória não substitui o viver, ou, pelo menos, é um viver de outro modo; nem do presente, que não é mais – felizmente! – quando penso que o apreendi. Fora de representação solitária. Com o outro. Com os outros. Ainda que com outros espectrais. Os fantasmas, de essência indeterminável, povoam clandestinamente o mundo da consciência; não há exorcismos. Apenas se dão – se dão na vida. Desconectam a vida de sua lógica instintiva, íntima, ao se inusitarem entre os vivos. Provocam. Chamam à resposta: responsabilidade.

Se me apresto a falar longamente de fantasmas, de herança e de gerações, de gerações de fantasmas, ou seja, de certos outros que não estão presentes, nem presentemente vivos, nem para nós, nem em nós, nem fora de nós, é em nome da justiça. Da justiça onde ainda ela não está, ainda não está presente: aí onde ela não está mais, entenda-se, aí onde ela não está mais presente, e aí onde ela nunca será, não mais do que a lei, redutível ao direito. É preciso falar do fantasma, até mesmo ao fantasma e com ele, uma vez que nenhuma ética, nenhuma política, revolucionária ou não, parece possível, pensável e justa, sem reconhecer em seu princípio o respeito por esses outros que não estão mais ou por esses outros que ainda não estão aí, presentemente vivos, quer já estejam mortos, quer ainda não tenham nascido. Justiça alguma – não digamos lei alguma, e mais uma vez lembro que não falamos aqui do direito – parece possível ou pensável sem o princípio de alguma responsabilidade, para além de todo presente vivo, nisto que desajusta o presente vivo, diante dos fantasmas daqueles que já estão mortos ou ainda não nasceram, vítimas ou não das guerras, das violências políticas ou outras, dos extermínios nacionalistas, racistas, colonialistas, sexistas ou outros, das opressões do imperialismo capitalista ou de todas as formas do totalitarismo. Sem essa não contemporaneidade a si do presente vivo, sem isto que secretamente o desajusta, sem essa responsabilidade e respeito pela justiça com relação a esses que não estão presentes, que não estão mais ou ainda não estão presentes e vivos, que sentido teria formular-se a pergunta ‘onde?’, ‘onde amanhã?’ (‘whither?[3]).  
       
     Portanto, uma ética do desajuste: é isso que os fantasmas provocam. É em nome da justiça absolutamente exigente, para além dos limites das possibilidades limitadas, para com os outros, os infinitos outros, os infinitamente outros, que se chama à vida. A justiça – esse “núcleo indesconstruível de toda a desconstrução”, nas palavras de Derrida – é o pólo atrator do diverso para além do conceito de diversidade, esse conluio de fantasmas em torno à vida, na não-contemporaneidade – na dia-cronia – de um encontro, de múltiplos e infinitos encontros.

Esta pergunta [‘onde amanhã?’, R. S. T.] chega, caso chegue, e questiona sobre o que virá no por vir. Voltada para o porvir, indo a sua direção, vem também daí, provém do porvir. Deve, portanto, exceder toda presença como presença a si. Ao menos, só deve possibilitar essa presença a partir do movimento de algum desajuntamento, disjunção ou desproporção; na inadequação a si. Ora, se esta pergunta, já que ela vem até nós, não pode decerto vir senão no futuro (whither? Para onde iremos, amanhã? Para onde vai, por exemplo, o marxismo? Para onde iremos com ele?), o que se mantém diante dela deve também precedê-la como sua origem: antes dela. Mesmo se do porvir é a sua procedência, este porvir deve ser, assim como toda procedência, absolutamente e irresistivelmente passado. ‘Experiência’ do passado como porvir, um e outro absolutamente absolutos, para além de toda modificação de um presente qualquer. Se esta é possível e se devemos levá-la a sério, a possibilidade desta pergunta, que não é talvez mais uma pergunta e que estamos chamando aqui de justiça, deve conduzir para além da vida presente, da vida como minha vida ou nossa vida. Em geral, pois será a mesma coisa para a ‘minha vida’ ou ‘nossa vida’ amanhã, a dos outros, como foi o caso ontem, para outros: para além, portanto, do presente que vivo em geral.
         
   Assim, um tempo não-pronto – o tempo por vir, que ainda virá, que o presente resolve, que não se apazigua com conciliações hipócritas; um tempo do ainda-não. Sem síntese, para além das soluções do presente, os fantasmas assomam a superfície geométrica dos pensamentos claros. Querem justiça. E justiça com eles.

Ser justo: para além do presente em geral – e de seu simples reverso negativo. Momento espectral, um momento que não pertence mais ao tempo, caso se compreenda debaixo desse nome o encadeamento das modalidades do presente (presente passado, presente atual: ‘agora’, presente futuro). Estamos questionando neste instante, estamos nos interrogando sobre este instante que não é dócil ao tempo, pelo menos ao que assim chamamos. Furtivo ou intempestivo, o aparecimento do espectro não pertence a este tempo, ele não dá tempo, não este: ‘enter the Ghost, exit the Ghost, re-enter the Ghost’ (Hamlet).
          
  A vontade de justiça ajuda a conviver com os fantasmas, a suportar suas provocações. Subversão do tempo, a irrupção do furtivo, com suas exigências, estranha presentificação para além das consolações do presente, instante absurdo e, todavia, existente; contrapartida de uma exigência absurda – a da justiça enquanto tal, sem atenuações, sem fissuras, que é também uma exigência existente. Lembrança dos fantasmas, lembranças que nós somos, quando a nós chegam; desestruturação do bem construído em favor do mais valioso, da aventura da responsabilidade.

Isso se assemelha a um axioma, mais amplamente, a um axioma sobre a axiomática exatamente, a saber, sobre alguma evidência supostamente indemonstrável acerca do que tem preço, valor, qualidade (axia). Assim como, e sobretudo, acerca da dignidade (por exemplo, do homem como exemplo de um ser finito e racional), acerca dessa dignidade incondicional (Würdigkeit) que Kant elevava exatamente acima de toda economia, de todo valor comparado ou comparável, de todo preço de mercado (Merketpreis). Este axioma pode chocar. E a objeção não se faz esperar: um dever de justiça compromete, finalmente, para com quem? E ainda fosse para além do direito ou da norma, para com quem e com o quê, senão para com a vida de um ser vivo? Existe, em tempo algum, justiça, compromisso de justiça ou responsabilidade em geral que tenha de responder por si (por si, vivo) perante outra coisa, em última instância, que não seja a vida de um ser vivo, quer se entenda, como vida natural ou como vida do espírito? Certamente. A objeção parece irrefutável. Mas o irrefutável supõe que essa justiça conduza a vida para além da vida presente ou de seu estar-presente efetivo, de sua efetividade empírica ou ontológica: não em direção à morte, mas em direção a uma sobre-vida, a saber, um traço com relação ao qual vida e morte seriam somente traços e traços, uma sobrevida cuja possibilidade vem antecipadamente desajuntar ou desajustar a identidade a si do presente vivo. Espíritos. É preciso contar com eles. Não se pode não dever, não pode não contar com eles, que são mais de um: o mais de um.  
         
   Vida resgatada de seu conceito pela sobrevida, pela sobrevida do singular para além da identidade, do particular para além do geral, do existente para além de suas explicações. O humano, para Derrida, é a encarnação de uma vontade insaciável de justiça, que permite a sobre-vivência (até mesmo em meio ou apesar do insuportável) nos rastos do porvir, na responsabilidade que ensina, enfim, a viver. Justiça como filosofia primeira. Nos espíritos que se dão a conhecer, vivem os espíritos dos mortos e dos vivos, inclusive dos que ainda não nasceram; apenas um detalhe os une: a necessidade da justiça. A morte e a vida inclinam-se na direção da justiça; o humano, dobrando-se em si mesmo, transborda de si mesmo, na vontade sobrevivente de justiça incondicional para com o outro.


[1] Para maiores dados sobre o conceito de “diferença” e as linhas gerais de pensamento, cf. nosso Razões plurais – itinerários da racionalidade ética no século XX: Adorno, Bergson, Derrida, Levinas, Rosenzweig. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
[2] DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994, p. 9-13.
[3] O colóquio tratava da questão do porvir do marxismo.

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