A QUESTÃO DO HUMANO EM HENRI BERGSON

Henri Bergson
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Ricardo Timm de Souza

            Nascido em Paris em 1859, de mãe inglesa e pai holandês, e ali falecido em 1941, Henri Bergson é provavelmente o mais influente filósofo francês deste século, embora não tenha, a rigor, propriamente criado uma escola filosófica, ou deixado discípulos que tenham levado suas ideias a novos desenvolvimentos em algum tipo de linha evolutiva ortodoxa. Porém, sua influência se deve ao fato que a imensa maioria dos filósofos franceses posteriores sofreu a influência de seu pensamento; e não apenas os franceses. Durante algum tempo, Bergson foi o filósofo contemporâneo mais conhecido.
            Isso se deve não só à originalidade de seu pensar – de uma estatura intelectual dificilmente comparável em termos de história da filosofia -, mas igualmente à sua influência cultural como um todo; Bergson não foi apenas filósofo, mas matemático e diplomata – e escritor de tal qualidade que lhe foi concedido o Prêmio Nobel de 1928. Um dos idealizadores da Liga das Nações, Bergson foi igualmente um dos primeiros interlocutores de Einstein a respeito da Teoria da Relatividade.
            O pensamento filosófico de Bergson tem alvo certo: a visão positivista de mundo, esvaziada de sentido humano propriamente dito. E por isso, muito embora não seja Bergson conhecido como “humanista”, a preocupação pela condição humana perpassa, ao menos implicitamente, a totalidade de seus escritos. Sua obra é vasta, incluindo, entre seus livros mais conhecidos, Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, Matéria e memória, A evolução criadora, O riso – ensaio sobre a significação do cômico, A energia espiritual, O pensamento e o movente. É, porém, do quarto capítulo do seu penúltimo livro, intitulado As duas faces da moral e da religião, que extrairemos a seguir excertos que nos permitam uma aproximação de sua compreensão da condição humana[1].
            Neste livro, Bergson discute os conceitos de “sociedade aberta” e “sociedade fechada” e, por extensão, de moral e religião abertas e fechadas. Neste ponto do livro, revisando estes temas, Bergson nos apresenta o que entende por “sociedade fechada”:

Um dos resultados de nossa análise foi distinguir profundamente o fechado e o aberto no domínio social. A sociedade fechada é aquela cujos membros se entrosam mutuamente, indiferentes ao restante dos homens, sempre prontos a atacar ou defender-se, restritos em suma a uma atitude de combate. Assim é a sociedade humana quando sai das mãos da natureza. O homem fora feita para ela, como a formiga para o formigueiro. Não se deveria forçar a analogia; devemos, no entanto, observar que as comunidades de himenópteros estão no extremo de uma das principais linhas de evolução animal, como as sociedades humanas na extremidade da outra, e que nesse sentido são simétricas. Sem dúvidas, as primeiras têm uma força estereotipada, ao passo que as outras variam; aquelas obedecem ao instinto, e estas, à inteligência. Mas se a natureza, precisamente porque nos fez inteligentes, nos deixou livres para escolher até certo ponto nosso tipo de organização social, não obstante nos impôs o viver em sociedade. Uma força de sentido constante, que está para a alma como o peso para o corpo, assegura a coesão do grupo, inclinado a um mesmo sentido as vontades individuais. Assim, é a obrigação moral. Mostramos que ela pode ampliar-se na sociedade que se abre, mas que foi feita para uma sociedade fechada. E mostramos também como uma sociedade fechada só pode viver, resistir a certa ação dissolvente da inteligência, conservar e comunicar a cada um de seus membros a confiança indispensável, mediante uma religião surgida da função fabuladora. Essa religião, a que chamamos estática, essa obrigação, que consiste numa pressão, são constitutivas da sociedade fechada.
         
   O que é, portanto, uma sociedade fechada? Exatamente uma sociedade primitiva, de coesão estrita, movida pelo instinto (em oposição à inteligência criativa), que se consubstancia em formalidades que reforçam este estilo de coesão; uma moral invariável, uma religião estática, atemporal, estruturas mentais e sociais que suportam dificilmente a mudança e a criatividade, ou não as suportam absolutamente: um estilo socialmente reacionário de vida, alérgico a toda e qualquer mudança, pois mudança significa exposição ao perigo, ao Outro. A sociedade fechada, na clássica polarização bergsoniana instinto-inteligência, oscilará sempre na dimensão do instinto, o que, efetivamente, se configura em uma maior tendência a aceitar leis invariáveis de autoridades impalpáveis, fundamentalismo que, em troca de segurança, exigem o sacrifício da inteligência e da criatividade. A religião fechada, “oriunda da função fabulosa”, se constitui em uma estrutura de pressão social, na medida em que é esta pressão que garante a permanência deste tipo de sociedade. Estamos a ver, assim, como já sugerimos, com um modelo primitivo de sociedade, onde seus membros são ainda incapazes de experimentar sua criatividade inteligente e se sentem vivos desde a estrutura de coesão que lhes empresta a pertença a uma comunidade opaca e invariável, com leis imutáveis, exatamente como o formigueiro para as formigas e as formigas para o formigueiro.
            O que seria, agora, o seu oposto, a sociedade aberta?

Da sociedade fechada à sociedade aberta, da comunidade à humanidade, jamais se passará pela via da ampliação. Elas não são de mesma essência. A sociedade aberta é aquela que abrangesse em princípio a humanidade inteira. Sonhada, vez por outra, por almas de escol, ela realiza, cada vez, algo dela mesma nas criações, cada uma das quais, por uma transformação mais ou menos profunda do homem, permite superar dificuldades até então insuperáveis. Mas, após cada uma, também se fecha o círculo momentaneamente aberto. Parte do novo insinuou-se no molde do antigo; a aspiração individual tornou-se pressão social; a obrigação abrange o todo. Mas esses progressos se farão na mesma direção? Estará claro que a direção é a mesma, desde que se concordou em afirmar que se trata de progressos. Cada um deles se definirá de fato então por um passo à frente. Mas isso não passa de metáfora, e se houvesse realmente uma direção preexistente ao longo da qual nos contentássemos em avançar, as renovações morais seriam previsíveis; não haveria necessidade absolutamente alguma de um esforço criador para cada uma delas. A verdade é que se pode sempre tomar a última, defini-la por um conceito, e dizer que as demais continham uma quantidade maior ou menor daquilo que seu conceito encerra, e que todas eram por conseguinte um encaminhamento a ela. Mas as coisas só assumem essa forma retrospectivamente; as transformações eram qualitativas e não quantitativas; desafiavam qualquer previsão. Por um aspecto, entretanto, essas transformações apresentavam em si mesmas, e não apenas em sua tradução conceitual, alguma coisa de comum. [...] Esse impulso continua assim, por intermédios de certos homens, cada um dos quais se verifica constituir uma espécie composta de um só indivíduo. Se o indivíduo tem plena consciência disso, se a franja de intuição que envolve sua inteligência se amplia o suficiente para aplicar-se a todo o seu objeto, é a vida mística. A religião dinâmica que assim se contrapõe à religião estática, saída da função fabuladora, como a sociedade aberta à sociedade fechada. Mas do mesmo modo que a aspiração moral nova só adquire corpo tomando à sociedade fechada sua forma natural, que é a obrigação, também a religião dinâmica só se propaga por imagens e símbolos que a função fabuladora fornece. 
          
  A sociedade aberta é aquela cuja abrangência abarca a humanidade inteira, para além dos sectarismos, dos grupos autossuficientes em sua rigidez constitucional estabelecida em função de sua preservação que deriva da proteção que possam constituir em relação à ameaça do Outro, do que está para além de suas fronteiras. Mas a sociedade aberta não é uma comunidade de sociedades fechadas, ou sua ampliação. Ela é de outra natureza. Baseia-se sobre princípios outros que os da sociedade fechada, que não tem como objetivo senão a mera manutenção de sua existência através de mecanismos de defesa contra o que ameaça sua subsistência instintivo-primitiva. A sociedade aberta é o florescer da inteligência no corpo opaco do instinto; ela significa a negação da ordem estática pela abertura ao mundo.
            A moral e a religião abertas corresponderão, por sua vez, a esta nova configuração da sociedade habitada pela inteligência. Culminarão, em sua coragem criativa, segundo Bergson, nos gênios morais e nos místicos religiosos, capazes de, com sua figura apenas, não só questionar a ordem do estático, como propor, com seus atos e exemplos, estruturas altamente dinâmicas de relação com a realidade. Trata-se de um impulso vital, encarnado por certos indivíduos privilegiados, capazes de penetrar na intensidade do mundo infinitamente variado e traduzir tal dinâmica de variações para a linguagem das relações propriamente humanas, baseadas agora na construção da cultura, que significa a objetivação da inteligência aberta em oposição ao instinto fechado.
            O que significa isso tudo, com respeito à questão humana?

Ora, poderá ter utilidade prática para nós a distinção entre o fechado e o aberto, necessária para resolver ou suprimir os problemas teóricos? Ela não teria grande utilidade, se a sociedade fechada não se tivesse sempre constituído ao se fechar após ter-se momentaneamente aberto. Seria inútil recuar então infinitamente ao passado, pois jamais se chegaria ao primitivo; o natural não passaria de consolidação do adquirido. Mas, como acabamos de dizer, a verdade é inteiramente outra. Há uma natureza fundamental, e há aquisições que, superpondo-se à natureza, imitam-na sem se confundir com ela. Por aproximações sucessivas nos transportaríamos a uma sociedade fechada original, cujo plano geral se juntaria ao desígnio de nossa espécie como o do formigueiro à formiga, com a diferença, entretanto, de que no segundo caso o pormenor da organização social é que se dá de antemão, ao passo que no outro há somente algumas grandes linhas, algumas diretrizes, precisamente o bastante de prefiguração natural para garantir de imediato aos indivíduos um meio social apropriado.
     
       Bergson é bastante claro: a vocação da humanidade não é instintiva. O fato de que muito de instinto possa ser localizado na estruturação fundamental do pensamento humano não autoriza ninguém a considerar uma configuração instintiva, pretensamente “natural”, como o telos do humano propriamente dito, mas exatamente o contrário: é na superação da tendência à rigidez, encontrável nas sociedades fechadas, que a humanização pode ter lugar. Ainda mais porque, como ele sugere, o fechamento da sociedade não é um estado natural, anterior, mais puro, mas é uma reação à humanização que a abertura ao mundo possa ter significado: pois “a sociedade fechada (se constitui) sempre ao se fechar após ter-se momentaneamente aberto”. A ação de permanecer fechada da sociedade fechada é, na verdade, uma reação à abertura que a chama para fora de si. Neste chamamento, nesta vocação de abertura, nada há de pré-figurado; tudo que se tem são possibilidades abertas. A forma de como estas possibilidades serão exploradas é tema da inteligência, e de forma alguma do instinto. É por isso, que, no ser humano, a inteligência se sobrepõe ao instinto – a ponto de criar a própria instituição moral para além da mera moral da sobrevivência rígida; e é por isso igualmente que, em termos humanos, o que lhe é próprio é uma sociedade aberta, onde possa desenvolver as sugestões da inteligência. Com isto, podemos perceber a profundidade da crítica que Bergson deixa aqui entrever a todo obscurantismo ou fundamentalismo que, em nome de alguma pretensa pureza dogmática natural ou instintiva, impedisse a inteligência de trabalhar; isso não é apenas anti-humano, mas é, igualmente, se assim o quisermos, antinatural, pois a própria natureza, pela delimitação dos instintos ao modelo primitivo, autoconservador de estrutura mental e social fechada, abre, pelas possibilidades críticas que disponibiliza ao pensamento inteligente, formas de superação de tal rigidez instintiva.

O conhecimento desse plano ofereceria hoje sem dúvida apenas um interesse histórico se as disposições houvessem sido eliminadas por outras. Mas a natureza é indestrutível. Errou-se ao dizer ‘expulsai o natural, e ele voltará correndo’, porque o natural não se deixa expulsar. Ele está sempre presente. Sabemos o que se deve pensar quanto à transmissibilidade dos caracteres adquiridos. É pouco provável que algum hábito acaso se transmita: se o fato de produz, deve-se à convergência casual de tão grande número de condições favoráveis que ele não se repetirá com certeza muitas vezes de modo a implantar o hábito na espécie. E nos costumes, nas instituições, na própria linguagem que se depositam as aquisições morais; elas se comunicam em seguida por uma educação de todos os instantes; assim passam de geração em geração hábitos que acabaram por se acreditar hereditários [...]. Que conclusão tirar disso? Dado que as disposições da espécie se conservam, imutáveis, no fundo de cada um de nós, é impossível que o moralista e o sociólogo não as levem em consideração. Certamente, a poucas pessoas foi dado perscrutar primeiro sob o adquirido, depois sob a natureza, e recolocar-se no próprio impulso da vida. Se tal esforço pudesse generalizar-se, não é na espécie humana, nem, por conseguinte, numa sociedade fechada, que o impulso se teria estancado com por um impasse. Não menos verdade é que esses privilegiados queriam arrastar com eles a humanidade; não podendo comunicar a todos seu estado de alma no que ele tem de profundo, eles o transpõem superficialmente; procuram uma tradução do dinâmico em estático, que a sociedade esteja em condições de aceitar e de tornar definitiva pela educação. Ora, eles só terão êxito nisso na medida em que tenham levado em consideração a natureza. Essa natureza, a humanidade no seu todo não a poderia forçar. Mas pode aperfeiçoar. E só o fará se lhe conhecer a configuração. A tarefa seria incômoda, se fosse preciso para isso enveredar pelo estudo da psicologia em geral. Trata-se porém, apenas de um ponto particular: a natureza humana, na medida em que predisposta a certa forma social. Dizemos que há uma sociedade humana natural, vagamente prefigurada em nós, que a natureza cuidou de nos oferecer de antemão o seu esquema, deixando amplo espaço à nossa inteligência e à nossa vontade para seguir a indicação. Esse esquema vago e incompleto corresponderia, no domínio da atividade racional e livre, ao que é o desígnio, este sim rigoroso, do formigueiro ou da colmeia no caso do instinto, no outro termo da evolução. Haveria, pois, apenas um esquema simples a encontrar.
          
  E este “esquema simples a encontrar”, no dizer de Bergson, está já implicitamente presente no que se sugeriu. Trata-se da inteligência em oposição ao instinto, da abertura em oposição ao fechamento, do progresso moral em contraposição ao reacionarismo fundamentalista.
            Podemos inferir agora, sem excessivas dificuldades, uma concepção de humano presente no pensamento bergsoniano. O humano é o que, na escolha entre instinto e inteligência, entre fechamento e abertura, entre o estático e o dinâmico, entre o fundamentalismo e o risco da civilização e do encontro com o outro, opta sempre pela segunda opção. A vida é mais rica do que estruturas medrosas e rígidas que não fazem senão cultivar seu próprio medo. Se ter medo é próprio do humano, e é uma condição de sobrevivência, ousar superar o medo na direção da abertura que a inteligência propõe, na constituição de uma sociedade e de uma humanidade abertas, é qualificar a condição humana em seu sentido mais próprio. Se nenhuma obra realmente humana pôde ser executada sem uma boa dose de risco e paixão, então é porque a opção pela insegurança foi feita e, ao contrário do que poderiam prever instintos primitivos, a inteligência superou as contingências da insegurança e encontrou a si mesma e ao outro em sua humanidade.   


[1] BERGSON, Henri. Observações finais – mecânica e mística. In: __________. As duas fontes da moral e da religião. São Paulo: Abril Cultural, 1979, Capítulo IV, p. 209-216. (Col. Os Pensadores).

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