RITINHA



Ritinha



Ricardo Timm de Souza


            As visitas àquela amiga de nossa mãe tinham sempre, também por raras, um sabor especial. Além da velha casa, de estranha anatomia, com um teto muito alto, com janelas de vidro colorido, um patiozinho nos fundos onde Lobo latia amistosamente, além do aroma tranqüilo das coisas que chegaram tranqüilamente à velhice, lá morava Ritinha.
            Não havia como chegar à sala de visitas sem passar pelo quarto de Ritinha. Um quarto agradável, amplo, com uma enorme cama, na obscuridade. Sentada na cama, Ritinha. Ritinha era, como diziam os adultos então, mongolóide. Para nós, era alguém com um perpétuo sorriso calmo, amistoso. Era agradável passar por Ritinha, ao chegar, mesmo sem receber resposta aos polidos cumprimentos que enviávamos: sabíamos, pelo seu sorriso, que nossa presença lhe era agradável.
            As visitas eram longas e interessantes, como testemunhavam as agradáveis conversas, entremeadas por breves latidos de Lobo. As janelas de vidros coloridos filtravam as luzes, e eram sempre novos tons, indiretos, a penetrar na peça, amortecido ainda por delicadas cortinas.
            Mas estes tons – os tons das tardes calmas de sábado, o dia de visita à mãe de Ritinha – anunciavam também o decorrer da tarde. Quase inesperadamente, a sua iminente desaparição lembrava que era hora de as visitas se retirarem, ainda que sob os protestos da anfitriã.
            Era o caminho inverso então percorrido. Lá permanecia Ritinha, como se nada houvesse acontecido desde horas antes, quando chegáramos. Sorrindo sempre, fitava a todos sem dizer palavra. Despedíamo-nos sem obter resposta.
            Esta era a rotina destas visitas notáveis. Apenas uma vez houve uma alteração, quando, a pretexto de buscar um brinquedo que havia esquecido na sala de visitas, refiz todo o trajeto sozinho e, ao me dirigir à saída, não pude deixar de parar por um segundo para ver Ritinha ainda uma vez; mas não a vi. Um raio tardio de sol, penetrando pela janela colorida, refletia-se em seu olho, e a luz que dele emanava tornava impossível fitá-lo.

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