RAZÕES PLURAIS 1 - INTRODUÇÃO



RAZÕES PLURAIS
Itinerários da racionalidade ética no século XX:

Adorno
Bergson
Derrida
Levinas
Rosenzweig


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Ricardo Timm de Souza

2003

























A Hans-Georg Flickinger – cultivador de espíritos e de diálogos,
mestre na arte de pensar com grandeza,

e

a Marcello Guerchfeld e Maly Weisenblum,
 que fazem da arte uma pedagogia da
dignidade humana,

com reconhecimento e amizade.




Agradeço ao Prof. R. A. Ullmann e ao Acad. Marcos M. Barqui
a cuidadosa leitura dos manuscritos e as valiosas sugestões.





Prefácio_________________________________________________________________ 4
Introdução_______________________________________________________________ 7
Bergson e a razão fluida___________________________________________________ 12
Introdução - Raízes: a itinerância musical do pensamento______________________ 12
Uma introdução à Metafísica_____________________________________________ 16
Rosenzweig e a razão múltipla______________________________________________ 44
Introdução – o difícil itinerário de Rosenzweig_______________________________ 44
A intuição original de Rosenzweig e a semente de seu desdobramento_____________ 49
O Novo Pensamento_____________________________________________________ 53
Adorno e a razão do não-idêntico____________________________________________ 79
Introdução – a potência crítica de um pensamento____________________________ 79
Sobre o pensamento filosófico_____________________________________________ 91
Derrida e a razão diferencial_______________________________________________ 109
Introdução – no princípio é a diferença, e a diferença nada é sem a vontade de justiça 109
Ética e Desconstrução - Justiça e linguagem desde “Force de Loi: le ‘fondement mystique de l’autorité’”, de J. Derrida______________________________________________________________ 112
Levinas e a razão ética____________________________________________________ 146
Introdução: a ética como a racionalidade primeira – Um esboço do pensamento levinasiano em seus elementos essenciais____________________________________________________________ 146
Por uma crítica à razão estéril: “Ideologia e Idealismo”_______________________ 168
Conclusão_____________________________________________________________ 188
Referências___________________________________________________________ 189







Prefácio


            Refletir sobre a racionalidade é tarefa que a filosofia, implícita ou explicitamente, tem de se propor de forma contínua. Qualquer hesitação em mergulhar em suas próprias razões – nas razões que dão motivo para que seja legitimada como filosofia – significaria abdicar do que nela habita de mais próprio, do seu impulso original propriamente dito. A filosofia, que nasceu para pensar sobre o que não é ela mesma, não pode por isso deixar de pensar sobre o que ela propriamente é, ou seja, sobre sua origem e seu sentido enquanto atividade, e atividade sobremaneira árdua.
            Ocorre, porém, que o decorrer da história nem sempre favorece essa tarefa. No caso do século que termina – mas que está espantosamente presente na lógica atual de grandezas e misérias, terríveis guerras mal contadas e paz precária -, essa tarefa foi monstruosamente dificultada. Uma série de fatores históricos evidenciou ao mundo que, de um modo geral mas absolutamente decisivo, a racionalidade dos filósofos não costumava ser a mesma que a racionalidade das ações políticas. Entender, por exemplo, que a lógica da aniquilação organizada de milhões – assim como o assassinato de duzentos mil com uma só bomba, ou a provocação de guerras para que fossem utilizadas as armas previamente vendidas, ocasionando a necessidade de mais armas, e mais destrutivas, numa questão de mercado – entender que todas essas lógicas pertencem ao grande campo da racionalidade que se pretenderia única, avançada, moderna e evoluída, promitente do paraíso: eis uma das mais difíceis tarefas dos teóricos da racionalidade. Pensar que a racionalidade enquanto Totalidade de percepção do mundo significaria a única forma possível de ser racional: eis um erro no qual apenas os filósofos – geralmente por demais envolvidos em seus problemas teóricos para perceber o que se passa a seus pés – poderiam incorrer. Confundir a racionalidade com bondade, ou seja, pensar que, por ser racional, uma atitude é intrinsecamente boa: eis uma identificação perversa, um preconceito que somente a ancestral vontade de totalização do ocidente pode explicar.
            Nessa falácia não mergulharam os espíritos mais lúcidos do século, entre os quais se contam, evidentemente, também filósofos, e certamente não os menores dentre eles.
            Este livro – escrito paralelamente com nosso Filosofia & Educação - as bases filosóficas da educação no pensamento dos grandes clássicos da filosofia contemporânea – não pretende mais do que testemunhar como cinco espíritos, a rigor extremamente diferentes entre si – Henri Bergson, Franz Rosenzweig, Theodor W. Adorno, Jacques Derrida e Emmanuel Levinas – se viram com a questão de pensar novamente a racionalidade, de uma forma muito explícita, desde seus princípios, ou seja, desde aquilo que propriamente a define: desde seu sentido. Que as descobertas que fizeram não tenham sido, em sua maioria, bem compreendidas, não nos surpreende; como não nos surpreendem as derivas a que apontam e que invertem a própria estrutura do pensamento filosófico. Pois o século XX esteve geralmente agitado demais para perceber o que se passava diante de seus olhos.
            Os tempos avançam, porém, e cobram da realidade conta de suas ações.
            A questão original que nos motiva é, portanto, reproposta: ou a filosofia reexamina radicalmente o seu sentido, ou se petrifica em obsolescência, não somente inútil, como extremamente perniciosa à vida sobre a terra. Não há automatismo intelectual, mediocridade revestida de grandiloqüência, paranóia travestida de bom pensamento, que defenda uma filosofia que não saiba dar conta, de forma muito clara, de suas razões, de suas motivações e de seus produtos, ou seja, que a salve de sua própria inutilidade bem pensante e a justifique como crítica a um mundo desesperadamente necessitado de lucidez.
            Felizmente não poucos dos grandes autores do século XX souberam disso a fundo; souberam que da reconsideração radical do sentido da razão depende não só o futuro da razão e da filosofia, mas, por suas conseqüências indiretas e automatizadas em um trofismo delirante, depende de certa forma também, por assim dizer inversamente, o próprio futuro do ser humano como tal. Assim, a escolha dos autores referidos nada tem de aleatório. O objeto deste estudo é simplesmente o pensamento de alguns dos maiores desses homens lúcidos, que souberam e sabem dar conta de suas razões inequívocas na infinita equivocidade da racionalidade. Apenas alguns, embora dos mais determinantes e mais enraizados no concreto. Elaborados em épocas e sob circunstâncias muito diversas, a diversidade é simultaneamente a marca e o elo que une os ensaios constantes neste livro.
            Parte de um projeto bem mais extenso[1], o presente livro não é mais do que uma introdução ao tema extraordinariamente amplo e exigente da razão ética tal como se entende a partir das grandes questões humanas que constituem nossa herança comum neste início de milênio. É isso – e apenas isso – que este modesto livro pretende. Que não se faça com ele injustiça à grandeza dos pensadores examinados, é apenas o que pretende seu autor.

São Francisco de Paula, fevereiro de 2003.



Introdução


            O objetivo principal deste livro é fornecer uma entrada ao mesmo tempo rigorosa e acessível ao pensamento de alguns filósofos de grande importância que, todavia, permanecem injustamente – por motivos diversos e que variam de modo considerável, conforme o caso – muito pouco estudados entre nós: Henri Bergson, Franz Rosenzweig, Theodor Wiesengrund Adorno, Jacques Derrida e Emmanuel Levinas. Não se trata, porém, de uma introdução à obra dos autores no sentido clássico do termo. Duas características o distinguem das introduções correntes como dos estudos críticos já existentes sobre a filosofia desses grandes filósofos do século XX, seja no Brasil, seja em outros lugares:
            Em primeiro lugar, a via de acesso: para nós, o que está a interessar neste momento é a questão do modelo de racionalidade que subjaz às obras respectivas. Não se trata, portanto, de esquadrinhar a obra dos autores em todos os seus meandros e derivações (e, poderíamos dizer, em sua inesgotável riqueza), mas sim em concentrar esforços no processo de elucidação tanto das concepções de racionalidade que regem seus esforços especulativos e sua produção, como nas modalidades de racionalidade que suas obras abrem no contexto do século XXI.
            Em segundo lugar, uma questão fundamental que pode ser proposta em termos de pergunta: por que exatamente esses autores, e não outros quaisquer, talvez igualmente importantes? Essa questão é seguida de outra não menos relevante: por que esses autores estudados em conjunto, e não separadamente?
            A resposta a essas questões é decisiva para que se entendam os verdadeiros propósitos deste estudo. A escolha desses autores segue-se a uma determinação de critérios muito clara. Bergson e Rosenzweig, Adorno, Derrida e Levinas são filósofos altamente inovadores no pensamento filosófico; eles traduzem, de forma particularmente aguda, a atmosfera de seu tempo, sem por isso recaírem em restauracionismos vagos e viciados por qualquer espécie de melancolia do passado ou de grandiosidades nostálgicas. São, por outro lado, autores ousados, na medida em que realmente ousam colocar em questão não apenas o corpo de pensamento da tradição, mas, principalmente – e é o que realmente nos interessa aqui – a forma de como tal corpo se estatuiu. Ao criticar o pensamento rígido, formalístico e quantitativo, Bergson expõe uma das raízes sagradas do modelo hegemônico e autodestrutivo do pensamento ocidental. Ao propor uma multiplicidade de origem e na origem, rompendo com a obsessão dos séculos pela unidade violenta do pensamento, Rosenzweig abre inusitadas possibilidades de compreensão para questões hoje extremamente relevantes. Ao injetar incisivamente na construção filosófica a dimensão da dignidade do particular, do não-idêntico, Adorno repropõe em outros termos, extremamente agudos, a leitura da própria forma de como o pensamento ocidental se auto-compreendeu desde seus primórdios: na tensão entre o particular e o universal. Ao extrair das dimensões do real a intrínseca hesitação que as caracteriza e as chama no tempo de sua realização para além de qualquer conceito auto-suficiente – sua diferença – Derrida expõe o nervo de novas articulações do sentido. Ao inverter a ordem tradicional de determinação filosófica do real, que tudo subordina à lógica e à ontologia – ao lógos -, postulando a ética como filosofia primeira, Levinas promove a maior revolução “epistemológica” do pensamento ocidental. Em todos os casos, o que temos é a abordagem intensiva da questão da origem e do sentido do pensamento e da filosofia; ou seja, a reproposição do modo de ser pensante – da racionalidade – que habita a abordagem dos mais diversos problemas filosóficos. Por isso, mais do que suas imensas diferenças, o que cumpre destacar nesses autores é a espantosa semelhança que povoa a profundidade de seus esforços, e que de forma nenhuma se dá a uma abordagem superficial de suas obras. Conformam assim uma constelação sugestiva em termos de modelos de pensamento que chegam à raiz das grandes questões de nosso tempo.
            Algo mais há, porém, que os une por detrás de suas inumeráveis diferenças. Trata-se de uma preocupação visceral em chegar à medula da questão sobre o que poderíamos chamar de dignidade do humano. Não se contentam com elucubrações intelectuais sofisticadas, muito menos com seduções ideológicas de progressismos violentos, bem como não se deixam seduzir por conceitos tão grandiloqüentes que são capazes de pretender justificar toda a violência do mundo. Para nossos autores, a violência tem um só nome, que coincide com ela mesma. Não toleram eufemismos hipócritas, como certas filosofias de moda, de suas épocas como da nossa. Longe estão de condescendências para com o inaceitável para a sobrevivência do planeta, para com o que mata o presente e aborta o futuro. Isso tudo os une – tenham ou não explicitado as coisas dessa forma – em torno à preocupação filosófica por uma razão ética, ou melhor, por uma ética feita racionalidade, modo de ver e compreender o mundo.
            De que forma seria, agora, possível abordar tal riqueza e multiplicidade de pensamentos, sem desnaturá-los por excessiva simplicidade ou rebuscadas tentativas de acompanhá-los em seu imenso conjunto? A solução que se nos aparece é simples, porém bem referida à preocupação de base deste trabalho. Trata-se de localizar e mergulhar em algumas das obras centrais dos autores, ou seja, desde nossas leituras, consideradas simultaneamente determinantes e elucidativas para a compreensão do que reservam à questão filosófica da racionalidade, como já foi sugerido. Tal escolha, de complexa justificativa, como toda e qualquer escolha, não pretende se postular de per se como a mais correta no espectro proposto de estudo, e muito menos, naturalmente, como a única. Pretende, porém, isso sim, indicar ao leitor interessado neste tema e nesses filósofos, pistas referenciais muito claras e sólidas de nosso viés interpretativo – pistas que evidentemente não só não substituem uma abordagem direta dos autores como se pretendem constituir em um convite à aproximação de suas extraordinárias obras. Este foi o critério de escolha das obras aqui analisadas.
            A abordagem que aqui se fará não será, portanto, evidentemente, exaustiva; antes pelo contrário, o que se pretende é mostrar de que modo é possível, já pelo exame de apenas um texto representativo de cada autor, perceber introdutoriamente o alinhavo crítico que os articula para além de todas as suas inumeráveis diferenças. Em outros lugares, temos dedicado a cada um desses filósofos estudos específicos mais alentados; no presente livro, por sua vez, é evidente que o exame detido da obra de cada pensador, em suas origens intelectuais e biográficas e em suas conseqüências, leva necessariamente a confluências e a ressaltos de proveniências intelectuais e culturais comuns entre os autores, que não são mistério algum e muito menos escapam a especialistas. Mas não nos dirigimos aqui somente a especialistas; o que nos interessa neste momento, antes de tudo, é facilitar a percepção do que pulsa na interioridade da obra de nossos filósofos. Pulsação que não se dá por acaso ou por motivos estreitos, e sim pela agudeza da percepção filosófica de cada um que, surgida em mundo particular e dirigida a um universo de sentido específico, em uma linguagem igualmente específica, acaba por abrir frentes de inteligibilidade mútuas de enorme interesse para quem se interessa, não só pelas camadas profundas do século XX filosófico e cultural, mas, também, para quem pretende penetrar – e penetrar de forma filosoficamente conseqüente – nos espantosos paradoxos deste difícil início de milênio.
            Este livro é, assim, em última análise, um exercício filosófico inicial de síntese; mas, por “síntese”, não entendemos terminação lógica de algum estudo ou conclusão final de alguma espécie a respeito de algum desses pensamentos, e sim a confecção de uma certa estrutura provocativa, que sugere ao leitor haver mais nos alicerces da(s) filosofia(s) do que costumamos muitas vezes pensar – mesmo aqueles dentre nós já não tão iniciantes em nossos itinerários intelectuais. A contribuição deste livro pretende ser: mostrar como, por detrás das obviedades das diferenças, se articulam energias filosóficas de primeira linha que, sem desnaturar a especificidade de cada filosofia, apontam em uma direção muito determinada e nada aleatória, a saber, no resgate do que está antes e além de esquemas lógicos pretensamente neutros, que refletem a vontade de abstração da filosofia. Algo sustenta o poder abstrativo do intelecto, algo substantivo que pode ser – e é muitas vezes – traído por esse poder abstrativo; o que é esse algo, expressar esse algo em seus devidos termos, e se opor à promessa de reconciliação na qual a violência travestida de credibilidade filosófica é mestra, eis o que, em última instância, determina o movimento desses cinco modelos de pensamento.
            Em suma: em um início de século que se caracteriza, ao lado de movimentos sadios e renovadores de proposta de convivência humana e ecológica, por situações complexas de terrorismo, guerras novas e velhas – todas insanas – e aguçamento de questões humanas cruciais, e onde a filosofia, muitas vezes refém de saudosismos inúteis, desencantos atrofiantes e demiurgias intelectuais que legitimam as dimensões mais subterrâneas de sustentação de opressão de todos os tipos e de todos os sentidos – inclusive das mentes que as cultivam na esperança de achar ali a esperança que não localizam em absolutamente nenhum outro lugar, ameaçando com isso atrofiar as energias nascentes de muitas mentes brilhantes de novas gerações de estudantes -, é absolutamente necessário que um trabalho de síntese tenha lugar; um trabalho de síntese extraordinariamente difícil, que traduza, de forma preferencialmente articulada, o que de melhor o século XX foi capaz de produzir em termos de filosofia real, capaz de se constituir, por sua própria energia intrínseca, em verdadeiro anteparo às concepções violentas de filosofia que, travestidas de credibilidade acadêmica, ocupam espaço de um pensamento mais sadio. Para tal síntese pretende o presente livro contribuir. E nada melhor para iniciá-la do que o improvável concerto de cinco verdadeiros gigantes do pensamento – mas pensamento que não se oculta por detrás de delírios ou subserviências disfarçados de pretensa agudeza e penetração. Pensamentos que se desnudam ao intelecto, porque não têm medo de ir ainda além da mais sofisticada das filosofias.
            Bergson, Rosenzweig, Adorno, Derrida, Levinas: cinco nomes, cinco grandes filosofias, um inevitável choque intelectual: uma definitiva implosão do pensamento veladamente violento ou hipocritamente inofensivo.





[1] Este livro conclui parte de uma pesquisa de longa duração. Todos os nossos livros publicados até agora se referem, implícita ou explicitamente, a esse projeto: Totalidade & Desagregação - Sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas (Porto Alegre, EDIPUCRS, 1996); O tempo e a Máquina do Tempo - Estudos de Filosofia e Pós-modernidade (Porto Alegre, EDIPUCRS, 1998); Filosofia mínima: fragmentos de fim-de-século (Porto Alegre, Pyr Edições, 1998); Existência em Decisão - uma introdução ao pensamento de Franz Rosenzweig (São Paulo, Perspectiva, 1999); Sujeito, Ética e História - Levinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental (Porto Alegre, EDIPUCRS, 1999); Sentido e Alteridade – Dez ensaios sobre o pensamento de Emmanuel Levinas (Porto Alegre, EDIPUCRS, 2000); Metamorfose e Extinção - Sobre Kafka e a patologia do tempo (Caxias do Sul, EDUCS, 2000), Ainda além do medo – filosofia e antropologia do preconceito (Porto Alegre: DaCasa – Palmarinca, 2002), Responsabilidade Social (Porto Alegre, Evangraf, 2003) e Sobre a construção do sentido (São Paulo, Perspectiva, 2003). Também em vários de nossos livros inéditos, artigos, palestras e conferências, capítulos de livros e textos isolados a preocupação geral com o tema se faz incisivamente presente.

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