O COELHO



O coelho

Ricardo Timm de Souza


         Teria que ser realmente muito bem desenhado, concluiu o menino, após mais um último e definitivo exame dos detalhes da paisagem que seria reproduzida na folha de papel, à sua frente, a convidá-lo a iniciar o trabalho. Afinal, faltava apenas uma hora, se tanto, para sua mãe chegar. O desenho deveria estar pronto, à sua espera, quando ela entrasse pela porta da casa vagamente embebida em luzes vespertinas, melancólicas, do dia em despedida. Seria o desenho mais caprichado que o menino já fizera – e já desenhara muito para sua idade. Um desenho definitivo. Com ele estaria para sempre depositado no papel, em cores cuidadosamente escolhidas e traços claros, a não deixar dúvida nenhuma, o amor imenso que o menino sentia pela mãe. Por isso, hesitara tanto antes de escolher o modelo certo. De início, planejava inventar uma figura, talvez uma das máquinas imensamente detalhadas que tanto gostava de desenhar. Mas as suas máquinas eram frustrantes – não resistiam à pergunta que suscitavam nos adultos: “para que serve?” – ele não sabia para que serviam. Elas eram assim, apenas; seus detalhes e entremeios, entranhas expostas e fios retorcidos eram toda sua realidade. As pequenas fazendas, repletas de animais e plantas, ou o fundo do mar e sua fauna exuberante, incluindo polvos, lulas e mariscos, seriam outras opções, logo abandonadas; o menino concluía que infelizmente não conseguiria reproduzir em tantas figuras a perfeição do que sentia: um amor simples e sem retoques nem explicações.
         Não lhe restara assim, ao fim de muitas considerações, hesitações e dúvidas torturantes, senão esta opção que contrariava seus hábitos: inventar menos e reproduzir mais. Reproduzir com infinito cuidado, com um carinho desmedido, um motivo cuidadosamente escolhido. A decisão fora tomada. Passara a tarde a folhear livros, revistas, enciclopédias, à procura do tema ideal; mas como era difícil! Uma escolha errada, e todo trabalho perdido. Teria de ser a figura certa; nestes assuntos, mal-entendidos são mortais.
         A procura fora realmente difícil, quase desanimadora. Alguns temas pareciam adequados, porém, observando com cuidado, acabava por perceber certos impedimentos sutis: ou não dispunha das cores apropriadas, ou não tinha plena segurança de poder reproduzir todos os detalhes e texturas, ou não caberia tudo na folha de papel. Por fim, a procura desesperada teve um desfecho inusitado; ao folhear uma enciclopédia, deteve-se numa paisagem que parecia viva e falante. Uma paisagem inteira, completa, que era uma unidade simples, reverberando o que tanto procurara: intensidade, vigor, clareza... não podia acreditar em seus olhos: ali estava.
         A paisagem era realmente simples. Num relvado cercado de arbustos, animais se divertiam; árvores generosas forneciam sombra aos folguedos de cães, cabritos, ovelhas e muitos outros bichos. Pequenas flores emprestavam leves toques de cor ao ambiente. Ao fundo, pássaros povoavam o céu azul, refletido no pequeno lago onde patinhos seguiam sua mãe orgulhosa.
         Mas a figura principal era o observador: um coelho cinzento. De costas para o espectador, o coelho, sentado em primeiro plano, a cauda um pompom generoso, as orelhas elegantes e atentas, parecia irradiar amor à paisagem. Embora seus olhos não fossem visíveis, era impossível não inferir o que expressavam: aprovação, cuidado e cumplicidade com o que se passava à sua frente. Um guardião da paz. A paisagem certa.
         Mãos à obra, portanto. Cada minuto é precioso. O esboço geral. A escolha dos lápis. A folha auxiliar de teste de mistura de cores. O apontador. Tudo em ordem. A paisagem vai tomando forma. Com cuidado infinito, cada detalhe na proporção exata: uma falha poderia ser fatal. As cores vão se sobrepondo. Ah, o azul do céu! Impossível de reproduzir exatamente, sob pena de tornar tudo muito artificial; mais vale sugeri-lo com traços leves, tímidos... e por que não acrescentar, neste pequeno espaço vazio, ainda alguns outros animais? Não entendia porque as pessoas tinham ojeriza a camundongos, animais simpáticos e inofensivos... à reparação, portanto. Uma pequena família de camundongos toma lugar na paisagem; seus longos bigodes, em traços muito finos, são quase invisíveis a um observador desatento. E talvez uma pequena borboleta, daquelas acinzentadas, que passa despercebida em meio às suas colegas exuberantes, pudesse coroar esta linda flor. E certamente a joaninha não poderia faltar, com suas pintas meticulosamente definidas. Nesta árvore há ainda espaço para a casinha do pica-pau; lá está ele, acompanhado de seus filhos, observando tudo de dentro da proteção de seu lar. Talvez ainda uma centopéia – não, demoraria muito desenhá-la inteira: apenas sua cabeça desponta por entre os arbustos. Tudo quase pronto... uma revisão final, cores a serem ressaltadas, pequenas manchas  a serem suavizadas com a borracha, um ou outro traço a ser corrigido – aí está. A paisagem. O testamento definitivo de amor. Inequívoco.
         Bem a tempo! A agitação, no andar inferior, indica que sua ansiedade se encaminha para o fim. Os latidos de alegria do cão confirmam: em meio às últimas luzes do dia, a mãe acaba de chegar. Mal pode esperar. De repente, seu coração dispara: dá-se conta que sua ansiedade se transformou em medo... o que acontecerá agora? A mãe entenderá a mensagem? Parece impossível não entendê-la, mas... bem, seja como for, não há tempo para hesitações.
         Mãe, fiz isto para ti. O que é, meu filho? Ah, um desenho. Quanto bicho! Mas... por que as cores são tão tristes? E este coelhinho sentado, cinzento... meu filho, que paisagem triste!... Uma lágrima desce pela face da mãe, como uma gota de orvalho que estivera retida a vida inteira e irrompesse na superfície da terra, quando todas as outras já seguiram seu destino. A mãe ficara triste com o desenho.
         Naquele dia o menino entendeu o que é o infinito. São as lágrimas que as pedras vertem para dentro de si mesmas, quando tristes.


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