UM SEGREDO



UM SEGREDO


Ricardo Timm de Souza


            Pedrinho estava feliz. Há muito tempo não se sentia assim, tão leve, ágil, como as manchas suaves que passavam, rápidas, lá bem alto no céu, aquelas manchas que ele sabia que eram as nuvens. Era uma tarde quente, no meio do verão, ainda algumas semanas de férias pela frente... atrás já haviam ficado muito longe – como só podem ficar longe as coisas quando se tem seis anos – a escola, o Natal, o ano novo, a visita dos primos e tios, as viagens. Agora era o centro do mundo, no meio daquela tarde quente. Pedrinho deitou-se na grama, tirou os óculos e fechou os olhos. Primeiro estendeu-se ao comprido, bem reto, como um graveto. Depois foi estirando devagarinho os braços, as pernas, mais e mais, como se fossem as pás de um moinho. Esticava mais e mais os membros, até sentir a dorzinha aguda do exagero. Agora eram dois gravetos cruzados; respirou bem fundo. Ao longe, conseguia ouvir os latidos de Laica. Laica latia seguidamente, até sem motivo, cachorra bobinha. Quando se sentiu completamente tranqüilo, ouvindo barulhinhos que nunca havia percebido antes, abriu os olhos. Um jorro de luz o penetrou. Lá estava o céu, azul vago e suave; aquelas manchas rápidas, as nuvens. Virou a cabeça: lá estava aquela mancha escura, a casa, e aquelas figuras irregulares se mexendo, as árvores. Bem ao seu lado, o ramo de uma erva delicada; na sua extremidade, pelinhos muito, muito pequenos. Pedrinho aproximou-a levemente com a mão: ela ainda não havia revelado todos os seus mistérios. Era cheia de manchas castanhas que, de longe, permaneciam camufladas pelo verde. E ainda mais: animaizinhos também verdes, larvas minúsculas, movimentavam-se pelo caule; provavelmente estavam se alimentando do açúcar daquela erva. Pedrinho não conseguia imaginar um outro gosto para aquele caule senão um adocicado suave, para combinar com o verde suave que um vento que nem se conseguia sentir de vez em quando ondulava.
            E isso não era tudo: como se fosse algo planejado, uma linda joaninha, daquelas vermelhas salpicadas de preto, achou de aterrissar exatamente naquele pequeno ramo do vasto gramado. Pedrinho não pôde deixar de rir, tanta coisa acontecendo num lugar tão pequeno. Lá em cima, as manchas continuavam sua viagem.
            Havia muito tempo que Pedrinho não se sentia assim tão calmo. Piscou várias vezes, como que para confirmar que os olhos ainda eram os seus. Tudo começara lá por abril ou maio do ano passado, não se lembrava mais exatamente quando, mas fora no início da escola. Recebera um bilhete para entregar em casa, sem falta. Mamãe estava sozinha quando ele o entregou a ela, foi a primeira coisa que fez ao chegar em casa naquele dia. Mamãe lera, passara a mão em sua cabeça e o beijara. Isso não era novidade alguma, ela sempre o beijava. Mas algo mudara naquele dia. Mamãe ficar nervosa, podia sentir porque ela passara a agir de forma ainda mais delicada do que normalmente. Fizera “psiu” para Laica e parecia sem vontade de conversar. Só Laica parecia alegre como sempre. Logo, como todas as tardes, chegou Vera, vizinha e amiga de mamãe. Laica corria excitada e pulava em Vera. “Calma, querida, vais sujar meu vestido”. Atrás de Vera, Clarinha e suas revistas. Clarinha tinha oito anos e não largava suas revistas. “Oi tia Marta, oi Pedrinho, oi Laica, oi Jasmim” – Laica foi a única a responder de forma explícita, com um leve gemido de prazer. Jasmim, o gatinho, apenas levantou a cauda. “Vera, estou muito preocupada. Olha isso” – e mamãe lhe passara o bilhete da escola. Pedrinho teve um sobressalto, entre surpreso e ofendido – não pensava que sua mãe fosse fazer aquilo, por mais amiga que Vera fosse: mostrar seus segredos da escola. Vera, como sempre, sem meios-termos, foi lendo alto: “Prezada senhora, recomendamos que leve seu filho Pedro com urgência ao oftalmologista, pois ele parece ter um grave defeito de visão”. Pedrinho não se impressionou com o termo “oftalmologista”, pois palavras longas não o assustavam, antes atiçavam sua curiosidade, mas não pôde deixar de ter um sobressalto. A última vez que ouvira a palavra “grave” fora sobre o estado de saúde do vovozinho, que agora dormia sob a terra. E “defeito”? O seu Ernesto, da padaria, tinha um defeito: possuía uma só perna e andava de muletas. Mas o seu defeito era de visão e não nas pernas. Pedrinho levou a mão ao rosto, discretamente, apenas para confirmar a certeza absoluta que tinha de que seus dois olhos continuavam bem ali.Clarinha chegou perto dele e o abraçou, como sempre fazia: era muito carinhosa. “Vamos ler as revistas?” “Agora não”, e passou a mão em Jasmim. “Vou marcar amanhã mesmo, espero que o Antônio não se assuste, nem sei se telefono para ele avisando”. Telefonar? Então a situação era mesmo grave, pior do que pensara, pois mamãe nunca telefonava a papai quando este estava viajando, para não preocupá-lo: seu marido era um homem muito nervoso e já tivera até mesmo uma ameaça de enfarte. “Amanhã mesmo”. “Deixa de bobagem, Marta, ele precisa de óculos, só isso, aliás é o que eu já achava também, e só não havia te dito porque não queria me intrometer em assunto de vocês, embora o Pedrinho seja praticamente um filho meu também, tu sabes bem disso”. “Vera querida, tu és um anjo”. “Vamos ler as revistas ou não, Pedrinho?”, perguntou Clarinha com uma graciosa inquietação na voz, aproximando o rosto da face de Pedrinho daquele jeito engraçado que só ela sabia fazer. Pedrinho riu. “Então vamos para o meu quarto”. “Amanhã mesmo”, sussurrou Marta para Vera, com o semblante um pouco sombrio.
            Fora até divertido, no oftalmologista. Perguntas, conversas, gotas nos olhos, luzes, cores e finalmente aquela coisa no nariz, uma lente entrava, outra saía, que letra é essa? E essa? Ficou melhor agora? E mais uma lente, e outra ainda. “Bem, dona Marta, está feito. Aqui está a receita. Crianças dessa idade não sabem que enxergam mal, e por isso não se queixam. Mas a miopia de Pedrinho é muito forte, é um perigo para ele até mesmo andar na rua sem os óculos, pode ser atropelado. Mas, com óculos, verá tudo perfeitamente”. À palavra “perigo”, Pedrinho esticou a orelha. Como ser atropelado só por estar sem óculos? “E o senhor, senhor Pedro, espero que não quebre os óculos logo na primeira semana – acontece muitas vezes, dona Marta, não se preocupe” – disse o oftalmologista, rindo pela primeira vez em toda a consulta, e numa hora muito estranha. Que oftalmologista era aquele, desde quando eu vivo quebrando coisas a torto e a direito, pensou Pedrinho. Para um oftalmologista tão bobo, um riso como aquele combinava perfeitamente, um riso que parecia um murmúrio ou um miado baixo do Jasmim. “Quero vê-lo novamente em seis meses. Até logo”, despediu-se o oftalmologista, apertando sua mão de forma algo exagerada.
            Então ali estavam os óculos. A moça sorridente da ótica o olhava extasiada, como se houvesse acontecido alguma maravilha. “Ficou lindo, muito elegante”. Ele olhou para mamãe. “Sim, ficou bem” – mamãe também sorria. Pedrinho se olhou no espelho. Por um momento, seu coração quase parou. “O que fizeram com meus olhos”, pensou, vendo aquelas bolinhas pretas lá no fundo das lentes. Aí tirou os óculos e olhou no espelhinho do balcão. Lá estavam seus olhos como sempre, grandes e escuros, olhando no fundo de si mesmos. “Agora poderás ver tudo perfeitamente”, disse a balconista, despedindo-se.
            Sim, ver tudo perfeitamente. Era tudo o que Pedrinho via. “Então tem fiozinhos entre os postes, fininhos como os bigodes do Jasmim. Incrível”. O céu estrelado o deslumbrava, e a redondeza da lua cheia. E as letras no quadro da escola. Quando Clarinha o viu de óculos pela primeira vez, botou a mão na boca. Por um instante dolorido, Pedrinho ficou em suspense. “Ficou legal!”, disse Clarinha então, rindo ainda mais que o normal, ela que era sempre alegre. Laica latiu em resposta. “Sim, ficou muito bem”, disse Vera, e Pedrinho se assustou com suas rugas. Mas logo viu que Vera não escondia nada por detrás de seus olhos.
            Agora a professora o tratava como a um bibelô. “Não queres sentar mais perto do quadro, Pedro?”. Não, não queria. Quando queria, e precisava, ela não deixava. “Deixa eu experimentar”, disse Cláudio, sempre agitado. “Credo, fiquei tonto”. “Não vai quebrar, Cláudio, ou o oftalmologista vai pensar que fui eu. Dá isso aqui”. Papai também gostou. “Parece o compositor Shostakovitch, meu Pedro” – ele sempre o chamava de meu Pedro – “espero que te ajude a compor muitas sinfonias”. Papai estava sempre às voltas com suas sinfonias e seus compositores. Pedrinho o olhou do fundo de suas lentes, com uma ternura que papai não percebeu, não só porque as lentes separavam um pouco a ternura dos olhos de Pedrinho do resto do mundo, como também porque papai já o abraçava com aquele seu abraço forte de urso e o atirava para cima. “Cuidado com os meus óculos, se quebrarem o oftalmologista pensará que fui eu”. “Oftalmologista”, riu papai com gosto. “Meu Pedro, tu saíste melhor que a encomenda”. Finalmente, papai o colocou novamente no chão e foi ouvir uma sinfonia no quarto, cansado da viagem.
            Sim, ver tudo perfeitamente. Tinha suas vantagens. As brincadeiras ficavam mais fáceis. Reconhecer as pessoas de longe, também. E quando as pessoas chegavam perto, podia observá-las melhor. Via claramente que quase sempre não eram o que pareciam. Via claramente, como as letras escritas no quadro-negro, o que antes só via com o sentimento. E essa nova visão confirmava a antiga. Por trás da alegria de papai estava uma pequena sombra, que Pedrinho não entendia, mas percebia. Por trás da agitação de Cláudio, um tremor estranho, que quase não dava para ver com os olhos. Por trás da maquiagem da professora, um rosto quase de madeira, um frêmito de irritação constante, com o compasso marcado por seus passos rápidos. Até mamãe, por trás de sua calma, tinha umas lágrimas trancadas nos olhos, que combinavam bem com o cansaço por trás das rugas de Vera, um cansaço leve, que ela não mostrava, e um calor forte, que ele via mais em sua voz que em sua face. Clarinha estava sempre sorrindo, e por trás de seu sorriso havia um coração batendo ansioso, dava para ver suas batidas antes mesmo que ela o abraçasse. Sangue latejava por todos os lados. Por trás de tudo havia sempre mais coisas do que parecia. E muito lixo no chão, nunca imaginara que houvesse tantos lixinhos na rua, folhas mortas, coisas perdidas que ninguém mais via, porque não conseguiam ver tudo perfeitamente. Aquilo que parecia ser um pedacinho de papel amarrotado era na verdade um besouro esmagado. Aquelas pequenas manchas na calçada eram gotas de sangue do cãozinho que fora atropelado, mas ninguém mais via as manchinhas ou se lembrava do cão. Havia rachaduras nas paredes da casa; havia rachaduras em quase tudo, até na face das pessoas, como a do seu Ernesto da padaria, que sorria para os fregueses e às vezes secava uma gota de suor que corria na sua face e não era suor, porque sua esposa estava bem doente. E havia coisas que não se podia nem descrever o que era, como aquele acidente com a motocicleta e o ônibus.
            A joaninha já levantara vôo. Pedrinho estirou-se bem reto, inundado pelo verde e azul daquele dia. Novamente um graveto no chão suave. Depois relaxou o corpo e ficou pensando. Seu coração teve um pequeno aperto, ao sentir as carícias da grama e as batidas do coração do mundo, dos corações da joaninha e das pessoas, dos animais e das plantas, ao perceber as lágrimas que escorriam entre os acontecimentos e ninguém ficava sabendo. Pegou os óculos, examinou-o, colocou e tirou várias vezes, observando a mudança das coisas. Sim, ele confirmou sua teoria: bem no fundo das coisas, os óculos não faziam diferença nenhuma, pois ele via tudo perfeitamente, com ou sem eles. Mas ninguém, nem mamãe ou papai, nem Vera ou Clarinha, nem mesmo Laica ou Jasmim, muito menos o oftalmologista, sabiam disso. Era um segredo só seu. E assim permaneceria para sempre.

São Francisco de Paula, fev./2008.

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