TRÊS TESES SOBRE A VIOLÊNCIA



TRÊS TESES SOBRE A VIOLÊNCIA
Violência e Alteridade no contexto contemporâneo: algumas considerações filosóficas


Ricardo Timm de Souza

1 – Introdução

         O presente texto pretende se constituir em uma breve síntese de um trabalho de pesquisa que se alonga já por vários anos e que tem, como inspiração principal de pesquisa, a compreensão do particular corte histórico-social em que vivemos desde suas raízes históricas-culturais e filosóficas mais profundas, bem como propor alternativas de compreensão a alguns dos dilemas fundamentais de nossa época[2]. Entre essas dilemas destaca-se a questão ética com particular e absolutamente decisiva pregnância. Não hesitamos absolutamente em afirmar – na inspiração de vários pensadores contempor6aneos como, por exemplo, Emmanuel Levinas – que todos os problemas decisivos e centrais de nossa situação de transmutação civilizatória são problemas fundamental e eminentemente éticos: das grandes questões sócio-ecológicas à manipulação genética, da distribuição da riqueza à renovação das formas do exercício da cidadania, em todas essas questões – como em muitas outras que envolvem desde a nova compreensão do ser humano enquanto indivíduo e membro de uma comunidade até as bases epistemológicas mais profundas e decisivas da investigação científica e das aplicações técnicas -, emerge de forma absolutamente incisiva a questão ética, sob a forma, poderíamos dizer, do questionamento profundo da eticidade das questões em foco. Se em certas épocas a questão sobre a eticidade de um fato ou uma ação poderia e efetivamente era muitas vezes simplesmente substituída pela legalidade, hoje em dia, nos mais diferentes meios, essa mera substituição é cada vez menos tranqüila. A ética assume um relevo cada vez maior em todos os níveis da vida contemporânea.
         No contexto desse pequeno ensaio, “eticidade” assume um sentido simples porém a nosso ver fundamental: é o conjunto de condições que permitem que um futuro humanamente viável seja concebível e exeqüível, conjunto esse aqui expresso de forma particular e sintética..
         E quando, no contexto desse trabalho, se fala em síntese, entende-se algumas idéias centrais que, nesse caso, estruturam-se em torno ao tema da violência – na medida em que “violência” não é entendida aqui nem somente em um sentido sócio-histórico, nem em um sentido psicológico ou psicanalítico apenas, mas é entendida enquanto um entrelaçamento que, aproveitando os diversos níveis de tratamento dado ao assunto, indica a sua própria categorização filosófica, assumindo a posição de uma categoria compreensiva- interpretativa da realidade, e não mais, apenas – a de uma incisiva questão que a realidade propõe continuamente a cada um de nós.
         Para que tal seja mais facilmente compreendido, essa síntese será apresentada sob a forma de três teses que amalgamarão o que de mais significativo podemos destacar na reflexão, segundo os moldes acima descritos e os limites explícitos desse trabalho. Essas teses se constróem em torno ao tema da relação entre as categorias “violência” e “alteridade”, e conduzem a uma conclusão provisória que será ao final apresentada.


Primeira tese sobre “Violência versus Alteridade”: “Tudo aquilo que entendemos por violência, em todos os níveis, do mais brutal e explícito à violência coercitiva e socialmente sancionada do direito positivo, e, inclusive, a violência auto-infligida, repousa no fato exercido de negação de uma alteridade”.

         A violência, no sentido aqui proposto, se constitui na medida em que se exerce, desde um pólo de decisão individual ou social, de forma consciente ou em contextos que sugerem inconsciência, atos que negam a condição de “outro” do outro, ou seja, daquele que não pertence ao pólo de decisão. A isso chamamos “negação de uma alteridade”: a tentativa de neutralizá-la enquanto tal, aniquilá-la ou reduzi-la ao campo próprio de decisão do “mesmo”, da Totalidade auto-referente que tem a posse do discurso e a força para exercer o seu poder.


Segunda tese sobre “Violência versus Alteridade”: “Não é possível compreender as infinitas manifestações da violência a não ser superando a fragmentação intelectual-emocional a que essas induzem por seu próprio acontecer. Assim, a maior das violências consiste em velar os vínculos profundos que qualquer ato violento tem com qualquer outro ato violento”.


         As infinitas formas de manifestação da violência no mundo contemporâneo não se dão com a mesma transparência à visibilidade. Em todos os níveis da vida contemporânea ocorre o exercício de formas múltiplas de negação da alteridade. Porém, enquanto algumas dessas formas são claras, inequívocas e exploradas socialmente, outras (por exemplo, a violência econômica) permanecem no campo de uma pretensa “naturalidade” – ou de uma “neutralidade”- à qual seria impossível escapar, realimentando assim o ciclo da própria violência. O início da compreensão do sentido que a violência assume no mundo atual passa pela compreensão dessa que é a “maior” de todas as violências: a desconexão entre a infinita cadeia de fatos que são, todos, expressões e traduções as mais diversas da mesma estrutura de negação da alteridade por um pólo poderoso e totalizante de decisão.


Terceira tese sobre “Violência versus Alteridade”: É possível pensar que a desarticulação da racionalidade violenta passe pelo questionamento radical de certos postulados da razão tidos como intocáveis pelo esclarecimento moderno e que, , pregando a unidade racional da razão, na verdade acobertam a violência exercida contra outras racionalidades possíveis e reais”.


         É o caso de certos lugares-comuns do imaginário sócio-histórico moderno, como a promulgação da igualdade por sob a égide da razão, dada a um cérebro capaz de apreende-la por inteiro. Se isso era concebível a um Descartes, nas auroras da modernidade, Camus nota que os discursos da igualdade, não obstante toda a importância histórica que tiveram, necessitam da revisão profunda em termos de situação sócio-histórica contemporânea, pelo menos desde as grandes catástrofes do século XX – “a cada razão se pode opor outra razão”. As indicações de nosso tempo estão a apontar para a difícil transposição de um modelo de igualdade promulgada – onde, de fato, se acobertam os mais iguais que outros – a um modelo de diferença exercida – onde, de fato, nenhum particular sucumba por sob as imposições de algum tipo de razão onisciente, ainda que bem-intencionada. É esse o tempo que vivemos, e por isso ele é tão difícil e exigente: ele exige a sua reconsideração na sua totalidade de sentido.


Conclusão

         As bases da cultura ocidental encontram-se corroídas há muito tempo. A totalidade da violência – que se expressa, por exemplo, em um modelo sócio-político-econômico suicida, que se totaliza em torno à sua própria razão, ignorando tanto os argumentos tradicionais como os fatos absolutamente visíveis a qualquer um, por exemplo, onde interesses meramente econômicos se sobrepõem a todos os outros (veja-se a questão sobre a conferência de Kyoto) – essa totalidade exige uma incisividade de abordagem que as ferramentas da tradição são incapazes de fornecer. Somente os tempos atuais, na voz para além da centralidade da totalidade, têm a possibilidade de encontrar saídas para seus próprios impasses, e essas saídas passam pela reconsideração profunda do que seja a racionalidade propriamente dita. E essa reconsideração aponta no sentido de que a racionalidade é, em sua base de significação mais grave e primogênita, exatamente a (racionalidade) ética – o respeito indeclinável à alteridade do Outro em todos os sentidos e dimensões. Sem essa reconsideração, corremos o risco de, com as melhores intenções e armados da mais aguda inteligência, nos tornarmos coadjuvantes inocentes do suicídio coletivo do maior império da história da humanidade.

 Porto Alegre, janeiro de 2001.




[1] Para evitar sobrecargas no texto evitaremos as citações e referências. Essas podem ser consultadas nas bases bibliográficas gerais desse trabalho, que se encontram principalmente em nossos livros Totalidade & Desagregação – sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, Porto Alegre: Edipucrs, 1996; Filosofia mínima: fragmentos de fim-de-século, Porto Alegre: Pyr Edições, 1998; O tempo e a Máquina do Tempo – estudos de filosofia e pós-modernidade, Porto Alegre: Edipucrs, 1998; Existência em Decisão – uma introdução à obra de Franz Rosenzweig, São Paulo: Perspectiva, 1999; Sujeito, Ética e História – Levinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental, Porto Alegre: Edipucrs, 1999; Metamorfose e Extinção – sobre Kafka e a patologia do tempo, Caxias do Sul: EDUCS, 2000; Sentido e Alteridade – dez Ensaios sobre o pensamento de E. Levinas, Porto Alegre, Edipucrs, 2000, além do livro co-organizado com N. F. de Oliveira Fenomenologia hoje – existência, ser e sentido no limiar do século XXI, Porto Alegre: Edipucrs, 2001.

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