TOTALIDADE PENSADA E NÃO-PENSADA



Totalidade pensada e não-pensada - sobre "vigência de Hegel: os impasses da categoria da totalidade", de Gerd Bornheim[1]


Ricardo Timm de Souza

preâmbulo


I - Que a questão da totalidade não seja uma questão (meramente) de pensamento, eis algo a que o espírito não é afeito por natureza; pois, se é inconcebível deixar de pensar o pensável, revela-se uma temeridade antiga tentar pensar mais que o (meramente) pensável. Não que tal não seja a mais antiga tentação da filosofia, e que boa parte da própria história do pensamento humano não seja senão o engendrar de justificativas para tal tipo de ousadia; pois, que espécie de triunfo poderia experimentar uma razão permanentemente afeita a seus (meros) limites? - mas, passa tal tentação de uma doce loucura filosófica?

II - Porém: existem estes limites? Ou é tudo uma questão de infinitude intelectual à Bruno? Ou, antes, trata-se da questão de um doloroso processo de tomada de consciência dos limites de que a razão dispõe para conhecer o “ilimitado” (aqui entre aspas, na medida em que sua ilimitação é apenas, neste raciocínio, presumida), limites auto-criados, auto-limitações impostas pelo espírito tentado a desabar nos abismos infinitos que o cercam - na verdade, não é um determinado modelo de racionalidade que tem evitado que se desabe nos abismos infinitos que cercam a existencialidade humana, em uma difícil tarefa atribuída por Castoriadis à religião?

III - Ou, ainda, não haveria já, aqui, uma cisão original na razão, a partir de então definitivamente inconciliável consigo mesma, dolorosamente irredutível a si mesma? De um lado, o impulso do infinito, ao encalço do Cosmo e do Ser e de tudo o mais; de outro, a diferença definitiva que brota da inconciliação original entre a racionalidade e o que não é ela: causa original e razão de ser de todo o pensamento e de toda a filosofia. Estranha duplicidade, tensão extrema do humano: é neste ponto exato que habita o núcleo dos existencialismos, mas também dos idealismos e realismos, otimismos e pessimismos; nenhuma conquista da razão científica ou técnica é capaz de impedir a frustração original da razão pura, sempre a uma distância indefinida mas real da Essência, apesar de todas as de-finições.

IV - Mas a razão não se limita a ela mesma: está por detrás e sustenta as ações humanas - age. Todavia, a ação perfeitamente iluminada pela racionalidade é uma quimera, e não apenas desde o advento da psicanálise: desde a primeira ação legitimamente humana. Para compreender a realidade, para criá-la e destruí-la, mesmo para compreende-la postumamente, o pensamento é insuficiente: surge demasiadamente tarde na ordem dos fatos, excessivamente adornado de categorias e truncado por lógicas parciais. A tarefa do pensamento é sempre desmedidamente dilatada: entender a realidade enquanto tenta entender as suas próprias leis; engendrar a si mesmo enquanto engendra a realidade[2]; sobreviver em meio aos infinitos estímulos e tentações do que não é ele. No mundo das Idéias e do Absoluto, não há necessidade de pensamento: tudo é congruente consigo mesmo. Não é por acaso que da tensão entre o particular e o geral, entre o ideal e o concreto, se delineia o grande impulso da filosofia ocidental. O mundo do pensamento é, sempre, a um tempo, excessivamente abrangente - enquanto categorias gerais - e excessivamente contraído - enquanto intencionalidade necessariamente parcial - para poder representar-se a si mesmo como pleno: sua plenitude precária é a expressão melhor da finitude original que lhe dá origem.

V - Mas é no rastro desta insuficiência radical do pensamento - herdeira legítima da cisão original da razão entre ela e o que não é ela - é nas frestas do inteligível, que muito da realidade se dá; e o fato de que tal não possa ser rapidamente equacionável não depõe minimamente contra a sua validade. É quando o processo de pensamento e apreensão do real hesita subitamente em reconhecer-se em sua imagem refletida categorialmente, em um fulcro de estranhamento, que a balança da realidade se desequilibra entre sua promessa ideal - plenamente inteligível - e sua efetivação real - incomodamente evasiva - em favor do segundo destes termos, o que aliás demonstra, cabalmente, que a eternidade ainda não foi atingida e o tempo corre. E não se trata de algum tipo de irracionalismo, apenas do refulgente intervalo que se estabelece entre a razão e o que não é ela, momento rapidamente superado mas nem por isso menos (e este termo recorre redundantemente, na falta de outro melhor e menos pretensioso:) real.

VI - E, não obstante, o espírito retroage por sobre seus próprios passos, à procura eterna e humana, incômoda mas indeclinável, de uma ex-plicação. As categorias prévias foram insuficientes; as categorias pósteras ainda não foram criadas - e todavia é necessário pensar. Nada de novo para o pensamento: apenas a revivescência de seu estertor de origem, sua diferença, seu paradoxo congênito, pontilhado de afetividades e resíduos inconscientes, não-intencionais[3].

VII - Que a história do pensamento ocidental tenha tido de esperar cerca de vinte e cinco séculos para que a finitude fosse finalmente "sistematizada": eis um fato nada irrelevante no processo de construção da krisis contemporânea. O mundo contemporâneo é o que sobrou de uma determinada explosão do Sentido postulado em uma infinidade de fragmentos de sentidos reais, reais exatamente porque renunciaram à pretensão do Absoluto; e, não obstante, o sonho do absoluto habita os recônditos do pensamento.

VIII - A este extinto Sentido absoluto temos chamado "Totalidade" pensada, ou melhor, tradução intelectual da Totalidade; e sua extinção corresponde ao momento em que esta se contrapõe aos fragmentos do concreto, das circunstâncias orteguianas, da contingência antiquíssima mas agora finalmente convidada a expor sua própria racionalidade, incômoda e definitivamente real.

IX - E, inobstante, a Totalidade efetiva ressurge qual fênix de sua impossibilidade epistemológica e habita potencialmente todos os nichos do inteligível[4], exatamente porque não é e nunca foi apenas uma questão de pensamento, mas se delineia exatamente nos limites inseguros do pensável e do impensável, instila-se em meio à insuficiência das categorias e promete a redenção à opacidade do real. Esta é a verdadeira Totalidade, aquela que não se esgota em seu nome e vive deste não-esgotamento; é esta "espessura ontológica", em seu infinito poder de metamorfose, que precisa ser compreendida, em uma tarefa também "infinita", com infinitos sentidos de inteligibilidade muitas vezes contraditória. A compreensão da realidade contemporânea passa pela colocação em questão não apenas das "palavras", mas também e principalmente das "coisas"; e isto em um novo aprendizado: aprendizado do realmente novo. Em caso contrário, recai-se simplesmente na tautologia - o que, aliás, nenhuma diferença faz para a Totalidade real, aquela que é mais do que sua "fórmula", ou seja, é mais do que teoria. Definitivamente, em um paradoxo aqui assumido em todas as letras, pensar (meramente) a Totalidade é insuficiente para compreendê-la.

X - O belo texto do filósofo G. Bornheim "Vigência de Hegel: os Impasses da Categoria da Totalidade"[5] ajuda-nos a rastear as origens desta insuficiência, desta incompreensão incômoda e radical, radical na medida em que se refere às raízes da questão - e nos conduz, após, ao tema da insuficiência das críticas "normais" - ontológicas - da Totalidade real.




[1] Originalmente em SOUZA, Ricardo Timm de. O tempo e a Máquina do Tempo – estudos de filosofia e pós-modernidade, Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998.
[2]Obviamente, aqui, em um sentido metafórico; mas, ainda que não fosse metafórico, pertenceria à dinâmica do real.
[3]Cf. LEVINAS, Emmanuel. "La conscience non-intentionnelle" in: Cahiers de l'Herne - Levinas, Paris, 1991, bem como nosso estudo sobre o tema in: SOUZA, Ricardo Timm de. Levinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental, de próximo aparecimento.
[4]Cf. nosso Artigo "O fim da história como fim da totalidade - ideologia e crítica" in: SOUZA, Ricardo Timm de. Totalidade & Desagregação..., Op. cit., 101ss.
[5]In: BORNHEIM, Gerd. O idiota e o espírito objetivo, Porto Alegre, Editora Globo, 1980, 159-208.

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