TEMPOS DE URGÊNCIA: O QUE DÁ O QUE PENSAR É A INJUSTIÇA



TEMPOS DE URGÊNCIA: O QUE DÁ O QUE PENSAR É A INJUSTIÇA


Ricardo Timm de Souza


“Pois onde a desconstrução encontraria sua força,
 seu movimento ou sua motivação, a não ser nesse
apelo sempre insatisfeito, para além das determinações
dadas disso que se chama, em contextos
 determinados, a justiça, a possibilidade da justiça?”
J. Derrida

            Tempos de urgência. A dor acumulada ao longo dos séculos, não uma vaga, difusa, inelutável dor existencial-indiferenciada de “ser algo e não apenas nada”, mas a dor objetivada em quistos da memória histórica e social, além dos jargões, a dor consubstanciada no acúmulo de ruínas do passado e de suas obras, o irreparável que se agiganta aos olhos atônitos-amedrontados do Angelus novus de Klee, revivido neste século que já inicia velho: eis o que dá o que pensar. O que dá o que pensar é a injustiça. Sua materialidade transborda dos esquemas que tentam explicá-la, exorbita o bom-comportamento intelectual, contamina as tentações do quietismo e interdita a paz. Todas as formalizações e boas-vontades, animadas por excelentes intenções, são ameaçadas pela paralisia petrificante desta Medusa onipresente: a injustiça, as injustiças que se sucedem, multiplicam e – acham sempre quem as justifique em nome de algo “maior”.
            É provável que a grande questão filosófica com a qual nos defrontamos de forma mais aguda nestes sombrios alvores de milênio se constitua exatamente nisso: como chegamos a este estado de coisas – como nos acostumamos com o excepcional, como suportamos o insuportável, como vivemos com as chagas vivas, com o trauma reiterado e dilacerante, como se fossem constituintes atemporais e inelutáveis de tudo o que somos e devemos ser? Como conseguimos sobreviver à negação da vida que cada injustiça demonstra ou indicia? O que significa, aqui e agora, “vida” para nós? Como conseguimos fingir tanto? A que ponto chegamos?
            Gigantesco arquipélago de incertezas no mar da existência, algumas ilhas perdidas de aguda penetração no real para além da retórica do real: eis o panorama que contemplamos. Nenhum trabalho intelectual se justifica, hoje, se não levar a sério o horizonte nebuloso que se anuncia no futuro ameaçador. Pensar significa pensar o trauma que a injustiça significa – eis a verdade dolorosa que nos deve lançar à raiz da nossa crise de fundamentos, para que tenhamos a esperança de dela regressarmos possuídos por aquilo que deveria fazer, de nós, nós propriamente – “ou ser moral, ou não ser humano” (P. Pivatto). Vontade de justiça: eis o que nos move, o que nos sustenta, nós, os que vemos as ilhas singulares e não o arquipélago indiferenciado desse mar revolto ao qual chamamos nossa existência, nossa vida danificada no sentido de T. Adorno.
            A vontade de justiça, ineliminável da vida do espírito que merece essa designação, deve armar-se, ante a legião de inimigos da paz que povoam a terra inóspita, com uma das mais vigorosas ferramentas de que dispõe, contemporaneamente, o saber filosófico: a ética da Alteridade. Aí reside a esperança. A articulação delicada entre o improvável que acontece – o encontro com o Outro, ainda que em circunstâncias extremamente adversas – e a linguagem que interpreta os modos desse acontecer – o trauma transformado em encontro com a Alteridade para além de toda representação –, esta articulação configura simultaneamente o ponto de encontro das motivações ético-teóricas da obra por vir e o ponto de fuga em direção a um futuro que não pode ser violentado em nome de juízos de realidade e de possibilidade, meramente juízos. Crítica como pedagogia do existir, o trabalho filosófico íntegro, hoje, atesta de modo cabal que pensar além do presente é possível – que, sob o signo da redenção no sentido adorniano, o sentido se reinveste de substância. Pensar radicalmente ético, louca pretensão ao invisível, no momento em que uma experiência pungente do humano ensina, no século XX, que os pensamentos dos homens são conduzidos pelas necessidades, as quais explicam sociedade e história; que a fome e o medo podem ser os determinantes de toda resistência humana e de toda liberdade... É este adiamento perpétuo da hora da traição – ínfima diferença entre o homem e o não-homem – que supõe... o desejo do absolutamente outro ou a nobreza, a dimensão da metafísica” (E. Levinas).

Porto Alegre, julho de 2007.-

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