SOBRE AS CONDIÇÕES DE POSSIBILIDADE DE CONSTRUÇÃO DE UM FUTURO ÉTICO-ECOLÓGICO



SOBRE AS CONDIÇÕES DE POSSIBILIDADE DE CONSTRUÇÃO DE UM FUTURO ÉTICO-ECOLÓGICO desde o inventário da contemporaneidade



Ricardo Timm de Souza

Introdução

            A urgência das questões ecológicas-ambientais propõe à filosofia, exige da filosofia, uma tarefa extremamente complexa: reequacionar a forma pela qual estas questões podem e devem ser filosoficamente pensadas a fundo. Pois a situação ambiental que ora vivemos em nível regional e global não é fruto do acaso, mas de uma racionalidade muito clara; e ao menos tão clara deveria ser a racionalidade que se lhe contrapõe em termos de uma contraproposta filosoficamente incisiva e viável.
            Temos desenvolvido este tema, de forma mais ou menos explícita, ao longo de uma série de trabalhos; e, em muitos outros, tal tema permanece como horizonte de referência permanente de nossas pesquisas. Ao longo destes estudos, temos abordado esta questão em diferentes níveis de complexidade e privilegiado diferentes articulações e interfaces de compreensão.
            O objetivo deste texto é sumarizar um quadro do que consideramos serem as condições de possibilidade da construção de um futuro ético-ecológico. Tal será feito a partir do estabelecimento do que consideramos, sumariamente, como sendo as condições de possibilidade imprescindíveis para que um tal modelo de construção histórica seja minimamente pensável no complexo cultural sócio-histórico e filosófico contemporâneo.
            Tal quadro sinóptico será estabelecido a partir de três teses principais, mais sugeridas do que desenvolvidas, as quais deverão indicar a direção de desenvolvimento de uma argumentação.


As Teses

Primeira Tese: a tensão cultural máxima
>os padrões que a tradição nos tem legado para compreender nosso momento histórico são insuficientes tanto para a compreensão de nosso momento histórico como para a compreensão das reais linhas evolutivas e das motivações civilizatórias cujos efeitos hoje experimentamos.

            A evidência desta insuficiência não se constitui em algum tipo de derivação lógica de uma mera estrutura argumentativa, mas se estabelecem a partir da percepção de uma atmosfera que envia a uma radical crise de fundamentos. Vivemos esta crise, somos esta crise. Porém, e é isto que aqui desejamos ressaltar em primeiro lugar, não é desde os elementos que esta crise nos fornece que ela se pode apresentar minimamente apreensível; em um mero corte horizontal de nosso momento histórico, os elementos que escapam à articulação de um sentido de compreensão são mais significativos do que aqueles que podem ser simplesmente circunscritos e compreendidos. Assim, o chamado fenômeno da “pós-modernidade” não se dá a uma racionalidade que a ele se achegue com o arsenal de inquietude que tal fenômeno inevitavelmente suscita; é possível que apenas desde uma retrospecção muito ampla e prudente alguns dos elementos mais significativos da situação de pós-modernidade se tornem efetivamente evidentes. Nunca, como hoje, foi tão fácil equivocar-se no juízo a respeito do realmente essencial de um dado fenômeno; e isto em uma situação em que tais juízos são absolutamente imprescindíveis. 
            Em segundo lugar, tampouco é possível encontrar, na mera tradição recebida como tradição, elementos suficientes para que a compreensão da crise em sua incisividade e radicalidade; novos tempos exigem soluções novas. É isto que faz de nosso tempo um tempo tão especial: por um lado, inabordável desde “si mesmo”; por outro lado, incompreensível desde a cartilha de boas intenções da tradição. As referências prontas de que possamos dispor são insuficientes para a abordagem da infinita complexidade que se desnuda em um corte contemporâneo de nossa cultura e de nossas estruturas e condições sócio-históricas.
            Segundo esta primeira tese, portanto, a única dimensão que se mantém profícua no corpo de tensões contemporâneas é, exatamente, sua dimensão extrema de tensão; este é o ponto de partida possível para uma abordagem menos ingênua da contemporaneidade e dos amplos e profundos problemas que a afligem.


Segunda Tese: a arqueologia imprescindível do pré-original
>é necessário e imprescindível que se leve a cabo um exame “arqueológico” das raízes reais dos problemas hoje enfrentados em nível sócio-ecológico e humano em geral.

            A tensão contemporânea – da qual a crise ética-ecológica é uma face visível – exige que a compreensão de suas raízes se estabeleça não de forma meramente lógica, em uma cadeia artificial de causalidades retrospectivamente reconstruída; mas, sim, desde uma imersão arqueo-lógica em suas motivações mais íntimas e profundas. É necessário que se retroceda à pré-originalidade dos arquétipos civilizatórios que efetivamente se realizaram e se vêm realizando na história, caso queiramos superar as limitações de análises retóricas e circunstanciais. O que está em questão é a estrutura profunda do ocidente; e, caso tal não seja percebido, recairemos em reconstruções parciais, nada mais do que colorações incidentais de situações essenciais. Esta estrutura profunda da civilização, tal como a conhecemos, desdobra-se nas formas de efetivação que realmente assumiu ao longo do desenvolvimento da cultura ocidental tal como a conhecemos, e não segundo as projeções lógicas ou derivações axiomáticas de princípios de boa vontade filosófica. O que realmente faliu – como Adorno tão bem percebeu – foi o sonho de encontrar, na especulação filosófica da realidade, a realidade mesma. A nós importa muitíssimo entender porque este sonho sobreviveu por tanto tempo propondo-se como pretensa única alternativa viável à irracionalidade absoluta.


Terceira Tese: a inversão de domicílio do sentido: do Ser como origem do sentido ao Sentido que pode justificar eticamente o ser
>a possibilidade da construção de um futuro humanamente viável se conecta diretamente à inversão de tradicionais categorias compreensivas da realidade, o que vem a indicar uma radical inversão da ordem das prioridades do pensamento em seu sentido mais profundo e, secundariamente, indica a subversão da própria idéia de pensamento, subversão esta exigida pela urgência ética de viabilização do futuro.

            Em meio à tensão exposta da contemporaneidade, e de posse de um inventário lúcido do século, percebemos com clareza o equívoco de quem apostou todas as fichas no automatismo ontológico, ou seja, julgou que o ser necessita apenas de si mesmo para se justificar. A tensão máxima da cultura indica que esta tensão máxima habita o núcleo do ser; a arqueologia lúcida do passado sugere que esta tensão esteve sempre presente, embora quase nunca visível, poucas vezes claramente perceptível.
            Assim, a crise de sentido é nada mais, em sua dimensão mais abstrata e mais real, que a crise do sentido do ser que procura apenas em si mesmo sua própria justificação.
            A possibilidade de concepção de um futuro ético-ecológico viável passa portanto pela reconstrução da questão do sentido pela procura e construção do sentido para além das dimensões endógenas do logos da ontologia. O sentido da realidade não é uma questão de conhecimento, mas de relação. A máxima sine qua non é, seguindo Rosenzweig: no início dá-se a multiplicidade, e não a unidade decorrente da obsessão identificatória de um modelo classificatório e objetivante de pensamento[1]. Em termos mais simples, a condição para a construção de um futuro humanamente viável passa pelo investimento do fato das relações entre os muitos como, exatamente, o fato fundante da realidade – o que também significa: a reserva de sentido da realidade para além do sentido determinável pelo conhecimento. Para falar com Levinas, diríamos: a realidade só se mostra abordável, em sua tensão que envia à necessidade de construção de um futuro, desde a ética como filosofia primeira e primeira de todas as filosofias. É este o sentido da crise contemporânea; evidenciar a necessidade absoluta e, esperamos, a inelutabilidade de uma inversão onde o agir ético não derive de uma teoria, mas se constitua na fonte de qualquer teoria possível. Mas este agir só é possível se levamos a sério o tempo ou, “o que dá no mesmo” (Rosenzweig), levamos a sério o Outro. Antes disso, sobra-nos apenas a tautologia e o desespero, dimensões indignas da altura a que se propõem as tarefas humanas.



[1] Cf. nosso ensaio “Da diferença lógica à dignidade da Alteridade – estações de uma história multicentenária”, in: SOUZA, R. T. sentido e Alteridade – Dez Ensaios sobre o pensamento de E. Levinas, op. cit..

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