RAÍZES DA FILOSOFIA - A QUESTÃO DA AUTENTICIDADE DO FILOSOFAR, HOJE



RAÍZES DA FILOSOFIA - A QUESTÃO DA AUTENTICIDADE DO FILOSOFAR, HOJE


Ricardo Timm de Souza


            I – Introdução: a questão

            Este breve texto tem como objetivo principal circunscrever algumas questões que julgamos fundamentais a respeito da questão da autenticidade do filosofar, hoje. Não o faremos, porém, partindo de algum “jargão de autenticidade”[1], mas, segundo a inspiração de Edmund Husserl, “das coisas e dos problemas”. A primeira questão que se coloca é, portanto: de que “coisas e problemas” se está a tratar, que coisas e problemas simultaneamente provocam e sustentam – ou deveriam, segundo nosso ponto de vista -, sustentar a reflexão, o estudo e a produção filosófica hoje?
            Esta questão, que parece ter uma resposta simples – a quem, sobre tal perguntado, não ocorrerá o tema da vida humana, das grandes temáticas sócio-ecológicas, das imensas questões éticas que invadem a consciência do ocidente com incisividade extraordinária? – apresenta, porém, desde o interior da própria tradição filosófica, dificuldades notáveis. Nem sempre o mais visível, o mais candente, o evidentemente mais decisivo, é considerado o mais digno de investigação. Preocupada com seu próprio acabamento racional, com a perfeita articulação de suas partes, com a credibilidade pretensamente universal de suas conclusões, a filosofia em muitas oportunidades – oportunidades demais – tem aberto mão do lugar onde se origina – a existência humana com suas infinitas circunstâncias e condicionantes – para não trair o que julga ser a razão de sua respeitabilidade universal, ou seja, sua capacidade de classificar e organizar conceitualmente a realidade. É esta a razão pela qual se percebe ser absolutamente imperioso o estabelecimento profícuo de interfaces com outras formas de saber, ciências, literatura, etc., para que a filosofia retome ou mantenha a credibilidade periclitante frente a um mundo que se pluraliza em todos os sentidos, de forma notável e irreversível.
            A reação ao que aqui chamamos “pluralização” se expressa na tradição filosófica acadêmica de muitas formas. Enquanto alguns pensadores aproveitam tal oportunidade para qualificar seus próprios discursos, estabelecendo com o diverso, o diferente, relações de mútuo crescimento, outros, atacados naquilo que julgam ser a razão de sua segurança – algo que se assemelha a uma crença de que o mundo nada lhes pode provocar que não tenha sido a priori respondido por suas bem-construídas racionalidades – manifestam alergia extrema ao novo, e se enclausuram em sua própria lógica discursiva implicitamente considerada a sede da Razão, categorizando outros discursos como irracionais. E, no mundo da filosofia, a mais eficiente forma de desqualificação da alteridade, do Outro como do outro pensamento, é classificá-lo como irracional[2]. 
            Muitas dimensões de renovação vital da pesquisa e do pensamento filosófico em nosso meio são vítimas, nas mais diversas instâncias e segundo as mais diferentes formas de ação, de tal processo de desqualificação. É, portanto, necessário compreender as raízes de tal processo e proceder à afirmatividade do diferente, de outras racionalidades, como dimensões filosóficas legítimas nas quais efetivamente se constituem, com inalienável direito a espaço de desenvolvimento e voz ativa na multiplicidade em que o mundo hoje se constitui.
            Este trabalho se insere em já longo itinerário investigativo/interpretativo; ele não pretende, por limitações evidentes, se constituir em mais do que na sugestão de linhas de compreensão para tal fenômeno.


            II – A origem do medo

            Se a filosofia é capaz de “elevar um tempo a seu conceito”, ela é capaz também de esconder seus contratempos por detrás de seus conceitos. A isso se poderia chamar de “medo filosófico”. E o medo filosófico tem a mesma origem de qualquer outro medo: a ameaça ou efetivação da desarticulação de estruturas de segurança. A hipertrofia de estruturas discursivas pouco flexíveis significa geralmente uma estrutura defensiva por detrás da qual a impermanência da construção histórica das formas de interpretação da realidade se refugia, como se assim pudeste se subtrair do tempo que é sua origem e onde pode ter sentido. Negar a história na filosofia não tem geralmente outro objetivo senão desarticular a filosofia de sua própria substãncia – seja para preservá-la da necessidade contínua de auto-legitimação que a realidade em sua variedade lhe propõe reiteradamente, seja para instrumentalizá-la enquanto mecanismo de legitimação de intenções sociais confessáveis ou inconfessáveis. Em ambos os casos, significa ignorar o horizonte de sentido da qual a filosofia extrai o seu próprio sentido: sua historicidade, a historicidade humana em sua infinita variedade, que constitui o tempo de sua própria significação.


III – Sentidos da filosofia

            A este medo, muito difundido e em certas circunstâncias tido como evidente e inevitável – a este medo da realidade – cumpre propor alternativas menos limitadas e que sustentem a urgente tarefa do filosofar em sua aspereza e em sua promessa de auto-legitimação: em sua autenticidade, hoje. É neste sentido que a seguinte proposição deve ser entendida.
            A raiz do pensamento, sua origem e seu sentido, é a carne na qual este, exatamente, radica: sua espessura levada a sério em sua exigência de construção de linguagem.
            Ora, a mais difícil de todas as tarefas filosóficas parece ser a desarticulação da solidez monolítica dos discursos totalizantes e auto-justificantes que construíram ao seu redor, sem frestas, uma cuidadosa redoma de preservação de suas inquietações mais profundas. Teceram em seu próprio entorno um sofisticado salão de espelhos, onde se comprazem com a variedade e riqueza de suas próprias imagens cambiantes como se fossem imagens e impressões da realidade externa, do mundo para além de sua tautologia: auto imagem projetiva que se espelha e se multiplica infinitamente no luxo de sua sutileza. Cercados de luz, obcecados pela luz, tais modelos escondem de si mesmos suas próprias sombras.
            Se esta tarefa – romper filosoficamente as estruturas de defesa da filosofia assustada com suas responsabilidades humanas, ou seja, quebrar os espelhos e seus jogos sedutores – é a mais difícil, é também a mais urgente. Não se trata de uma urgência retórica, mas de uma urgência humana. Pois não há filosofia que não seja eminentemente humana, assim como não há questão humana que não seja eminentemente filosófica; e se é humano, o impulso do filosofar parte não da violência da unificação, da totalização unitária, mas da “pluralidade de origem” (no dizer de Rosenzweig) objetivando a pluralidade da construção humana, ou seja, seu sentido ético, na inspiração de Levinas. Um filosofar autêntico, hoje, significa um mergulho radical – de raiz, na raiz – da existência concreta, com ênfase no sentido filosófico deste mergulho, e isso desde a posição da qual se provém e de onde se fala. Autenticidade é perder o medo do Outro; e perder o medo do Outro significa, também, afirmar o próprio discurso – afirmação que permitirá a relação ética com o Outro.
            Assim, a urgência do filosofar se traduz na urgência de positivar os discursos alternativos a toda e qualquer modalidade de totalidade e tautologia. Filosofar hoje, no Brasil, significa para nós: afirmar a posição humana e histórica específica de um pensamento que não se perde em seus reflexos sedutores, mas que sabe de onde provém, e que traduz este saber nas muitas linguagens que lhe fazem justiça. E a questão da justiça não é uma questão de opção, mas simplesmente de sobrevivência: condição de que um futuro alcançável seja concebível.

1997



[1] ADORNO, Theodor. Jargon der Eigentlichkeit.
[2] Cf. nosso ensaio “Ética e desconstrução - Justiça e linguagem desde “Force de Loi: le ‘fondement mystique de l’autorité’”, de J. Derrida”.

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