QUANDO AS PALAVRAS TÊM PESO, OU DA ALTERIDADE E DOS DESAFIOS DE QUEM COM ELA LIDA



QUANDO AS PALAVRAS TÊM PESO, OU DA ALTERIDADE E DOS DESAFIOS DE QUEM COM ELA LIDA


Ricardo Timm de Souza



            A questão filosófica primigênia e subjacente a todas as outras – a questão magna – é a investigação sobre o sentido que a palavra justiça deve assumir, ou seja, sobre seu conteúdo a construir. Todos os outros temas são a esse subsidiários, o que significa: são dele logicamente dependentes e temporalmente derivados. A decisão pelo conteúdo que essa palavra deve assumir define, portanto, o que segue do tempo que ainda resta. E, por outro lado, a questão procedimental primordial, o exercício imperativo, é localizar a fissura criativa, temporal, no bloco maciço das racionalidades condescendentes como o ilegítimo e o injustificável, com a violência naturalizada, com a deturpação da vida, racionalidades essas hoje em dia superabundantes no imaginário dos intelectos penetrados pela razão instrumental hegemônica e suas metamorfoses bem-falantes e retóricas aparatosas. Que a racionalidade se desaferre de suas inflexões maníaco-totalizantes e se pluralize na contemporaneidade estupefata com seu próprio poder narcísico-teratogênico, se o restolho de lucidez ética ainda a habita, isso não parece se constituir em mistério impenetrável para quem realmente viveu o século XX e tenta sobreviver à tempestade de início de milênio. Reconhecer, por outra parte, a doença latejante em suas espessuras profundas, isso não é da índole da tradição da racionalidade hegemônica. De certo modo, equivale à mais difícil de todas as compreensões: significa compreender que existe uma distância incomensurável que separa o conceito de morte do corpo morto, entre o conceito e a coisa, ou seja, exige a compreensão de que a essência mais profunda do conceito de justiça, seu limite exatamente conceitual-categorial, corresponde à diferença entre o conceito de morte e um corpo morto, desafio primeiro e último da razão exposta à Alteridade, abjurando dos exorcismos sutis da razão hegemônica.
            O resultado desse exorcismo desesperado em suas metamorfoses sucessivas e em suas infinitas derivações no campo da consciência e da inconsciência, em sua abolição kafkiana da morte e da vida, é a desagregação da vida propriamente dita em objetivações canhestras do que de real ainda habita o real diuturno: violência contra o real, formalizações com ares de absoluto, esquematismos paralisados. Não é apenas na guerra oficial, ou na história oficial dissecada em seus constitutivos reais (pois afinal, e nisso concorda a opinião filosófica desde sempre, a guerra é em última análise um estilo de ser e de pensar), que “após milênios de esclarecimento, o pânico abate-se de novo sobre uma humanidade cuja dominação sobre a natureza tornada dominação sobre os homens excede em horror tudo o que em qualquer época pudessem temer na natureza”[1]. É também nas fímbrias do que tem, apesar de tudo, de algum modo, sobrado na coisificação massiva do real – ou seja, na “vida danificada” adorniana, na consciência inconsciente em que vivemos, em que o insuportável é suportado, negando a sua própria definição – que a verdadeira face da medusa aparece: a obliteração da inteligência não é apenas um fenômeno demarcável epocalmente, que obrigue os sobreviventes a organizarem seus salvados em algum pulsar estético possível, mas um “estado de exceção tornado regra”, que tudo habita e por tudo é habitado, mesmo pelos sobreviventes.
Dá-se, portanto, a grande tarefa: a desconstrução do opaco e de suas razões, ou seja, da violência, a crítica da razão violenta, a des-idolatrização dos ídolos. A isso se chama vontade de justiça ou, para falar com Derrida, “loucura pela justiça”. É isso que chama a justiça a si, e não um conceito. Sob o signo da catástrofe, pensar é tomar decisão – e a catástrofe, na era que é sua, emerge não apenas difusamente, mas também na particular pontualidade que lhe é própria, nos corpos sofrentes e em cada um deles, no intervalo entre o indefinido e o definitivo; também a catástrofe é caprichosa – como observa Hannah Arendt a respeito da trágica morte de Benjamin na fronteira espanhola, “um dia antes e ele teria passado sem obstáculos, um dia depois e já se saberia, em Marselha, que então não era possível atravessar a Espanha. Apenas neste dia a catástrofe foi possível”[2]. A catástrofe, a crise propriamente dita em toda sua ambigüidade e profundidade, as precárias estrofes desalinhadas que constituem o contemporâneo, é tudo e nada, tudo ou nada: sinaliza o instante de decisão, que não é outro senão aquele no qual a decisão deve ser tomada, uma questão de vida ou morte, pois, em um mundo em que o grande mistério intelectual se constitui em entender finalmente como aprendemos a suportar o insuportável como se fosse suportável, chegamos já àquele ponto de clivagem kafkiano, aquele ponto no qual “não há mais qualquer possibilidade de retorno”. Contra as obscenas ou bem encenadas ofertas de conciliação ou reconciliação, de indecente amortecimento da dor impossível, promessas que lidam com a gravidade da justiça como se manuseassem peças de um quebra-cabeça infantil, instilando-se nos cérebros suficientemente ingênuos ou capciosos para tragarem suas ofertas, contra isso tudo se insurge o pensamento que só sabe de si e de seu sofrimento e encontra o mundo. Lidar com o tema da justiça, em qualquer âmbito ou nível, é lidar com os termos do infinito ético para além de seus conceitos, ou seja, com a Alteridade. Eis a metamorfose da razão ora em curso: compreender-se a si mesma como serviço de seu Outro. Serviço ao outro é vontade inaudita de justiça, loucura pela justiça, justiça posta em seus termos próprios, negação das promessas da fatuidade; e não há outro caminho senão o da reconstrução árdua da esperança, e esperança é a tarefa por excelência da des-idolatrização do real, pois “o caminho em direção ao passado é um caminho que não pode ser trilhado”[3].
                        



Porto Alegre, 29 de março de 2010



[1] ADORNO, Theodor W. Mínima moralia.
[2] ARENDT, Hannah. Walter Benjamin, Bertolt Brecht – Zwei Essays.
[3] ROSENZWEIG, Franz. Der Stern der Erlösung.

Postagens mais visitadas