OS DESAFIOS DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA



OS DESAFIOS ÉTICOS DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA[1]
[Versão eletrônica para uso exclusivo em Seminários de Pós-graduação]

Ricardo Timm de Souza


A ciência se constitui na mais complexa, poderosa e influente das instituições contemporâneas. Desde seu nascimento, há muitos séculos e através de todas as suas metamorfoses paradigmáticas e mutações, até culminar na hipercomplexa tecnociência contemporânea, em sua infinita multiplicação de variáveis socialmente relevantes, a ciência nada faz senão se impor no sentido de estabelecer parâmetros de existência e validade em todas as dimensões da vida. O resultado deste fato não poderia ser outro: o ser humano acabou por fazer da ciência a sua verdade racional, tendendo, especialmente na cultura ocidental, a instituí-la como verdadeiro ídolo ao qual tudo o mais – especialmente outras formas de ponderação racional – é a cada momento sacrificado[2].
O doloroso reverso desta constatação é outra constatação, igualmente cabal, de que, como sabemos pelo testemunho doloroso do século que acaba de findar e do presente século que já inicia velho, do déficit ético que impera globalmente em termos ético-ecológicos. O fato é que a ciência imperante tem muitas faces, e está muito longe de ser compreendida em todo o seu potencial, tanto construtivo quanto destrutivo. Na verdade, boa parte daquilo que temos chamado a “esquizofrenia civilizatória do século XX”[3], ou seja, a convivência de situações absurdas do ponto de vista da vida e de sua sobrevivência com situações de avanço científico inusitado e extraordinário, tem a ver com o desconhecimento destes potenciais. A questão que agora se coloca é, então: a que se poderia dever o desconhecimento destes potenciais? A resposta a esta questão não é extraordinariamente difícil; podemos avançar que, na verdade, uma das dimensões mais avessas ao controle externo é justamente a ciência, talvez por ter se ter constituído, marcadamente em sua feição moderna, como uma espécie de superação dos muros externos de controle de pensamento. Esta vocação de desenvolvimento, que pode ser percebida na forma de como a ciência foi destruindo uma série de barreiras a ela externas, do ponto de vista, por exemplo, filosófico, religioso e ideológico, acabou por se transformar no mote de seu próprio desenvolvimento. A ciência precisa de liberdade; ciência sem liberdade não existe. Esta retórica é, evidentemente, muito eloqüente, e tem a sua grande porção de verdade. Por outro lado, trata-se de uma retórica de uma extrema periculosidade. Há de se descobrir isso facilmente, na medida em que se descobre, por exemplo, as falácias do positivismo científico. A ciência, abandonada a si mesma e à sua própria lógica, é um animal selvagem e furioso recluso em uma sala repleta de obras de arte e cristais preciosos: a multiplicidade da vida do oikos. Ele tentará sair da sala, e para isso quebrará muito do que ali se encontra. Em nome de sua liberdade, sacrificará muitos bens; em nome de sua sobrevivência, sacrificará muitas das dimensões também importantes que nesta sala se encontram. E esta é apenas uma das dimensões do problema. Mas uma dimensão que leva a desdobramentos muitíssimo perigosos, dos quais alguns exemplos são muito perceptíveis hoje em dia – v. g., a transformação da ciência no braço intelectual armado das lógicas de poder hegemônico.
Em outros termos: sabemos muito bem dos grandes dilemas que surgem no cérebro de qualquer criança quando descobre que, com uma pequena porcentagem dos gastos anuais com armas ou pesquisa científica de diversas ordens se poderia acabar com a fome no mundo. A questão não é científica, é humana no mais estrito sentido sócio-ecológico. Mas que lógica é essa, que subjaz a esta questão humana fundamental e de certo modo a determina? Propomos refazer a pergunta: qual a justificativa para um tal factum? Evidentemente não se trata de nada que se aproxime de uma justificativa ética, no sentido contemporâneo do termo. Pelo contrário, é exatamente a ausência da legitimação ética da poderosa razão tecnocientífica que faz com um tal tipo de questão não queira – e nem possa – calar.
Os dados estão, portanto, lançados. Se quisermos pensar uma articulação humana e ecologicamente viável entre ciência e ética, teremos que estabelecer uma hierarquia clara. Qual a hierarquia que temos convivido pelo menos desde a modernidade? Exatamente a hierarquia entre a ciência e a ética, onde inicialmente se pensa os interesses científicos, e depois se tenta resolver, se é que se tenta, os problemas éticos daí decorrentes. Porém, situações complexas e dolorosas que a contemporaneidade tem vivido instigam imperativamente a inversão desta hierarquia que pareceu, a inúmeros modernos, absolutamente “natural”.
Trata-se, assim, de uma reconsideração axiológica radical. A ciência, fruto do intelecto humano, não é fruto da vida humana como tal, mas de uma de suas parcelas, de uma de suas dimensões, embora uma das suas dimensões mais poderosas: a sua racionalidade. O ímpeto grego pelo conhecer, que permitiu que chegássemos tão longe em dimensões científicas, deve ser refreado pela reconsideração contemporânea do sentido do conhecer enquanto questão humana fundamental. O sentido do conhecer, o sentido não-neutro, e que não pode nunca ser reduzido a uma dimensão de uma equação de igualdade, repousa não na lógica do desenvolvimento da própria ciência e em suas implicações tecnológicas, tecnocientíficas ou tecnocráticas, mas, exatamente, na ética que deveria sempre fundamentar o conhecimento científico. Tão simples assim aparece a questão, e tão dificilmente exeqüível, a julgarmos pelos fatos que podemos acompanhar no dia-a-dia. Talvez estejamos aqui ainda mais longe, do que em outros casos, de uma situação próxima da ideal. Porém, não podemos abdicar desta consciência. Ciência sem consciência é uma contradição suicida, mas, infelizmente, é uma contradição absolutamente concreta, determinante de nossas vidas, a mais encontrável de todas as situações, quando examinamos os dilemas humano-ecológicos do planeta. “Ciência com consciência”, em uma paráfrase livre de Morin, por outro lado, deve significar, para nós, ciência com ética como base. E a consciência da ciência é a ética, ou seja, a reflexão sobre seu “antes”, “durante” e “depois”, seu sentido humano e histórico e, direta ou indiretamente, seu sentido vital. A ética é, desta forma, a possibilidade fundante e meta-científica da racionalidade científica, aquilo sem o qual a racionalidade científica, fechada em si mesma, acaba por implodir em sua totalização de poder e sentido, destruindo a tudo em seu autodestruir-se.
Tal cadeia argumentativa nos leva à conclusão de que a articulação entre a atividade tecnocientífica e a consciência do sentido e do peso desta atividade – a responsabilidade que a acompanha – são exigidas por dois imperativos de diferente ordem, mas de igual incisividade,. Em primeiro lugar, um imperativo científico, que poderíamos chamar de “imperativo científico da prudência”, baseado na própria estrutura de construção do conhecimento contemporâneo, que tem de integrar o variável, o complexo, o imponderável, o indeterminado – em uma palavra, o relativo e o verdadeiramente qualitativo – ao próprio corpo de conhecimentos adquiridos/construídos. Sem tal cuidado, estaríamos ainda nos alvores de uma modernidade ingênua, que presumia poder alçar-se, pelo simples ímpeto do logos científico-positivista, por acima das contingências reais – uma modernidade ainda não provada pela consciência dolorosa, mas excitante, da própria finitude do pensamento e da infinita variedade da própria realidade, que assoma à consciência que percebe que, por maior que seja o potencial intelectual investido em uma questão, este potencial provém de uma posição particular, de apenas uma dimensão de referência, e que as generalizações simplesmente não mais se podem dar com a naturalidade e despreocupação de alguns séculos, ou décadas, atrás.
Em segundo lugar, e sustentando o imperativo científico da prudência, temos algo como um “imperativo ético radical”, sem o qual o indiferenciado das ações conduz a humanidade a riscos apreciáveis e mesmo extremos, como a autodestruição. Os exemplos da ausência deste imperativo ético original são visíveis ao excesso e qualquer criança os conhece, ao pensar no já referido: toda técnica do mundo parece incapaz de acabar com a fome do mundo – entre muitíssimos outros exemplos, todos exemplos executados com refinada perspicácia e técnica científica: pois é desta ausência de uma base ética inamovível – ausência “elevada” ao nível de “metafísica do consumo infinito”[4] – que decorrem o caos e as formidáveis ameaças sócio-ambientais que assombram as boas consciências e podem vir a simplesmente inviabilizar o futuro da terra.


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[1] Este texto tem como base os capítulos 1 e 5 de nosso livro Ética como fundamento – uma introdução à ética contemporânea, São Leopoldo: Nova Harmonia, 2004 e vários ensaios de nosso livro Em torno à diferença – aventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea, Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007.
[2] Cf. a obra fundamental de Theodor Adorno e Max Horkheimer Dialética do Esclarecimento, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1986.
[3] Cf. nosso Totalidade & Desagregação – sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996, p. 15-29.
[4] Cf. nosso texto “O fim da história, a totalidade rediviva e a metafísica do consumo infinito” in: SOUZA, Ricardo Timm de. Totalidade & Desagregação – Sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, p. 101-113.

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