ORIGENS DAS FILOSOFIAS DO DIÁLOGO



ORIGENS DAS FILOSOFIAS DO DIÁLOGO: ALGUMAS APROXIMAÇÕES


Ricardo Timm de Souza


I
            A questão que se nos coloca é apenas aparentemente simples. Qual a origem daquele movimento diversificado, de proveniências e formulações muito diversas, que passaram à tradição filosófica do século XX como “filosofias do diálogo?”
            E dizemos apenas aparentemente simples porque induz a respostas simplistas ou perigosamente simplificadoras. Uma delas, por exemplo, poderia ser: porque surge de uma necessidade não contemplada pelos movimentos filosóficos disponíveis; o que já existe não precisa ser elucubrado ou inventado. Outra resposta simplista, em outro sentido, parece-nos ser: porque organiza certas sementes dialógicas desde sempre presentes nos diversos movimentos filosóficos. Também esta resposta é deveras perigosa, exatamente porque contém, em um certo sentido, muito de verdade; não contempla, porém, aquilo que nos parece essencial ao próprio movimento de surgimento das filosofias do diálogo.
            Do acima dito derivamos a primeira questão que, se adequadamente proposta, nos conduzirá a uma aproximação mais adequada ao tema que nos propomos aqui trabalhar: o que poderia ser entendido, no contexto que se estabelece a partir dos inícios do século XX, como uma “filosofia do diálogo”?
            As considerações a seguir pretendem rastrear as origens desta questão, pois tal significa justamente, ao nosso ver, enfocar a questão da origem – ou origens – das filosofias do diálogo.



II
            Três nos parecem ser, em uma primeira aproximação, as características básicas que, para além das múltiplas diferenças, perpassam o conjunto do que se convencionou chamar de “filosofias do diálogo”. Estas três características, porém, não se constituem propriamente no fruto de uma análise que evidenciasse três aspectos diversos de um mesmo fenômeno, mas, antes, representam momentos ou dimensões possíveis de abordagem das filosofias do diálogo enquanto, por sua vez, uma temática de estudo.

            a) Em primeiro lugar, uma irrestrita e fundamental valorização da temporalidade como horizonte de referência maior e, simultaneamente, condição para o estabelecimento da filosofia. Diálogo não existe sem dialogicidade – e dialogicidade, se tem sentido para além de monólogos que simulam diálogos, pressupõe um processamento especificamente temporal – e, portanto, essencialmente antropológico – da forma como as questões filosóficas surgem. Com efeito, no âmbito das “filosofias do diálogo”, é inconcebível uma questão propriamente filosófica que não advenha de um processo de relacionamento com a realidade que se dá, exatamente, no tempo. Portanto, “tempo” não significa, aqui, ordenação a priori dos dados da consciência, ou articulação inteligível dos dados sensíveis; significa, antes e simultaneamente, o horizonte de referência da realidade e o constitutivo mais profundo desta realidade enquanto condição de inteligibilidade filosófica. Entendida por via negativa, a temporalidade é o impedimento da fixação do conceito, de sua cristalização e blindagem à realidade empírica que acontece.

            b) Em segundo lugar, as “filosofias do diálogo” pressupõem que a inteligibilidade do real se dê enquanto linguagem. Quando dizemos “linguagem” – em articulação metodológica com a questão da temporalidade, acima examinada – não estamos a entender sentenças analisáveis desde invariantes, mas, novamente, expressão de um processo que se articula no inesperado do próximo momento. Para as filosofias do diálogo, as sentenças, enquanto recortes analisáveis da realidade, mesmo no âmbito variado da análise dos “speech acts”, não significam senão uma espécie de caricatura da verbalidade do propriamente lingüístico; seria, por exemplo, como derivar de uma fotografia de uma cidade a dinâmica real desta cidade ao longo de um dia. Ao mesmo tempo em que sugere o que ali acontece, dá pleno testemunho de sua íntima insuficiência em acompanhar um ritmo que não é o seu. Valerá como ilustração; sua ilustratividade, porém, padece de um excesso de fixidez para que possa se constituir em referência suficiente do ilustrado.
            Assim, é na dinâmica do dizer que as questões filosóficas eminentes – aquelas que dizem respeito à profundidade do humano – se podem constituir. A inteligibilidade do real se constrói desde o decorrer da linguagem que se dá na temporalidade irredutível a esquemas conceituais, por mais hábeis que estes sejam, simplesmente porque o próximo momento – aquele no qual a questão assume propriamente seu sentido e se repropõe como, exatamente, questão inteligívelainda não ocorreu, porque o tempo, não sintetizável por nenhuma inteligência, ainda não ocorreu em algum tipo de inteireza sintética que o resolvesse de uma vez para sempre. Toda síntese não passa de síntese parcial, e é nisso que consiste sua validade, como diria Adorno. A inteligência filosófica consiste, aqui, em evitar habilmente a recorrente tendência do intelecto à sincronia (Bergson, Levinas), e em auscultar – “experienciar” (Rosenzweig, Buber), em sentido profundo, os rearranjos do real tocado pelas questões que lhe são propostas pela filosofia. A sabedoria filosófica consistiria, assim, em acompanhar o desdobrar-se da temporalidade em que o real se constitui, sem violentá-la em esquemas que, muito úteis para sua inteligibilidade paralisada, pouco dizem da forma de como as coisas realmente ocorrem (“ninguém inicia uma guerra pelo tratado de paz” – Rosenzweig).

            c) Estes elementos – temporalidade e linguagem que se dá na temporalidade e em nenhum outro lugar – conduzem, por via analítica, se quisermos, a uma fundamentação de estilo ontológico, que provavelmente elucidará algo mais das bases das “filosofias do diálogo”. Esta fundamentação nasce, porém, de uma desarticulação: o que está no impulso primigênio da filosofia do diálogo é a radical des-identificação entre o ser e o pensar, este “sonho da razão” que vigorou, segundo Rosenzweig, da Jônia a Jena, ou seja, de Parmênides a Hegel. O pensar está sempre defasado com relação ao ser, e “ser” significa, aqui, ao estilo blochiano: “ainda-não-ser”. Ainda não, porque se dá o tempo; ainda não, porque o tempo se dá na linguagem, e nem toda linguagem já foi dita. Ocorre, portanto, uma mútua referencialidade entre estes dois elementos atrás abordados.
            De um ponto de vista mais esquemático, porém – e apenas desde a perspectiva de uma tentativa de elucidação geral de uma complexa gama de problemas que agora se propõe – pode-se entender como base primigênia de compreensão do que se está aqui sugerindo como base das filosofias do diálogo em geral a seguinte proposição: “na origem está o múltiplo”. Tal significa aproximadamente: em contraposição à corrente hegemônica do pensamento ocidental, que situa na unidade do ser a origem do sentido (e que, portanto, entende a filosofia e a racionalidade em geral como a habilidade de correlacionar a multiplicidade do real a esta unidade ontológica primordial, à qual se tem dado nomes tão variados como “unidade”, “verdade”, “razão”, e mesmo “ser” em oposição ao não-ser), a gênese das filosofias do diálogo aponta para uma reconsideração da questão da origem – ou do pré-original, se quisermos – desde o ponto de vista de uma multiplicidade de elementos não redutíveis a algum tipo de unidade fundante, multiplicidade na qual o sentido consiste na mútua irredutibilidade entre os sentidos essencial e definitivamente diversos que constituem o real[1]. No início dá-se o múltiplo – o que define um estilo de desdobramento da realidade: realidade é o conjunto de relações que os múltiplos estabelecem entre si, relações que não podem ser antevistas ou pre-vistas por nenhum tipo de redução transcendental ou ontológica ao uno, à identidade lógica ou ontológica. E isto por uma razão muito simples: porque o tempo de realização do sentido – que apenas se pode dar, como vimos, no tempo – ainda não ocorreu.

            Estes são, portanto, desde o ponto de vista de uma extrema simplificação que visa não mais do que uma apresentação esquemática e sumária, os elementos principais do conjunto de modelos filosóficos que passaram à história do século XX sob a designação geral de “filosofias do diálogo”: tempo, linguagem, multiplicidade de origem – sendo que cada um destes elementos, tratados isoladamente apenas devido a motivações de uma maior inteligibilidade do todo, significa na verdade o mesmo: a ruptura com a tendência unificante de um logos que pensa poder abstrair deles para constituir então a fundamental unidade de sentido que fundamenta – e é fundamentado – pelo verbo ser no presente do indicativo.



IV
            Podemos agora abordar a questão central deste texto: “origens das filosofias do diálogo”. Quais seriam estas origens, dados os elementos acima arrolados?
            É em primeiro lugar necessário que se articule rapidamente certas condições históricas que contextualizam o surgimento das filosofias do diálogo[2].
            O que vive a civilização ocidental no período de transição entre os séculos XIX e XX? Para os fins deste texto, e apenas neste sentido simplificador, caracterizemos esta fase de transição como uma fase eminentemente crítica da história. A entrada em um ciclo civilizatório predominantemente “pessimista” em termos de uma racionalidade esclarecedora, que se anunciava pelo menos desde meados do século XIX, reflete a insegurança das bases racionais do presente momento da história ocidental – o que Husserl porventura chamaria de “a crise das ciências européias”. Tal insegurança, cujas manifestações (que não cumpre examinar aqui) são as mais diversas possíveis e atingem níveis de complexidade inusitados[3], será aqui destacada apenas desde o ponto de vista da racionalidade filosófica. O dilema que se propõe é, em essência, simples. Ou o estabelecimento de dimensões restauradoras que localizem em algum momento do passado o momento de desvio da racionalidade que contribuiu ou ocasionou a presente crise, ou a procura de dimensões racionais que, referidas embora a tradições muito antigas, retomam a articulação racional em outro sentido, e dilatem suficientemente o espectro de abrangência da realidade de tal forma que seja possível conceber a própria idéia de filosofia desde outro viés[4].
            Seja aqui sugerido que as filosofias do diálogo se inscrevem no segundo destes grupos. Através da revalorização da temporalidade, da linguagem, da eminência da questão antropológica enquanto tal, da concepção da realidade enquanto multiplicidade de origem, tais modelos filosóficos pretendem revalorizar dimensões relegadas a segundo plano ou efetivamente abandonadas no arco do desenvolvimento filosófico ocidental em sua esteira mais hegemônica. O resgate de aspectos e dimensões ausentes dos grandes discursos do ocidente – embora não ausentes da complexidade situacional no qual cada grande discurso se gesta – caracteriza o essencial das filosofias do diálogo: a referência propriamente humana, existencial, da filosofia, sem a qual cada pensamento, por mais lógico e bem-construído que seja, se fecha em totalidade ou unidade meramente intelectual. É esta preocupação que ligará, para além de todas as dessemelhanças, autores tão diversos como Kierkegaard e Bloch, Adorno e Rosenzweig, Buber e Scheler, Bergson e Benjamin, Sartre e Levinas – todos, para nós, expoentes de “filosofias do diálogo” em um conceito ampliado porém (esperamos haver suficientemente sugerido) inspirados em uma mesma preocupação fundamental.

* * * * *


[1] Temos desenvolvido este tema em uma série de estudos isolados e em capítulos de livros, como, por exemplo, “Da diferença lógica à dignidade da Alteridade – estações de uma história multicentenária”, in: SOUZA, R. T. Sentido e Alteridade – Dez ensaios sobre o pensamento de Emmanuel Levinas, Porto Alegre: Edipucrs, 2000.
[2] Uma aproximação mais circunstanciada deste assunto foi por nós desenvolvida no ensaio “O século XX e a desagregação da totalidade”, in: SOUZA, R. T. Totalidade & Desagregação – sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, Porto Alegre: Edipucrs, 1996.
[3] Cf. o texto cit. na nota acima.
[4] Cf. nosso livro O tempo e a Máquina do Tempo – estudos de filosofia e pós-modernidade, Porto Alegre: Edipucrs, 1998.

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