O FIM DA HISTÓRIA, A TOTALIDADE REDIVIVA E A METAFÍSICA DO CONSUMO INFINITO



O FIM DA HISTÓRIA, A TOTALIDADE REDIVIVA E A METAFÍSICA DO CONSUMO INFINITO
Sobre O fim da história e o último homem, de F. Fukuyama

Ricardo Timm de Souza

         
 Introdução
          
O fim do século e do milênio, com seus desmoronamentos e conflitos, ergue uma espessa cortina de fumaça que, ao abranger o todo do mundo sócio-político-econômico (na medida em que este mundo configura realmente uma “aldeia global”), - sem falar no mundo ainda “intocado” pelas laboriosas mãos do homem, se é que sobra algum – tende a obnubilar qualquer ensaio de clareza interpretativa que tenha a pretensão de não estar comprometido com o status quo geral. Mais do que nunca, o mundo está sendo dos vencedores. A efetividade, o fato dado de uma determinada hegemonia, é transformada em processo de justificação desta hegemonia. E este processo nunca foi tão intenso e espraiado, justamente porque uma hegemonia nunca foi tão preponderante. Ela corteja todas as razões, toma para si o discurso, faz gerais suas razões particulares, e generaliza também o sentido de sua observação. Mas acima de tudo, ela se habilita a se apresentar como observador “neutro” de sua própria efetividade não-neutra e negação de toda neutralidade. O discurso é mantido dentro de parâmetros de aceitabilidade lógica pela ênfase dos meios-tons intelectuais. Nenhuma ideia é expressa de modo excessivamente ousado, para que a realidade mesma da efetividade do modelo vencedor possa ser convenientemente realçada para além de qualquer discurso que a quisesse simplesmente justificar. O discurso solicita assim, a cada passo, implícitas escusas por não poder corresponder adequadamente à eminência do tema de que trata. A erudição renuncia à sua presença em bloco no texto, para que o texto confirme sua subserviência aos fatos. Assim, chega-se à essência da mensagem: nenhuma racionalidade analítica ou discursiva pode se aproximar, em termos concretos, reais e racionais, da racionalidade absoluta do modelo hegemônico; esta pode, no máximo, ser sugerida pelo texto, mas somente a experimentação pura dos fatos a torna evidente de uma maneira tal que não possa ser falsificada por nenhum discurso adverso. Os textos são assim um pedido constante de escusas, escusas por ter escrito apesar da clareza do grande novum, apesar do movente hegemônico que extravasa energias. A defesa do modelo hegemônico, apesar de dispor da palavra, como que renuncia a ela no processo de seu próprio falar, para que a voz do desenrolar puro dos acontecimentos externos possa ser ouvida por todos, até por aqueles que não podem ou não querem ouvir. Em suma, não se precisa provar a justificação de um modelo que, a cada momento, se afirma por si mesmo: pode-se, todavia, descrever a grande direção positiva que este modelo toma na confiança em seu próprio trofismo. Pode-se até listar alguns problemas óbvios ainda não resolvidos pela dinâmica deste modelo – como, por exemplo, a crise ecológica – e isto, porque se sabe que este modelo por si só os resolverá em sua racionalidade absoluta. Por que não citar os problemas que, na realidade, no espírito absoluto do novo tempo hegemônico, no futuro sequestro pelo presente, já não existem mais?
            Eis aí uma paradoxia. Este futuro abortado aponta para um outro futuro que ficou infinitamente distante. O anúncio do infinito – seja ele qual for – também já está suficientemente domesticado e pode ser mantido fora da zona de risco. Está quase fora da órbita do possível. Apenas o receio de um profetismo- ainda ele – apenas o medo da identificação com um profetismo absolutamente fechado, obriga a uma válvula de escape – aquela mesma que, obrigatoriamente colocada na última página de um texto, diz que o texto não disse tudo o que existe para ser dito. Mas é o caso que esta válvula quase retórica mais do que nunca fosse necessária: caso contrário, dever-se-ia realmente pensar que, na moderação do texto, em seu tom cinzentamente triunfante, se espelha a possibilidade mesma da realidade.
            Com a publicação em português de O fim da história e o último homem, de F. Fukuyama[1] temos um exemplo honesto deste gênero de literatura. A obra, vasta em suas ramificações, desdobra uma cortina conceitual que desvela um horizonte fático que, alongando-se ao longo de quase quinhentas páginas, evita em casa ponto a apologética fácil, e se permite mesmo muito poucas digressões não objetivas: uma obra perfeitamente inteligente e funcional, adequada ao Zeitgeist.
            É esta funcionalidade, esta coerência entre o tom do texto e seu conteúdo, que queremos analisar rapidamente. Inicialmente, tentaremos acompanhar os grandes passos do autor; posteriormente desenvolveremos nossa crítica, que se delineia em dois níveis diversos. Por um lado, pela observação de alguns postulados básicos da obra e do modelo de pensamento que ela tão bem representada; por outro, pela atenção à linha geral de desenvolvimento que orienta os pressupostos do otimismo da corrente defendida pelo autor. Não se quer esgotar a análise ou contrapor ao discurso um outro sobre as mesmas bases de credibilidade, e sim, quer-se evidenciar aquilo que, submerso no roldão do fim do século, aparenta não mais existir.
          

  Dos motivos do otimismo
        

 A tese central
          
  A tese central de Fukuyama poderia ser aproximadamente sintetizada da seguinte forma: a queda das ditaduras direitistas em países do chamado Terceiro Mundo e a queda dos governos comunistas do leste europeu deixaram no contexto mundial apenas um modelo válido de desenvolvimento sócio-econômico: a chamada “democracia liberal”, ou seja, estados capitalistas neoliberais de base pretensa ou realmente democrática.[2] Ela é a tendência da história – o que se pode ser observado empiricamente[3] de forma a não deixar dúvidas. Desta forma, a história foi, na realidade, a convergência de toda a civilização neste sentido: “[...] está em funcionamento um processo fundamental, que determina um padrão evolucionário comum para todas as sociedades humanas – em resumo, algo como uma História Universal da humanidade na direção da democracia liberal.”[4] Esta é a “revolução liberal mundial[5]”, cuja conseqüência mais próxima é que “[...] hoje [...] mal podemos imaginar um mundo radicalmente melhor do que o nosso ou um futuro que não seja essencialmente capitalista e democrático [...] não podemos visualizar um mundo essencialmente diferente do atual e ao mesmo tempo melhor.”[6] A consequência é óbvia: esta falta de capacidade imaginativa traduz o fato de que a história está em seu fim: “Se chegamos hoje a um ponto em que não podemos imaginar um mundo essencialmente diferente do nosso, no qual não existe nenhuma perspectiva visível ou óbvia que o futuro representará uma melhora fundamental da ordem atual, então devemos tomar também em consideração a possibilidade de que a História tenha chegado ao fim.”[7] Doravante, serão as sociedades classificadas em históricas – as que não atingiram ainda a redenção capitalista liberal – e pós-históricas – as que se dedicam exclusivamente ao aperfeiçoamento de sua felicidade.[8]
           

 A razão da felicidade: o Mecanismo universal
        
 A História não chegou ao seu fim por acaso ou pelo voluntarismo de alguns povos ou herois, e sim, pela ação de um Mecanismo universal, que se encarregou de uniformizar e canalizar as energias da humanidade em direção ao seu fim último. Este mecanismo é oferecido – leia-se explicado – pela ciência natural moderna: “A ciência natural moderna nos ofereceu um Mecanismo cujo desenvolvimento progressivo dá direcionalidade e coerência à história humana ao longo dos vários séculos passados [...]. O mecanismo é realmente universal. Com exceção das tribos que estão desaparecendo rapidamente nas selvas do Brasil ou dos papuas da Nova Guiné, não existe nenhum ramo da humanidade que não tenha sido tocado pelo Mecanismo [...].”[9] O mecanismo mostra assim seu valor: apenas alguns povos desprezíveis desaparecem sem haver sido tocados por energias unificadoras universais: “[...] o nosso Mecanismo pode explicar a criação de uma cultura universal de consumo, baseada nos princípios da economia liberal, tanto para o Terceiro Mundo como para o Primeiro e o Segundo. O mundo econômico, dinâmico e imensamente produtivo, criado pelo avanço tecnológico e pela organização racional do trabalho, tem um tremendo poder de homogeneização. É capaz de unir fisicamente sociedades diferentes do mundo inteiro por meio da criação de mercados globais e de criar aspirações e práticas econômicas paralelas num número enorme de sociedades diversas. O poder de atração deste mundo cria uma forte predisposição de todas as sociedades para participarem dele, enquanto que o sucesso desta participação exige adoção dos princípios do liberalismo econômico [...].”[10]
            Mas o que é este Mecanismo? Trata-se de uma interpretação da história: “[...] deve estar evidente que o Mecanismo por nós esboçado é essencialmente uma interpretação econômica da história [...]. O Mecanismo é, em outras palavras, uma espécie de interpretação marxista da história que conduz a uma conclusão completamente não-marxista. É o desejo de produzir e consumir [...].[11]” O que o autor quer dizer, aqui, é que, semelhantemente à mão invisível que regularia o mercado nas doutrinas liberais originais, existe uma mão mecânica – um Mecanismo – que regula o próprio desenvolvimento da Humanidade, e este Mecanismo é baseado no desejo universal de produzir e consumir. Mas produzir e consumir em sentido pleno só se pode dar em liberdade – liberdade de escolher o que se quer produzir e consumir. E o único sistema econômico que pressupõe esta liberdade plena é o capitalismo com seu telos de desenvolvimento universal implicitamente universal; qualquer interferência, seja na liberdade de consumir e produzir (que deve ser sustentada pela democracia liberal), seja no projeto mesmo do capitalismo como produção e consumo infinito de bens, não é mais do que uma interferência no Mecanismo universal que levou a humanidade ao fim de sua história. E o que prova que este é o melhor dos fins da história possíveis? Simplesmente o fato de que tudo está-se a realizar assim. Chegamos assim à essência do discurso de Fukuyama: as hesitações que se seguem no livro, e as digressões sobre a falsa concepção de um historicismo pretensamente estreito, mas efetivo, segundo o filósofo antigo: „die Weltgeschichte das Weltgericht [ist]“[12], acabam por ter a função de, especularmente, evidenciar que, de fato, é isto que acontece: esta é racionalidade do real, e o desaparecer de algumas tribos no Brasil ou dos papuas da Nova Guiné – ou a morte pela fome de milhões de pessoas e a aproximação de uma catástrofe ecológica, bem como a utopia que pudesse ocupar a mente de alguém, dizendo que este mundo aqui e agora poderia, sim, ser essencialmente melhor e diferente (mesmo sem ser uma ditadura de direita ou um exemplo do socialismo experimentado neste século XX) – não retiram nenhuma íntima parte da realidade que se evidencia pela ação do Mecanismo. O Mecanismo é, a um tempo, o Real e a Racionalidade do real, o Ser.
            Com referência à ideia e à realidade deste Mecanismo universal, e a este modelo de argumentação, que é parte dele mesmo e que povoa o sonho de quem quer prender todas as possibilidades do futuro neste presente, e tem que usar quase inconscientemente de um inacreditável cinismo para provar indelevelmente válidas suas teses, chamamos Totalidade.
          

  Algumas críticas
        
 O modelo interpretativo de Fukuyama pode ser criticado, como dissemos na introdução, em dois níveis diversos. Em um nível de coerência interna, e no âmbito de sua motivação geral.
           

 Primeiro nível
            
 Para que as grandes linhas deste discurso apologético sejam desenvolvidas, faz-se necessário que, frequentemente, amplas generalizações sejam tomadas como plenamente justificadas. Aqui surge, por exemplo, com grande clareza, uma das características deste tipo de pensamento totalizante, em um certo sentido “hegeliano”: é necessário que enormes parcelas da realidade sejam ignoradas, para que outras sejam convenientemente realçadas. Qualquer detalhe se perde no todo: os detalhes são tão insignificantes como o desaparecimento desta ou daquela tribo, ou seja, não interessam para o que cumpre salvar. Um exemplo típico deste roldão de pensamento se condensa, por exemplo, à página 72 de seu livro. Dada a realidade do “milagre econômico” dos tigres asiáticos, a ideia, vigente nas décadas anteriores, de que a estrutura econômica mundial se organiza em benefício das economias do primeiro mundo, havia se tornado totalmente obsoleta: “No começo da década de 90 essa ideia havia mudado completamente. O Presidente Carlos Salinas de Gortari, no México, o Presidente Carlos Menem, na Argentina e o Presidente Fernando Collor de Mello, no Brasil, procuraram implementar programas de liberalização econômica de longo alcance, logo que tomaram posse, aceitando a necessidade de competição do mercado e abertura para a economia mundial. O Chile pôs em prática os princípios da economia liberal na década de 80, durante o governo Pinochet, daí resultando que sua economia era a mais saudável do Cone Sul quando o país saiu da ditadura sob a liderança do Presidente Patrício Alwin. Esses novos líderes democraticamente eleitos partiram da premissa de que o subdesenvolvimento não era devido às desigualdades inerentes ao capitalismo praticado em seus países no passado [...].”[13]
            Este exemplo, próximo a nós, é bem claro em sua dinâmica. Não existem mais contradições de nenhum tipo, apenas fatos relevantes. Em nenhum momento se fala de alguma possível ligação entre os interesses internacionais – empresas multinacionais, por exemplo – e os processos de liberalização. O fato de que a economia liberal – que pressupõe a liberdade – tenha sido aplicada no sangrento Chile de Pinochet não é absolutamente relevante, e não indica nenhum tipo de conexão entre qualquer tipo de truculência política e a aplicação funcional de princípios liberais. O sacrifício social imposto no Brasil é totalmente irrelevante, bem como a opinião de vários milhões que se opõe à entrada do país na negociata universal desenfreada: tudo isso não são mais do que componentes resolvidos – Hegel diria “aufgehobene” – na linearidade potente dos fatos. Está aí presente o mesmo tipo de argumentação que se encontra na citação das tribos em desaparecimento, o argumento dos vencedores. Eis a ideia sub-reptícia: só quando há ainda sofrimento porque os vencedores ainda não venceram totalmente, ou, por outro lado, o sofrimento e os problemas reais de quem não está nesta lógica não são tão reais quanto a solução que esta lógica dá.[14] Isto fica patente em uma caso suspeito de cinismo explícito: quando se trata da questão ambiental, tudo é bagetelizado, pois, apesar de “os piores deliquentes ambientais, quer no manejo do lixo tóxico, quer na devastação das florestas tropicais úmidas, (serem) os países em desenvolvimento, (que não têm outra alternativa ou) que não têm disciplina social para fazer cumprir as leis de proteção do meio ambiente”[15] e a despeito da chuva ácida, “o nordeste dos Estados Unidos e muitas partes do norte da Europa têm hoje florestas mais densas e mais extensas do que tinham há duzentos anos.”[16] O próprio Mecanismo tem, portanto, meios – que escapam à razão comum dos mortais – de solucionar os problemas aparentes que se poderia atribuir a ele mesmo. O futuro pertence ao Mecanismo. Não existe mais contradição que o Mecanismo não possa resolver, e isto significa que a possibilidade de pensar algo diferente do que se vê neste fim de século está neutralizado a priori. A diferença não existe mais, talvez apenas como questiúnculas internas que, em nenhum momento, são suficientemente fortes para colocar em questão a potência do Mecanismo. Atingiu-se, portanto, a “utopia de não poder ter mais utopias”. O Neutro dos status quo acoplou-se a uma Totalidade onipresente e toda-poderosa. A isto chama Fukuyama de “fim da história”.[17]
            

 Segundo nível
            
 Os argumentos da crítica acima provocam respostas diversas por parte do discurso escatológico que temos analisado. A maior parte pode ser classificada no grupo da relativização: são todas críticas relativas, seja a uma incompreensão do cerne dos argumentos utilizados, seja à capacidade de solução da própria dinâmica. A acusação de Totalidade permanece vaga, enquanto o discurso se nega a compactar-se em um Todo não-neutro, o que constitui sua realidade mais íntima, e a mais difícil de perceber nestes tempos de fragmentação. Alguns corretivos podem ser admitidos, e a condescendência pelos pobres de espírito é um mérito da flexibilização discursiva que destacamos na introdução. Em suma, os argumentos categoriais, que se utilizam da expressão lógico-linguística para se expressarem, já têm um espaço neste tipo de discurso. Eles são esvaziados de realidade na medida em que vão surgindo pela força dos fatos que, vencedores, tendem a tomar sempre a dianteira. A anti-utopia vive da acusação de falsidade empírica a todas as utopias; e se isto é, de certa forma – pela não verificabilidade da realidade destas – uma espécie de contradição em si, tal fato não tem a menor importância, pois o que está a contar, neste momento de fim do século XX, é a preponderância dos fatos hegemônicos relatados contra este argumento “extra-categorial”, absoluto (e que prova ser absoluto por tudo indicar que se chegou ao fim de alguma coisa, a história[18]), a relatividade de uma argumentação processual, que se desdobra no tempo que já foi sequestrado pela escatologia neoliberal, é em suma inoperante e tende à inofensividade. A contra-argumentação racional do fato básico pertence á mesma órbita literária da argumentação escrita nos moldes descritos na introdução: até poderia ter sido verdadeira, mas quem decide não é seu choque interno com conteúdos semânticos expressos, e sim o choque externo de uma realidade maior e, acima de tudo, vencedora.
            A este argumento absoluto, implícito no fato da crescente preponderância de um modelo econômico-político em detrimento de todos os outros, sejam eles quais forem[19], só existe um contra-argumento imediatamente perceptível. Este contra-argumento não é encontradiço na história passada da humanidade, ou nas grandes construções filosóficas universais, e sim, no ponto onde estas construções e esta história encontram seus limites. Dito de outra forma, somente quando um determinado modelo se configurou em Totalidade e amalgamou em si a teoria e os fatos brutos, e, apesar de tudo, encontrou limites, é que pode surgir a crítica à Totalidade. Esta é uma das intuições profundas de Adorno com sua dialética negativa ou de Benjamin com sua filosofia dos restos da história ou de Levinas com a exterioridade absoluta. É porque estes pensadores perceberam que esta história está realmente chegando ao fim – quanto mais não seja, nas cinzas de Auschwitz e Hiroshima, olimpicamente ignorados pelos apologetas da ideologia do fim da história a não ser como “aufgehobene” fontes do pessimismo contemporâneo – que puderam ver o que se desenrola no passado como o caminho do fim história.
            A história está realmente chegando ao fim, mas não no equilíbrio do consumo e da produção infinitos ou na transformação do homem de um ser de necessidades em um ser de simples preferências – crença fundamental de qualquer sistema capitalista – ou na transformação da terra em pretenso almoxarifado inextinguível da orgia do consumo, e sim pelo atingir dos próprios limites desta infinita ânsia de crescimento. Pois o fato mais relevante não é citado por Fukuyama na regeneração de florestas apesar da chuva ácida – que afinal de contas não seria tão má assim -, e sim o dado, por exemplo, de que um terço das florestas existentes em 1882 tinha sido dizimado já em 1979[20] e de que as montanhas de lixo do desenvolvimento crescem em detrimento da maioria dos seres humanos, em que a Ecologia se encontra com a Sociologia e a História – talvez também com a Filosofia lúcida – em seu desespero mudo. A Totalidade do modelo ocidental de desenvolvimento da humanidade está chegando aos seus limites, em seu próprio trofismo desmedido, e não pelo antidiscurso de seus adversários. Este é o fim da história que ameaça a todos, e não a risonha transformação do mundo em um ilimitado Shopping Center.
           

 Conclusão
        
 Francis Fukuyama é um porta-voz muito abalizado da ideologia preponderante neste final de milênio. Esta ideologia é ilegítima e indigna da humanidade na medida em que transforma o ser humano e a natureza em combustível de seu próprio crescimento, com a promessa de redimi-los em uma pretensa homeostase colorida do consumo infinito. As raízes desta ideologia podem ser encontradas já no alvorecer da história do pensamento ocidental, e este modelo se completa, sob diferentes formas, já nos séculos XVIII e XIX, atingindo um de seus ápices, por exemplo, com a filosofia hegeliana – naturalmente de uma maneira altamente implícita, que não cumpre analisar aqui.
            Esta ideologia está baseada na crença do infinito desenvolvimento de uma Totalidade heterofágica de sentido e de realidade, que tende a hipertrofiar-se desmedidamente e a neutralizar toda potência e a vida que porventura possam existir fora dela. O fim de qualquer Totalidade se dá quando esta se choca com suas próprias ilusões de infinita grandeza e desenvolvimento.
            Como nunca houve maior Totalidade que esta que se afirma neste fim de século, parece ser provável que seu fim seja o maior e mais doloroso – um verdadeiro Fim da História e de todas as histórias.
1994 (Publicado originalmente em Cadernos da ESTEF 13, 1994/2, com o título: “O fim da história como fim da Totalidade – Ideologia e Crítica)
(Digitação e atualização gramatical: Prof. Jozivan Guedes)


[1] Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1992.
[2] “[...] à medida que a humanidade se aproxima do fim do milênio, as crises paralelas do autoritarismo e do socialismo centralizado deixaram no ringue um só competidor, com uma ideologia de validade potencialmente universal: a democracia liberal, a doutrina liberal individual e da soberania popular” – O fim da história e o último homem, p. 72-73.
[3] O livro está repleto de indicações e estatísticas onde se pode observar o indubitável crescimento do número absoluto de “democracias liberais” ao redor do mundo. O melhor exemplo está nas páginas 79 e 80: enquanto em 1940 apenas treze países entre os mais importantes adotavam esta forma de estado, em 1990 este número subira a 61, em um arco que vai de Trinidad aos EUA.
[4] Op. cit., p. 81.
[5] Op. cit., p. 69 ss.
[6] Op. cit., p. 77. A impressionante declaração de fastio mental que se destila desta passagem – julgará certamente o Autor ser esta uma característica geral dos povos? Ou se trata de uma espécie de sacrifício retórico que procura convencer o leitor a deixar aqui todas as suas esperanças, antes de penetrar no inferno que Fukuyama não vê ou não quer ver, mesmo que este fosse uma antessala de um paraíso futuro – qualquer que seja ele – que negasse o paraíso presente?
[7] Op. cit., p. 82.
[8] Com relação à pergunta mais direta sobre os indicadores concretos do fim da História, responde Fukuyama da seguinte forma: “[...] podemos argumentar que a história chegou ao fim se a forma atual de organização política e social é completamente satisfatória para os seres humanos em suas características mais essenciais” (Op. cit., p. 177). É óbvio o fato de que Fukuyama acredita que este estágio já foi atingido, ou quer fazer assim acreditar.
[9] Op. cit., p.165.
[10] Op. cit., p. 143-144.
[11] Op. cit., p. 171.
[12] Op. cit., p. 177.
[13] Op. cit., p. 72. Da estatura moral dos lideres citados não trata Fukuyama e nem poderia tratar; o que interessa é a inserção promovida na Totalidade, seu funcionalismo e seu funcionamento. O Mecanismo engole e Outro – poderíamos pensar nas vítimas da ditadura pinocheteana, apenas como exemplo – mas o Mecanismo é bom, e, portanto todos os seus atos são bons e não poderiam ser de outra forma.
[14] F. HINKELAMMERT e H. ASSMANN apresentam de uma maneira muito plástica esta inversão: “O neoliberalismo atual [...] leva a sério de uma maneira completamente nova e dogmática a ideia de automatismo do mercado. Desta maneira muda o ponto de vista da ideologia de mercado. De repente declara que as crises econômicas não são consequências do automatismo do mercado, as quais devem ser enfrentadas através de correções do mercado e intervenções, mas são consequência de uma implantação deficiente desse mesmo automatismo do mercado. Já não se deve corrigir o mercado em nome da realidade e do mundo da satisfação das necessidades, mas agora a realidade deve se adaptar às necessidades do mercado. Querendo-se aperfeiçoar a realidade, é preciso reforçar o automatismo do mercado. O mercado é considerado como uma instituição perfeita. O que está faltando é apenas impô-lo em termos totais e perfeitos. A realidade (pobreza, desemprego, subdesenvolvimento, destruição do meio ambiente) não é consertada pela solução concreta destes problemas, mas pela extensão dos mecanismos do mercado, sacrificando esta solução. As necessidades têm de se adaptar ao mercado e não o mercado às necessidades. Não é o mercado que deve ser corrigido, mas a realidade [...].” (ASSMANN, H. e HINKELAMMERT, F. A idolatria do mercado: ensaio sobre Economia e Teologia. São Paulo, 1989, p. 264-265).
[15] O fim da história e o último homem, p. 119-120.
[16] Op. cit., p. 120.
[17] Análises contemporâneas diretas e exaustivas da insustentabilidade interna do neoliberalismo e de seus moventes teológicos foram estabelecidos com clareza, por exemplo, em: HINKELAMMERT, F. As armas ideológicas da morte. São Paulo, 1983; idem, Crítica à razão utópica. São Paulo, 1986 – onde se encontra uma valiosa crítica dos projetos utópicos do socialismo real desabado com o muro de Berlim; HINKELAMMERT, F e ASSMANN, H. A idolatria do mercado: ensaio sobre Economia e Teologia. São Paulo, 1989 – onde os componentes teológicos da idolatria do mercado absoluto são analisados à exaustão.
[18] Analisamos o Tema abstrato do Fim de uma dada totalidade no segundo capítulo de nosso trabalho Wenn das Unendliche in die Welt des Subjekts und der Geschichte einfällt – Ein metaphänomenologischer Versuch über das ethische Unendliche bei Emmanuel Levinas. Tese de Doutorado, Freiburg im Breisgau, p. 93 ss.
[19] “O número real de opções com que contam os países para determinar de que modo se organizarão política e economicamente está diminuindo com o tempo” – O fim da história e o último homem, p. 75.
[20] GARAUDY, Roger. Apelo aos vivos. Rio de Janeiro, 1981, p. 17

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