O CÃO



O cão


Ricardo Timm de Souza

O outono, com seus dias cada vez mais curtos, não prometia nada de auspicioso àquela inusitada duplo naquela cidade de invernos longos e rigorosos. O velho homem e seu cão, abrigados unicamente por uma pobreza em comum. Na verdade, o homem não era assim tão velho, mas envelhecido pelo frio das intempéries e desilusões que, atravessando cada poro, se aninhava em sua alma como um hóspede incômodo e permanente. Igualmente o cão não pertencia ao homem; tudo não passara de um desses acasos comuns nas cidades grandes onde, subitamente, dois míseros destinos anônimos se cruzam e se encontram, estabelecendo uma espécie de elo tênue, quase invisível, de entrelaços, cuja sobrevivência, embora improvável, é um fato. O cão – velho também, por sua vez, atarracado, inestético – seguira simplesmente o homem, que não se opusera a isso; e, a partir de então, se pertenciam mutuamente.
O dia, breve em horas, fora longo em vicissitudes. A fome estava aplacada pela noite que viria, na ração de pão e sopa generosamente bem-distribuída entre ambos pelo homem, que a recebera da entidade beneficente, já que o cão não tinha este direito. O homem aninhara-se em seu lugar de costume onde, nas noites não excessivamente frias, costumavam passar: no vão entre duas colunas do grande Monumento à Vitória. Para o homem, o local tinha vantagens – deixava sua figura praticamente despercebida nas sombras da vaga iluminação artificial noturna, impedia que caísse, se dormisse muito profundamente, e ainda fornecia uma vaga sensação de proteção, já que, dois metros acima de sua cabeça, as colunas eram ligadas por uma marquise decorativa que o protegia até certo ponto da chuva, se esta não fosse muito intensa.
Ali, portanto, acomodara-se o homem; as roupas puídas e desordenadas lhe emprestavam uma forma vagamente humana. Ao seu colo, aninhara-se o cão; era, de longe, a melhor guarida que poderia desejar nas ruas. Nos dias mais frios o homem estendia mesmo seu capote velho sobre ambos; nesse dia, porém, o frio não era tanto para eles, acostumados a, por vezes, enfrentarem granizos inclementes naquele mesmo lugar. Por isso, o cão aninhara-se, simplesmente, e com um breve resfolegar encostara-se ao peito do homem, numa posição algo estranha, mas cômoda nas circunstâncias.
As luzes da iluminação pública já irradiavam seus raios mortiços; pessoas apressadas dirigiam-se a seus destinos, paradas de ônibus ou estações de metrô, bares ou restaurantes, ou mesmo suas casas. As últimas lojas fechavam suas portas; sua iluminação se resumia, agora, a luzes de vitrina, pretendendo atrair a atenção dos transeuntes cada vez mais raros.
As pessoas continuavam a passar. Não eram mais inteiramente pessoas; assemelhavam-se cada vez mais a sombras empacotadas em seus agasalhos e pensamentos. Seus passos, rápidos, tinham uma cadência própria; eram a expressão da esperança de que nada as interrompesse antes de chegarem a seu destino.
Foi então que o cão sentiu algo escorrendo por suas costas. No princípio, pensou, com surpresa, em água ou algum líquido que seu dono estivesse bebendo, mas seu dono não estava bebendo nada... estava antes com a aparência de alguém a dormir. Sangue ou baba, talvez? Seu dono poderia estar morrendo, o que não seria improvável nas circunstâncias em que se encontravam. Não, tal inferência era apressada; o baixo ronronar do velho era claramente audível, não havia estertor algum – e o capote gasto movia-se lentamente, denunciando uma respiração cansada, porém compassada. Morte sim, mas não agora.
O que era aquilo, então? O cão não podia ver nada, em parte pela noite, em parte porque não conseguia enxergar suas próprias costas. A única coisa real é que algo escorria por suas costas e parecia desaparecer.
Não havia solução para o enigma, pelo menos para aquele estafado cérebro canino; era um mistério, ou peça que a vida fora pródiga em lhe pregar. O cão, cansado, desistiu de descobrir o que acontecia; fosse o que fosse, não afetaria a nenhum dos dois em suas próximas horas.
O cão estava cansado demais. A visão era cada vez mais difusa. Reacomodou-se, então, aninhando-se melhor no colo de seu protetor. Antes de mergulhar no sono que bem fazia por merecer, lançou um último olhar na rua fracamente iluminada. Agora, porém, via apenas sombras. Não havia mais pessoas se movendo; eram espectros que haviam tomado seu lugar e, numa ordem invisível determinada pela distância que uns guardavam dos outros, vagavam de um modo mecânico, algo apressado, uniforme, em direções tão hesitantes quanto seus passos eram aparentemente seguros: uma dança espectral. Naquelas sombras moventes na noite finalmente estabelecida, nada sobrara do que talvez houvessem sido: mais que sombras. Apenas sombras se interpondo, o anônimo ocupava todos os espaços com seus passos miúdos. Nada mais ali havia; a humanidade desaparecera, dando lugar a uma espécie de fantasmagoria do que um dia fora.
Sem dúvida era, naquelas circunstâncias, um esforço excessivo para o cão tirar todas as conseqüências destas constatações, e por isso nem se esforçou mais. Não pôde, porém, evitar, antes de mergulhar no sono que o devorava, uma última estranha suspeita; por um momento, percebeu que o líquido que escorria de seu dono e se esvaía em suas costas maltratadas parecia ser uma espécie de seiva destilada pelo desajeitado amor que ainda sobrevivia naquele amontoado de ossos, desilusões e panos velhos; esta seiva, fosse o que fosse, o envolveu lentamente e, entregue inteiramente a ela, o cão dormiu, pois não precisava, pelo menos até o dia seguinte, pensar nem nisso, nem em nada mais.



Publicado originalmente in: ZIELINSKY, Izabel B. (Org.), Paz – um vôo possível, Porto Alegre: AGE, 2004.

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