O ATAQUE FINAL



O ATAQUE FINAL

Ricardo Timm de Souza


            A pequena aranha conseguira finalmente aproximar-se de sua presa. A mosca rajada, asas amplas, em seus espasmos esvoaçantes, talvez estivesse se cansando da inutilidade de seus esforços para evadir-se do recinto por alguma brecha no teto. Não havia brecha alguma, nenhuma fresta, nada que se assemelhasse, ainda remotamente, a um esconderijo, refúgio ou luz do dia. O teto era de cimento, opaco, com a aspereza tolerável do reboco, leve sinuosidades, sem o menor vestígio de algo que encorajasse o que quer que fosse a fugir por ele. A mosca rajada nada percebia disso; suas asas elétricas, tensas, de fazer inveja às suas primas comuns, a impeliam para cima, sempre para cima. Muitas e muitas vezes a pequena aranha se aproximara, mas não era ainda o momento do ataque: um súbito frêmito esvoaçante, e já a mosca rajada se afastava o suficiente para por-se a salvo por mais algum tempo. A pequena aranha, por sua vez, era pertinaz; voltava a se aproximar, diminuía, com seus passos miúdos, a distância, girava em torno a si mesma para colocar-se em melhor posição – um novo voejo da mosca rajada e todo seu esforço em vão. Tudo poderia continuar assim ainda por um bom tempo, é o que acontece com seres irracionais, que não sabem a hora de desistir de seus intentos.
            Estevão, fascinado pela luta que não acontecia, olhava o teto. A mosca rajada, pintas pretas nas asas tesas, investindo contra a parede sólida – meio metro abaixo, uma janela aberta lhe oferecia ampla liberdade. Asas firmes; observando-se melhor, uma suave tessitura sustentava as manchas pretas. Algo sutil, quase transparente, invisível à primeira vista, fornecia o suporte para aqueles apêndices pouco flexíveis, pelo menos em comparação com outras asas de moscas que Estevão conhecia, mais ajeitadas e manobráveis. Eram aquelas suturas, então, entre a transparência e as manchas de formas variadas, embora relativamente regulares, que constituíam propriamente as asas com as quais a mosca rajada pretendia voar, elevar-se por acima do teto. A pequena aranha observava, atenta. Seus muitos olhos nada deixavam escapar, suas pernas curtas, em manobras precisas, a conduziam para mais perto da melhor posição para o bote.
            Agora chegara finalmente o momento do ataque final. Uma das asas da mosca pousada estava em um ângulo ligeiramente diferente do normal – uma câimbra, talvez – e tal não passara despercebido à pequena aranha que, com uma leve torção do corpo e um empinar-se altivo, se colocou em posição ótima para o pulo definitivo.
            Deve ter sido esse ângulo levemente anormal, incomum, da asa direita da mosca rajada, filtrando a luz difusa do aposento, que permitiu a Estevão perceber o que realmente se passava. Aquela estrutura sutil das asas, quase transparente, aquela teia de delicadíssimas cartilagens, em nada se assemelhava à rigidez esquelética que ele anteriormente, por ingenuidade, desatino ou desaviso, lhe atribuíra: estava antes como que eletrificada, refratando luzes, destilando cores quase imperceptíveis, líquidos fluíam freneticamente pelos minúsculos tubos sinuosos, num estertor constante, desesperado, num ciclo fechado de energia, tudo eletricidade, sinapses descontroladas, o cérebro da mosca rajada, transferido às asas, tentando penetrar na parede sólida, ir ainda além do teto, o ápice do desespero num ângulo incomum, numa pequena explosão de infinitas cores, o cérebro de todas as moscas, suas cavilações coloridas e obtusas, o vidro opaco da obliteração, o sofrimento surdo, engolido, a miséria inominável daquele cérebro fluido, em circuito fechado, eis o que Estevão viu, e não pôde deixar de ver – um pequeno diamante obtuso e brilhante, ofuscado por sua certeza, eletricidade fluindo, a refração da realidade explodindo toda de uma vez, os cérebros pululando sobre a terra como insetos carnudos, cérebros por todos os lados com suas eletricidades fluindo, os dos loucos com suas excitações imprevisíveis, os dos sábios e sua imensa fadiga, os dos juízes e suas cavilações circulares e os dos defensores e acusadores com suas cavilações ardilosas; artimanhas cerebrais pululando por todos os lados, eletricidade doentia, em circuito fechado, fluindo por todos os tubos, para todos os cantos, linfas medrosas se concentrando em nódulos rígidos, e os cérebros dos espertalhões se fazendo vender bem caro, e os cérebros inocentes tropeçando no reboco sutil do teto de cimento bem-acabado. Foi isso que Estevão viu e não pôde deixar de ver nas nervuras pulsantes da asa direita da mosca rajada, e foi isso que ele entendeu e não pôde deixar de entender. E só esperou que a pequena aranha não errasse o ataque final.
São Francisco de Paula, fevereiro de 2007.

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