NIETZSCHE E A FESTA DA TOTALIDADE



NIETZSCHE E A FESTA DA TOTALIDADE

Ricardo Timm de Souza

         1. Generalidades
... a verdade fala por minha boca.
Ecce homo, p. 164

            Dificilmente se pode situar, na história do pensamento, um filósofo[1] tão intensamente criticado e incompreendido como Friedrich Nietzsche. Ao longo de cerca de um século de análises apaixonadas, suas obras resistem inquietamente às invectivas de representantes das mais variadas origens e tendências filosóficas. O que a estas alturas pode ser considerado pacífico, em termos de análise da obra nietzscheana, é que esta tem transtornado profundamente um determinado corpo de convicções muito claro à Ocidentalidade. Este ‘enfant terrible’ da Filosofia, que mobilizou seu gênio no sentido pretenso da mais radical “apostasia” da filosofia “tradicional”, tornou-se, por sua própria agressiva atividade pensante, inclassificável. Em meio à batalha travada por ardorosos defensores e pertinazes atacantes, por espíritos inspirados – para quem Nietzsche diz o que eles sempre gostariam de ter dito – e por intérpretes tacanhos, por cujas artérias corre o medo histórico do futuro e que se comprazem em compreender os prolegômenos da edificação nietzscheana, - a obra do famoso filólogo tem merecido poucas análises equilibradas.
            
 2 – O problema da compreensão abrangente do fenômeno Nietzsche
          
O homem Nietzsche
         Nietzsche foi, antes que um pensador genial, uma subjetividade[2] genial. Isto significa que, para ele, seu intelecto monumental iniciava e corroborava sua atividade a partir de asserções valorativas a priori assentadas por ele mesmo, em um processo de afirmatividade singular que perpassa todo o espírito da obra nietzscheana. Uma leitura de sua primeira grande obra, A origem da tragédia, é suficiente, em grandes linhas, para a compreensão deste fato. O filósofo já fala, ali, de si para si mesmo – e é nestas condições que seu espírito atinge sua pujança notável. Seu referencial teórico mais sólido sempre foi, em último e decisivo sentido, ele mesmo. Sua subjetividade transborda continuamente para fora dos limites estritos de sua pessoa, estende-se para além dele mesmo. Seu caráter particularmente notável é em verdade a referência axial de seu pensamento expresso: Nietzsche é verdadeiramente o que escreve, na medida em que é uma particularíssima personalidade que assume forma discursiva, carregando a letra com o peso de uma subjetivação retumbante.
             
O mundo de Nietzsche
         O mundo no qual Nietzsche se enxerga como filósofo é a Europa que, nas proximidades do fin-de-siècle, gesta o desenvolvimento científico e as hecatombes do presente século. Uma Europa que se sente, por um lado velha, mas que transmuta, por outra dimensão, esta antiguidade em otimismo historicista e cientificista. Na arte – especialmente na música -, a exaustão das correntes românticas dá azo ao surgimento de expressividades pós-românticas, que servem de germes para as revoluções artísticas da virada do século. Na Filosofia, o pessimismo de Schopenhauer e o subjetivismo existencial kierkegaardiano, além dos desdobramentos da chamada esquerda hegeliana, apresentam-se como alternativas ao idealismo alemão, na medida em que reintroduzem na ordem do dia a questão teórica antropológica. Wagner apresenta-se como um dos mais influentes músicos da época, com sua tentativa de totalizar a criação artística. O colonialismo se amplia e se transforma em neocolonialismo. A proliferação de partidos racistas já deixa entrever as possibilidades de um futuro esperável. Trata-se de uma Europa que experimenta, de forma altamente complexa e madura, os resultados de sua vontade de potência.
           
 A obra de Nietzsche      
Eu sou de temperamento guerreiro. Atacar é um de meus instintos.”
Ecce homo, p. 32.
            “Para Nietzsche, [...] a história da filosofia, dos socráticos aos hegelianos, continua a ser a história das submissões, continua a ser história das submissões do homem, e das razões que ele dá para legitimar [...].”[3] Em uma linha muito geral, o trabalho de Nietzsche consiste em, ao estabelecer contraposição à história da filosofia, passar ao momento pura e vitalmente afirmativo do pensamento – o pensamento que se encontra consigo na vida vivida: libertação das cadeias do ressentimento[4], de todas as formas de preconceito moral, de toda subserviência a qualquer elemento estranho à vida que vive: de todos os valores e postulações metafísicos para ele debilitadores da vida.[5]  
            Qual é, então, a origem desta valorização absoluta do valor da vida? O que se entende aqui propriamente por “vida”? Como se viu, tanto o caráter extraordinário do homem Nietzsche como o momento histórico e situacional em que este viveu têm em comum uma desmedida vitalidade. O homem Nietzsche, como sua época, tem em sua auto-nomia, consubstanciada em fluxo de crescimento vigoroso e praticamente desimpedido, o referencial máximo de seu próprio valor. O momento histórico em questão se entendia a partir de uma maturidade pós-metafísica que dispensava a necessidade de justificações heterônomas para sua própria autonomia.[6] Crescia, pura e simplesmente. Uma biografia do homem Nietzsche, por outro lado, evidencia uma inteligência que muito cedo se dá conta de seu potencial, e que se coloca altaneiramente à testa de seu próprio desenvolvimento. À noção de crescimento, espontaneidade, liberdade, acopla-se o termo “vida”. Vida é o que, individual, social e culturalmente, vive a subjetividade nietzscheana, e o que nela vive. E a obra de Nietzsche, momento de sua conjugação natural de sua subjetividade fortíssima com a culminância do subjetivismo histórico cultural da sociedade sua contemporânea, apresenta a integração palpável do espírito profundo que move o desenvolvimento da ocidentalidade como um todo[7] com o homem que – talvez pela primeira vez na história do pensamento – enxerga a realidade deste espírito de maneira inequívoca.[8] Depois de Nietzsche, o mundo ocidental sabe perfeitamente, embora de uma feição ainda “inconsciente”, a que veio: como o homem Nietzsche sabe, inequivocamente, que pode e deve desimpedir o caminho de todo desenvolvimento que desde si já se justifica completamente, ou seja, deve reduzir todo desafio à dinâmica de totalização a um estado de inofensividade, colocando em ridículo aquilo do qual a própria dinâmica de desenvolvimento da Totalidade se tinha outrora alimentado – a começar pela própria ideia de vida e de pensamento que poderia pretender assumir “vida própria” em relação a esta mesma Totalidade, aquilo que se encarnou em Sócrates: “uma ilusão profundamente significativa: esta inquebrantável convicção de que o pensamento, pelo fio de Ariadne da causalidade, possa penetrar até os mais recônditos abismos do ser, tendo poder não só de conhecer, mas também de “reformar” a existência.”[9] Ou seja, em fins do século XIX, a própria ideia de pensamento tende a se tornar dispensável, aquele pensamento que dependeu de conceitos configurando ao fim sistemas[10] bem construídos e que serviu para que o mundo percebesse sua raiz profunda, sua motivação original. Agora, chegada é finalmente a hora da “potência livre”[11], da afirmação absoluta[12], da alegria[13], do livre jogo da liberdade realizada[14], que se justifica por e em sua própria realização.[15]
             
A ideia de “transmutação de valores”
            Assim, pode-se concluir que “valor”, para Nietzsche, não pode ser senão a afirmatividade da vida. Neste pensador dá-se a introjeção absoluta, na vida vivida, de qualquer referencial axiológica que a ela se refira, ou melhor, do referencial axiológico enquanto tal. É a vida que valor, pois ela é valor realizado. Qualquer elemento que á sua dinâmica se oponha (ou que Nietzsche assim julgue) é eminentemente negativamente – nega reativamente a afirmação absoluta. Por isto é necessário proceder ao exame dos valores consagrados. Mediante este exame, evidenciar-se-ão os vícios e as deformações que têm ameaçado a livre dinâmica da vida que vive.
            Nietzsche já sabe que o primeiro adversário da afirmação é a dissuasão.[16] Aí começa a natureza do crescimento a fraquejar – a primeira traição ao espírito dionisíaco. Surgem então os “advogados” da moral (sempre entendida como “negação da vida”), os santos e sábios que, com sua sutileza, assumem ascendência sobre a vida que já não pode viver livremente.[17] A consequência deste fato é o surgimento do ressentimento dos escravos em relação aos senhores, insuflados pelas cavilações dos sábios e dos filósofos e moralistas. Surge então a moral dos escravos[18], algo de extremamente perigoso para a vida livre, pois mina-a sutilmente e a enfraquece em sua livre força. A civilização ocidental é o fruto do choque mais ou menos aberto entre a potência dionisíaca e as diversas “morais de escravos” institucionalizadas (das quais a mais perigosa foi o cristianismo nascente, que com sua postulação de revelação apresenta-se como heterônomo por excelência com relação à totalidade vigente).
            Há que superar definitivamente, portanto, esta luta desigual. Há que recolocar o valor onde ele sempre deveria ter estado, naquilo que se afirma a partir de sua própria afirmação, nas energias “dionisíacas” livres, sem nenhum tipo de pudor com relação à sua própria dinâmica. Para isto, é necessária a transmutação geral dos valores. Esta transmutação não pode se realizar propriamente no homem, nem naquele “último homem, o que demora mais para morrer.” Ela só se pode dar realmente no meta-homem, o famoso super-homem (Übermensch).


          
  O super-homem
         “A transmutação tem [...] um último aspecto: implica e produz o super-homem. Porque, na sua essência humana, o homem é um ser reativo, combinando as suas forças com niilismo. O eterno retorno rejeita-o e expulsa-o [...]. O super-homem designa exatamente tudo o que pode ser afirmado, a forma superior do que é, o tipo que representa o Ser seletivo, o botão e a subjetividade deste ser.”[19] O super-homem é a esperança de remissão do homem, a esperança derradeira de realização do verdadeiro valor. O super-homem se realiza na vida que não despreza, de nenhuma forma, a si mesma; ou seja, que não mais esquece de viver, e vive somente para viver, no êxtase da “natureza que se reconciliar com seu filho pródigo, o homem”[20], polarizando em si toda a possibilidade de seu próprio sentido: a perfeita congruência consigo mesma, a Festa da Totalidade.
          
  O eterno retorno
         O próprio Nietzsche reconhece que não há novidade na postulação da ideia de eterno retorno.[21] Este é o horizonte necessário para que o super-homem possa assumir sua posição. Fornece acima de tudo um patamar tranquilo – sem tropeços com o inusitado – à dinâmica de totalização. Resguarda o terreno onde se processa a vida plena que vive, ao impedir que se acheguem à dinâmica da potência elementos estranhos aos nela já inerentes.
            A primeira feição apresentada por Nietzsche do eterno retorno é, exatamente como em moldes pré-socráticos, cosmológica. Principia por expulsar o “terrível” infinito[22] de sua concepção cosmológica – eis que este é um grande inimigo potencial, em seu entender, do eterno retorno.[23] O eterno retorno é seletivo, mas apenas com relação aos parâmetros por ele já definidos. No processo do eterno retorno, a vida tem tempo para se encontrar consigo mesma, e o homem viciado tem tempo de morrer e dar lugar ao super-homem, perfeitamente natural, sem nada que possa agredir de alguma forma esta natureza[24], nem ao menos um pensamento perigoso, pois a vida preenche então todas as suas próprias possibilidades, e a elas se inclina, na mais completa tautologia. Na passagem da cosmologia para a gnosiologia, o eterno retorno é a subjetividade infinitamente espraiada – que não precisa ser postulada conceitualmente -, a realização total, desde si mesma, da virtù renascentista.[25]
            
 Assim falou Zaratustra
         O que é Also sprach Zaratustra? Como diz Janz, pode ser um “poema doutrinal filosófico”[26], uma “sinfonia”[27], uma sagrada escritura”[28] e também a “filosofia de um artista”[29]. O certo é que ali Nietzsche reúne toda “sua experiência intelectual e vital”[30]. Trata-se de um resumo monumental de seu pensamento, da tradução plástica de incomparável brilho de suas ideias. Seu talento literário, já perfeitamente maduro, apresenta e resume magistralmente a singularidade de sua personalidade e de sua filosofia, em um compósito poético-filosófico sui generis – no dizer do autor, “o maior presente que a humanidade já recebeu.”[31]
            A ideia fundamental da obra, como não poderia deixar de ser, é o retorno do eterno[32] – plano de fundo para que Zaratustra possa falar. Zaratustra é o mestre da afirmação, e o texto é a história desta afirmação.
            Já de início, Zaratustra se admira de que haja quem ainda não se deu conta de que Deus morreu, ou seja, de que a afirmação passa a ser absoluta.[33] Zaratustra anuncia a separação do homem pelo super-homem, que é o sentido da terra.[34] Ele está cansado do que é chamado “Bem” e “Mal”.[35] Aprecia os que se atêm à terra, pois é nela que o super-homem surgirá.[36] Mais tarde, admoesta os que não sabem o que é a verdadeira liberdade[37], e deixa entrever que o seu não é o pensamento do tipo daquele que logo se esgota[38] – e muitas exigências traz consigo.[39] Logo volta a pedir aos discípulos fidelidade à terra, pois eles são os transmutadores de valores.[40] Volta a reafirmar a morte de Deus, para que disto não reste a menor dúvida – “todos os deuses estão mortos; agora queremos que o super-homem viva[41], pois o super-homem deve viver, como o grifo bem acentua. Explicita ademais, diante da positividade da afirmação subjetiva, a impossibilidade da existência de deuses.[42] Como poderia eu suportar não ser Deus, ou seja, como poderia suportar a irredutibilidade do externo a mim mesmo – a diferença? Se eu existo, não podem existir deuses; se a minha subjetividade existe, não pode existir o que a ela não se curve. Além disso, Deus é um pensamento perigoso, pois encurva o reto e afirmativo.[43] É por isto que ele prega a autonomia dos discípulos.[44] Estes têm de aprender a enxergar a si mesmos no horizonte axiológico e nas demonstrações de grandeza, em seu estado puramente afirmativo.[45] Verdadeiramente é chegado o momento da atividade, que é sempre melhor que pensamentos perigosos.[46] Naturalmente, para tal será necessário superar certo pudor no trato dos homens – pois o amor ao homem, esta doença da superfície da pele terrestre, é o “inferno de Deus”, no dizer do diabo.[47]
            Zaratustra ressalta também de onde retira o vigor de suas exortações: da atmosfera que ele mesmo destila[48] e que se dirige inquebrantavelmente ao futuro[49] – o qual já se realiza de alguma forma nele, pois “já é tempo”[50], tempo de cada coisa perceber seu próprio valor.[51] A felicidade é indizível[52], e Zaratustra se concede o gozo destes preciosíssimos momentos.[53]
            Ainda algumas vezes lembra Zaratustra aos discípulos o perigo que representa qualquer tentação do externo, principalmente na forma, já exorcizada, de “Deus”[54] – e promete, a quem se atém a seus ensinamentos, segurança, a segurança que a tautologia realizada pode oferecer.[55] Mas o terreno já está preparado, e os discípulos poderão compreendê-lo. O seu anúncio não passará despercebido; é forte, potente, retumbante, ele é o “galo madrugador que anuncia a aurora ao verme adormecido.”[56] O prazer tautológico é eterno[57], quer ser eterno, aquele que a cada momento se reencontra consigo mesmo e se re-conhece em si mesmo. Esta é a manhã de Zaratustra, é ele feito da alvorada, a indicação da potência absoluta de seu meio-dia, a vibração da potência de todas as potências realizadas: “este é meu amanhecer, meu dia chegou; avante, grande meio dia!”[58] – pois ele ama a eternidade: „Denn ich liebe dich, o Ewigkeit!“[59]
             
3 – O sentido de Nietzsche
Compreenderam-me? Dionísio em face do crucificado [...].
Ecce homo, p. 177.  
            I – A firmação da morte de Deus, em Nietzsche, tem o sentido da afirmação da vida da Totalidade. Trata-se de um assassínio: Deus foi morto – algo de ordem totalmente diferente da promulgação de sua não-existência (que seria ao menos tão metafísico quanto a promulgação de sua existência). É atividade, e não mero pensamento. E esta atividade tem por meta neutralizar o espectro de um diferente possível.
            II – O cristianismo que Nietzsche verdadeiramente ataca não é, em última análise, o da oficialidade eclesiástica, mas aquele que representou por sua vez, quando de seu surgimento, uma verdadeira transmutação dos valores da imanência grega, em sua proposição ética de índole semita. Esta proposição ética representava para Nietzsche aquilo que ele mais execrava: o diferente que questiona até mesmo a estrutura interna da Totalidade, a oposição possível à afirmação que sussurra – sem palavras – que alguma coisa ainda poderia resistir, de alguma forma, à dinâmica de desdobramento da subjetividade feita valor livre. Esta é a raiz de seu mal-compreendido ódio pelo Cristianismo.
            III – Nietzsche também foi “humano, demasiado humano”, na medida em que alimentou, com sua reflexão, um humano sonho: a vontade que reside naquilo que se costuma considerar o núcleo da personalidade, geneticamente presente e culturalmente desconstruída, que gostaria de apostar suas fichas no sentido de que tudo o que não fosse ela é mera ilusão, sobre o que ela teria, então, ascendência absoluta. Sonho primigênio do ser humano, a afirmatividade absoluta encontrou em Nietzsche seu porta-voz mais agressivo. O filósofo realizou assim, ao menos literalmente, um velho sonho da humanidade.[60]
            IV – É necessário que se perceba, em uma visão abrangente, que a “transmutação” pregada por Nietzsche se constitui, na verdade, nada mais do que na realização plena do transmutado, no sentido de dispensar as circunvoluções justificadoras e ir diretamente à raiz original do crescimento vital da ocidentalidade. O processo de incorporação do diferente, que se tinha movido até então por meio de jogos de afirmação e negação, por meio de sutilezas sistêmicas e dialéticas (tão detestadas por Nietzsche) idealistas ou materialistas, tal processo atinge, por sua própria dinâmica de maturação, um estado de completude que permite, na época de Nietzsche, a sua afirmação pura e simples – os tempos assim o exigem.[61] Nietzsche como que intenta realizar na realidade da vida aquilo que a Hegel custou toda sua síntese especulativa e que culmina em seu sistema auto-justificante – pois a “metafísica” já é plenamente dispensável, pelo fato de já ter cumprido seu papel original segundo a lógica maior que ela e que a resguarda. Nietzsche não é, como muitos parecem pensar, o maior revolucionário, mas, sim, o maior reacionário, pois re-torna às origens e motivações mais ocultas e inconfessadas da humanidade ocidental e de seus propósitos de crescimento – apenas que, agora, com séculos de prática no trato daquilo que resiste à manipulação.[62]
            V – “Proclamando a identidade da dominação e da razão, as doutrinas sem compaixão são mais misericordiosas do que as doutrinas dos laicos morais da burguesia.”[63] A grandeza de Nietzsche reside fundamentalmente em sua não-hipocrisia – em sua crueza que repugna a tantos “bons-pensantes”. Se “Kant [...] já expurgara a lei moral em mim de toda fé heteronômica”[64], muito tempo teve de se passar para que o sentido disto fosse plenamente percebido. Aquilo que a filosofia fez com a compaixão, Nietzsche diz; Nietzsche mostra, de maneira meridianamente não-eufêmica, os constitutivos reais da dinâmica de totalização, e não hesita em dizer que reconhece o valor e gosta da guerra[65], a Totalidade das totalidades.
            VI – “Temos de conceber a filosofia de Nietzsche como [...] metafísica da subjetividade incondicionada da vontade de poder.”[66]
            Nietzsche retrai em última análise, para a subjetividade atuante, a possibilidade de a realidade ser real. Pois a primeira regra da sabedoria é abster-se de “escutar” as coisas[67], para que elas não transtornem o crescimento que se opera. Se até mesmo o confronto com um grande pensamento é intolerável[68], muito pior e mais desestruturante seria a confrontação com a coisa mesma que, desde fora, se achega à subjetividade. A vontade de poder exige univocidade, sentido absoluto; caso contrário, não poderá se considerar como tal. Ela necessita realizar-se para se justificar, apesar de tudo o que não é ela mesma. Nietzsche tentou, simplesmente, viabilizá-la. Também por sua obstinada e paradoxal defesa dos “fortes contra os fracos”[69] – ou seja, da Totalidade contra o que não é ela – Nietzsche “maldosamente celebra os poderosos e sua crueldade exercida ‘para fora, onde começa a terra alheia’, quer dizer, perante tudo o que não pertence a eles próprios.”[70] Sua meta-moralidade – pode se constituir, na prática, senão como exercício de brutalidade totalitária – a festa da Totalidade é realizada sobre os despojos de tudo o que a ela não se inclinou.
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            Bibliografia
BATAILLE, Georges. Sobre Nietzsche – voluntad de suerte. Madrid, 1972.
DELEUZE, Gilles. Nietzsche. Lisboa, s/d.
FINK, Eugen. La filosofia di Nietzsche, s/l, Mondadori, 1977.
JANZ, Curt Paul. Friedrich Nietzsche, vol. I, III e IV, Madrid, 1981.
LÖWITH, K. Nietzsches Philosophie des ewiges Wiederkehrs des Gleichen. Hamburg, 1986.
NIETZSCHE, Friedrich. Zur Genealogie der Moral. s/l, Goldmann Verlag, 1988.
___________________. Also sprach Zarathustra. Stuttgart, 1987.
___________________. Ecce homo. Paris: Gallimard, 19. Ed.
___________________. Origen de la tragedia. In: Obras Completas III, Buenos Aires, 1965.
___________________. Más allá del Bien y del Mal. In: Obras Completas III, Buenos Aires, 1965.
PODACH, Erich. L’effondrement de Nietzsche. Paris, Gallimard.

(Digitação e atualização gramatical: Prof. Jozivan Guedes)
1989


[1] “Nietzsche é filósofo no sentido amplo do termo; também foi, indiscutivelmente, poeta.” (Cf. FINK, E. La filosofia di Nietzsche, p. 12).
[2] O conteúdo deste termo, neste contexto, difere substancialmente daquele consagrado pela tradição, identificando-se, muito mais, como um particular foco de vontade de poder.
[3] DELEUZE, Gilles. Nietzsche, p. 21.
[4] “[...] libertar a alma do ressentimento é o primeiro passo na direção da cura.Ecce homo, p. 30.    
[5] “O que Nietzsche combate tão apaixonadamente como cristianismo é acima de tudo uma metafísica, um sistema de juízos de valores” (FINK, E. Op. cit., p. 149). Também: “O ser pensado metafisicamente é o que ele combate como ‘Deus’” (FINK, E. Op. cit., p. 159). A filosofia, crítica da realidade, tem agora de perpetrar uma autocrítica, uma crítica daquilo que a ocupa como sendo sua dimensão moral, o que a contamina: „(...) wir haben eine Kritik der moralischen Werte nötig, der Wert dieser selbst erst einmal in Frage zu stellen“ (NIETZSCHE, F. Zur Genealogie der Moral, p. 12).
[6] É indispensável precisar aqui o sentido desta pós-metafísica: trata-se não do resultado das construções pós-kantianas, mas da superação – pretensa ou real – do próprio contexto em que a crítica kantiana tem lugar e que resume em si um determinado modelo de trofismo do pensamento ocidental.
[7] “Nietzsche conhecia como poucos [...] a dialética do esclarecimento.” Cf. ADORNO, T. e HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento, p. 53.
[8] “[...] tenho tarefas de uma tal altura que até mesmo a ideia ali ainda não chegou até este dia.” (NIETZSCHE, Ecce homo, p. 164).
[9] NIETZSCHE, F. Origen de la tragedia, p. 108.
[10] Eu desconfio de todos os sistemáticos e me afasto de seu caminho. A vontade de sistema é uma falta de honestidade (NIETZSCHE, cit. por JAY, Martin. La imaginación dialéctica, p. 83. “Falta de honestidade significa aqui: fazer circunvoluções para chegar à motivação filosófica que realmente interessa.
[11] “Senti-me levado ao infinito [...]. Que era para mim o homem e sua inquieta vontade? Que era o eterno ‘tu deves’, ‘tu não deves’? Que diferentes a borrasca, o raio, o granizo, potências livres, sem ética! Que felizes, que fortes são, vontade pura, não obscurecida pelo intelecto!” (NIETZSCHE, F. Carta a Gusdorf, 7/4/1866 – cit. por JANZ, C. Nietzsche, V. I, p. 87).
[12] “[...] a firmação torna-se a essência ou a própria vontade de poder (...). Foi precioso ir até o último dos homens, depois até o homem que quer morrer, para que a negação, voltando-se por fim contra as forças reativas, se torne ela própria uma ação e passe ao serviço de uma afirmação superior.” (DELEUZE, G. Op. cit., p. 28). Ainda: “Eterna afirmação [...] eternamente eu sou a tua afirmação!” (NIETZSCHE cit. por DELEUZE, Op. cit., p. 29).
[13] A alegria surge com o único móbil para a filosofia. A valorização dos sentimentos negativos ou das paixões tristes é a mistificação na qual o niilismo funda o seu poder” (DELEUZE, G. Op. cit., p. 29).
[14] “Em Nietzsche o jogo humano, o jogo da criança e do artista, torna-se o conceito chave do universo, advém como metáfora cósmica [...]. Nietzsche concebe Ser e Devir como jogo, (ele) não depende mais da Metafísica (...).” (FINK, E. Op. cit., p. 204-205).
[15]Qual é o sinal da liberdade realizada? Não sentir vergonha de si mesmo.” (NIETZSCHE, F. Eterno retorno, p. 131).
[16] (A decadência de Sócrates começa) “quando a voz do demônio lhe fala, sempre o ‘dissuade’ [...]. A sabedoria instintiva, nesta natureza completamente anormal, não intervém senão para ‘entorpecer’ [...]. Em Sócrates o instinto se revela como crítico e a razão é criadora: verdadeira monstruosidade por ‘defectum’!”. (NIETZSCHE, F. Origen de la tragedia, p. 100).
[17] Cf. Eterno retorno, p. 179.
[18] Cf. Zur Genealogie der Moral, p. 28.
[19] DELEUZE, Gilles. Op. cit., p. 33.
[20] NIETZSCHE, F. Origen de la tragedia, p. 41.
[21] Cf. Ecce homo, p. 91.
[22] “Não há mais terrível do que o infinito.” (NIETZSCHE, F. Eterno retorno, p. 124).
[23] Cf. NIETZSCHE, F. Eterno retorno, p. 13.
[24] “Eu combato sob o nome de vício tudo o que vai contra a natureza.” (NIETZSCHE, F. Ecce homo, p. 83-84).
[25] “Meu maximum de força [...] virtù no sentido da Renascença.” (NIETZSCHE, F. Ecce homo, p. 42). Nietzsche se comparava a Colombo e a Leonardo Da Vinci. Ver: LÖWITH, K. Nietzsches Philosophie des ewiges Wiederkehrs des Gleichen, p. 15.
[26] JANZ, E. Vol. III, p. 65.
[27] Vol. III, p. 167.
[28] Vol. III, p. 175.
[29] Vol. III, p. 193.
[30] Vol. III, p. 186.
[31] Cf. NIETZSCHE, F. Ecce homo, p. 10.
[32] Cf. NIETZSCHE, F. Ecce homo, p. 120.
[33] Cf. NIETZSCHE, F. Also sprach Zarathustra (doravante AZ), p. 5.
[34] “Der Übermensch ist der Sinn der Erde.” AZ, p. 6.
[35] AZ, p. 7.
[36] Cf. AZ, p. 6 e 8.
[37] AZ, p. 56.
[38] AZ, p. 56.
[39] “Schreien wirst du einst ‘ich bin allein!’” AZ, p. 56.
[40] AZ, p. 59-60.
[41] AZ, p. 72.
[42] „[...] aber dass ich euch ganz mein Herz offenbare, ihr Freunde: wenn es Götter gäbe, wie hielte ich’s aus, kein Gott zu sein! Also gibt es keine Götter“ Cf. AZ, p. 77.
[43] Cf. AZ, p. 77.
[44] AZ, p. 76.
[45] AZ, p. 76.
[46] „Wahrlich, besser noch bös getan, als kein gedacht.“ (AZ, p. 80).
[47] „Also sprach der Teufel einst zu mir: ‚Auch Gott hat seine Hölle: das ist seine Liebe zu den Menschen’“ (AZ, p. 81). „Die Erde, sagt er, hat eine Haut; und diese Haut hat Krankheiten. Eine dieser Krankheiten heisst zum Beispiel: ‚Mensch’“ (AZ, p. 123).
[48] Cf. AZ, p. 97 e 113.
[49] Cf. AZ, p. 131.
[50] AZ, p. 151.
[51] Cf. AZ, p. 155.
[52] „Sie erraten nichts vom Brausen meines Glückes!“ (AZ, p. 158).
[53] Cf. AZ, p. 212.
[54] „Vor Gott! – Nun aber starb dieser Gott! Ihr höheren Menschen, dieser Gott war eure grösste Gefahr!“ (AZ, p. 274).
[55] „Und das ist das erste, was ich euch anbiete: Sicherheit!“ (AZ, p. 267).
[56] AZ, p. 205.
[57] „Lust aber will Erben, nicht Kinder – Lust will sich selber, will Ewigkeit, will Wiederkunft, will Alles-sich-ewig-gleich“ (AZ, p. 310).
[58] AZ, p. 315.
[59] AZ, p. 219.
[60] Cf. BATAILLE, G. Sobre Nietzsche, p. 13.
[61] “Por um pouco que tenhamos permanecidos supersticiosos, não podemos nos defender da impressão de que somos a encarnação, o porta-voz, o médium de potências superiores.” (Ecce homo, p. 126). As “potências superiores” são justamente as grandes ondas culturais ocidentais, todas provindas de um mesmo impulso primeiro: a imanência da Totalidade em processo de autoconstrução.
[62] Cf. LÖWITH, K. Nietzsches Philosophie der ewigen Wiederkehr des Gleichen, p. 99. RODRÍGUES GARCIA, R. Heidegger y la crisis de la época moderna, p. 175.
[63] ADORNO, T. e HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento, p. 112.
[64] ADORNO, T. e HORKHEIMER, M. Op. cit., p. 92.
[65] „Der Krieg und der Mut haben mehr grosse Dinge getan als die Nächstenliebe.“ (AZ, p. 41).
[66] HEIDEGGER, M. Nietzsche, II, 199-200, cit. por RODRÍGUES GARCIA, R. Op. cit., p. 169.
[67] Cf. Ecce homo, p. 60.
[68] Cf. BATAILLE, G. Op. cit., p. 37.
[69] Cf. DELEUZE, G. Op. cit., p. 24. É interessante notar que Nietzsche, ao penetrar em seu processo de demência, traiu tanto esta máxima como também aquela que considerava a piedade a mais vil das paixões: “No dia 3 de janeiro, justo no momento em que Nietzsche sai de sua casa, observa na praça Carlo-Alberto, na estação de coches, uma velha égua cansada, à qual se dirige a irritação de um cocheiro brutal. A piedade o invade. Soluçando e com um gesto protetor, ele se abraça ao pescoço do animal martirizado [...].”PODACH, E. L’effondrement de Nietzsche, p. 91.
[70] ADORNO, T. e HORKHEIMER, M. Op. cit., p. 95.

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