A CRIATIVIDADE COMO POTENCIAL EDUCATIVO



A CRIATIVIDADE COMO POTENCIAL EDUCATIVO


Rico tesouro em pobre terreno


Ricardo Timm de Souza

A extrema carência de recursos de todos os tipos na generalidade das escolas brasileiras (onde, para simplificar a questão, as crianças e os professores são, por definição, carentes - as primeiras de condições mínimas para o estudo, os segundos de condições mínimas para o ensino), nos remete ao conhecido dito, segundo o qual "muitas vezes, os mais ricos tesouros estão nos mais pobres terrenos". E não se trata aqui de romantizar as indigências, mas de salvar e explorar um pequeno mas importante mundo seminal quase desconhecido, que se entrevê por entre as sombras de um futuro povoado de desalentos.

Se o Brasil é o país do "jeitinho", o jeitinho tem um pai, ou melhor, uma mãe, da qual ele carrega a carga genética. Nós consideramos que esta mãe é a criatividade conatural a cada criança. Porque não pôde se desenvolver criativamente, a criatividade - cuja abundância no Brasil quase todo estrangeiro e muitos brasileiros enxergam com facilidade -  cristalizou-se no famoso jeitinho, filho degenerado, a um tempo revoltado e inconseqüente, viciado e flutuante, asqueroso e desejado. O jeitinho não tem salvação: ele é prisioneiro de si mesmo e da sociedade que o cultivou e o mereceu.

O que tem salvação, isto sim, é a criatividade congênita que povoa a (sobre)vida da novíssima geração, que descobre uma maneira de (sobre)viver por entre os descaminhos de uma sociedade que tenta atirá-la ao lixo da história, para não dizer à margem do mundo (lugar menos aviltante, pois da margem se vê o rio que corre, mas do lixo só se vê os dejetos    que caem sobre a cabeça). A criança que sobrevive ao caos material e psicológico de sua família ou falta dela, à falta de alimento e amor, ao atrito com a vida que lhe é imposta, certamente poderá sobreviver aos anos que passam, mas converterá sua criatividade extrema no pior dos jeitinhos. Mas a criança que, vivendo sua vida, recebe aqui e ali respingos de encorajamento amoroso que a façam ver a variedade da realidade, que a façam descobrir o quão inteligente ela é, ao não se curvar à inteligência de um sistema que a esmaga - esta criança descobrirá em si este manancial criativo que ela tem e já usa, em cada dia e em cada momento de sua vida. É este o primeiro passo da crítica, o passo congênito, que qualquer pezinho pode dar, esta primeira encruzilhada no qual se decide se a criança seguirá o caminho do jeitinho, a mediocridade auto-punitiva, ou o caminho do respeito próprio pela conscientização de suas capacidades legítimas de desenvolvimento, apesar de tudo.

Talvez seja este o primeiro e mais importante passo a ser seguido pelos mestres de boa vontade: achar espaço para a criatividade sadia da criança em cada momento, em cada situação, em cada carência. Há sempre espaço para isso na vida que vai vivendo: ela mesma o prova. Em cada terreno há tesouros. Como achá-los, como achar a prática em meio à teoria bem-falante: este é o primeiro desafio à criatividade dos mestres.
 

Rio Grande, 12/9/1994



>>>>>>>><<<<<<<< 

Postagens mais visitadas