MR. BONES ATIRA-SE AO CÉU



Mr. Bones atira-se ao céu: sobre Timbuktu, de Paul Auster




Ricardo Timm de Souza
I

            O itinerário de Mr. Bones no penoso encalço da decadência de seu dono, Willy, indica por si só uma situação sem volta, ou um caminho de uma só direção. Cada dia nada mais é do que um dia de adiamento de um desenlace inevitável.

“Pela segunda vez em duas noites, sonhou com Willy e mais uma vez o sonho foi diferente de todos os demais. Desta vez, estavam sentados na praia de La Jolla, Califórnia, um lugar que visitaram em sua primeira viagem juntos, antes de estar bem crescido.Isso significava que fazia muitos e muitos anos, e estava de volta ao tempo em que tudo era novo e estranho para ele, quando tudo o que acontecia era pela primeira vez. O sonho começou no meio da tarde. O sol brilhava forte, soprava uma leve brisa, e mr. Bones estava deitado com a cabeça no colo de Willy, saboreando o toque dos dedos de seu dono que iam para a frente e para trás, na sua cabeça[1].
Após infinitos sofrimentos, mr. Bones retorna a momentos quase perdidos na memória, quando a realidade que o penetrava era quente e deleitosa e o mundo, colorido. Aliás, a própria realidade se confunde com aquilo que mr. Bones pensa haver percebido nela – “Será que aquilo havia mesmo acontecido? Já não conseguia mais lembrar, mas parecia vívido o bastante para ser real... Moças bonitas em trajes de banho, embalagens de sorvetes e bisnagas de loção bronzeadora, discos voadores de plástico oscilando através do ar. Foi o que viu quando abriu os olhos, no sonho, e pôde farejar o que havia de singular e belo naquilo, como se uma parte de mr. Bones já soubesse que ele estava além das fronteiras da realidade nua e crua[2]
O penetrar retroativo na realidade, através da memória que invade o sonho, abre novas camadas de realidade, sentidos não-presentes à sincronia dos elementos organizados que chamamos normalmente de “realidade”. O que é o real” é uma pergunta que a realidade não propõe, porque se dá inteira para além desta pergunta.
Seu dono falava com ele. O sonho fora mesmo um sonho, uma recompensa por sua fidelidade – “a oportunidade de se aquecer ao sol em uma noite fria de inverno[3].


II

“’Que coisa é essa?’, mr. Bones ouviu a si mesmo perguntar, e de repente tomou de novo consciência da sua capacidade de falar, articular palavras com tanta clareza e suavidade quanto qualquer bípede ao latir na sua língua materna.
‘Isto, por exemplo’, respondeu Willy.
‘Isto o quê?’, perguntou mr. Bones sem entender nada. ‘O que é?’
‘O que você está fazendo agora.
‘Não estou fazendo nada. Só estou deitado com você na areia.
‘Você está falando comigo, não é?’
‘Parece que é falar... mas não quer dizer que eu esteja mesmo falando.’
E se eu dissesse a você que está falando de verdade?’
‘Não sei. Acho que eu ia levantar e dançar um pouco.’
‘Pois bem, pode começar a dançar, mr. Bones. Quando vier a hora, você não deve se preocupar.’
‘Quando vier a hora, Willy? Do que está falando?’
‘Quando vier a hora de você ir para Timbuktu’.
‘Quer dizer que deixam cachorros entrar lá?’
‘Nem todos. Só alguns. Cada caso é examinado separadamente.’
‘E eu fui aprovado?’
‘Foi.’
(...) ‘E quando tenho de ir?’
‘Quando chegar a hora. Precisa ter paciência’.
‘Primeiro tenho de esticar as canelas, não é?’
‘Este é o trato. Enquanto isto, quero que seja um bom menino. Volte para Porto dos Cães, e deixe que cuidem de você”.[4]


III

            Mas mr. Bones não está em forma... “relutando em deixar o mundo do sonho, mr Bones só aos poucos tomou consciência do frio intenso à sua volta  e depois, quando começou a sentir o frio, tomou consciência de um calor igualmente intenso. Algo queimava dentro dele. O frio estava do lado de fora e o calor, do lado de dentro; seu corpo estava coberto de neve e, dentro do corpo, a febre estava de volta, tão feroz e paralisante como no dia anterior. Sentiu uma dor aguda ao tentar se pôr de pé e sacudir a neve em seu pelo, mas suas pernas pareciam esponjas, ele teve de desistir desse esforço. Quem sabe mais tarde, disse para si mesmo, quem sabe mais tarde, quando o sol saísse e o ar esquentasse um pouco...”[5]
Voltar ao Porto dos Cães era agora impossível... Mas ele ouve o som da auto-estrada que passa perto. Quem sabe um dos carros pararia para ajudá-lo... mas isso significaria empenhar suas últimas forças para chegar à auto-estrada. Não podia errar de direção: a chance era única.
Mr. Bones chega à auto-estrada. Isso havia significado sacrifícios inacreditáveis, subindo a ladeira, enfrentando espinhos e troncos, escorregões. Após vencer todos estes desafios, o “...cão doente e febril compreendeu que a salvação estava a seu alcance... era exatamente o que ele esperava e agora sabia que a idéia que lhe viera durante aqueles quarenta minutos de um esforço mortificante, subindo e descendo o morro, era a única solução correta para seu problema... ele não precisava esperar que a hora chegasse; a hora estava bem à sua frente, agora mesmo.Tudo o que precisava fazer era põr os pés na estrada e logo estaria em Timbuktu. Iria para a terra das palavras e das torradeiras transparentes, a terra das rodas de bicicleta e dos desertos ardentes onde cães e homens conversavam de igual para igual”[6].


IV 

“Mas mr. Bones não estava propondo nada tão vulgar como o suicídio. Ia simplesmente fazer uma brincadeira, o tipo de brincadeira que um cão velho, doente  e louco faria. E é isso o que ele era agora, não é? Um cão velho, doente e louco”[7]. A brincadeira de desviar dos carros permitia a todo cachorro velho recuperar as glórias da juventude.


V

“E assim aconteceu, naquela esplendorosa manhã de inverno, na Virgínia, em que mr. Bones, também chamado Espártaco, companheiro inseparável do falecido poeta Willy G. Natal, partiu para provar que era um campeão entre os cães. Deixou a grama e se pôs na borda leste da auto-estrada, esperou uma brecha e então começou a correr. Embora estivesse fraco, ainda restava algum ímpeto em suas pernas e, assim que sua corrida tomou impulso, sentiu-se mais forte e mais feliz do que em qualquer outra ocasião em muitos meses.  Correu rumo ao barulho, rumo à luz, rumo ao resplendor e ao rugido que disparavam contra ele, de todas as direções.
Com um pouco de sorte, estaria ao lado de Willy antes de o dia acabar.”[8]

***

Desaparição da memória? Mr. Bones apenas atira-se, inteiro, ao que não é ele: sua fidelidade canina explode em generosidade pura.



[1] Timbuctu, p.138 (doravante T).
[2] T, p. 138.
[3] T, p. 139.
[4] T, p. 139-140.
[5] T, p. 140-141.
[6] T, 142-143.
[7] T, p. 143
[8] T., p. 143.

Postagens mais visitadas