METAMORFOSES DAS ESCRITAS



METAMORFOSES DAS ESCRITAS, OU: DO ESCREVER AO INSCREVER

Ricardo Timm de Souza

         Poderíamos iniciar por uma questão fundamental: o que é, hoje, escrever? Sim, a enorme ambigüidade é proposital. Não se está adjetivando ou qualificando “escrever”. Trata-se, simplesmente, de escrever – em tempos onde as escritas e as escrituras se aceleram, se dissolvem, se coagulam em formas inusitadas, engolem a si mesmas.
         Será hoje escrever, simplesmente, brincar com as palavras? Mas, e o peso das palavras? Não se prestam a jogos ágeis. Ou se prestam excessivamente a jogos ágeis demais, firulas e rodopios, partículas esvoaçantes que por vezes se tornam, em um travestismo multicor, teratologias da simplicidade do arco-íris.
         Será escrever hoje, de outra parte, sucumbir sob o peso da responsabilidade? Pois quem escreve em um mundo maciço, respirando continuamente as espessuras mais profundas da existência, corre logo o risco de se impregnar do imenso peso dos dias, da sua rouquidão, como diria talvez J. Paviani. Pois há sangue demais correndo pelos rios do mundo, ainda que disfarçado pelos caleidoscópios plastificados que as mentalidades instrumentais e o coro da mediocridade destilam continuamente. Como escrever sem, verdadeiramente, morrer?
         Hoje, escrever será um mero sonho? Mas, então, nós, que também de sonhos somos feitos, nos esvaímos na escrita, liquidificados e liquidados na seiva que destilamos e que logo, se insinuando pelas veredas dos caminhos e das memórias, parece não haver existido. Mas estamos em tempos de resgate da memória. Pois, sem resgate da memória, para que escrever?
         Escrever será hoje, provavelmente, inscrever. Inscrever, exatamente, memórias no mundo que sofre da extraordinária facilidade para esquecer o que não convém lembrar. Inscrever sangue entre as palavras, para que se recordem que são vivas. Inscrever utopias na geometria dos calendários, para que as calendas tenham tempo de existir. Inscrever mundos entre as idéias, para que as idéias sejam mais do que simples idéias. Inscrever futuro no passado, e passado no futuro, para que o presente possa se dar. Inscrever para tumultuar a inércia dos dias escritos em ideotic e línguas afins. Inscrever para conturbar os espíritos precocemente apaziguados, para perfurar as blindagens dos jovens-velhos, dos mortos-vivos. Inscrever inscrições vitais; elas estão vivas, esperando, na humildade, por nós, achadores de preciosidades.
         Talvez escrever, hoje, signifique nada mais e nada menos do que viver a profundidade de uma estranha – indescritível – metamorfose da idéia de escrita, que se torna inscrição eloqüente no recôndito do que nunca teve voz e, agora, se derrama pelo universo.


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