MAUÁ E A HISTÓRIA BRASILEIRA: SOBRE MEMÓRIA E ESQUECIMENTO



MAUÁ E A HISTÓRIA BRASILEIRA:
sobre memória e esquecimento


Ricardo Timm de Souza




Labor Improbus Omnia Vincit
Divisa do Visconde de Mauá

Como progressista e como emancipador,
Mauá fez sozinho uma revolução,
tal o rigor com que enfrentou a economia
dominante do Brasil em 1840,
a ortodoxia imperial, a rotina agrária.
Gilberto Freyre

I

            O objetivo deste breve texto – que se constitui em semente de trabalho de muito maior fôlego, a ser empreendido proximamente – não é elaborar mais uma biografia ou descrição da vida e obra desse personagem sui generis da história brasileira; o que aqui pretendemos é, ao problematizar algumas questões afeitas à posição que essa figura ocupa na consciência nacional, sugerir alguns dos traços da própria formação desta consciência coletiva em termos da dialética de memória e de esquecimento do que de significativo seu passado lhe legou.
            Nossa motivação é a seguinte: quando historiadores sérios, em livros de história do Brasil, não acham, ao longo de 300 ou 400 páginas, espaço para referir uma única vez a qualquer coisa que Mauá tenha feito ou significado para a história nacional – e não estamos aqui falando de manuais simplificados ou superficiais –, é momento de aí perceber o sintoma de um grave problema de memória coletiva. Caracterizemos claramente que não se trata de “personalizar” forças históricas – não há construção histórica persistente que não seja coletiva –, mas, sim, de mostrar a perigosa impropriedade que consiste em nivelar por baixo, confundindo a figura de Mauá com a de algum baronete parasítico e dispensável na historiografia nacional, como costumava acontecer em alguns compêndios de história do Brasil há algum tempo atrás. Desse modo, não somos partidários de algum tipo de historiografia personalística, mas também não podemos, apenas por que as elites latino-americanas e especificamente brasileiras se constituíram e constituem, grosso modo e ressalvadas notabilíssimas exceções, em instâncias parasitárias, reacionárias e predadoras dos homens e das terras do continente, confundir todo e qualquer representante da elite com este espírito parasitário, reacionário e predador. E isso é especialmente válido com relação àquele desviante que, no limite do progresso das idéias econômicas de seu tempo em termos de empreendedorismo e inovação financeira e industrial em nível mundial – um liberal que socializava lucros num tempo e lugar em que a consciência média de produção de riqueza estava ligada ao aumento da exploração do trabalho escravo –, nem por isso mobiliza sua capacidade para exaurir a seiva da terra e do seu futuro: algo extremamente raro em termos brasileiros, hoje e sempre, no que tange à relação dos poderosos com os que, de algum modo, lhes são subalternos.


II

Assim, não é nosso objetivo meramente louvar a ousadia dessa figura, aliás inspirador de personagem de Jules Verne,  que empreendeu, com verba particular – em uma época em que o ideal das elites econômicas era, como já ressaltamos, a produção rural pela exploração do trabalho escravo – as bases da siderurgia nacional, a criação da primeira viação férrea do Brasil, da companhia de navegação do Amazonas, da iluminação pública do Rio de Janeiro, o financiamento do sistema de bondes de Paris e Bruxelas, o estabelecimento da comunicação telegráfica por cabo submarino entre o Brasil e a Europa, um verdadeiro proto-Mercosul de informações e comércio, que foi co-elaborador do Código Comercial Brasileiro, fundador do segundo Banco do Brasil, alguém “de cuja mesa saíam ordens para os diretores de dezessete empresas instaladas em seis países e informações para um complexo grupo de sócios, no qual despontavam milionários ingleses, nobres franceses, especuladores norte-americanos, comerciantes do Pará, fazendeiros do Rio Grande do Sul”, mantendo a contabilidade de todas elas atualizada em sua memória prodigiosa[1]; que, no auge de sua atividade, geria “bancos no Brasil, Uruguai, Argentina, Estados Unidos, Inglaterra e França; estaleiros no Brasil e no Uruguai; três estradas de ferro no interior do Brasil; a maior fábrica do país, uma fundição que ocupava setecentos operários; uma grande companhia de navegação; empresas de comércio exterior; mineradoras, usinas de gás; fazendas de criação de gado; fábricas variadas”[2]; que “todas as noites, além de administrar esse império... ainda movimentava sua fortuna pessoal, aplicada nos melhores títulos financeiros do planeta”[3] e que, “quando resolveu, em 1867, reunir a maior parte das empresas num único conglomerado, o valor total dos ativos chegou aos 115 mil contos de réis. Só havia um número no país comparável a este: o orçamento do Império, com 97 mil contos de réis naquele mesmo ano”[4] – o que equivalia  a cerca de 12 milhões de libras à época, ou seja, mais de um quarto do ativo da maior e mais sólida instituição financeira do mundo de então, o Banco da Inglaterra[5].
Por mais exóticos e notáveis que sejam, não são esses os fatos o centro de nossas atenções nesse momento, nem ao menos sua falência e reabilitação em termos inusitados, totalmente atípicos, por sua proverbial idoneidade, em relação seja à sua, seja à nossa época, ou o conjunto de suas idéias e ações que, em 1850, poderia ser considerado muito mais “moderno” do que o consenso brasileiro médio de hoje, em muitos meios.
            A questão é: será para alguns historiadores essa extrema raridade sinônimo de inexistência ou impossibilidade? Ou, o que constitui a tese que aqui defendemos, é exatamente essa rara existência que, por sua diferença, constitui a única possibilidade de alternativa de futuro, a distinção precisa e cabal entre o ordinário e o extraordinário, entre o já estatuído que se cristaliza numa memória coletiva perigosamente inconsciente e o novo que desinstala o próprio habitus mental interpretativo dos sentidos e das significações?

* * *

            Destacamos que o presente estudo não tem evidentemente cunho estritamente histórico, mas, antes, tonalidades histórico-filosóficas. Nesse sentido, merece explicação a lógica de utilização de fontes. Além de nosso acervo particular – que não será aqui, a rigor, detalhado, pois ainda em catalogação, e que serviu essencialmente para dirimir dúvidas no que diz respeito a certos temas pontuais e, principalmente, ilustrar assertivas, sem se constituir absolutamente em fonte primária –, utilizaremos duas obras principais, de épocas diferentes, que evitam tanto a laudatória de admiradores fascinados pela figura deste gênio financeiro, quanto a leviandade de detratores igualmente passionais. Tratam-se de Mauá e seu tempo, de Lídia Besouchet, em sua edição de 1978, e da mais recente e conhecida biografia do autor: Mauá, empresário do Império, de Jorge Caldeira, livro, em suas linhas gerais, de inúmeros méritos e cuidadosa feitura, fruto de árduo esforço de um excelente pesquisador.


III

Em nosso livro O Brasil filosófico – história e sentidos[6] avançamos quatro teses que, a nosso ver, permitem uma aproximação compreensiva da constituição sócio-histórica do Brasil-colônia, o mundo que, de certo modo, persiste em suas linhas gerais no tempo de Mauá (e, não obstante a complexidade da contemporaneidade brasileira, explica ou é encontrável, de forma difusa ou concentrada, ainda hoje). Cumpre aqui, muito embora nosso interesse nesse momento seja muito diverso, resgatá-las em seu teor essencial e comentá-las, pois se constituem, em nosso entender, na chave de compreensão da questão após exposta, e indiciam os constitutivos principais do mundo contra o qual Mauá lutará:
a) Antes de mais, não bastam leituras meramente descritivas de panoramas histórico-culturais amplos e complexos como o brasileiro; é necessário que se estabeleça uma leitura claramente “axiológica” do que historicamente se constituiu e historicamente se legitimou: a idéia de transplantar ou implantar a cultura européia em seu especial matiz conservador português para as novas terras, determinante para a Colônia como para o Império, se baseia evidentemente na consideração anterior de que tal cultura, assim como se apresentava nesses momentos relativamente iniciais da modernidade, oferecia o que de melhor a civilização greco-romana havia gestado. Nesse sentido, uma leitura axiológica é igualmente uma leitura arqueológica.
b) Em segundo lugar, é necessário que se situe com razoável precisão a posição de Portugal no concerto europeu da época do Brasil-colônia, que, igualmente, se desdobra ao longo do primeiro e do segundo Impérios, pelo menos. Em meio às tempestades da modernidade nascente, o país permanece, em termos gerais, fortemente afeito a idéias conservadoras de um passado em inelutável decadência, ainda que de forma algo mais mitigada em relação à Espanha contra-reformista. Ressaltemos aqui apenas um exemplo de tal mentalidade: a perseguição e expulsão dos judeus e de muitos dos assim chamados cristãos-novos, os quais se estabelecerão, com seus conhecimentos e posses, em locais de maior tolerância e estímulo a seus empreendimentos – Amsterdã, etc. – é um exemplo eloqüente desta opção cultural e parece marcar também a opção definitiva pela permanência em uma estrutura de mundo que conservava da Idade Média exatamente seus elementos mais rígidos e menos frutíferos. É nesse contexto que surge a colônia brasileira, que deveria, em boa medida, vir a sustentar economicamente essa opção. Isto também explica o caráter destacado por tantos historiadores, que vêem, na forma de chegada e posse dos portugueses, um “caráter acentuado de ‘feitoria’, muito mais que colonização”[7]. E uma estrutura de feitoria que reproduz com grande fidelidade as matrizes intelectuais que imperavam na metrópole. Lembremos apenas, a título de ilustração, que a Mesa Censória de Pombal, após a expulsão dos jesuítas, vem, por exemplo, condenar Descartes, não por deficiências de seu pensamento, mas pela prosaica razão de que, no que tange a tal estilo especulativo, tal seria impróprio para os leitores, “porquanto o povo português ainda não está acostumado a ler no seu próprio idioma este gênero de escritos”[8]: pensar é perigoso.
c) Em terceiro lugar, uma leitura em termos de facticidade histórica em termos genéticos: foi a partir destes modelos de implantação que a colonização européia e, por conseqüência, as diversas interações com culturas autóctones ou estrangeiras efetivamente se deu – desde o ponto de vista lingüístico, étnico e das mais variadas produções materiais e culturais subseqüentes, o Brasil atual não é compreensível senão desde esse processo de transplantação tal como concretamente se estabeleceu ao longo do tempo, ou seja, em interação com outros moldes culturais já existentes ou que aqui vieram aportar, como as diversas culturas africanas, por exemplo – interação essa, não obstante, mitigada pelo prévio estabelecimento axiológico do validável e do não-validável no horizonte estreito que se pretende. É apenas desde esta clara parametrização histórica que o Brasil é minimamente compreensível, e não desde parâmetros invariáveis quaisquer.
d) E, em quarto lugar, uma leitura histórico-cultural contemporânea que caracteriza uma tensão cultural e sócio-histórica ex origine e que permanece ao longo de toda a história do Brasil; uma tensão que, reproduzindo em escala própria as grandes tensões da cultura ocidental, apresenta, todavia, facetas bem particulares, que permitem sua análise, até certo ponto, em separado, a qual aqui não desenvolveremos, remetendo ao nosso livro citado.
Como exemplo privilegiado do acima exposto, veja-se que os livros aqui chegados à época da Colônia passavam, todos, pelo crivo dos censores: “...as caixas de livros, vindas da Europa, sempre eram examinadas para o devido crivo. Havia, ainda, uma seleção de leituras. Não se davam a ler a todos, indistintamente, à proporção que iam chegando. Estava determinado que se examinassem antes (e corrigissem) no que tivessem contrário à ‘edificação’ e aos ‘bons costumes’”[9]. Tal fervor censório estendia-se, porém, muito além da preocupação pela pureza doutrinal, abrangendo todo e qualquer tipo de obra impressa, incluindo, por exemplo, livros educativos de toda ordem e clássicos romanos: “...a fiscalização não caía apenas sobre as obras heréticas, ou supostas tais, pois até os livros poéticos sofriam a censura pedagógica colegial. Como havia distinção entre os livros escritos em latim e aqueles que apareciam ‘em romance’, a estes era imposto todo o rigor da mesa censória. Essas medidas era tomada, ao ver de Serafim Leite, ‘pelos devaneios que suscitam em cabeças juvenis’ (sic). Desta forma, podia a Congregação da Bahia, em 1583, propor, à imitação da romana, e sob os aplausos gerais, ‘que se desse alguma emenda (sic) aos escritos de Humanidades de Plauto, Terêncio, Horácio, Marcial e Ovídio’”[10].
            Na verdade, portanto, não se tratava de algum mero zelo evangelizador; o que se trata, isso sim, é de limitar a qualquer custo o pensamento, a partir do estabelecimento de espaços muito estreitos e controláveis onde este deveria se mover. Tal limitação intelectual cuidadosamente cultivada, tal atração pelo mesquinho, deveria, à altura dos estudos superiores, preparar o “apego ao dogma e à autoridade”[11], que deveriam por sua vez caracterizar os eruditos e cabeças pensantes da colônia. Dadas estas circunstâncias históricas – que também devem, naturalmente, ser lidas à luz de seu significado em seu tempo – não é de admirar que o livro pretensamente mais lido no Brasil do século XVIII levasse o pomposo e sugestivo título de Peregrino da América, em que se tratam vários discursos espirituais e morais com várias advertências e documentos contra os abusos que se acham introduzidos pela malícia diabólica no Estado do Brasil, de autoria de Nuno Marques Pereira (1652-1728)[12].
            Este foi, então, o modelo cultural profundamente enraizado no Brasil-colônia e posteriormente e que de forma alguma se pode reduzir apenas ao modo de como os jesuítas, ou outra ordem religiosa, pensavam em favorecer a preservação e incentivo da fé cristã segundo a entendiam. É necessário que se compreenda que se trata de algo muito maior e mais significativo, a saber: de uma matriz de controle intelectual, e não de algum episódio meramente incidental, que tende a se reproduzir continuamente e que deixa suas marcas claras ao longo de toda a história brasileira, justificando intelectualmente em épocas variadas – e, em muitas circunstâncias, na contemporaneidade – todo tipo de desmandos e arbitrariedades, e favorecendo aquele que consideramos o mais funesto e penoso dos vícios intelectuais: a subserviência do pensamento a serviço do conservadorismo estéril e da violência dele advinda[13].
            É na herança imediata do mundo estreito acima descrito que surge a figura de Mauá[14]. Poder-se-ia, aliás, dizer sem receio que tudo o que empreendeu, a somatória infindável de conquistas, aventuras e desventuras que constituiu sua vida, pode ser lida como uma vigorosa contrapartida àquele estado de coisas. A figura empreendedora de longe a mais potente do império configurou-se, como existência, não só em uma resistência à tentação do conservadorismo e do imobilismo, mas como uma reação viva a essas seduções que acometiam os poderosos de então.
Destaque-se, todavia, que tal reação nada teve de sobre-humano. É um homem apenas que, embora já houvesse adquirido “na primavera da vida, por meio de infatigável e honesto labor, uma fortuna que (me) assegurava a mais completa independência”[15], assume, em sua sinceridade extremada, que “travou-se em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração humano, e as idéias generosas que em grau elevado me arrastavam a outros destinos...”[16]. O desviante e paradoxal em sua existência foi o fato de que, apesar de todas as tentações, que pelo quinhão de fortuna que lhe cabia, o maior de todos daquele estilo e justamente por isso o mais tentador, houvesse enveredado pelos caminhos da ousadia idealista, abandonando sua confortabilíssima posição, envolvendo-se em todo tipo de empreendimento, por mais arriscado que pudesse parecer a olhos sensatos:

Numa carta a Reynell de Castro, seu interlocutor preferido nesses assuntos, ele foi claro a respeito de suas pretensões: “Quero construir um império que dure séculos”. E disse com toda clareza o que isso significava: reorganizar completamente seus negócios em torno de uma grande empresa que “levantasse dinheiro na taxa mais baixa do mercado londrino para investir aqui (na América do Sul) em títulos de alta segurança que paguem 2% a 5% mais que as taxas praticadas na Europa”. Essa empresa seria um grande banco de investimentos multinacional – se os termos já tivessem sido inventados. Outra vez Mauá se adiantava ao tempo.[17]



IV

            Os que me julgaram ferido de morte enganaram-se...
 trata-se de restaurar o nome que
 para mim vale cem mil vezes mais que os bens de fortuna.
Visconde de Mauá

A faceta extraordinária da vida de Mauá... é essa enorme desproporção entre suas iniciativas particulares e as do Estado brasileiro. (...) Ele assumia a direção dos planos e o Estado brasileiro aparecia à sua sombra, a fim de fazer-lhe concorrência... Foi assim na questão do Amazonas, foi assim na criação do segundo Banco do Brasil, fundado por ele, e que terminou ficando com o monopólio das emissões, enquanto Mauá possuía sua própria rede bancária...
Lídia Besouchet[18]

            Assim, que a história e os historiadores não se iludam: confundir Mauá com algum barão parasítico devido a vetustas evocações de títulos de nobreza não induz apenas a erros de avaliação do significado do que se trata, mas até mesmo a desvios da possibilidade de aprofundamento da compreensão do mundo no qual viveu e no qual ainda vivemos. Do título, apenas a divisa, que não poderia ser outra – Labor improbus omnia vincit – o trabalho tenaz tudo vence – é o verdadeiro sentido do que se transmite. Numa comunidade cultural marcada pelas interdições explícitas às ousadias em todos os níveis, ainda que modestas – do pensamento e da ação – nada pode ser mais subversivo do que isso. Esta figura sui generis, solitária, desenraizada em inúmeros sentidos, enraizada, em fim de contas, apenas em si mesma, na sua própria autoconfiança e capacidade empreendedora, não poderia senão, de algum modo, sucumbir às invectivas de uma época excessivamente medíocre para ao menos entender de forma consciente o que se passava, a estranha anacronia que havia, por seu aparecer no centro nevrálgico de decisão, tumultuado as águas plácidas do quietismo e da violência surda do sistema escravocrata e da base ideológica que a legitimava. O movente da história se anunciava e se retraía, na figura estranha desse liberal desencontrado de todas as significações de domínio público do mundo de então, realmente compreendido por não mais que meia dúzia de amigos fiéis. É, em suma, todo um espírito desencontrado de um universo de significação que aí está presente. O resultado de sua vida não poderia ser outro: a incompreensão geral e um sofrimento atroz no fim de sua vida[19]. A sobrevivência da família por várias gerações já estava, em princípio, mais que garantida pelo legado de seu filho mais velho Henrique – a ele, bastavam um nome limpo e uma sepultura decente – “bastam-me nove palmos de terra quando Deus quiser”[20]. Incompreensão geral e sofrimento atroz, mas nunca derrota; em 7 de setembro de 1879 – no meio da tempestade –, escreve Mauá a seu genro e amigo Ricardo Ribeiro:

...concluo meus preparativos de viagem para a Europa no mez que vem, para estabelecer em Londres a nova firma de meu filho Henrique em 1. de janeiro (...) Tenho certeza de dar inteira satisfação aos interesses que me foram confiados e acredito que em poucos annos de trabalho que me restão lançarei bases fundas e firmes de operações que meus filhos poderão colocar bem alto se tiverem capacidade (...)[21].


* * *

            Sintetizemos, portanto, as idéias atrás sugeridas. Um universo cultural de referências que fazia profissão de fé na esterilização, já no nascedouro, de tudo aquilo que poderia significar a alteração dos jogos de poder em vigência, a pertinácia persecutória ao questionamento e ao pensamento tout court e à ação dele derivada – o que acima denominamos “a subserviência do pensamento a serviço do conservadorismo estéril e da violência dele advinda”, tem agora no mundo financeiro e industrial, como já tivera e tinha, em outras oportunidades, no mundo literário e filosófico[22], uma figura capaz de realmente ameaçar seus esteios. Não podia ser enfrentado diretamente, mas podia – e foi – corroído em suas bases de sustentação pelo reacionarismo obstinado. Um episódio apenas – a iluminação a gás do Rio de Janeiro, por ele empreendida – bem ilustra a lógica dessa corrosão. Quando da inauguração desse empreendimento, que havia mobilizado muito favoravelmente a opinião pública, logo surge a insidiosa e anônima reação:


Todos os jornais da capital, à exceção talvez do Monarchista, que único soube ser justo, atribuíam ao senhor Irineu as vantagens de ser hoje esta cidade iluminada a gás. Nós, porém, sem que nos cansemos com o senhor Irineu, que decididamente não passou de instrumento, e instrumento guiado pelo móvel do interesse pessoal, consignaremos em nossas colunas algumas linhas do verdadeiro mérito. (...) É do gabinete de 29 de setembro, é ao ilustre ministro da Justiça de então, o sr. Conselheiro Eusébio de Queirós, a quem se deve a execução desta bela idéia e não ao sr. Irineu a quem, se deve alguma cousa, é por falta de execução do contrato, pelo qual se obrigava a que cada bico de gás desse uma luz mais forte que a de Londres, entretanto que ninguém haverá que já tenha estado na capital da Inglaterra, que não conheça que nossos bicos de gás em vez de darem uma luz mais forte dão uma sensivelmente mais fraca. (...) Ao zelo administrativo e a probidade do sr. Eusébio é que portanto se deve unicamente este melhoramento. Esforçar-nos-emos sempre em render as idéias e culto que elas merecem, e por isso não podemos tolerar que se defraude o verdadeiro merecimento, o verdadeiro zelo pelo progresso e interesse público, em favor da especulação. (...) O sr. Conselheiro Eusébio procurando iluminar a cidade a gás teve em vista unicamente o melhoramento deste ramo, o progresso e o bem público, o sr. Irineu nada mais mirou que à especulação, do que ao interesse individual[23]

            A tentativa patética de atribuir à ganância as atitudes de quem disso não apenas não necessitava – era já imensamente rico –, mas lhe era totalmente estranho, bem mostra o calibre intelectual e moral dos autores – os quais, porém, reproduziam fielmente a lógica de funcionamento da reação. Só a espíritos extremadamente mesquinhos e movidos por interesses mais que obscuros poderia ocorrer um argumento por sua vez tão mesquinho. Pois a figura de Mauá – e isso já era mais que notório à época, até mesmo entre seus mais ferrenhos inimigos –, assemelhava-se a um extravagante perdulário e não a um ganancioso:

Pessoalmente, todos os dados biográficos coincidem em que Mauá não amava o dinheiro, e sim a ação. Não estava preso à vida de homem rico e sim aos vultosos empreendimentos que podia realizar. O dinheiro não era para ele um fim, mas um meio. Em inúmeras ocasiões deu prova de desinteresse. Certa vez, devolveu a uma companhia inglesa dez mil libras, dizendo: ‘Não fiz nada. O advogado fez tudo’. Distribuiu entre os empregados de sua primeira estrada de ferro cerca de 200:000$000 pela contribuição por eles prestada. Apadrinhou, indenizou e alforriou centenas de escravos. Saldou sempre as perdas de suas companhias sozinho, sem que seus sócios perdessem um vintém. Tal foi o caso da Estrada de Ferro da Tijuca, em que perdoou ao engenheiro Thomas Cochrane uma dívida de 200:000$000; tal sucedeu com a Companhia de Diques Flutuantes, que por estudos mal feitos deu prejuízo e ele indenizou os sócios; e tal sucedeu com a São Paulo Railway, que pela largueza dos adiantamentos aos empreiteiros foi talvez uma das causas imediatas de sua falência (...) Seu nome figura em todas as tômbolas, loterias, listas de beneficências, muitas vezes até anonimamente, como durante a seca da Bahia, em que doou importância superior à do próprio Imperador. Era administrador e benemérito da Santa Casa de Misericórdia, tesoureiro de todas as comissões criadas na época para auxílio das vítimas da Guerra do Paraguai, da epidemia de cólera, etc.”[24].


Podemos, assim, chegar à raiz da questão: podemos imaginar o quão irritante e ameaçadora terá sido para as elites escravocratas da época o banquete de inauguração do gasômetro do Rio de Janeiro; de fato, nessa ocasião Mauá ofereceu um banquete ao ar livre para oitocentas pessoas, no qual tomaram assento contíguo toda ordem e grau de trabalhadores, dos engenheiros-chefes aos últimos dos empregados... – irritante e ameaçadora a ponto de estas elites escravocratas evocarem, na falta de argumento melhor, no citado artigo jornalístico, a figura de um anti-escravagista notável, o ministro Eusébio de Queirós, como verdadeiro responsável pelo empreendimento, como se isso fosse, de algum modo, descontentar seu bom amigo Irineu, que tanto o admirava!
            Enquanto os proprietários lamentavam a falta de escravos e conspiravam contra leis atenuantes da ignomínia escravocrata, como a própria Lei Eusébio de Queirós de 1850, Mauá implementava administrações participativas e distribuição de lucros para empregados... abstraído o paradoxo epocal desses acontecimentos perfeitamente concomitantes, o que poderia ser mais perigoso do que isso?

* * *

Ordinário versus extraordinário, ou, pela ordem dos fatores, extraordinário versus ordinário: essa parece ser a verdadeira luta civilizatória que se trava, mesmo após a falência de muitos dos sentidos da palavra “civilização”. A um país, muitos crimes serão perdoados; dificilmente serão perdoados, porém, os crimes do esquecimento e da opressão – esquecimento da opressão dos fracos, vítimas benjaminianas da história dos vencedores, e esquecimento daqueles cuja vida não se constituiu, ao fim e ao cabo, senão em crítica radical das lógicas ordinárias, satisfeitas, totalizantes, secularmente bem-assentadas e legitimadoras de opressão. Que se pode esperar de um país que esquece as encruzilhadas históricas que atravessou quando seu destino foi decidido, ao menos para aprender com as hesitações e descalabros da sua própria história? Que não seja este o nosso caso. Que Mauá não seja esquecido: essa é uma das condições para que o Brasil encontre finalmente a si mesmo e ao seu destino humano.


Porto Alegre, novembro de 2007.



Referências

ACERVO particular de cartas e documentos não catalogados de Mauá e descendentes, de Ricardo e Maria Alice Timm de Souza.
BESOUCHET, Lídia. Mauá e seu tempo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
CALDEIRA, Jorge. Mauá – empresário do Império, São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
FARIA, Alberto de. Mauá, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1958.
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO, O Visconde de Mauá (no cincoentenário de seu falecimento), Rio de Janeiro, Imprensa nacional, 1940.
MAUÁ, Visconde de. Autobiografia – “Exposição aos credores e ao público” seguida de “O meio circulante do Brasil”, Rio de Janeiro: Livraria editora Zelio Valverde, 1943 (segunda Edição, de 165 exemplares, prefaciada e anotada por Cláudio Ganns, acompanhada de indicações genealógicas, históricas e bibliográficas e de 30 gravuras fora do texto).
SOUZA, Ricardo Timm de. O Brasil filosófico – história e sentidos, São Paulo: Perspectiva, 2003.



[1] CALDEIRA, Jorge. Mauá – empresário do Império, São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 17.
[2] Idem, p. 17.
[3] Idem, p. 17.
[4] Idem, p. 17.
[5] Idem, p. 32. Tal equivale hoje a cerca de 60 bilhões de dólares norte-americanos.
[6] SOUZA, Ricardo Timm de. O Brasil filosófico – história e sentidos, São Paulo: Perspectiva, 2003.
[7] VITA, L. W., Panorama da filosofia no Brasil, apud SOUZA, Ricardo Timm de. O Brasil filosófico, p. 30.
[8] VITA, L. W. apud SOUZA, Ricardo Timm de. O Brasil filosófico, p. 30.
[9] VITA, L. W., apud SOUZA, Ricardo Timm de. O Brasil filosófico, p. 36.
[10] VITA, L. W., apud SOUZA, Ricardo Timm de. O Brasil filosófico, p. 36-37.
[11] VITA, L. W., apud SOUZA, Ricardo Timm de. O Brasil filosófico, p. 37.
[12] VITA, L. W., apud SOUZA, Ricardo Timm de. O Brasil filosófico, p. 37.
[13] É evidente que, não obstante sua intensidade e pertinácia, tal modelo não conseguiu – e nunca conseguiria – esterilizar os espíritos. Terão havido certamente incontáveis exemplos de inquietude intelectual, a imensa maioria infelizmente submersa no roldão da “história oficial” e ainda aguardando sua devida valorização, caso seja ainda possível detectá-los; alguns porém permanecem, ou são reencontrados contemporaneamente por uma releitura mais lúcida dos fatos históricos, como legítimos representantes de uma inteligência vigorosa que se manifesta em meios extremamente árduos e testemunha ao futuro sua grandeza. Citemos apenas, a título de exemplo, para a época da colônia, duas figuras dessa estirpe: o padre Antônio Vieira com suas Cartas e seus Sermões e Luiz Antônio Verney, o “Barbadinho”, com seu interesse pela modernidade e sua célebre obra Verdadeiro método de estudar. Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. O Brasil filosófico, passim.

[14] Não entraremos aqui em questões biográficas ou dados históricos. Para generalidades biográficas, cf. a obra cit. de L. Besouchet; para sua formação e detalhes de suas atividades como comerciante, industrial, banqueiro e político, cf. a obra cit. de J. Caldeira.
[15] MAUÁ, Visconde de. Autobiografia – “Exposição aos credores e ao público” seguida de “O meio circulante do Brasil”, Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1943, p. 95 – é a primeira frase da Autobiografia.
[16] MAUÁ, Visconde de. Autobiografia – Op. cit., p. 96.
[17] CALDEIRA, Jorge, op. cit., p. 417.
[18] Op. cit., p. 73.
[19] Tentando consolar seu sobrinho Ricardo Daisson de Souza da perda de um filho de 17 anos de idade, escreve-lhe sua filha Irene em carta de 10 de julho de 1931: “...procure reler a biographia de seu avô... Só fala da sua (de Mauá) vida publica, é verdade, mas seus sofrimentos foram enormes... Os desgostos de família ainda foram maiores e elle sofreu-os todos com a maior resignação e coragem...” (ACERVO particular de cartas e documentos não catalogados de Mauá e descendentes, de Ricardo e Maria Alice Timm de Souza).
[20] É importante que se note, como bem ressalta Lídia Besouchet, que a falência de Mauá lhe chegava “não pela ruína de seus negócios, mas por uma injusta aplicação da justiça” (Op. cit., p. 171); a saber: “...o Tribunal Superior de Justiça julgou seu recurso contra a decisão do tribunal paulista e deu sua sentença sobre a Santos-Jundiaí. Oito anos depois de sua primeira decisão favorável, os juízes examinavam de novo a mesmíssima questão que já haviam decidido em 1869 – poderia a causa ser julgada no Brasil? – e chegavam a uma conclusão oposta à primeira. Por unanimidade, deram ganho de causa à ferrovia...” (CALDEIRA, Jorge, Op. cit., p. 520). Saliente-se que “Mauá era imensamente rico e muitos de seus bens e propriedades estavam fora do território nacional e podiam facilmente escapar ao controle judicial. Sequer pensou nessa hipótese. A quitação dos credores que haviam depositado nele toda confiança tornou-se quase uma obsessão. ‘Só deixarão de ser pagos até o último minuto da última hora do último pagamento que se deve, se, empenhando a camisa do corpo, o chapéu e as botas de montar, isso não se puder conseguir’, declara com obstinado orgulho” (BESOUCHET, Lídia, Op. cit., p. 171). “Colhido na armadilha das leis, dos prazos jurídicos, das legislações defeituosas, das chicanas de advogados administrativos que pululavam na época, Mauá só tem em mente indenizar seus credores, pagar a todos aqueles que confiaram na palavra dada, salvar sua reputação, seu nome, sua honra comercial” (BESOUCHET, L., Op. cit., p. 175). Por outro lado, a morte o colheu reabilitado moralmente, porém esgotado física e espiritualmente: “...fomos hontem desagradavelmente surpreendidos pela notícia do falecimento de nosso Sogro (...) sirva-nos de lenitivo nos lembrarmos em tão triste era a vida que elle levava; taes erão seus sofrimentos que elle mesmo mil vezes preferia morrer (carta de 22 de outubro de 1889 de Tito Ribeiro, filho de Ricardo J. Ribeiro, gerente do banco Mauá e genro de Mauá, à sua cunhada Amélia Daisson - ACERVO particular de cartas e documentos não catalogados de Mauá e descendentes, de Ricardo e Maria Alice Timm de Souza).
[21] Carta de Mauá a Ricardo Ribeiro, 7 de setembro de 1879, ACERVO particular de cartas e documentos não catalogados de Mauá e descendentes, de Ricardo e Maria Alice Timm de Souza. As palavras grifadas encontram-se sublinhadas no original, um hábito recorrente de Mauá em sua escrita, dando testemunho de uma escrita enfática e pouco protocolar.
[22] Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. O Brasil filosófico – história e sentidos.
[23] Jornal Ilustração Brasileira, apud CALDEIRA, Jorge, Op. cit., p. 290. Lembremos, por outro lado, que Eusébio de Queirós foi bom amigo de Mauá; cf. BESOUCHET, Lídia, Op. cit., p. 61: “Seus laços de amizade com Eusébio de Queirós e outros abolicionistas destacados demonstram a ligação estreita que sempre manteve com os elementos anti-escravagistas. Numa época em que o preconceito contra o escravo era ainda muito forte, Mauá firmava contratos com seus fornecedores europeus estipulando em determinadas cláusulas ‘não empregar o braço escravo’”. A sua coerência se expressa nesse testemunho pessoal de Gabriel Terra, presidente do Uruguai: “Fui testemunha de uma cena que me ficou gravada no espírito, tão certo é que se fixam com intensidade as fortes impressões da infância. Como criado de minha casa, havia um negro, um dos muitos que Mauá libertara antes da abolição da escravatura, que, ao ver chegar seu benfeitor, correu para ele e, curvando-se, quis beijar-lhe a mão. Bem me recordo a rapidez com que se evitou esse gesto humilhante e deprimente, levantando Mauá em seus robustos braços aquele que continuara sendo escravo pelo impulso do atavismo, para abraçá-lo de igual para igual, até que o negro inclinou a cabeça sobre seu ombro e chorou convulsivamente. Tive a intuição do que significava aquela cena, cujo verdadeiro alcance compreendi somente depois, ao continuar o caminho de minha existência”. (Cit. por Gustavo Barroso, em Conferência realizada no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 23 de outubro de 1939, in: INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO, O Visconde de Mauá (no cincoentenário de seu falecimento), Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1940, p. 62). Ainda: “desde 1838 (aos 25 anos de idade, R. T. S.) ganhou a má vontade dos senhores de escravos com a fama de bandeira de misericórdia que lançaram ao apadrinhador de negros fugidos na mata do Curvelo; em 1850, como um grande auxiliar de Eusébio de Queirós na repressão do contrabando de carne humana; e daí por diante, nas suas manifestações expansivas de pensamento e nos atos de liberalidade de inúmeras alforrias de escravos. Suas objurgatórias contra a propriedade maldita, a exploração do homem, a nefanda escravidão, são acompanhadas de uma propaganda tenaz desde 1853 pela imigração branca que deveria substituir o braço escravo; fundou em 1855, no Amazonas, uma colônia de 600 açorianos e em 1857 outra de 500 algarvianos e em 1872 estabeleceu nas suas fazendas de Atalaia em Macaé 200 hindus vindos à sua custa das ilhas Maurício, e 100 na sua fazenda de Sapopemba, a poucos quilômetros da capital” (FARIA, Alberto de. Mauá, p. 90-91; também em BESOUCHET, L., Op. cit., p. 60-61 – ressalte-se que as fazendas de Sapopemba e Atalaia foram as primeiras a utilizar arados mecânicos no Brasil).
[24] BESOUCHET, Lídia. Op. cit., p. 165-166.

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