MÁQUINA DO TEMPO



A MÁQUINA DO TEMPO E O PULSAR DOS TEMPOS INQUIETOS - H. G. WELLS REVISITADO, CEM ANOS DEPOIS*


Ricardo Timm de Souza

Como Introdução


Uma Enciclopédia considerou as obras iniciais do notável escritor inglês Herbert George Wells, nascido em 1866 e morto em 1946, melhores que as finais, contaminadas por discursividade oca e excessivo didatismo[1]. Entre estas obras iniciais, conta-se o romance estranho e memorável A máquina do tempo[2], o qual completou um século em 1995. A estranha pulsação deste curto romance - ao qual não faltam nenhum dos componentes de um grande romance "normal", incluindo a liberdade criativa sem limites, a gestação de um mundo paralelo de componentes relevantes e a belíssima e particular lógica interna de seu discurso - acopla-se de forma especialmente sugestiva às inquietudes dos tempos presentes: enraíza-se, melhor dizendo, à sua essência. Sua dinâmica pouco colorida, apesar de tudo pouco inusitada - dada a matéria-prima que constitui o romance (o que não se faria com ela nestes tempos de luzes e cores desmedidas e de computadores espertos, demasiado espertos!) - reconduz ao rompimento da ordem suave das coisas, coloca realidades possíveis frente a quem lê, abstrai do tempo descrito ao enunciá-lo. A lógica da inexorabilidade dos fatos substitui, neste romance, qualquer espírito de esperança; a esperança perde-se no tempo, não consegue acompanhar a velocidade que a Máquina do Tempo desenvolve até chegar ao ano 802.701. Mas todos os anos, estes anos longos e pouco compreensíveis, inverossímeis em sua cadeia infinita, concentram-se em um presente próprio, para além de todos os anos, antes de todos os anos: paralisia no topo dos tempos, tempos bem reais e anti-messiânicos, completamente ofuscados pela solidez, tão anti-naturais para a ordem natural do desejo de conciliação! Mas vivem, estão aí, transbordam sua realidade descoberta pela Máquina do Tempo.

A Máquina do Tempo não é, em sentido próprio, um romance "profético": a essência de sua mensagem não se encontra no ano 802.701, mas no presente nebuloso a que todos sobrevivemos. Trata-se, em suma, de um poema cósmico, sem idade, ancorado na atemporalidade de uma situação que, artisticamente antevista nos tempos de Wells, é hoje dada à análise da contemporaneidade. Em A Máquina do Tempo, o tempo torna-se escravo de uma cisão da realidade: ali, nem tudo o que é sólido desmancha no ar.




A viagem


O Viajante do tempo descobriu a fórmula de interpenetração das dimensões; utilizou-a para criar uma máquina especial, capaz de percorrer o tempo como outras percorrem o espaço. O livro é principalmente a narrativa da grande viagem que empreendeu a um futuro extremamente longínquo - mais de oitocentos séculos a contar do presente.

O Viajante está, antes da viagem, imbuído de muitas esperanças - certamente encontrará, pensa, um desenvolvimento incalculável em relação às nossas concepções e ao nosso primitivismo. É impossível, em sã consciência, projetar os resultados de centenas de séculos de progresso. A esperança de vislumbrar estas maravilhas o faz correr todos os riscos - e, efetivamente, empreende a viagem.

Mas, ao chegar abruptamente ao tempo de suas aventuras, não pode perceber, em realidade, senão vestígios de uma era de grandezas já passadas - "...uma figura gigantesca, talhada em algum tipo de pedra branca... Era de fato colossal, pois a cópia de uma bétula mal lhe chegava aos ombros. Feita de mármore branco, representava algo como uma esfinge alada... O pedestal parecia de bronze e estava coberto de azinhavre. Por acaso a Esfinge tinha o rosto voltado para mim, e seus olhos cegos pareciam fitar-me..."(30)[3]. Apenas uma estátua, a desafiar os tempos, domina um amplo espaço; signo de intemporalidade, estava porém já carcomida pelas intempéries, "e daquele estrago vinha a desagradável impressão de que fora corroída por uma doença"(30). A glória daquele presente distante não está representada pela esfinge - também ela é uma promessa de eternidade não cumprida. Está apenas a dominar uma paisagem repleta de grandes edifícios, todos decadentes, "de intrincados parapeitos e altas colunas"(30).

Até ali, apenas construções maciças habitavam a paisagem natural; ao observar melhor, porém, o Viajante percebe estar sendo observado por várias criaturas, desde a janela de um dos edifícios, e outras se aproximam dele. "Um deles emergiu no atalho que conduzia... ao local onde eu me encontrava com a máquina. Era uma criatura franzina... O aspecto desta criatura impressionou-me: era muito bela e graciosa, mas extremamente frágil..."(31-32). A criatura, fitando-o nos olhos, riu e não demonstrou absolutamente nenhum temor; como seus companheiros, era totalmente frágil, "de uma delicadeza natural, uma espontaneidade infantil"(33).

As tentativas de comunicação, entretanto, são penosas. As criaturas chegam enfim à conclusão de que o Viajante viera do sol em um trovão. "Fiquei estupefato, embora o sentido daquele gesto fosse bem claro. Abruptamente, uma dúvida se formou em meu espírito: seriam loucas essas criaturas? Vocês não podem imaginar como essa idéia me abalou. Sempre acreditei que no século 800 e pouco a humanidade estaria infinitamente à nossa frente em conhecimentos científicos, artes e tudo o mais. De repente, uma criatura dessa época me fazia uma pergunta que a colocava no nível de uma criança nossa de cinco anos"(34).

Alguma coisa está errada, mas o Viajante ainda não sabe bem o que é. Por enquanto, terá tempo para gozar de suavidades - "logo puseram-se a correr para aqui e para lá em busca de flores, que atiravam, rindo, sobre mim, de modo que em pouco fiquei literalmente sepultado. Vocês... dificilmente podem imaginar as flores delicadas e maravilhosas que séculos e séculos de cultivo haviam produzido"(34-35). As flores, símbolos da suavidade, são praticamente onipresentes naquele mundo do futuro; elas conduzem a um apaziguamento do atrito com as arestas com a realidade e conduzem à calma de um colorido estimulante. A Ordem nunca estivera tão visível ao Viajante como naquele suave contraponto de criaturas delicadas e pétalas suavíssimas.

As tentativas de aprender a língua dos novos amigos que o Viajante intenta, ao compartilhar com os seres suas refeições - constituídas exclusivamente por ótimas frutas - são recebidas, a princípio, simplesmente com hilaridade: é um povo sem curiosidade. Após muito esforço, o viajante consegue que compreendam seu intento, mas a tarefa de ensinar-lhe o nome das diversas frutas é muito fatigante para as delicadas criaturas - "...jamais encontrei um povo tão indolente e que se fatigasse tão depressa... Logo descobri uma coisa esquisita a respeito dos meus pequenos hospedeiros: sua falta de interesse por tudo"(37-38).

Eis aí, portanto, uma espécie de paraíso, mas um paraíso manchado de ruínas, com criaturas belas mas assexuadas, formando uma multidão perfeitamente homogênea - "No trajar, e em todas as características e maneiras que hoje distinguem os dois sexos, essas criaturas do futuro eram exatamente iguais. As crianças, por sua vez, pareciam-me simples miniaturas de seus pais"(39). Não havia habitações individuais - "Toda a terra se tornara um único jardim"(41). "Eu via a humanidade alojada em magníficos prédios, luxuosamente vestida, e não havia encontrado ninguém entregue ao duro trabalho braçal. Não havia sinal de luta, nem social nem econômica... Pensei na delicadeza física das pessoas, na sua falta de inteligência, naquelas imensas ruínas por toda parte, e isso fortaleceu minha crença de que a Natureza havia sido inteiramente conquistada. Pois depois da batalha vem o repouso"(42-43). Assim, para o Viajante, em uma primeira explicação que ele se concede, no cerne de toda esta beleza e suavidade vem a decadência - "Mesmo (o) impulso artístico acaba por morrer - e estava quase morto no Tempo que eu visitei. Enfeitar-se de flores, cantar, dançar ao sol, era tudo o que restava das manifestações artísticas"(43): leves manifestações de vida. Decadência. Mas não qualquer decadência: algo de inelutável, inquietante, ruinoso, visceral, intrinsecamente em decomposição. O contraste brutal entre as portentosas construções e a fragilidade geral das criaturas dá o que pensar - algo está errado na lógica das previsões do Viajante. A ausência de luta de qualquer tipo sugere algo ainda indefinível, diferente da paz verdadeira.

Mas a noite está chegando, e com ela inquietudes diversas. O Viajante percebe, com inenarrável horror, que alguém escondeu a máquina: sente-se perdido e abandonado em uma época incompreensível. É dominado pelo desespero, mas um estranho silêncio faz contraponto com suas imprecações - "gritava e ninguém me respondia. Ninguém parecia mover-se naquele mundo iluminado pela luz da lua"(46). Uma estranha ausência de vida - apesar da vida - cobre a terra, uma atmosfera desesperadora de indiferença e mau mistério. No dia seguinte, quando o Viajante acorda e, novamente lúcido, tenta interpelar as criaturas acerca da máquina, não obtém nenhuma resposta aproveitável. "Nenhuma delas entendia meus gestos. Algumas simplesmente me olhavam com ar estúpido, outras julgavam que era uma brincadeira e punham-se a rir. Tive de fazer o maior esforço de minha vida para não bater nesses delicados rostos sorridentes"(48-49). O mundo das criaturas do futuro era um mundo sem gravidade, não sério, uma flutuação na futilidade, uma vida sem espessura vital; apenas, aparentemente, um espontâneo emaranhado de cores.

Este mundo apresenta, porém, alguns mistérios consideráveis. Quem subtraíra a máquina ao Viajante, já que seus amigos eram física e intelectualmente incapazes disso? Porque fizera isto? O Viajante percebe que a máquina está escondida no pedestal oco da Esfinge branca. Que tipo estranho de inteligência havia monitorado esta decisão? Ao tentar obter respostas sobre o pedestal, a reação das criaturas a suas indagações é inquietante - variava do horror e repugnância à sensação de ofensa. "Não saberia descrever para vocês a expressão de seus rostos. Para usar uma comparação, era como se eu tivesse feito gestos obscenos a uma senhora de respeito"(49). Existe, portanto, obscenidade no mundo do futuro, apesar de todas as aparências em contrário. Mas, de que tipo? A linguagem das criaturas é muito elementar para poder expressá-lo: estão reduzidas ao mundo das elementaridades concretas - "a língua daquelas criaturinhas era excessivamente simples - compunha-se, quase que só, de substantivos concretos e de verbos. Havia poucos termos abstratos, se é que os havia, e empregavam muito pouco a linguagem figurada"(51). O viajante percebe algum tempo depois que "nem a simples idéia da existência da escrita ... (lhes) passara algum dia pela cabeça"(77). A linguagem das doces criaturas seria incapaz, portanto, mesmo que o quisesse, de expressar a inteligibilidade dos subterrâneos daquele mundo. Pois este mundo de doçura tinha subterrâneos: "um aspecto singular, que logo me atraiu a atenção, foi a presença de certos poços circulares, alguns deles, ao que me pareceu, de grande profundidade... Mas em todos eles (eu) ouvia um ruído, um ronco surdo e ritmado, como o de uma grande máquina"(52). Uma grande máquina, uma máquina ritmada e lógica, povoa talvez o subsolo daquela paz aparente, uma máquina que produz um rumor contínuo em um ritmo constante, que não é, naturalmente, o ritmo do mundo de cima. O que, afinal, os separa de forma tão intensa? Tudo indica que um mundo paralelo corre nos subterrâneos - "...formulei a hipótese de um extenso sistema de ventilação subterrâneo, cuja verdadeira utilidade eu não conseguia discernir..."(52-53). O Viajante percebe que, seja o que for, sugere uma inquietante "impressão de uma organização automática"(53) - e a esta impressão se junta uma perplexidade: "entre essa gente não havia ninguém que fosse velho ou enfermo"(53). A inquietação ocupa todos os espaços da mente do Viajante; afinal, qual a lógica deste estranho mundo? Embora se vestissem bem, as pequenas criaturas "...não revelavam nenhum indício de pendores criativos. Não havia lojas, nem oficinas, nem sinal de atividades de importação. Passavam o tempo todo brincando despreocupadamente, tomando banho no rio, fazendo amor meio na brincadeira, comendo frutas e dormindo. Eu não conseguia descobrir a maneira como a engrenagem era mantida em funcionamento"(54).

Os fatos estranhos se sucedem. Algum tempo depois, o Viajante vem a conhecer sua melhor amiga de uma forma inusitada. Ao tomar banho no rio, uma das criaturas quase se afoga - "Vocês poderão formar uma idéia da estranha alienação dessas criaturas quando eu lhes disser que nenhuma delas fez a mais leve tentativa para salvar a companheira que gritava e estava se afogando diante de seus olhos"(54). Eis aí um contraste estranho: por um lado, demonstrações contínuas de afetividade, carícias e suavidade; por outro, uma profunda indiferença com relação ao valor essencial da vida de seu semelhante, uma superficialidade chocante que, como tudo neste mundo estranho, conduz a uma impressão de intensa inquietação por sua aparente falta de lógica, principalmente para alguém que, como o Viajante, esperaria haver encontrado no futuro extremamente distante uma organização lógica perfeitamente impecável e totalmente imunizada contra contradições tão gritantes. Mas o Viajante sente que há, sim, uma lógica; porém, qual é ela realmente?

O Viajante salva a criatura das águas e, depois, recebe dela, para seu espanto, as mais efusivas demonstrações infantis de amizade; descobre que as criaturas eram, ainda, potencialmente capazes de se interessar por algo fora de si, mesmo que de uma forma absolutamente pueril. Em sua doce vida, haveria talvez um pequeno espaço reservado para a novidade? Qual o nível de profundidade - ou a falta de profundidade - que esta flutuante puerilidade trairia?

O certo é que havia o Medo. "Foi também através dela que descobri que o medo ainda não havia desaparecido da terra. Durante o dia mostrava-se tranqüila e tinha em mim a mais irrestrita confiança... Mas ela temia o escuro, temia as sombras, temia tudo o que fosse preto. As trevas eram para ela a única coisa apavorante. Era um sentimento arraigado..."(56).

Medo de quê? O Viajante, certa noite, percebe que algo havia estado no quarto em que dormia. Olhando para fora, parece divisar "uma criatura branca, simiesca, correndo sozinha pela encosta; e uma vez, perto das ruínas, vi um grupo carregando um volume escuro. Eles se moviam com muita pressa... 'Devem ser espíritos', falei com meus botões. 'Imagino como devem ser velhos!'"(57). Espíritos de um passado infinitamente distante, vagando fora de seu espaço? Figurações de medos ancestrais? Antes, conclui o Viajante pouco dado a elucubrações sobrenaturais, seriam criaturas concretas, furtivas, esbranquiçadas. Mas quem? Ou o quê?

O viajante logo encontraria respostas para essas perguntas. Certo dia, depara-se com uma galeria escura; ao penetrá-la, encontra uma "estranha figura que lembrava um macaco, a cabeça abaixada de uma forma peculiar... sua pele era de uma brancura cadavérica, os olhos grandes e de um cinzento avermelhado; tinha uma cabeleira comprida, cor de palha"(59) - o contraponto exato da beleza das criaturas da superfície. Ali não havia suavidade alguma, somente feiúra, repulsa, pressa, escuridão. Finalmente, o Viajante atina com a finalidade dos poços circulares: é por ali que a repugnante criatura se esgueira com rapidez. Um habitante das profundidades.

O Viajante tem então uma intuição singular: "o Homem não se tinha conservado em uma única espécie, mas se dividira em dois animais distintos. Aquelas graciosas crianças do Mundo Superior não eram os descendentes exclusivos de nossa geração. Também essa Coisa esbranquiçada, imunda e noturna, que eu vira de relance, era herdeira de todas as épocas anteriores"(59). Eis aí, portanto, algo inusitado: duas espécies humanas herdeiras de uma só espécie! Mas não apenas duas espécies: dois grupos ao que tudo indicava totalmente inimigos, como talvez tenham sido inimigas as hordas de hominídeos pré-históricos. E o grupo subterrâneo desenvolvera ao máximo o potencial, já verificável em nossa época, de se viver em subterrâneos, em passagens, escritórios e restaurantes no subsolo. Mas, na consideração do Viajante, esta adaptação não se dera por livre vontade: o povo subterrâneo era herdeiro dos Operários, enquanto o povo da superfície era herdeiro dos Ricos. Pois "não é verdade que, já em nossos dias, o operário dos bairros pobres vive em condições tão artificiais que praticamente não tem acesso à superfície natural da terra?"(62). Ao longo do tempo, a distância entre os Ricos e os Pobres aumentara infinitamente - "na superfície os Ricos, sempre em busca dos prazeres, do conforto e da beleza; e embaixo os Pobres, os Operários, adaptando-se ininterruptamente às condições de seu trabalho"(62).

Assim estaria constituído, portanto, o mundo perfeitamente cindido do futuro: "O triunfo absoluto da Humanidade... não tinha sido, como eu imaginava, uma vitória da educação moral e da cooperação geral. O que eu via , em vez disso, era uma autêntica aristocracia, armada de uma ciência perfeita e agindo para levar a uma solução lógica o sistema industrial de nossos dias. Seu triunfo não tinha sido apenas sobre a Natureza, mas sobre a Natureza e o próximo"(62-63). Embaixo habitavam os lívidos Morlocks, obrigados a prover o povo da superfície de tudo o que precisavam, sob pena de serem sufocados pela obstrução das torres de ventilação; sobre a superfície, controlando-os perfeitamente, os belos Elois, absolutamente despreocupados de todas as necessidades materiais.

Mas alguma coisa estava errada nesta teoria. Pois havia o Medo, e este não era pequeno na vida dos Elois, antes era absolutamente decisivo em todas as suas ações quando a noite se aproximava. "Então sobrevieram dúvidas inquietantes. Por que tinham os Morlocks levado minha Máquina do Tempo? Pois estava certo de que tinham sido eles. E por que, se os Elois eram os senhores, não podiam devolver-me a máquina? Por que tinham tanto medo da escuridão?"(63).

Quem seriam realmente estes Morlocks? "Eu sentia invencível repugnância por aqueles seres pálidos. Tinham exatamente a mesma cor esbranquiçada dos vermes e dos animais que são preservados em álcool nos museus de zoologia. Eram de uma frialdade repulsiva ao tato"(64). Fossem quem fossem, acenderam no Viajante a chama de temores ancestrais, indefinidos mas intensos - "Uma ou duas vezes assaltou-me uma sensação de profundo terror para a qual não encontrava razão definida... ocorreu-me que, dentro de poucos dias, seria lua nova, e então seriam mais numerosas as aparições dessas desagradáveis criaturas subterrâneas, desses Lêmures brancacentos, desses novos bichos que haviam substituído os antigos"(64). Embora os seres da superfície houvessem mantido as suas linhas humanas originais e até tornado-as mais sutis, os seres subterrâneos haviam aparentemente perdido toda e qualquer face de humanidade e degenerado à forma de animais repelentes. Só isto bastaria para distingui-los claramente: uma distinção absoluta. Mas ainda maior era a distinção que aparecia ao Viajante: os Elois eram portadores do Conhecido, mas os Morlocks em seu esgueirar-se pelas sombras ameaçavam com o Novo, uma relação indecifrável. E um Novo especialmente ameaçador.

O viajante, porém, não se pode deixar intimidar. Sabe que só terá chance de recuperar a Máquina do Tempo se decifrar o mistério das profundezas da terra, descendo através de um dos poços de ventilação. E é o que faz, apesar dos protestos desesperados de Weena - assim se chamava sua pequena amiguinha que ele salvara do afogamento.

E, ao descer pelo poço, acaba tendo contato com as repelentes criaturas das profundezas, aqueles seres de espavento que viviam "...numa escuridão que para mim era impenetrável"(67), seres das trevas, flácidos repositórios de medos primevos. Mas eles não tinham nenhum medo do viajante, apenas da luz que emanava dos fósforos. Eram, em tudo, diferentes dos seres da superfície - "Experimentei chamá-los para junto de mim, mas a língua deles, ao que tudo indicava, era diferente da falada pelos habitantes do mundo de cima"(67).

O Viajante segue sua investigação, apesar de todos os receios, e vai dar em uma "enorme caverna abobadada... grandes vultos, como de enormes máquinas, surgiam da escuridão e projetavam sombras negras e grotescas, nas quais os Morlocks espectrais se escondiam da luz... O lugar... era abafado e opressivo, e havia no ar o cheiro nauseante de sangue recém derramado. Pouco mais abaixo do centro do círculo iluminado, havia uma pequena mesa de metal, com o que me pareceu uma refeição. Os Morlocks, portanto, eram carnívoros!"(67). Sim, os Morlocks eram carnívoros, e apreciavam a carne crua; "aquela raça repugnante tinha qualquer coisa de inumano e de maligno"(70). O Viajante medita como teria sido possível um tal desenrolar de coisas ao longo da evolução - ou da involução - da espécie humana. "...pensei no Grande Medo que separava as duas espécies, e pela primeira vez, com um estremecimento súbito, tive a clara noção de qual devia ser a procedência da peça de carne que eu havia visto"(75).

Eis aí o fim das ilusões dos milenios. "Busquei resguardar-me do horror que me invadia, pois tudo isso me parecia um castigo rigoroso do egoísmo humano. O homem se dispusera a viver folgada e deleitosamente à custa do trabalho do próximo, tomara a Necessidade como senha e desculpa, e com o passar dos séculos a Necessidade se apresentara também a ele"(76). Fechados em si mesmos, os poderosos haviam degenerado em mero alimento dos outrora dominados. Mas haveriam ainda testemunhos deste doloroso processo em algum lugar? Haveria algo ainda vivo a remeter a uma racionalidade há muito atrofiada?

O Viajante, acompanhado por Weena, parte, em temerária viagem, em direção a uma portentosa edificação que avistara em uma de suas excursões. Era uma espécie de Palácio de Porcelana verde, "deserto e em ruínas... A grande porta estava aberta e caindo aos pedaços...À primeira vista parecia um museu. O piso estava coberto de espessa camada de poeira e uma imensa quantidade de objetos heterogêneos estava sepultada sob igual camada de pó"(77). Como conceber algo mais antigo que um museu em escombros? O passado daquele tempo inquietante já era, definitivamente, inencontrável. Nenhuma das peças do acervo do museu - com exceção de alguns pequenos objetos - estava suficientemente conservada para servir ainda de testemunho de algo. "Fragmentos enrugados e enegrecidos do que deviam ter sido animais empalhados, múmias exsicadas dentro de frascos que um dia continham álcool, montículos de poeira escura em que as plantas se haviam transformado; e era tudo!"(79). Mudo pó de séculos, expressando apenas uma racionalidade extinta. Também ali, como entre os Elois, nenhum fragmento de discurso era captável, nenhum presente existia, apenas sombras quase desfeitas de um passado irrecuperável - "...globos brancos, muitos deles rachados ou semidestruídos... massas enormes de máquinas gigantescas, todas já muito corroídas e muitas quebradas, mas algumas quase perfeitas"(79) - e, não obstante quase perfeitas, ininteligíveis para o Viajante.

Onde estava então o espírito e sua profusão de promessas? Onde estava o progresso inelutável que deveria haver acontecido segundo as mais claras especulações do século XIX - o século do Viajante? Talvez em alguma Biblioteca?

Mas a Biblioteca, finalmente encontrada no labirinto do Palácio de Porcelana Verde, enterrou as esperanças finais do Viajante. "...Saí dessa galeria e entrei noutra, ainda maior, e que ao primeiro relance me lembrou uma capela militar cheia de bandeiras esfarrapadas. Mas logo reconheci o que eram aqueles trapos esfarrapados: restos de livros apodrecidos. Tinham desde muito caído em pedaços e não se via neles o menor vestígio de impressão... o que provocou o maior choque no meu espírito foi a constatação do enorme desperdício de trabalho que essa melancólica floresta de livros podres testemunhava"(81). A cultura e a civilização transformadas em cinzas, sem sobreviventes, assumindo a dimensão exata das ambições e manias de grandeza dos homens do século XIX. Onde estava tudo isso? Quem seria seus herdeiros mais legítimos: os tolos Elois ou os hediondos Morlocks? Em nenhum dos dois casos algo mais que a brutalidade - de espírito, no primeiro caso, de instintos, no segundo -, era visível. Nada da naturalidade animal: apenas o hediondo de um degenerado animal sem linguagem, sem intensidades senão a do medo ou da voracidade, um animal que perdera a chance - irremediavelmente passada - de não ser apenas um animal.

O Viajante empreende o caminho de volta, sempre acompanhado por sua amiguinha, ou carregando a fiel Weena. O caminho é longo e ameaçador; mas ele contava, agora, com os fósforos e a cânfora que havia descoberto e que, ao produzir fogo, repeleria os inevitáveis ataques de Morlocks que se avizinhavam. A idéia de construir uma fogueira, porém, acaba por incendiar a densa floresta em que se encontravam; e o Viajante, agora só - já que a pobre Weena perecera certamente em meio às chamas rápidas que envolviam o mato seco ao encalço do Viajante -, assiste a uma cena indescritível: o desespero infinito do bando de seres subterrâneos, cegos pela claridade flamejante, a ser devorado pelo fogo cada vez mais próximo que os havia cercado em uma colina - "o mais fantástico e pavoroso espetáculo que me foi dado ver nessa época futura... aquele bando estranho e incrível de criaturas cegas, que tateavam para cá e para lá, soltando grunhidos apavorados cada vez que o clarão das chamas incidia sobre elas... Durante a maior parte dessa noite, quis acreditar que tudo não passava de um pesadelo. Dei mordidas em mim mesmo e gritei, na ânsia desesperada de acordar... Por várias vezes vi um Morlock abaixar a cabeça, numa espécie de agonia, e atirar-se às chamas"(90). Uma espécie de Apocalipse ao contrário, sem nenhum sinal de triunfo: apenas o desespero e a extinção.

* * *

O Viajante, agora despido do resto das ilusões que pudesse haver conservado até então, empreende, sem a companhia apesar de tudo reconfortante de Weena, a difícil viagem de volta até a Esfinge Branca, onde pretende recuperar a Máquina do Tempo. "Eu compreendia agora o que estava escondido por baixo de toda essa beleza do mundo exterior. Muito agradável era o dia dos Elois, tão agradável como o dia do gado na pastagem. Como o gado, não conheciam inimigos e tinham quem lhes provesse a todas as necessidades. E o fim deles era o mesmo... Doeu-me n'alma pensar quão breve fora o sonho da inteligência humana. Ela se suicidara..."(92).

Neste entremeio, no entanto, algo de racionalidade se havia conservado. Certamente não entre os tolos Elois; antes nos Morlocks. Mas em que nível? Sob que forma real, para além de seus instintos canibais? Onde repousava a base inteligível daquele mundo decadente e horrível?

Mas cumpre recuperar urgentemente a Máquina. O Viajante, planejando adentrar à força o pedestal onde esta fora certamente escondida, tem porém, ao se aproximar da Esfinge, uma grande surpresa. As portas, abertas, convidavam a entrar. "Havia no interior um pequeno compartimento e, a um canto, sobre uma parte mais alta, estava a Máquina do Tempo"(94). Mas "um súbito pensamento me atravessou o espírito, quando me abaixei para entrar. Dessa vez, pelo menos, eu adivinhara as maquinações dos Morlocks. Contendo uma grande vontade de rir, entrei no compartimento e caminhei até a Máquina do Tempo. Fiquei surpreso ao ver que ela tinha sido cuidadosamente limpa e lubrificada... Então, o que eu esperava aconteceu. Os painéis de bronze subiram repentinamente e fecharam-se com uma batida brusca. Estava no escuro - apanhado na armadilha. Assim pensavam os Morlocks"(94). Os Morlocks, portanto, ao contrário dos Elois, ainda pensavam. Aí estava a evidência insofismável: a racionalidade não havia desaparecido totalmente da terra: tinha agora desagradável domicílio em um bando de seres asquerosos, prontos a usá-la para conseguir seus objetivos abjetos. A racionalidade não tinha, portanto, a ver necessariamente com as projeções da civilização, e o decorrer de um tempo quase infinito não trouxera consigo um progresso infinito; a racionalidade não era mais, na profundidade desses desagradáveis tempos de decadência, do que uma ferramenta de sobrevivência de uma horda indescritível.

Porém, após uma última e mais difícil luta corporal com aqueles seres da escuridão, o Viajante do Tempo consegue, a muito custo, pôr a Máquina em funcionamento, e mergulha freneticamente na direção de um futuro ainda mais remoto.

* * *



ocaso


O Viajante segue em sua viagem sem fim. Após haver escapado dos escabrosos Morlocks, sua direção é um futuro inconcebivelmente distante. Ao fim desta segunda etapa da viagem, os movimentos solares se haviam alterado substancialmente - "Por fim, um crepúsculo contínuo baixou sobre a terra, um crepúsculo apenas interrompido esporadicamente, quando um cometa cortava com seu brilho o céu escuro. A faixa de luz que indicava o sol havia, desde muito, desaparecido. Pois o sol tinha deixado de se pôr - simplesmente subia e descia a oeste, e seu disco se tornara mais largo e mais vermelho. Não havia mais nenhum vestígio da lua. O movimento circular das estrelas, cada vez mais vagaroso, dera lugar ao aparecimento de furtivos pontos de luz. Finalmente, pouco antes do momento em que parei, o sol, vermelho e enorme, se imobilizara sobre o horizonte - vasta abóbada brilhando com um calor morno e de vez em quando se apagando momentaneamente"(97).

O Viajante encontra, agora, desolação. "A terra entrara em repouso, com uma das faces constantemente voltada para o sol..."(97). As energias se esvaem. O ar, rarefeito. Formas de vida, apenas imensos caranguejos rastejantes e ameaçadores e plantas lembrando líquens e musgos, plantas e animais de crepúsculo. A terra, o mundo, todos os mundos, iniciam seu longo crepúsculo - "não sei como descrever a sensação de desolação aterradora que envolvia o mundo... Avancei uma centena de anos, e deparou-se-me o mesmo sol vermelho, um pouco maior, um pouco menos brilhante; o mesmo oceano moribundo, o mesmo ar glacial; e os mesmos crustáceos a rastejar por entre o verde da vegetação e o vermelho das rochas..."(99).

O Viajante assiste desta forma, graças ao privilégio de poder vagar pelo infinito com sua espantosa Máquina do Tempo, ao ocaso de todos tempos. "Assim fui viajando, parando de tempos em tempos, a intervalos de mil anos ou mais, impelido pelo mistério do destino da Terra, vendo com estranha fascinação o sol tornar-se cada vez maior e mais apagado no ocidente, e a vida neste velho planeta a declinar para o fim... O frio era cortante... Bancos de gelo flutuavam no oceano, mas este, em sua maior extensão, ainda não havia congelado e, à luz daquele eterno crepúsculo, era cor de sangue..."(99). Toda a materialidade, retornando a si mesma, à sua solidez descontaminada pelos sonhos humanos, todo o esgotamento dos tempos organizados se apresenta aos olhos inquietos do viajante. "Difícil descrever a profundíssima quietação que pesava sobre o mundo. Todos os rumores da humanidade, o balido dos rebanhos, o canto dos pássaros, o zumbido dos insetos, a agitação que forma como que a música de fundo de nossas vidas - tudo calara. Um momento depois... o céu ficara totalmente negro"(100).




cosmologia


No sonho breve das grandezas e loucuras humanas, houvera espaço para muitas coisas; mas para o Viajante do Tempo, privilegiado espectador do ocaso dos tempos, o espaço já estava todo ocupado. As breves frestas abertas na existência compacta pelo pulsar do humano, pelo estrépito da vida em um impulso unitário conforme compreendido pelo ser humano que a percebe, estas frágeis rupturas, estes humildes intervalos estreitos haviam-se fechado em torno a si mesmos. A racionalidade subjugada pelo frenético, o fechamento dos blocos maciços que, em infinda sucessão, se sucediam em torna às parcialidades da existência, os breves estertores vitais que abriam na polida e brilhante superfície da existência uma tímida fissura fecundante, que interpolavam um intervalo entre duas expressões de solidez absoluta, eis que se haviam extinguido por absoluta incapacidade de verdadeira fecundação. A vida, o ser humano houveram tido já a sua chance.

Mas o Viajante pode retornar os seus milhões de anos. Não é necessário avançar ao ocaso explícito dos tempos, de todos os tempos, para vislumbrar o Mar Cor de Sangue e o crepúsculo eterno e sentir seu gélido e inenarrável influxo: eles já se dão em presença. O crepúsculo eterno é a expressão concreta do delírio do infinito e da eternidade, ou melhor, da vontade de totalização que fecha todos os espaços da realidade a seus próprios conceitos, que os domina desde seu Dito eterno, desde seu ser a tanto custo recuperado, como se se estivesse recuperando o maior de todos os tesouros ao extremo do sombrio arco-íris da existência; o Mar Cor de Sangue é a perfeita Massa totalmente compacta, a pura Espessura sem esperança de brechas, sem esperança alguma, sem intervalos, sem nenhum intervalo onde alguma pálida tensão cósmica se possa instalar como uma improvável pulsação particular. Ao confundir sua existência com a Espessura do Mar Cor de Sangue, o ser humano mergulha totalmente, irremediavelmente neste Mar - o ilimitado mar de Ser expresso na forma de uma existência compacta - e abdica de sua capacidade de intervenção; ao colocar grandiosamente toda sua esperança no ar rarefeito que ainda não se extinguiu de todo, o homem aposta na contemporaneidade eterna - na verdade, aposta no eterno crepúsculo -, aposta na miríade de átomos que, em uma conexão misteriosa, sustentam a crença na Solidez: uma aposta possível. Ao apaixonar-se pela infinita história cósmica, o ser humano esquece com facilidade os intervalos de desencontro, nos quais o Cosmo em sua inelutabilidade se desencontra, num átimo totalmente imperceptível desde o posto de observação do farol imensamente alto, postado exatamente no centro do Mar Cor de Sangue, o Cosmo se desencontra de si mesmo. A única esperança da existência: dá-se a hesitação, a insignificante respiração suavemente estertorada da existência descentrada de si mesma. O ser humano tem a sua chance: este é o único fulcro, o intervalo real - e o resto é Tautologia.




O "grande medo" entre as espécies


"...E pensei no Grande Medo que
separava as duas espécies"

H. G. WELLS[4]


Os animalescos Morlocks, ávidos da suave carne dos Elois, aparentemente despidos de toda e qualquer humanidade, mantinham em seu poder a capacidade lógica e a possibilidade de resolver problemas: a vida, seu espasmo vital, os impelia a isso, e agarravam-se como podiam à vida. Constituíam os verdadeiros herdeiros do specificum humano; os delicados Elois, belos e imbecis, não passavam de um rebanho esperando a vez de ser devorado - eis aí uma bela inversão em relação às aparências. Ainda há mais humanidade - ainda que em extinção - na mais ignóbil capacidade de resolver problemas do que na morta indiferença a que conduz a crença fatal na obviedade da tautologia e na inelutabilidade do destino. Os Morlocks inspiravam intenso horror; mas horror ainda mais intenso e desumano habitava os tolos Elois, colhedores tardios dos frutos da indiferença plantados pelos seus ancestrais. Pois os Morlocks ainda estavam precariamente vivos, mas os Elois já estavam todos inelutavelmente mortos ao nascer - sua definitiva incapacidade de reconhecer nas frestas da existência algo de diferente do que o seu mundo suave havia sido fatal para o que poderia restar de humanidade em seus tecidos frágeis. Sua carne fraca, sua rosada indiferenciação coletiva, sua incapacidade discursiva, tudo acaba por conduzir a um fatal redemoinho de auto-referenciação que, isolando-os em si mesmos, havia transformado toda a capacidade de relação em um mero apêndice de uma convivência circunstancial: embora riam uns para os outros e "façam amor quase na brincadeira", são incapazes de perceber em Weena se afogando o mais leve estímulo para saírem de si mesmos.

Aos Morlocks, apesar de tudo, a habitação dos enegrecidos intervalos oferecidos, sob a forma de vida, à esperança de sobrevivência; aos Elois, o bloco monolítico da eternidade da morte sem intervalos, sem fissuras, do absoluto feito inelutabilidade do destino. Aos Morlocks restava algum tempo, talvez curto mas intensamente real, vivido entre ansiedade e correrias - o tempo da sobrevivência; os Elois haviam porém, por sua vez, abdicado de todo Tempo e se entregue às promessas da eternidade do Imutável. Com os Morlocks, o Viajante teve uma relação, um encontro com o apavorante desconhecido, uma luta pela sobrevivência - com os Elois, ressalvando-se até certo ponto o caso de Weena, não houve, para o Viajante, nenhuma possibilidade de estabelecer relação - pois os Elois não se interessavam realmente por absolutamente nada que não fossem eles mesmos, pelo Mesmo.

Os Morlocks ocupavam seu espaço, conquistado provavelmente a duras penas, por opção; os Elois, palmilhavam o seu por inércia. A necessidade de sobrevivência - ainda viva nos Morlocks, extinta nos Elois, decidia a quem cumpriria levar a tocha da humanidade a seu último limite, ao limite de uma Totalidade implodida, o que se daria no momento em que o último Eloi fosse devorado e logo adiante, por incapacidade de suportar a luz, o último dos Morlocks provavelmente infestasse as galerias subterrâneas com a putrefação de seu cadáver. Breve e último frêmito de existência, fim de um longo sonho de milênios.



os morlocks estão chegando



"Pegô el, sabe, tia? Bateu nele bateu, rebentô el tudim..."[5]

O mundo contemporâneo é um espaço onde proliferam, paralelamente à terra de ninguém, os vácuos macios, os recônditos aveludados e protetores das pequenas vidas recolhidas a si mesmas. Todos os Shopping Centers têm a iluminação, a temperatura e a solidez na medida certa. Sua solidez repousa, mais que sobre sua bela colunata, sobre este equilíbrio de medidas: como em um templo grego, trata-se da contrapartida exata da desmesura do mundo externo. Fora dos recônditos protegidos não há medida, no exato sentido em que, em meio a uma erupção vulcânica ou a um grande terremoto não pode haver propriamente medidas: ocorrem ali apenas a violência e o estrondo sem possibilidade de moderação - estrépito em estado puro.

Não necessariamente ancoram-se estes nichos de proteção à solidez do concreto. Uma das habilidades maiores do espírito moderno é a capacidade espantosa de abstração, não a abstração propriamente filosófica, mas aquela abstração existencial, herdeira legítima do processo de individualização que advém com a modernidade e se estende para além dela. Esta capacidade abstrativa faz com que se possa estar completamente preso a seu próprio mundo, mesmo quando imerso em um mundo diferente, mais complexo ou menos seguro - aliás, esta é uma das significações originais do termo "idiota": em uma etimologia bastante rigorosa e originalmente não pejorativa, "aquele fechado em seu próprio mundo".

Em um espaço globalizado, as mônadas são infinitas, e todas contam com a tentação de se tornarem perfeitamente "idiotas" no sentido acima descrito; enquanto - para falar com Deleuze e Guattari - Máquinas Desejantes, canalizarão de muito bom grado nesta direção o melhor de suas melhores energias: basta que alguém lhes acene com uma promessa de evasão - perfeitamente idiotas como os Elois serão perfeitamente idiotas em seu devido tempo, embriagados absolutamente com sua própria suavidade artificial e sem saída. Os Elois, ora poderosos, mergulham com sua tautologia em uma verdade de grande densidade metafísica (e isto em tempos confortavelmente pós-metafísicos!), anunciam a grande Separação voluntária e circunscrevem, desde a realidade de uma idiótica semi-vida, a realidade da verdadeira Morte: pois a grande Separação entre Elois e Morlocks, encontrável em cada esquina da existência, é a única plenamente verdadeira desde o ponto de vista do Ser, é a própria Morte; mais próxima que a morte enquanto Alteridade absoluta, é a morte anunciada possível de toda ética. Violência e explosão da existência.

Conclusão


"(estamos abandonados) a esse jogo puro e fortuito
de significantes que denominamos pós-modernidade,
que já não produz obras monumentais de tipo moderno, e sim
reconstruções incessantes de fragmentos de textos
preexistentes... metalivros que canibalizam outros
livros, metatextos que reúnem pedaços de
outros textos..."
Frederic JAMESON[6]



O contexto de esgotamento do passado que vivenciamos agudamente neste final de século traz em si a indicação de um contra-fluxo categorial: não se confia mais em categorias, os conceitos perderam seu peso, nenhum conceito pode ser responsabilizado por nada: substitua-se, na citação acima, o termo "obras monumentais" por "conceitos semanticamente seguros", e ter-se-á a realidade intelectual maior, aquela que melhor expressa a volúpia do frenético, do fluxional e o tom certo de uma escatologia das incertezas. A despeito da incapacidade dos intelectuais em acompanhar tal fato, a realidade se encontra violentamente cindida; talvez por não poder aceitar este fato, a consciência social se debate por entre hesitações patológicas de energia vital, as quais assumem uma aspecto de radical indiferença - versão ultracontemporânea da negação da Diferença, apesar de toda aparência em contrário. Pois, mais do que o epifenômeno tão perceptível da sucessão de vácuos, talvez o que caracterize a pós-modernidade em sua dimensão meramente "existencial" - mas, nem por isso, minimamente menos profunda e intensa - seja uma espécie de apocalipse da certeza, uma implosão da Idéia, de cuja implosão os fragmento coloridos de que o mundo contemporâneo é feito (colorido dos produtos novos bem como daquilo que já foi descartado) não sejam mais do que sinais remotos, a serem identificados - postumamente - por uma especial semiótica do desencanto, cuja chave compreensiva ainda não se encontra, não obstante todos os esforços, à disposição dos tempos presentes.

Mas a que conduz, realmente, esta implosão da Idéia? Talvez a uma irrupção e conseqüente vingança da Coisa, se as dualidades ainda não foram totalmente abolidas. Afinal, o grande Medo já dividiu o mundo: de um lado, o giro intenso de um mundo moderno-pós-moderno, pós-industrial, bem administrado, bem nutrido, cheio de razões, repleto de frenetismo e atividades (que, recobrindo ainda muitas vezes um visceral vazio de interiores, não diminui minimamente o seu passar; antes aumenta sua velocidade, como o velho filósofo Diógenes ante o fim de sua vida); de outro, uma massa desclassificada, um mundo por assim dizer invertido com relação às grandes promessas da civilização - a desumanidade elevada concretamente ao cúmulo com que nenhuma teoria pode sonhar, a luta surda, o peso de dias não medidos pelo relógio, a fome, a violência como combustível da realidade. Mas não nos enganemos: tudo não passa, no fundo, de duas faces de uma mesma moeda. Os Elois e os Morlocks estão perfeitamente acoplados mutuamente, configuram uma dialética extrema do senhor e do escravo, formam uma totalidade de sentido e encarnam a esperança voluntária ou involuntária da Tautologia. No momento em que a idéia não explica a realidade, a realidade se mostra pré-idealmente a si mesma, em uma espécie de monstruoso espasmo pré-histórico, primigênio; ou seja, proto-temporal, pré-racional. Este é o legado da Máquina do Tempo, aparato no qual estamos todos empoleirados e que, qual o Carro de Feno pintado por Bosch, precipita-se ladeira abaixo sem que absolutamente ninguém possa suspeitar do ponto de chegada: não se pode, nem ao menos, ousar ser "apocalíptico" (para ser apocalíptico, é necessário ser energético; e o mundo contemporâneo se alimenta, muito mais, de uma energia invertida, de uma anti-energia que oscila entre os muitos pólos da inércia e permeia os muitos vácuos do dia-a-dia, sem absolutamente força ou vontade própria).

A Coisa é a Realidade provocada a seus derradeiros limites, sem esperas, extrapolando de sua última Paciência, fazendo-se inteira à sua anti-análise. A Coisa é o outro lado da Totalidade monolítica, o lado que não existia na lógica absoluta da completude dialética. Os Morlocks são a sombra do impossível, mas um impossível absolutamente existente, e cuja existência hedionda se mede exatamente em ações invasivas a uma "consciência" coletiva quase anestesiada - esses horríveis seres tão humanos separam, com sua existência, o mundo tautológico dos Elois em dois blocos, e é apenas esta separação que impede a re-fusão do Todo em si mesmo, ou seja, que impede a completa anestesia e morte da consciência. Esta é uma das mais profundas e dolorosas conclusões da Máquina do Tempo: não os asquerosos Morlocks, com sua degeneração absoluta, sua carne esbranquiçada, flácida e repulsiva, sua lívida silhueta, a insalubridade horrível de sua atmosfera, seus olhos de demônios, sua voracidade animalesca, que estão mais próximos do anti-humano que habita o último de nossos pesadelos: este papel é ocupado pelos rosados Elois em sua absurda neutralidade, em seu pânico pusilânime e inconseqüente, em sua condescendente absorção final na Totalidade que se expressa nos vestígios de uma humanidade acomodada às promessas falsas da suavidade, em sua lógica canhestra e incompreensível, medíocre, inercial, irresolvida e irresolúvel. Os Elois estão a colher exatamente os frutos que plantaram, não outros; construíram com cuidado seu futuro, apenas e somente para si mesmos, e, ao serem incapazes de sentir mais que fagulhas de um patético desespero individual, mergulharam definitivamente em sua dantesca tautologia sem esperança de saída, mergulharam em sua eternidade - e este mergulho significou exatamente isto: ao abandonar o tempo, ao neutralizá-lo em uma inocente doçura existencial, abdicaram definitivamente do mais essencial da humanidade, desprezaram os intervalos nos quais a vida pulsa. Ao se deixarem embriagar pelas promessas de pureza e do Igual, os Elois se condenaram a si mesmos à unicidade de um mesmo destino puro e fizeram definitivamente realidade de uma fábula anti-utópica sombria e imponderável, antes apenas perceptível como uma virtualidade humana. Ao perder as esperanças, os Elois perderam a si mesmos. E porque perderam as esperanças? Porque estas não estavam fora deles, no tempo de novos encontros, nos intervalos entre os infinitos mundos reais e concebíveis, mas, sim, entremeadas em seus próprios tecidos, na eternidade fixa de suas certezas, de suas conquistas, de sua Mesmidade. Sobrou aos Morlocks a difícil tarefa de continuar, a cada dia, a roçar com a realidade externa, o que significa o mesmo que não completá-lo perfeitamente: eis sua saúde primordial, apesar de sua lividez. Aos Elois, nada mais sobra: rebanho bem conduzido, os últimos elos da racionalidade completa lhes foram fechados: são sua própria Tautologia - e nada mais têm, nos recônditos de sua memória, da provocação do Diferente. E até o Discurso, última réstia de tempo sobrevivente, acabou por lhes ser subtraído pela auto-rotação do Mesmo, única e verdadeira morte.

Mas os Morlocks se alimentam, não dos frutos que os Elois não produzem, não das seivas que estes não segregam, não dos animais que eles não criam; em sua asquerosa luta vital, os Morlocks se alimentam dos próprios Elois, alimentam-se do diferente deles, estão porventura a recomeçar, post-mortem, a luta da vida, o modesto "eterno retorno" que nunca pode ser totalmente eterno para não ser autofágico. Eis aí uma promessa estranha, insensível aos sensíveis. E, a servir de testemunha de todo este grande drama, apenas a eloqüência de duas flores murchas.

O Viajante não vai ao futuro, como em certos tolos filmes de má ficção científica, para reorganizar o exército dos Bons contra os Maus: bondade e maldade são conceitos demasiadamente fracos naquele contexto. O Viajante empreende sua viagem, apenas, para não poder deixar de ver o que é realmente o seu tempo de origem. Eis a grande fábula, uma história fabulosa: o drama contemporâneo entre Elois enfastiados e Morlocks desesperados, separados por muros espessos mas não eternos, este drama não é uma ficção, mas uma metáfora do discurso e um pálido eufemismo do real - um real que se pode projetar infinitamente ao futuro, ao tempo do céu negro, do eterno crepúsculo e do Mar Cor de Sangue mas que, como a Máquina do Tempo, saberá retornar ao presente para assumir a parte que lhe cabe na construção da Totalidade.

* * *


O processo de devoramento do diferente e do fraco tem, em nosso mundo, uma grande e cada vez mais significativa realidade; ele se aproxima, epifenomenicamente, da situação praticamente ideal, em que não é necessário absolutamente sujar as mãos para executar as mais sujas das obras: ele se aproxima, por sua tendência à virtualidade, de sua completação perfeitamente anti-intervalar. A rigidez das paredes divisórias é cada vez mais indubitável e, ao mesmo tempo, cada vez mais triunfante e abertamente indisfarçada. A placidez das conquistas coloridas é vez a vez mais afeita a seu auto-consolo e a seus auto-argumentos, em um todo auto-referente[7]; toda crítica das particularidades terá sempre, naturalmente, ouvidos repletos de boa vontade, mas elas não pertencem à ordem do efetivamente fático. Temos já, portanto, um drama entre Elois e Morlocks que se desenvolve com razoável precisão: os Elois exploram os Morlocks e estes, quando podem, devoram seus exploradores. Vivem em mundos humanos, existenciais, reais e imaginários, de valores e desvalores, de esperanças e sem-esperanças, absolutamente diferentes, sem comunicação, inelutavelmente assimétricos, mutuamente repulsivos em sua essencialidade, sem nenhuma verdadeira interface possível, sem Dizer aberto oposto ao Dito corroborado dos fatos, sem o frescor de um discurso mediador ou de uma pequena hesitação - todo discurso está em princípio poluído a priori com a congênita falsidade de seus pontos de partidas em relação à promulgação de seus projetos, e toda comunidade de comunicação que tenha de ser racionalmente criada sofre deste atrofiante vício de origem: chegou tarde demais à contenda que deveria ajudar a resolver. Fatos maiores já decidiram a parada[8]. Eis aí o dado real e inequívoco da Violência absoluta: ocorre a Diferença, para que a conquista dos Elois possa ser definitivamente absoluta, no inexorável processo que, por uma escolha não inexorável, os conduzirá qual rebanho à completa destruição: ao crepúsculo eterno, à Espessura perfeita do Mar Cor de Sangue. E é este o mundo real que subjaz a toda suavidade contemporânea, um tempo que, presente, se aproxima cada vez mais, se aproxima infinitamente de sua auto-realização e inversão em eternidade pela negação do respiração e da expectativa do Novo, através da negação do intervalo onde o Novo poderia vir a se dar.

No futuro, é um fato inegável que os Morlocks se alimentam de Elois; no presente, é um fato inegável que os Elois exploram e oprimem de todas as formas possíveis e imagináveis os Morlocks, bem como se auto-violentam. Qual a diferença real entre as duas épocas, entre estas duas inegabilidades tão radicais? Talvez apenas o fato de que no ano 802.701 não haja mais filósofos e ideólogos céleres em legitimar o vácuo entre a promessa e a realização: um Nietzsche redivivo poderia quiçá redescobrir ali naquele tempo tão distante algum sadio instinto vital, que faz com que os Morlocks, apesar de tudo, sobrevivam. Uma era antes de tudo sombria, desde o ponto de vista da luminosidade; talvez não tão sombria desde o ponto de vista da clareza instintiva e da degeneração efetiva da realidade. Esta é a mensagem difícil que a obra de Wells propõe à contemporaneidade: em toda a sua substância hedionda e assustadora, com toda a infinita repulsa que os acompanha, com toda sua falta de idealismo, apesar de tudo, apesar de sua horrenda "frialdade repulsiva ao tato", os Morlocks são mais sadios, mais vivos do que os Elois, ocupam os poucos intervalos - ainda que subterrâneos - que lhes são dados a ocupar. Mas não nos enganemos - esta expressão peculiar de saúde se compõe neste futuro inóspito apenas negativamente: por negarem a essência adocicada dos Elois é que os Morlocks podem sobreviver. A Totalidade separou dela o que não é ela: reinicia a história do ser, todo processo fágico, toda a fábrica de ilusões por sobre as ruínas do velho templo cheio de papéis velhos repletos de promessas não cumpridas. Este é o verdadeiro Eterno Retorno, não relativo, não heróico, não mítico, eternamente à cata de sua essência irresolvida, abortado de todo tempo que se autopromulga em eternidade, em toda Diferença que se institui em Mesmidade, fênix sempre pronta a renascer das cinzas das grandes catástrofes heterofágicas e autofágicas, por entre os destroços inclassificados da pretensa absoluta Unidade de Sentido, das Belezas e das Verdades que, de tão belas e verdadeiras, acabaram por esquecer definitivamente que o Outro existe - obcecadas pelo crepúsculo eterno e tendo apenas o Mar Cor de Sangue como horizonte definitivo.

É, no fundo, um mundo somente, o mundo que entremeia o Mar Azul e o Mar Cor de Sangue. Mas, aparentemente, um mundo ancorado no futuro. Um mundo feio. Mais feio que o nosso, onde as cores ainda não são tão absolutamente espessas? Mais feio que o nosso, já que sem animais selvagens repletos de vitalidade, sem cataclismos visíveis nem cores arrebatadoras, sem esperanças bem escritas, sem delírios de grandeza, sem o caranguejo cósmico do futuro infinito a espreitar com suas pinças e antenas monstruosas o desavisado e heróico Viajante do Tempo, apenas com plantas inocentes, vibrações primevas de luz e de energia a mostrar que a vida finalmente triunfou? Incomparabilidades - qual o mundo melhor, qual o mundo pior, separados que estão por oitocentos mil anos, por este breve frêmito cósmico?

Mas as humildes florzinhas murchas escolheram o ano 702.801 para nascer.





* Originalmente in: SOUZA, R. T., O tempo e a Máquina do Tempo – estudos de filosofia e pós-modernidade, Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998.
[1]Enciclopédia Brasileira Mérito, Volume 20, pág. 542.
[2]Utilizaremos a quarta Edição da Editora Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1991, traduzida por Fausto Cunha e introduzida por Jorge Luis Borges.
[3]Os números entre parênteses após as citações correspondem aos números de página da obra e edição citadas.
[4]Op. cit., 75.
[5]Depoimento de menino de rua a Maria Avelina de Carvalho, in: CARVALHO, M. A., Tô vivu - histórias dos meninos de rua, Goiânia, CEGRAF/UFG, 1991, 201.
[6]Cit. por CONNOR, Steven. Cultura postmoderna - Introducción a las teorías de la contemporaneidad, Madrid, Ed. Akal, 1996, 39.
[7]Cf. SOUZA, R. T. de "O fim da história, a totalidade rediviva e a metafísica do consumo infinito" in: SOUZA, R. T. de. Totalidade & Desagregação - Sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1996, 107ss.
[8]Cf. a Nota anterior.

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